Tom na Fazenda, 2012

5

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobreEu Matei Minha Mãe”, “Amores Imagináriose “Laurence Anyways”.

Voltamos ao Xavier Dolan, que maravilha. Mesmo que os seus dois filmes anteriores tenham sido medianos, existe um fascínio em descobrir mais o trabalho desse jovem diretor. Parece que estamos diante a alguém com milhares de coisas guardadas no coração e, a cada nova obra, diversas palavras são ditas de forma desorganizada, como se fosse um desafio, restando-nos tentar juntar as peças e criar uma só mensagem.

Antes de começar a análise, dei-me licença para um pequeno devaneio: algo que, na narrativa, me encanta no Xavier Dolan é essa atitude minimalista dele de levar o “universo gay” à qualquer tema que aborde. Antes que me julguem, acho isso lindo e importantíssimo, esse universo citado é em relação à angústias, dilemas, preocupações, enfim, mesmo que de forma implícita, sempre há temas como preconceito para com os homossexuais ou, até mesmo, a divulgação do amor. E o amor, por ser tão grandioso e inexplicável, não se resume em homem ou mulher, hétero ou homossexual, isso é perca de tempo. Então o “universo gay” é o “universo humano”, todos somos uma única coisa, iguais, e o diretor possibilita essa reflexão diversas vezes nos seus trabalhos.

“Tom na Fazenda” é o quarto filme do Xavier Dolan e acompanha a história de um jovem chamado Tom que vive o luto do seu namorado. Após perdê-lo, ele vai para uma fazenda, ao encontro da mãe do seu amor mas, ao chegar lá, percebe que a senhora não sabia sobre a opção sexual do filho. Ele ficará nessa fazenda até o funeral do namorado/amigo e viverá a prisão da perda e preconceito.

É importante destacar que o Xavier Dolan abandona alguns exageros – como o slow motion constante, muita utilização da música etc – e desenvolve a sua história de forma muito mais madura. Algo comum, pois se trata de um filme de suspense e, mesmo que traga algumas das suas principais características, o abuso exagerado de outras tiraria o foco dos personagens.

A fotografia que pende para o amarelo traz consigo o desconforto, o protagonista, ao chegar na fazenda, entra na casa como se conhecesse a família do namorado há muito tempo, algo que será contrariado depois. Portanto, existe uma atmosfera deslocada, nebulosa que faz alusão ao sentimento de luto de Tom, incluindo a própria fotografia, é como se a fazenda representasse o passado e ele não consegue sair dali e, muito menos, impor os seus desejos – prova disso é que ele não faz o discurso no funeral, ou seja, se recusa a acreditar que o namorado está morto pois é confortável viver no passado.

O namorado de Tom tem um irmão que é homofóbico e machista, pressiona todos e lidera a bestialidade, é o verdadeiro contraste de Tom que, ajudado por uma atuação contida do próprio Xavier Dolan, se revela muito delicado e frágil. Podemos relacionar todos os personagens com estágios da consciência: Tom é o jovem querendo se assumir para o mundo; Francis ( irmão do namorado de Tom ) é a sociedade que repreende o jovem; a mãe é a visão arcaica sobre a sexualidade, união e amor.

“Hoje foi como se uma parte de mim tivesse morrido, pois não consigo chorar. Eu esqueci os sinônimos da palavra “tristeza”. Agora, só o que posso fazer é substituí-lo”.

A frase acima abre o filme e, ainda, é o discurso que Tom faria no funeral. Esse texto é escrito pelo protagonista em um papel higiênico e resume bastante o que virá a seguir. A “substituição” no final da frase é direta, sem rodeios e, em um primeiro momento, assusta, mas de fato todos precisamos aceitar que substituímos pessoas constantemente. Outro ponto é que o longa percorre uma verdadeira injustiça, com Francis não aceitando de nenhuma maneira as escolhas e opção sexual do irmão que falecera, fica uma sensação amarga no espectador de entender que isso é muito comum na nossa sociedade preconceituosa.

A frase acima é poesia pura, exala amor até o ponto final, mas é visto, ignorantemente, como algo abominável. No entanto, se fosse escrito em base a uma relação heterossexual seria considerado normal e maravilhoso. Que difícil viver nesse mundo onde o amor é descartado, as palavras são excluídas e só existem as interrogações “para quem foi feito?” e “quem você ama?”. Pouco importa! respondo, senão amar, conhecer e sentir, independente de “com quem”, “como” e “porque”. Dúvidas ignorantes sanadas por respostas egoístas.

