Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Regresso, 2015

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★★★★★

O diretor Alejandro González Iñárritu afirmou em uma entrevista que o seu novo filme, O Regresso “merece ser visto em um templo”. Esse e alguns outros comentários foram o suficiente para creditá-lo como pretensioso, mas não deixa de ser a mais pura verdade.

Um templo, no meu entendimento, faz referência à um lugar que exala um respeito crucial e, assim, dá a oportunidade para um processo de catarse. O Regresso é poderoso e ambicioso ao extremo, bebendo de fontes como o recente – e também mal compreendido – A Árvore da Vida do Terrence Malick e agregando elementos importantes dos famosos filmes de vinganças e faroestes.

Alejandro González Iñárritu sempre foi um especialista em unir todos os homens em apenas um; Universalizava, com grande respeito, todos os seus personagens e seus respectivos erros, medos e sentimentos mais profundos. Na “trilogia da morte”, composta por Amores Brutos, 21 Gramas e Babel ele fez um trabalho minucioso sobre a ligação do homem com algo maior que a própria existência. Iñárritu, junto com o seu fiel amigo roteirista Guillermo Arriaga – que, depois de um tempo, viriam a se separar – tiveram uma experiência absurda, ao longo de três filmes, e desenvolveram inúmeros personagens complexos, que iam desde a falta de comunicação – como visto em Babel – até a aproximação com a morte em 21 Gramas. Destaco ambos temas, pois, sem dúvida, estão muito presentes em seu mais recente trabalho.

O Regresso é uma obra que contempla o vazio de uma sobrevivência insana, motivado por ideais fortes mas que, sem dúvida, se tornam frágeis diante a primeira luz de realidade. O que importa, de fato, é o processo de conhecimento do homem, a simbiose entre três elementos cruciais: natureza, animal e se humano.

Na cena inicial temos um flashback, logo depois acompanhamos passos lentos do Hugh Glass ( Leonardo DiCaprio ) e o seu filho Hawk ( Forrest Goodluck ) em plena caçada. O movimento de câmera é sutil, no mesmo tempo que parece constante, dando uma sensação de proximidade e ainda ressalta a grandiosidade das ações. Essa contemplação inicial percorre pai e filho, dando destaque à um pequeno riacho sob seus pés, o espectador sente a diferença da narrativa, compreende que todos os elementos da floresta como água e árvores serão extremamente importantes para o entendimento da obra e os seus infinitos significados.

Nesse aspecto, a fotografia de Emmanuel Lubezki assume uma importância gigantesca. Traduzindo não só uma série de sentimentos do protagonista, como também agiganta a floresta, deixando os homens pequenos diante a vida, no mesmo tempo que eles imediatamente se transformam em heróis ao tentar enfrentá-la. Existe uma incomunicabilidade presente em cada quadro, fica evidente que o trabalho do diretor é sustentado quase que completamente no visual, entregando ao Lubezki boa parte da responsabilidade e ele, por sua vez, vem demonstrando ao longo dos anos que dá conta do recado.

Se existe um pai e filho já na segunda cena, em seguida aparecem mais elementos que serão importantes para a trama como a caça e a pele dos animais. É mostrado homens tentando dominar a natureza/vida e ganhando dinheiro com a pele dos animais, curioso é notar que diante a uma provocação de John Fitzgerald (Tom Hardy) – após um grupo de brancos serem atacados por índios – Hugh Glass diz ao seu filho, que está furioso, para se acalmar, pois os outros só veem a cor da sua pele, o menino é descendente de uma tribo indígena.

A pele representa o exterior, é a postura do homem arrogante em tentar se manter constantemente superior. Negando-se a chegar em outra definição ou significado do ser.

A cena mais inesquecível e alvo de atenções certamente é o ataque do urso, onde atinge um nível de ferocidade incrível. O protagonista, que fora apresentado como uma figura segura e sábia, se desmorona perante a uma vida irracional, o embate entre o homem dá lugar a oportunidade de conexão entre um ser humano e a natureza. Um contato íntimo com o desastre, fraqueza e morte. Hugh Glass morre após o ataque, pois começa a pensar diferente, se entender diferente. Os sussurros do seu filho, ecoam por todos os 156 minutos de filme – “estarei bem aqui“.

