A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O homem e a busca por aceitação do seu presente

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A Tartaruga VermelhaThe Red Turtle, Holanda/Japão, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit

★★★★★

A tartaruga é um animal muito complexo, exala sabedoria e conecta todos os outros seres, de uma forma ou de outra. Se pensarmos, sua carapaça traz a ideia de abrigo ou lar, suas patas sustentam esse universo, demonstrando força e segurança. Portanto, a tartaruga representa o conforto pois, simbolicamente, se trata próprio mundo. É como se fosse a representação do titã Atlas na terra, amaldiçoado/abençoado por Zeus a carregar o mundo nas costas.

Partindo desse pressuposto, é válido mencionar o poder da animação A Tartaruga Vermelha em estabelecer pontes entre o espectador e sentimentos extremamente profundos através de um visual estarrecedor e trilha sonora encantadora. Inclusive a ponte mencionada é exibida em dado momento no filme, em um sonho, onde o personagem principal – nunca é mencionado o seu nome, afinal, o longa não têm diálogos – imagina uma ponte suspensa em cima do mar que conecta a ilha que ele está enclausurado com o horizonte.

A história é básica, porém os seus desdobramentos não são nada comuns: um homem perdido em uma ilha luta para conseguir escapar, criando uma balsa. No entanto, sempre que a coloca no mar e tenta fugir – se enche de esperanças – uma tartaruga vermelha impede a sua partida, destruindo a sua balsa.

A experiência de oitenta minutos possibilita algumas reflexões impactantes no que diz respeito ao homem moderno. Percebendo as nuances do personagem principal, o Homem, cabe ressaltar os seus movimentos cautelosos afim de conhecer a ilha, o pequeno carinho com os caranguejos que o cercavam constantemente e a sua indiferença para com a natureza. Enquanto conhece a ilha, o espectador sente, através do visual espetacularmente poético, que o lugar é um paraíso natural, mas esse entendimento se esvai com o desespero do protagonista.

A fuga é sempre o motivo da existência. O homem moderno vive o hoje pensando em como suas atitudes afetarão o amanhã. Existe um desdém em relação ao que se faz, conhece e sente no presente. O trabalho e estudo são provas disso: trabalha-se para ter dinheiro no final do mês e faz o melhor para ser promovido quando só alguém, que não você, sabe; estuda para ser alguém na vida – não necessariamente alguém que você gostaria – e aprende para tirar notas; mas, afinal, e o hoje? quem somos durante esse processo de pensar o amanhã?

O Homem da animação se perde e a fuga é uma necessidade óbvia, mas a velocidade dos seus movimentos impedem o equilíbrio, a sustentação do seu universo. A pergunta deveria ser, na sua essência, voltar para onde?

A tartaruga, como explicado acima, representa a sabedoria e a natureza, trava as ambições do Homem e o acompanha em direção à catarse emocional e desprendimento, principalmente através da aceitação. Há ainda, no filme, um excelente alerta sobre a péssima postura do homem frente aos animais.

Quando o Homem mata a tartaruga – curiosamente o faz virando-a de cabeça para baixo, ou seja, invertendo o seu mundo – pula em cima dela como um sinal de superioridade, pobre rapaz, subjugando a natureza. O animal se transforma em uma mulher que, evidentemente, remete a cor vermelha e resume-se como o próprio sentimento de amor. Mas há uma segunda mensagem que está extremamente relacionada com a arrogância do homem em maltratar os animais, privando-os de sentimentos, classificando-os como acessórios.

A Tartaruga Vermelha possui uma ousadia estética e direção maravilhosa do Michael Dudok de Wit. A produção, que é feita em parceria com o Studio Ghibli, ganha bastante qualidade com esse intercâmbio, visto que o nome Ghibli está vinculado eternamente com a sensibilidade. A animação referencia as transformações do homem em direção a aceitação do seu presente, mesmo que a força para enfrentar o dia seguinte seja construída através da ilusão, existe um milagre em estar vivo e, principalmente, em sincronia com o meio.

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Amélie – Refúgio em um Mundo Inventado

“Quando o dedo aponta o céu, o idiota olha para o dedo”…

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Tarde chuvosa. Casal de jovens inebriados pela possibilidade da fuga. Depositando um no outro toda a confiança que lhes é cabível. Não conhecem os sentimentos, não conhecem o desejo, tampouco enxergam em seus próprios reflexos a ousadia da liberdade. Eles fazem amor pela primeira vez.

E do amor, todos nós surgimos. Diferentes orgasmos, diferentes momentos e iniciativas. Mas sempre começa com o olhar, parte para o encontro e permanece na entrega. Existem pessoas que já conhecemos e transmitem os mesmos sentimentos mas são, tão somente, distantes pelo tempo. Nós viemos de um mesmo começo e vamos nos libertando/desprendendo para o outro fim.