“Tom na Fazenda” não é maravilhoso como o primeiro trabalho de Xavier Dolan “Eu Matei Minha Mãe”, mas ainda assim é um grande avanço na sua carreira pela construção narrativa de uma história trágica.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Laurence Anyways, 2012

Laurence_Anyways

★★★

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobre “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários“.

“Laurence Anyways” é o terceiro filme do Xavier Dolan, o espaço de tempo entre o segundo e o terceiro foi maior, dois anos, e a primeira coisa que é possível perceber é a necessidade do diretor em contar uma história diferente, com muito mais profundidade no que diz respeito a sexualidade. Entretanto, se por um lado o jovem foi deixado um pouco de lado nesse terceiro filme, do outro ainda estão presentes certos “vícios” do diretor, como a câmera lenta, uso de boas músicas, filmagem acompanhando o personagem pelas ruas e, principalmente, o uso de cores. 

Na história acompanhamos uma década da vida de Laurence – interpretado maravilhosamente por Melvil Poupaud – que, depois do seu aniversário de 30 anos, resolve revelar para os amigos, namorada e família que deseja se tornar uma mulher, pois se sente como tal. A partir disso será desenvolvido, através de cenas bem singelas e ritmo lento, todo o processo de aceitação e coragem para enfrentar as mudanças, no mesmo tempo que o filme trabalha o lado emocional da namorada do protagonista, Fred – interpretada pela excelente Suzanne Clément – que não consegue aceitar a situação facilmente.

O casal é apresentado com o ritmo acelerado, conhecemos pouco, no início, além da paixão descontrolada entre eles e a postura livre e despreocupada. O que é bem interessante e funciona para o entendimento da história, visto que no segundo e terceiro ato a história se arrasta demais, sendo um reflexo da própria maturidade.

Assim como ressaltei nas críticas anteriores sobre os filmes do Xavier Dolan, os objetos da casa são muito importantes para a compreensão simbólica da psicologia dos personagens, no entanto me aprofundar aqui seria me repetir, pois apesar de ter admirado essas mensagens subliminares em “Eu Matei Minha Mãe“, em “Laurence Anyways” se transforma em algo pouco inovador. Esse é um ponto fraco do terceiro trabalho de Dolan, o diretor, muito provável que seja pela idade, teima em repetir truques desnecessários.

No entanto, algo que volta a fazer muito bem é o uso das cores, se em “Amores Imaginários” o azul era uma cor crucial, nesse terceiro o vermelho assume tal importância, talvez maior. Desde as primeiras cenas o casal cita o vermelho e é possível perceber que a cor soa como uma entidade mística que envolve os dois. Percebam – aliás, é difícil não perceber – que durante boa parte do filme o cabelo da Fred – namorada do protagonista – é vermelho, ela só muda a cor quando vai se distanciando do seu amor ou de quem foi um dia.

A câmera subjetiva, utilizada com frequência desde o início, dá um tom interessante a trama, nos posicionando nas angústias do protagonista, admirando um mundo repleto de julgamentos. Não à toa o diretor faz questão, muitas vezes, de filmar os personagens em segundo plano, sempre escondidos atrás de uma parede, de forma que eles sejam “engolidos” pelo cenário. É visualmente estranho essa decisão – principalmente por conta do uso com frequência – mas remete diretamente aos sentimentos das personagens.

Se existe toda a capacidade e incapacidade do diretor, o outro lado e, talvez, o que mais me encanta no Xavier Dolan é sua capacidade de escrever roteiros tão sutis e, no mesmo tempo, impactantes. É de grande importância que exista um hino ou representante dos filmes LGBT, e o mais incrível é que Dolan ultrapassa essa barreira e desconstrói tudo para falar sempre de amor. Nem mesmo o ritmo fraco do filme tira a profundidade das suas personagens: Laurence é a representação do homem moderno, mergulhado em indecisões, ele passa a enxergar a vida de outra forma, sendo representado pela troca de identidade. No mesmo tempo que a sexualidade é importante, não é a maior importância, pois o diretor pretende analisar o homem sensível, independente de qualquer outra coisa. Um ponto importante do personagem é que ele, mesmo com a decisão de se assumir mulher, é hétero, o que gera ainda mais confusão na namorada e família, e que representa fielmente a ignorância da população em questões como gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

A namorada, por sua vez, é a sem dúvida a personagem mais interessante, pois os impactos de toda a mudança do filme cai sobre ela, a ousadia e coragem de Laurence o isenta de melancolia, enquanto Fred, sua namorada, não está preparada para tal atitude. A menina agitada e rebelde dá lugar a uma perdida, Suzanne Clément cria uma personagem maravilhosa através de olhares, expressões corporais e protagoniza uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema: quando surta com a gerente de uma cafeteria, de modo a se proteger e proteger o namorado do preconceito que os atinge constantemente.