Na morte do seu filho, diante a um desespero avassalador, a câmera se aproxima do protagonista e a sua respiração embaça a tela, obrigando o espectador a se posicionar frente a frente com o sofrimento e angústia. Esse simples detalhe é de suma importância, já que a segunda vez que vemos esse “embaçamento” é logo após Glass sair de dentro da barriga do cavalo, – onde estava se protegendo do frio – essa cena visivelmente representa o recomeço do personagem, nascendo novamente e libertando-se para a vida, como se ele fosse o filho que morreu. O fato de “nascer” da barriga do cavalo, um animal que exala algum tipo de fascínio, representa o processo de transformação, a sobrevivência só acontece porque o protagonista entende que é consequência da vida, ele morre e renasce para concretizar a sua vingança, para caçar, assim como foi caçado pelo urso, demonstrando a sua grandeza e superioridade. Não a toa o protagonista veste a pele do urso e leva consigo as suas garras como lembrança, aos poucos ele se torna o urso. É o homem na sua essência primitiva.

O filme é repleto de brutalidade mas é envolto de uma sensibilidade extrema. Existe um espaço para refletir e outro espaço enorme para criar empatia pelo protagonista e todo o seu sofrimento e motivação, isso se deve ao trabalho espetacular do DiCaprio que atinge o mais alto nível nesse trabalho. Proibido de desenvolver as nuances com palavras, ele utiliza-se do olhar, expressões, corpo, enfim, é a realização máxima do ator, ele se mantém completamente entregue a iniciativa de desvendar o seu personagem e compartilhá-lo da forma mais visceral possível.

A caça no final só demonstra a grandiosidade da obra, aumenta consideravelmente o nível de tensão sem nunca se esquecer de ser poético, a perseguição é uma sinfonia, alinhado e coreografado perfeitamente, cada movimento dos personagens, cada ação e a câmera que sobrevoa constantemente.

O sangue contrasta com a neve, iniciamos com a água e retornamos a ela no final. O processo está concluído e o homem selvagem, filho da natureza, caminha por entre o vazio da realidade: A solidão é a morte mais dolorosa de todas as que enfrentou.

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NH10, 2015

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★★★

O cinema indiano, também conhecido como Bollywood, merece ser analisado com atenção, visto que sua produção e narrativa traduz com perfeição o país, as circunstâncias que o povo vive e, até mesmo, a sua opinião sobre a arte. Então a música e dança é muito presente, as cores geralmente são bem vivas, destacando uma riqueza, um brilho, aparentemente exclusivo da Índia. Há também diversas preciosidades do trash, ainda assim ótimos filmes – para dar risadas, claro.

No meio de inúmeras obras, existe um ou outro que chama a atenção, que tenta alguns truques, critica o sistema de categorizar o ser humano, também conhecido como “castas” e, por consequência, o machismo, o abuso, superioridade, sexismo etc. Esse é o caso do recente “NH10”.

O filme conta a história de um casal que estão prestes a fazer uma viagem, na estrada se deparam com um grupo de homens humilhando/agredindo uma mulher, o marido fica extremamente indignado com a situação constrangedora e, pior, segue os homens pela estrada. Descobrindo mais sobre esse grupo, percebem se tratar de algo muito maior do que acharam e começam a ser perseguidos.

Um exemplo de Thriller de qualidade, os primeiros vinte minutos dão alguns indícios falsos sobre a trama, é lento, mas ao decorrer o espectador vai embarcando junto com aquele casal que parecem ser, mesmo com algumas trocas de carinho, totalmente diferente um do outro, essa postura distante dos dois serve como base para as primeiras questões do filme: tentar ajudar o próximo e raiva perante a superioridade do homem em relação a mulher.

Para aqueles que tem preconceito com a duração ou até mesmo a fórmula dos filmes indianos, não precisa se preocupar, esse é um exemplo interessante onde a narrativa norte-americana é muito bem homenageada. Há correria, há algumas tensões, reviravoltas, enfim, a crítica ainda complementa, dando um sabor de estranheza mas, se observarmos com atenção, são questões universais, principalmente relacionado a manipulação e violência.

O local que acontece boa parte da história é isolado, seco, desértico mas, quando aliado com o desespero dos protagonistas, a sensação que causa é um desconforto, beira a claustrofobia, parece uma rua sem saída, onde as ações só levam a armadilhas e decepções, não há como confiar em ninguém.

Mesmo com algumas falhas técnicas, o filme é realmente muito feliz em conseguir transmitir uma mensagem e, ainda por cima, cativar quem assiste, visto que no terceiro ato temos uma feliz mudança de postura, digna de palmas, aliás, a atuação da lindíssima Anushka Sharma é um dos pontos fortes para a veracidade do desespero que “NH10” nos causa.

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