Quantas outras possibilidades existem, senão, imaginar? Quanta omissão quando se deveria apenas amar. “Amar-se” seria uma benção, mas o “amar-te” toma conta de nós. Quantos (re)encontros acontecem e quantas despedidas são necessárias. Quantas responsabilidades e quantas delas deveriam ser prioridades? Quantas vezes fizemos sorrir e quantas vezes nos deixaram chorar. Só quem amou conhece a dor que é sonhar.

Sonhar é ou deveria ser obrigação da existência. Desviamo-nos desse caminho para enfrentar uma realidade sem graça. Onde a busca se tornou vã, acomodando os não-sonhadores e transformando o “mesmo” em preciosidade ilusória.

Uma mosca capaz de bater as asas 14.670 vezes por minuto pousa em uma rua, no mesmo tempo que um senhor apaga o endereço do amigo que acaba de falecer. O endereço, que pode ser traduzido como o seu abrigo no mundo, já não é mais necessário. Portanto, devo perguntar-lhe: Porque o homem sente necessidade de se fixar? Fixar em um local, emprego, em um ou vários corações?

No mesmo instante que Eugéne Colére apaga a existência do amigo – mas consegue apagar do seu coração tão facilmente? – um super espermatozoide de Raphael Poulain conhece o óvulo da senhora Poulain. A existência é um ciclo, dá oportunidade para infinitos heróis fazerem a diferença em um mar transbordando de igualdade. Vem ao mundo uma menina chamada Amélie Poulain.

 Jean-Pierre Jeunet colecionou memórias desde 1974 para realizar “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” e nos créditos iniciais já deixa claro que a protagonista seria uma das maiores figuras da história do cinema mundial, quiça, da arte. Uma menina, com ar de inocência e segurança intimidadora, realiza inúmeras atividades que exploram e mostram com exaustão toda a sua criatividade. A paleta de cores, sempre vibrantes e com tendências ao verde e vermelho, dá um tom onírico a apresentação da personagem, que por sua vez é inundada pela vida. A vida que é necessária sonhar pois Amélie é uma criança que não recebe carinho.

“Amélie tem seis anos, como todas as meninas gostaria que o seu pai a abraçasse às vezes, mas eles só tem contato físico durante o exame clínico mensal. A menina, radiante por essa intimidade excepcional não pode impedir o coração de acelerar. O pai, assim, crê que ela é vítima de uma anomalia cardíaca…”. 

Que exame cardíaco é esse? Quão figurativo se torna os batimentos do coração da menina com a aproximação de seu pai? Por sua anomalia, oriunda da indiferença do pai em relação a solidão de sua filha, Amélie é obrigada a estudar em casa, ausentar-se do mundo e desconhecer o processo de crescimento. Nesse meio caótico, ela consegue percorrer o passar do tempo, mantem intacto sua ousadia e continua sonhando, mesmo que o crescimento transforme essa pequena-grande atitude em algo abominável.

Com uma câmera fotográfica Amélie brinca de criar. Transforma as nuvens, os momentos, até que alguém lhe diz que essa pequena atitude tem grande impacto na realidade e, por consequência, provoca desastres. A menina, inocentemente, credita a si mesmo a responsabilidade de todos os males do mundo, como se tudo e todos existissem em prol a ela. Engraçado como vamos adquirindo, com o tempo, a sabedoria de que nossa presença nem sempre é crucial para o andamento das coisas. Somos mais um, nem por isso comum.

Amélie cresce e foge. Ela se ausenta da necessidade do comodismo e busca nos pequenos detalhes uma resposta. Ela olha com um binóculo pela janela o homem de vidro, um senhor com problemas nos ossos/coração que, por motivos pessoais/medo, se proíbe de sentir a vida e se limita/imita a desenhar os seus sentimentos. Um deles, por sinal, se trata de menina, diferente de todas as outras, que segura um copo de água na mão. Ela está presente, rodeada de pessoas, mas parece saltar da tela, como se gritasse por ajuda, implorando por atenção. Ela representa um lado trágico da felicidade, o outro lado de todas as coisas, o sonho dentro do caos e a esperança em plena guerra. Ela representa Amélie.

Homem de vidro: Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.
Amelie: Pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.
Homem de vidro: E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?

O homem de vidro, sábio e ignorante na mesma proporção, busca compreender sua criação no mesmo tempo que, assim como o pai de Amélie, não dá atenção aos detalhes. Ele não percebe que Amélie segura um copo de água no exato momento que ele tenta entender a “menina diferente do quadro que segura um copo”, ele nem ao menos percebe que se trata do diretor do filme. Como uma metalinguagem, podemos traduzir o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” como uma obra prima, um quadro que o homem de vidro guarda em sua parede. O vidro do homem é o diretor Jeunet e todos artistas que criam seus personagens e doam pedaços deles mesmos para suas criações.

O homem de vidro é, ao mesmo tempo, o sábio e o aprendiz, afinal, ele é a Amélie sem a iniciativa de fazer aquilo que quer. Amélie não é apenas uma única mulher, ela é um conceito. Existe em muitos de nós.