O filme é, sem dúvida, uma preciosidade para ser sentida com muita entrega, é uma verdadeira ferramenta de evolução pois aborda um tema pesadíssimo de forma sutil, quase imperceptível. A borboleta, que culturalmente representa a transformação, nunca aparece em momentos importunos, pois vivemos sempre atrás de uma outra vida e outras oportunidades. E, no final do filme, quando o cabelo de Fred já não é mais vermelho e fica claro que a moça se desprendeu do passado, ela pede licença para Laurence e entra em um banheiro com paredes vermelhas, como se fosse prisioneira de algo que viveu, prisioneira de um sentimento. Quem não é, afinal?

  • Isso é uma revolta?
  • Não, uma revolução.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Amores Imaginários, 2010

Les Amours Imaginaires

★★★

Xavier Dolan, em seu segundo trabalho, esquece temporariamente a questão familiar e se preocupa em dissecar o interesse romântico e como se dá esse processo, principalmente na cabeça de um jovem – o que, de fato, não está atrelado exclusivamente a idade – e se estende para uma tentativa de mensurar a intensidade da entrega ou até mesmo esperança que temos em um outro alguém.

A vida é repleta de encontros, o homem, por consequência, é envolto de desejos, então é questão de segundos o processo de se apaixonar, no mesmo tempo que é fácil se enganar sobre tal sentimento, bem como a decepção é bem comum. Uma dúvida sempre permanece presente: será esse sentimento recíproco?

Onde se encontra o limite em enxergar no outro uma possibilidade de romance e estar completamente cego? O fato é que nunca chegaremos a uma resposta para isso, no entanto existe a certeza de que nossos primeiros contatos com essa questão se dá na adolescência e, como já mostrado no seu trabalho anterior, Dolan se revela especialista em desenvolver trabalhos completamente identificáveis. O fato de ser jovem, sem dúvida, faz com que essa necessidade de desabafo seja muito mais intenso; ele é um jovem, falando sobre jovens e para jovens.

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Era de se esperar que depois do estrondoso sucesso de “Eu Matei Minha Mãe”, o diretor adquirisse uma maturidade maior e isso acontece, seu segundo filme se trata de uma obra diferente, porém, traz consigo algumas coisas que prejudicam o resultado.

Partindo de uma premissa por si só envolvente, o longa nos mostra um jovem chamado Francis ( Dolan ) e sua amiga inseparável Marie ( Monia Chokri ) que conhecem Nicolas ( Niels Schneider ), um jovem bonito e espontâneo, e ambos se apaixonam por ele.

Continuando com suas manias já características de câmeras lentas e acompanhamento dos personagens de costas, o diretor tenta desenvolver esse arco de forma excepcional e diferenciada, porém esse esforço se torna frágil por diversas vezes dentre tantos exageros.  Por exemplo, em seu primeiro filme, o já citado “Eu Matei Minha Mãe”, o uso da câmera lenta é sutil e muito apropriada as circunstâncias, já no segundo chega um momento que se torna simplesmente cansativo. Outro ponto e, sem dúvida, o mais prejudicial: no primeiro existem inserções de confissões, onde o próprio protagonista desenvolvia um monólogo interessantíssimo, aqui no seu segundo filme Dolan parece querer ampliar isso e traz outras pessoas devaneando sobre relacionamentos, o problema é que acontecem em momentos chaves, onde o ápice dos acontecimentos ainda estão sendo calculados pelo espectador quando, subitamente, Dolan corta abruptamente esse processo com as inserções. Ou seja, ele sabota a sua própria obra.

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Tirando esses fatores que acabam ofuscando a qualidade do filme, Xavier Dolan ainda continua fazendo jus ao seu incrível trabalho com detalhes. Nessa obra temos uma preocupação quase frenética com o figurino, os dois amigos que estão interessados em um objeto – pessoa – em comum, vivem uma confusão de sentimentos e por esse motivo precisam de deslocar do senso comum. O figurino assume uma importância gigantesca em destacar cada momento e o estado psicológico dos personagens. A utilização do azul e vermelho é evidente, porém, Marie é a única que se mantém constantemente próxima ao vermelho, os demais personagens ficam mesclando azul e vermelho, de modo a contemplar com mais afinco não só o interesse romântico como a barreira existente entre os dois em relação a opção sexual, afinal, durante toda a projeção o espetador – e personagens – nunca sabe ao certo qual é a opção sexual do Nicolas que parece tentar seduzir tanto Marie quanto Francis.