Além de todos os personagens do filme terem um destaque e importância gigantesca para a compreensão da obra, muitos deles representam um espaço ou ausência da protagonista. Amélie pensa tanto nos outros que esquece dela mesma, portanto, temos uma personagem secundária que é hipocondríaca. Ela pensa e prevê uma série de infecções, mas se entrega facilmente ao “vírus do amor”. Seria isso um erro? O erro encontra-se justamente na previsão, pois tudo é tão incoerente que se torna impossível aferir.

Sempre estamos fazendo os mesmos movimentos, seguindo os mesmos passos e acordando nos mesmos horários. O tempo se dá permissão de ser depressa e, quando percebemos, nem ao menos nos damos conta do porquê. Como Dominique Bretodeau: ele teve uma vida, brincou, se divertiu e sorriu. Escondeu todo um momento em uma caixa e somente ela restou do passado. No passado, aqui imagino, se sentiu invencível, inconfundível, exclusivo e imortal, contraste com o que se tornou. Amélie revive em um desconhecido o prazer de se conhecer novamente. Ela transforma o mundo e faz os cegos enxergarem exatamente o que vê, mesmo que a própria luz de realidade queime os seus olhos diante a sua fraqueza.

A força e fraqueza de Amélie parte exatamente da mesma coisa, assim como o ser nasce do amor. Amélie é diferente de todos os outros e tão igual ao processo de amar. Se torna enigmática, abstrusa, irrefutável e tão… incerta. Não há certezas no amor.

Cabe a você e eu questionar: Amélie opera a favor do outro ou dela mesma? Não seria a sua ingerência um pouco gananciosa? Amélie é uma caixa vazia, preenchendo-se com as experiências que enfrenta, um mundo surreal que traduz exatamente a sua personalidade.

Amélie Poulain é a moça com o como de água nas mãos, em meio a crise se destaca como uma agente da modificação. Contornando as dificuldades e a realidade com muita cor, muito vermelho, muita arte. Teima, mesmo que como um processo de contradição, demonstrar sua força através do registro. Transformando o inimaginável em amigo íntimo, aliás, tudo se torna tão íntimo.

Como os melhores e maiores impressionistas, Jean-Pierre Jeunet descreve minha vida e de muitos, faz-me sentir feliz somente pela oportunidade de sentir o vento. Me sinto distante de tudo e tão próximo, tão rico e pobre, relembro todas as coisas que vivi e que poderia ter vivido. A loucura é um bom dia para se experimentar. Um dia, dentre vários, que se perderão, como um grão de areia que se sente invisível e pouco valorizado por ser só mais um.

Nesse momento penso em tudo, no porquê escrevo, no porquê vim, estou e para onde vou. Não consigo parar de imaginar o amor e o quanto por ele já sofri, sem nem ao menos entendê-lo. O amor não se sente feliz em ter o seu nome pronunciado em vão. O amor deve ser uma criança triste olhando pela janela de casa a rua que, tomada pela água da chuva que cai, proíbe todas as outras crianças de brincarem na rua.

O amor esta em meu coração, esperando pelo inesperado de dizer coisas sérias brincando, dormir no abraço mais gostoso e seguro do mundo e dizer tudo aquilo que preciso. Pena que o mundo não é mais um bom lugar para os sonhadores. Contudo, eu não sou feito completamente de vidro e aguento os baques da vida.

No mesmo tempo que um ser caminha só pela rua e pensa em por um fim nos seus problemas, uma menina nasce do outro lado do mundo. O seu primeiro choro soa como sinfonia nos ouvidos do seu pai que, sendo desprezado pela sua família, jura a si mesmo que será o maior pai de todos.

Na mesma noite, um menino intrinsecamente romântico tenta fingir não ter sentimentos. Mal sabe ele que no próximo dia encontrará uma menina que lhe amará tanto, ao ponto de se esquecer dela mesma.

E, na madrugada, enquanto todos dormem, Emerson Teixeira escreve ao som de “Comptine d’Un Autre Été” tudo o que precisava sobre “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Minutos antes ele caminhou até a janela e sentiu uma leve brisa em seu rosto, enquanto observava com atenção o silêncio e ficou feliz por estarem todos bem. 

“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

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The Cave of the Yellow Dog , 2005

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★★★★★

Byambasuren Davaa, cineasta Mongol, teve o seu documentário “Camelos Também Choram” indicado ao Oscar em 2004. Apresentando a partir dai uma sensibilidade sem fim para registrar o cotidiano dos nômades na Mongólia. Mais do que isso, inclusive, a sensação que ela transmite é universal, pois o seu olhar desbrava o homem e sua família como poucos no cinema atualmente.

Parte de algo simples, um conflito quase inexistente, senão, existir. Aliás, qual conflito seria maior que esse? Há um choque de realidade. Estamos cada vez mais afundados em meio ao consumismo, a posse se tornou sinônimo de sucesso e cada dia que passa nos tornamos mais egoístas. Me emociona o fato de existir artistas como Byambasuren Davaa que conseguem nos lembrar da nossa essência simples e orgânica, muito diferente daquela que nos pregam como verdade.