Marie é sem dúvida uma personagem pouco carismática, usa constantemente o vermelho – saltos altos, batom, blusa, saia etc – porém o significado forte que essa cor exala como paixão e sensualidade fica muito mais no campo da pretensão do que realidade. Existe uma barreira na moça que a impede de tomar uma iniciativa maior, talvez seja a própria maturidade. Por outro lado, Francis se doa completamente ao seus sentimentos, contrastando também com sua vestimenta, afinal, ele usa bastante o azul.

É válido ressaltar ainda uma cena em que Francis se masturba cheirando uma camisa do Nicolas, essa camisa é vermelha, como se fosse uma masturbação em prol a uma personalidade que se perderá em meio a um desespero em estar só.

No primeiro filme do diretor, a casa da mãe era um exemplo perfeito de como o cenário é importante para contar uma história. Em “Amores Imaginários” ele abusa das cenas exteriores, fazendo da rua o seu aconchego. Citações ou imagens de Audrey Hepburn e James Dean – símbolos do desprendimento – também se tornam extremamente relevante em ambos filmes.

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O cover da música Bang Bang que aparece bastante, principalmente nas cenas em que Francis e Marie estão se produzindo afim de alcançar a sua presa, é bem interessante. A música exala uma atmosfera brega e grandiosa e a letra ainda apresenta coisas importantes:

Bang bang,
Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão
Bang bang, aquele som terrível
Bang bang, meu querido me atingiu

Todo triângulo amoroso é, de certa forma, uma brincadeira, uma violação das regras e dos padrões impostos pelas sociedades. Essa música demonstra que, muito mais do que uma brincadeira, se trata de uma guerra, onde a produção, brincadeiras e os momentos particulares os aproximaram de seu alvo, no mesmo tempo que só haverá espaço para dois. Esse é o tiro da conquista e tanto Francis quanto Marie foram atingidos pela bala da paixão.

Quer forma mais intensa, infantil, crua de traduzir um triângulo amoroso sendo desenvolvido por um menino de vinte anos?

Ainda há oportunidades para cenas onde o trecho “Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão” seja desenvolvido literalmente, em uma cena onde Francis e Nicolas estão brincando na floresta.

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“Amores Imaginários” é um filme esteticamente perfeito, fotografia delicada e ângulos cuidadosos, características do Xavier Dolan. Ele realiza mais um bom trabalho, apesar das fragilidades se comparado ao seu primeiro trabalho. No entanto, se trata de uma exímia investigação sobre a busca do seu humano pela sua maravilha, traduzida aqui como o Nicolas. Não a toa, logo no início do filme, temos uma referência clara a “Alice no País das Maravilhas”, quando Francis está tentando pegar um coelho, esse animal o levará ao país das maravilhas, onde as emoções assumem o coração, deixando o individuo completamente cego em relação a falta de reciprocidade do amor platônico.

emersontlima

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Eu Matei Minha Mãe, 2009

Eu matei a minha mae

★★★★★

Xavier Dolan esteve desde muito cedo ligado ao cinema. Parece ter conseguido, anos depois, unir as experiências da atuação com o olhar curioso, afim de desmistificar o papel do diretor em uma obra, ou melhor, o papel de um criador.

Com vinte anos, ele dirigiu o seu primeiro filme. Se não bastasse, Eu Matei Minha Mãe foi aplaudido longos minutos em Cannes. O jovem diretor conseguiu transformar a sua ansiedade em arte, levando as ultimas consequências o fator identificação: jovens do mundo inteiro se identificam com o tema abordado pela obra, sua alma indie e as fortes influências de videoclipes.

Pretendendo navegar por entre uma relação conturbada de um filho – interpretado pelo próprio Xavier – com sua mãe – Anne Dorval em uma performance estarrecedora – o desenvolvimento atinge muitos outros fragmentos familiares do homem moderno como opção sexual, busca pelo inalcançável e, principalmente, amor.  A relação entre filho e mãe desencadeia uma série de reflexões sobre os mais diversos temas, que são propostos de maneira sutil e inteligente.

Vivemos em um mundo que diminui a importância da criança, muito por conta de uma inevitável insegurança; Isso cria uma distância, muitos adultos acabam ignorando as crianças, de forma a proibi-las de dizer o que pensam sobre o mundo e as futilidades que o cercam. O mesmo acontece, infelizmente, com o jovem.

O homem adulto tem a mania de achar que sua juventude é melhor do que a atual, mesmo que não compreenda o que é a atualidade. O processo de empatia surge como uma piada para os desavisados, as relações familiares partem de uma necessidade de estabelecer regras esquecendo, consecutivamente, do carinho.