As obras da diretora me fazem revisitar o meu interior, a minha verdade, que se esconde em muitas camadas de mentiras. Mentiras essas fabricadas exclusivamente para afirmar positivamente com a cabeça quando alguém me pergunta: “você está bem?”.

Não, não estou bem. O mundo não está bem. O homem se utiliza de guerras, violência e discriminação para convencer os ignorantes que essa é a postura correta para se proclamar como o dono da verdade. Mas que verdade é essa? Que o Deus dele é maior que o Deus da sua vizinha? Onde se encontra o amor? O que se tornou o lar? Como deixaremos o mundo para as nossas crianças?

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“Todos morrem, mas ninguém está morto totalmente”

“The Cave of the Yellow Dog” ou “A Caverna do Cachorro Amarelo” fala sobre tudo isso que mencionei. Sem dizer uma única palavra do que escrevi. Silencioso e contemplativo, talvez essa seja a chave para, assim, encontrarmos uma possibilidade real de catarse.

A estrutura não poderia ser mais linda: a diretora filma uma família de nômades, incluindo um cachorrinho que uma das crianças leva para “casa”, e sua vida simples nas montanhas. Com trabalhos quase que constantes, de modo a construir uma ideia de luta pela sobrevivência. Essa família é real, se trata de não-atores, ou seja, a diretora faz uma espécie de documentário, misturado com ficção para, enfim, observar essas pessoas que fogem de qualquer hipótese de modernidade.

O significado de casa é muito relativo. Ultimamente tenho pensado muito no quanto precisamos nos sentir inabalável. O quanto a nossa casa representa um templo sagrado onde, jamais, poderia ter a segurança rompida.

A nossa profissão, por consequência, é fruto de uma obrigação imposta pela vida. Mas como seria se pudéssemos fazer aquilo que partisse unicamente do impulso, da irresponsabilidade – ou responsabilidade – de, apenas, viver para sentir?

– Estire sua mão, como eu. Agora tente morder a palma de sua mão 
– Não posso.
– Não pode? Tente outra vez. Mesmo que pareça muito perto, esta muito longe para morder. Não pode ter tudo o que vê

Die Hohle des gelben Hundes

Com uma fotografia tão linda e delicada, somos os “outros” que observam com atenção algo que poderia ser bem mais identificável se não fosse pela nossa obrigatoriedade em nos perdemos em meio a prédios e a pressa.

As crianças – duas meninas e um menino – são tratados desde cedo com extrema importância, tendo mais responsabilidade que muitos adultos, aprisionados dentro das tarefas, porém, fazendo dos seus momentos livres uma grande oportunidade de experimentar a natureza. A casa que nunca permanece no mesmo lugar, representa o homem e o seu verdadeiro lar: tudo.

De onde vem essa necessidade de criar raízes? Um vínculo com um pedaço de terra. Somos pobres e cômodos.

Há muito tempo viveu nesta terra uma família muito rica, eles tinham uma linda filha. Um dia a filha adoeceu. Não havia remédio que a ajudasse, então o pai decidiu pedir conselho à um sábio. O sábio disse:

– O seu cachorro amarelo está com raiva. Despache-o!

O pai perguntou:

– Por que? Protege a nós e ao rebanho.

– Isso é o que eu tenho a dizer e o que você precisa saber.

O pai não podia matar o cachorro amarelo mas tinha que fazer algo pelo bem da sua filha. Então escondeu o cachorro em uma caverna onde era impossível escapar. Levava comida para ele diariamente, porém, um dia ele havia ido.

Mas a garota melhorou muito. A razão era: a garota estava apaixonada por um jovem e sem o cachorro o casal poderia se encontrar sem serem incomodados.

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A ideia de ciclo é apresentada de forma sutil, entre os espaços de silêncio, temos diálogos que reforçam o quanto a vida humana é um milagre. Tão milagre quanto um grão de arroz se equilibrar na ponta de uma agulha.

Essa preocupação em se manter leve, as frases soam como ondas do mar, a reflexão se mantém profunda e distante ao mesmo tempo. A caverna do cachorro amarelo somos nós, os alheios a essa condição de vida. Prisioneiros do próprio homem e, por isso, tudo permanece envolta de uma postura e entendimento mecânico: família, trabalho, relações, sentimentos, enfim, tudo apenas é, nada é reflexo das nossas atitudes e, se por uma eventualidade passa a ser, já é tarde demais.

Assim como o ser pode ser considerado um milagre, a arte que ele produz também. A sua complexa busca pela imortalidade se dissipa com a criação. Conhecemos aquilo que estamos olhando, leia-se, sentir. O mundo é muito grande, há muitas situações e muitas condições. O documentário é a salvação daqueles que amam, amam a vida e o fato de que existe faíscas de verdade à todo instante e o instante, em alguns casos, pode se tornar uma eternidade.

“The Cave of the Yellow Dog” pode ser classificado por alguns como “parado”, outros podem afirmar que “não acontece nada”. Mas como sabemos a vida é deliciosa e merece ser degustada com calma, equilíbrio e respeito, tudo acontece na vida e nesse documentário entre os espaços, entre as vírgulas, é um exercício de eco. Gritamos e acreditamos estar sozinhos, enquanto o próprio retorno das nossas vozes nos fazem nos sentirmos menos solitários. Apesar de ser uma simples ilusão, eu prefiro ser iludido do que me deparar dia após dia com a realidade.

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E assim minha casa vai sendo desmontada. Minha arte se tornando tímida. Minha escrita vai diminuindo sua intensidade. O que para alguns é crítica, para outros é simples desabafo. Mas nada importa, senão, se construir.

E, assim, vou indo, esperando sempre pelo inesperado.

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CdA #48 – Especial

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O último episódio do podcast Cronologia do Acaso do ano de 2015 também marca uma passagem muito importante: fechamos o nosso terceiro ano. Com isso, vem as necessidades de mudanças – que vocês saberão em breve.

No dia 19 de novembro, coloquei um microfone na sala e fiz uma seleção de algumas perguntas profundas – outras nem tanto – sobre a vida. Chamei a minha irmã Poliana Teixeira de 11 anos e, juntos, escolhemos as perguntas e nos entrevistamos. O resultado é uma conversa despretensiosa e verdadeira, em meio a vários questionamentos que envolvem a vida, sentimentos, felicidade etc.

Eu mantenho um relacionamento muito aberto e sincero com a minha irmã. Inclusive eu assumi, muito jovem, uma posição de pai para ela e, consecutivamente, exemplo. Então, com a permissão dela, coloco esse áudio como um conteúdo do CdA, pois quem acompanha o nosso cast sabe que nossa única pretensão é experimentar a vida, arte etc e, por consequência, imortalizar essa experiência em forma de registro.

O acaso acontece quando um adulto escuta o que uma criança tem a dizer sobre o mundo. Isso jamais poderá ser cronometrado.

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Elena – Entre o âmago da arte e a ternura de uma busca vã

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Quem é Elena?

Parte I – O âmago da arte

O homem procura a eternidade até mesmo no último suspiro. Direciona suas crenças para mundos diferentes, melhores ou piores que o nosso, mas, sempre, diferente. Como se o “aqui” não refletisse, totalmente, as suas necessidades, como se o “agora” não bastasse para aliviar o coração.

O que seria o normal? Chegar ao entendimento do que é arte é tão ambíguo quanto compreender o significado da vida. Há diversos espaços, há diversas oportunidades, há diversas ações e histórias, sempre percorrendo a arte ou acrescentando fragmentos de informações à ela. Um ser vivo é parte de um todo e esse todo é parte de um mistério; Simples como desvendar a morte, incrível como acreditar no impossível.

Eu percorri diversos pensamentos sobre a minha pessoa, me consumi na obrigação de me encontrar, acreditei estar sozinho e quanto mais prestava atenção, mais afundava. Acreditar nos meus limites era quase uma imposição do mundo, superar esse obstáculo e me enxergar como um ousado era um trabalho para uma outra vida, um outro encontro e uma outra causa. Até que repensei a arte como um veículo, como um cavalo levando seu cavalheiro à encontro dele mesmo. Eu, que me apresentava como o senhor ninguém, cuja imagem sempre era transmitida de forma borrada, assumia a posição de criador mas, acima de tudo, admitindo, sem nenhum problema, que só conseguia o ser pois um dia eu fora criatura.

A arte é o encontro, entre todas as criaturas e sentimentos que existem dentro de apenas um ser humano, é o movimento das águas, o vento que balança uma árvore, é a sincronia e aceitação do ciclo, da mudança, do tempo. A arte está em tudo e no mesmo tempo não existe, assim como o fim, é uma criação do próprio homem para dar sentido à coisas inexplicáveis.

Quem é Elena? Uma excelente representação, de um centro do mundo. De uma existência única que, para mim e para você, permanece desconhecida, senão, pela arte, pelo olhar. Nunca conheceremos Elena, conhecemos, após assistir o documentário da Petra Costa, o olhar que a diretora tinha (tem) sobre sua irmã. Quando a arte atinge uma simbiose, uma sincronia, uma visceralidade no que diz respeito a fusão de histórias, interesses, sentimentos, dores e ausências. Petra Costa é sua irmã, Elena. A mãe assume, por vezes, a vida de Petra, outra de Elena. Elena é lembrada e, por isso, continua viva. A intenção e necessidade dessas três protagonistas de uma história orgânica, ultrapassa os limites do cinema e atinge o coração de cada espectador que, por algum motivo, em algum momento, conflitou com a melancolia.