Xavier Dolan, em Eu Matei Minha Mãe se transforma em uma ferramenta para alcançar algo proibido: a voz. O título faz referência a um sentimento muito pessoal e complexo, podemos matar uma pessoa sem ao menos encostar os dedos nela. O pior tipo de morte é morrer existindo, fruto de uma existência vã ou uma relação extremamente degradante – no filme temos justamente o segundo caso.

Hubert, o jovem protagonista, se mostra insurrecto constantemente, principalmente quando direcionado a sua mãe. No entanto, em um dos diversos momentos onde faz suas confissões perante uma câmera, ele parece compreender a realidade que precisa da figura materna tanto quanto a odeia. Ainda mais, o ódio aqui assume uma definição ambígua, podendo desviar-se com facilidade pelos caminhos da adoração: ele ama a independência da mãe na mesma proporção que odeia a sua falta de preparo em cuidar e ter carinho por ele, no mesmo momento que se identifica com essas falhas, pois também não consegue ser um filho exemplar.

As “falhas” dos personagens são analisados de forma pertinente, o diretor faz questão de expor isso freneticamente, por esse mesmo motivo pode soar forçado para muitos, mas pelo fato de se tratar de um jovem realizador, o personagem que vemos na obra é o alter ego do seu criador, podemos traduzir como uma metalinguagem o próprio processo criativo, visto que se trata de um jovem querendo desabafar para o mundo tudo aquilo que tem a dizer, mesmo que o “tudo” seja muito grande para ser feito depressa.

Um fator crucial para o entendimento do filme, na sua essência, é analisar a composição dos cenários, bem como a iluminação. Pautando-se em uma fotografia aparentemente comum, visivelmente temos as curvas dramáticas dos personagens sendo retratadas através de um destaque na iluminação dos cenários – quando Hubert está na casa do seu namorado, no quarto, a iluminação da casa é extremamente clara, ressaltando a pureza e limpeza existente na relação do seu namorado e amigo com a mãe extremamente liberal. Um verdadeiro contraste se comparado as diversas cenas em que Hubert está sentado na cozinha com sua mãe, onde o cenário teima engolir ambos personagens, principalmente com a ajuda da iluminação vermelha e o posicionamento alto da câmera, que destaca a pequenice da mãe e filho, bem como o afeto inexistente ali.

A importância do cenário e objetos ganha uma nova proporção quando nos deparamos com diversas inserções ao longo de imagens aparentemente desconectadas da história. Logo no começo temos, por exemplo, imagens de miniaturas de borboletas – borboletas, como todos sabem, significam a transformação – essas borboletas, veremos a seguir, são enfeites na parede do quarto da Chantale ( mãe ), portanto, metaforicamente ela guarda a transformação do filho na parede pois não consegue lidar diretamente com o seu desenvolvimento e independência.

A casa e sua decoração representa a alma da mãe, sua personalidade e expectativas, por isso Hubert nunca parece estar a vontade naquele local. No entanto, é curioso notar, em determinada cena, que o garoto passa a ajudar a cuidar da limpeza, da arrumação da casa e, imediatamente, a iluminação – voltemos a ela – se torna mais clara, ou seja, o filho ao cuidar da casa e dos objetos, está cuidando da própria mãe.

Outro elemento que compõe as cenas iniciais e se estende durante quase todo o filme, é os planos detalhes. Olhar, dedos, xícaras, enfim, aproximam o espectador da rotina. Há ainda uma preocupação em posicionar os personagens sempre em lugares desproporcionais no quadro, ora no canto esquerdo, ora em baixo, poucas vezes eles estão centralizados.

Paradoxo é tentar entender a angústia de não ser aceito. Hubert é um ser em formação, cheio de falhas e passando por momentos difíceis e confusos, de forma minimalista a sua relação homoafetiva vai sendo trabalhada, junto com a sua insegurança em confiar na mãe, porém a mesma não parece agir de forma a extrair tal iniciativa do filho. Essa barreira vai moldando formas obscuras e a raiva vai dando lugar à rebeldia. Um jovem genuinamente ansioso, à espera de uma oportunidade para fugir.

E, quando o menino/criança, entra no ônibus para voltar ao seu lugar nenhum, a estabilidade dá lugar ao desequilíbrio, sendo mostrado através da câmera que treme constantemente enquanto, ao fundo, temos a cidade desfocada. O mundo particular de um jovem inocente a espera de crescer e, principalmente, ser aceito.

“Você é um peixe de águas profundas, cego e luminoso. Nada em águas turbulentas, com a raiva da era moderna, mas com a frágil poesia de um outro tempo.”

emersontlima

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