A priori toda arte deveria ser consequência do despimento, rompimento, caos e tenuidade. Transformando assim os seus personagens ou objetivo, seja no cinema, música, escultura, desenho etc, em ruídos. Aquela confusão criada a partir de um não entendimento, aquela sensação provinda de um movimento minucioso, aquela provocação por sentir a harmonia partindo de uma busca sem resposta.

Quem é Elena? Elena é um ruído, uma imagem embaçada que se torna crível tanto pelo seu elo com a arte, como pela desmistificação que sua irmã faz através de uma série de narrações em off, dialogando perfeitamente com as imagens de arquivo, ora sem sentido como um balançar de mãos, ora uma dança, mas gritando nas entrelinhas, constantemente, que apenas a dor da ausência é que faz sentido.

Parte II: ternura de uma busca vã

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A busca vã é a falta de capacidade de se esconder diante a verdade. As pessoas tem dificuldade em aceitar a morte e lidar com o luto quando, na verdade, deveríamos todos ter força para utilizar isso como catarse, transformar o desespero em soluções, eternizar a angústia, de forma a trabalhá-la constantemente.

Infelizmente não temos essa capacidade, a ideia de finitude nos consome, existe um mergulho profundo na obscuridade do tempo. Ele, de repente, em um dia chuvoso, sussurra nos nossos ouvidos que falta-nos pouco para concretizar aquilo que realmente queremos. Mas em nenhum momento podemos deixar de viver de forma mecânica para seguir nossos reais interesses, seja por conta da sociedade, necessidade ou status.

Elena encontrou no tempo uma oportunidade. Queria ser atriz e procurou se especializar aos olhos da sociedade – até porque “ser atriz” é intrínseco a ela – a bebê que dançava de forma desengonçada dá lugar a uma atriz entregue de corpo e alma, do tipo que não se contenta ser apenas uma, mas todas as suas personagens.

Em 1990, quando Elena se suicidou, o governo havia acabado de interromper a produção de cinema no país. Ela era já muito conhecida nos palcos, mas queria cinema e, portanto, procura refúgio em Nova York, quase como um exílio que também pode ser traduzido como uma espera por algo grande. O fracasso, mesmo em meio a empolgação, traz consigo a perigosa tristeza. A arte entra em conflito com a obsessão da incapacidade, o caos e o ruído não dialogam tão perfeitamente como antes e, assim, a linha tênue entre o suicídio e o equilíbrio, tão presente na vida de um artista, é desfeita.

Elena ingere aspirina com cachaça e morre. Suicídio. Quem é Elena? Um ser humano que buscava o que não se encontra, um segredo, um vácuo que jamais poderia ser preenchido. Uma decisão desperdiçada. Em sua autópsia consta a informação de que o seu coração pesa 300 gramas, mas, metaforicamente, o espectador sabe que pesa muito, muito mais do que isso. Afinal, não existe espaço para estatísticas em obras de arte, elas são imensuráveis.

“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota”

Parte III: O documentário

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A diretora, Petra Costa, afirmou em algumas entrevistas que começou a desenvolver o conceito do documentário após se deparar com o diário de sua irmã. Em um devaneio Petra percebeu que tinha a mesma idade de Elena e, por um instante, parecia que o que estava lendo foi escrito por ela própria. A angústia misturada com a empolgação e o vazio, aos poucos, iam se tornando mais identificáveis.

Petra pode se classificar como afortunada, pois encontrou diversos registros – em áudio e vídeo – da irmã na garagem de sua casa. Através dessas imagens o documentário se desenvolve mesclando as perspectivas, Petra e a sua mãe falam sobre Elena com total conhecimento e, no mesmo tempo, desconhecimento.

Em uma verdadeira contemplação, importante ressaltar que em nenhum momento beira o superficial, uma das primeiras narrações de Petra faz jus a expectativa da família sobre a sua pessoa: “você pode ir para qualquer lugar do mundo, menos Nova York e escolher qualquer profissão, menos ser atriz”. Enfim, Petra vai para Nova York estudar teatro, quase como se quisesse desabafar a ânsia da contradição, como se visse em si a oportunidade de uma nova chance da irmã.

O filme pode ser considerado, por insensíveis, como algo muito particular, egocêntrico ou até mesmo egoísta, ledo engano, na minha opinião se trata de uma experiência universal. Fazendo jus ao sentimento de perda, em qualquer âmbito, de desencontro e de aceitação.

O jovem se afunda facilmente na melancolia, está diante a uma série de decisões que mudaram para sempre o seu destino. Esse momento é conhecido como “período potencialmente crítico”, sendo superado facilmente com o respaldo da família, porém, isso dificilmente acontece; Primeiro porque o próprio jovem se isola; Segundo porque a família muitas vezes trata com desdém os problemas de um “adolescente”.

Aliás, o ser humano é assim, trata de forma indiferente ou inferior os problemas pelo qual ele não está passando. O problema é que a tristeza que conhecemos é apenas a nossa, podemos até tentar nos colocar no lugar de alguém mas, no final, sempre chegaremos as nossas próprias ansiedades.

Petra Costa é corajosa em se expor, no mesmo tempo que o seu trabalho é envolto de uma intenção desmedida: alcançar a comunicação com alguém que já se fora. Curioso é certificar que isso se realiza, através da própria arte. O filme é um elo entre mundos.

Elena foi homenageada, foi resgatada para o agora. Trazida com carinho pela irmã e moldada através das imagens e registro. Elena não gostava da própria letra, por isso “escrevia” cartas com a voz, se certificando de compartilhar suas experiências e novidades. Petra, Elena e a mãe são a mesma pessoa; Ligadas pelo conflito, pelo desejo de morrer, pela tristeza. No mesmo tempo que Petra procura sua irmã, se depara com a verdade de que ela mora em todos os lugares, uma chuva se torna o seu choro, o vento se torna um movimento, os pássaros a sua risada.

Petra, hoje, está mais velha que a sua irmã. Mas como escrevi acima, na arte nada se calcula, não existe idade. Existe verdade. A verdade da Elena é que ela se “sente mais a vontade e natural em frente a uma câmera”. A verdade sobre Petra é que sua sensibilidade é monstruosa e apaixonante. A verdade sobre mim: sou mais um, mas, nem por isso, comum.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Manhattan, 1979

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Com o passar do tempo, percebo que minha escrita vem mudando, assim como surgem algumas necessidades minhas, explorar áreas do cinema que, até então, eu tinha muito receio de abordar e, um deles, vou tentar hoje. Eu já escrevi um singela homenagem ao meu ídolo e mestre Woody Allen ( clique aqui ) porém, nunca havia escrito sobre algum de seus filmes. Para ser sincero, não me acho capaz de analisar nada que venha dele, pois eu amo tudo, principalmente os detalhes, então imediatamente após escrever esse texto eu certamente vou ficar irritado por esquecer de alguma coisa, portanto vou escrever e postar rápido.

Conheci Woody Allen bem novo e, impressionantemente, passou a existir mais um jovem de 14/15 anos que tem como inspiração um senhor de 60/70. Acho que diminuo as coisas relacionando-o à inspiração, pois antes disso, eu tive o pleno sentimento de identificação, até então eu não tinha vivido o suficiente, amorosamente falando, para isso acontecer, só sei que aconteceu, muito por conta do diálogo. O cinema começa mudo, depois vem a fala, mas com o Woody Allen o diálogo é elevado ao último degrau, eu me identifiquei logo com o pessimismo, a simplicidade ou até mesmo as referências, não me considero uma pessoa cult, formal ou tão entendida como Woody, por exemplo, mas eu aprecio uma conversa repleta de referências, seja ela qual for, aquela conversa que vai embora, passa rápido, entre sorrisos e desabafos e nunca parece enjoar. A maioria dos meus relacionamentos – conturbados – se estruturam em base a amizade. Inclusive eu brinco com algumas amigas que, se por acaso eu estragar tudo, é porque eu me apaixonei. Isso sempre acontece, sempre acabo conhecendo muito bem a pessoa antes do sentimento que passarei a ter por ela, mas até lá as classificações vão caminhando e, quando vejo, estou encantado. Bem, preciso de muito diálogo. Sinto que se alguém não entender o meu amor/vício por cinema, por exemplo, estaremos automaticamente fadados ao fracasso. Só precisa entender, pois o gosto a gente vai colocando com o tempo.

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Woody Allen ultrapassa a linha, ao meu ver, de bom diretor, ator, ou gênio do cinema. Ele é um homem, um artista completo. Não possui fãs, ele possui seguidores, esses seguidores não só assistem como são ele. Precisam das ideias dele para se certificar que não estão loucos. Ou seja, se um seguidor do Woody se relaciona com uma seguidora, deve acontecer algum tipo de mágica. Para o bem ou mal mas, sem dúvida, deve render muita compreensão. E é exatamente essa a dificuldade de escrever sobre Woody Allen, até agora eu nem comecei as primeiras linhas sobre o filme que comentarei.

Ele começou sua carreira como comediante, escrevia centenas de piadas para a rádio e, após conhecer Diane Keaton, acontece uma mágica: ele passa a escrever com os olhos de uma mulher. É perceptível a mudança, parece que os dois se divertem em cena, como se todo o conteúdo do filme fosse uma grande conversa que eles tiveram no dia anterior. Estou falando isso porque, igualmente, Allen não é ator, ele é o carinha dos seus filmes e o carinha do filme é o senhor que dá entrevistas. As piadas surgem do nada, os trejeitos, tudo. Diane Keaton é o símbolo dessa fase onde Allen assume o que realmente é, primeiramente um neurótico e, por isso, engraçado. Não ao contrário, como fazia no começo da carreira.

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“Manhattan”, de 1979 – se você chegou até aqui imagino que sabe ao menos a sinopse – é um filme que me machuca muito. Uma dor que honestamente não sei o motivo. Tento traçar algumas observações do porquê mexe tanto comigo, me vêm a Tracy na cabeça, mas certamente não é só por isso. Poxa, temos um personagem de quase 50 anos namorando uma de 17, mas muito mais do que idade, estamos falando de diferenças, e diferenças existe em todos os casos. Isaac Davis não leva Tracy a sério, está com ela pois é da vida querer estar com alguém, se torna ainda mais confortante quando, pelo motivo de ter 17 anos, você acredite que será fácil se despedir. Pois a pequena menina precisa conhecer o mundo e, então, caberá ao maduro da relação(?) usar isso como desculpa. O quanto é preciso usar desculpas não é? Apaixonamos errado o tempo todo, trocamos muito, talvez ninguém seja feliz amando apenas uma vez, como diria o grande Raul Seixas.

Não vejo “Manhattan” como continuação do “Annie Hall, como alguns dizem, se fosse assim, haveria uma série de 80 filmes, bem, talvez seja todos sequências mesmo. As reviravoltas do amor, os erros, se fazem tão presentes que acabam, por si só, construindo um público, aqueles que se identificam com os diversos questionamentos que o fim da relação – principalmente – traz. Estamos todos amarrados em redes onde o egocentrismo se faz muito presente. Precisamos do outro para viver, o outro precisa do outro, pois já viveu com outro e sabe que esse atual não é como o que poderia ser. Mas o que era bom se foi, então você tem que decidir se continua com um confortável – mas não o melhor que experimentou – ou procura um outro. Esse outro pode não ser melhor que o que está e assim consecutivamente.

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Detalhes. Primeiras cenas temos o Isaac tentando escrever sobre Nova Iorque. Claro, enquanto isso temos lindas imagens da cidade em preto e branco, quase tão lindas que se sobressaem as inúmeras tentativas do personagem colocar em palavras a importância que aquela cidade tem na sua vida. Ao fundo temos uma trilha sonora leve, nos remetendo diretamente ao Charles Chaplin.

Capítulo um: Ele adorava Nova York. Ele a idolatrava em excesso. Bem, vamos dizer que ele a romantizava em excesso. Para ele, não importa a estação, a cidade ainda existia em preto e branco e pulsava ao som de Geoge Gershwin. Não, deixe-me começar novamente.
Capítulo um: Ele era romântico demais, em relação a Manhattan como era com tudo mais. Ele adorava estar no meio da multidão e do tráfego, para ele, New york significava mulheres bonitas e homens inteligentes, que pareciam saber de tudo. Não, ficou melodramático demais para o meu gosto. Vou tentar aprofundar mais.
Capítulo um: Ele adorava New York, para ele a cidade era uma metáfora, da decadência da cultura contemporânea a mesma falta de integridade individual que conduzia as pessoas a procurar a saída mais fácil rapidamente transformava a cidade dos seus sonhos em… não, vai parecer sermão. Vou querer vender esse livro.
Capítulo um: Ele adorava New York embora fosse para ele uma metáfora da decadência da cultura atual. Como era difícil viver em uma sociedade anulada pelas drogas, música alta, televisão, crime, lixo? Muito inflamado, não quero parecer isso.
Capitulo um: Ele era duro e romântico assim como a cidade que ele amava, por trás dos óculos pretos estava a potência sexual de um gato selvagem. Adorei essa. A cidade era dele e sempre seria.

Vemos nesse pensamento inicial que mesmo idolatrando a cidade a qual pertence, ele só consegue finalizar a sua linha criativa quando mistura a mesma consigo próprio. Partindo de uma união entre ambos para explicar não só o seu amor pela cidade, quanto para já se caracterizar. É o velho personagem, refazendo seus gostos, se encontrando em uma mesma situação, só que ao inverso. Enfim, é o que sempre acontece, a vida. O personagem ser escritor, assim como a maioria dos personagens principais, só demonstram a metáfora de grandes deuses, arcando com a responsabilidade de suas próprias escolhas, como se trata da dura realidade amorosa, escolhas imperfeitas mas, se pensarmos bem, será que há mesmo uma escolha certa?

Passamos então para a apresentação de quatro personagens: Isaac Davis ( interpretado pelo Woody ), Tracy ( Mariel Hemingway, cujo papel lhe rendeu uma indicação a atriz coadjuvante ), Yale ( Michael Murphy ) e Anne ( Byrne Hoffman Emily ). Os dois primeiros um casal incomum, o segundo mais comum impossível. Aliás, até traição está acontecendo por parte do yale. Na apresentação desses personagens temos já um dos melhores diálogos, começando pela piada envolvendo o cigarro, do qual Isaak afirma que não sabe tragar porém fica realmente muito lindo segurando um na mão. Tracy fica meio irritada, pede licença, surge o comentário do amigo Yale dizendo que ela é linda, Isaak responde:

– Mas só tem 17. Eu tenho 42 e ela 17. Sou mais velho que o pai dela, dá para acreditar? É a primeira vez que esse fenômeno acontece na minha vida.

Esse filme é tem como tema principal o amor de um homem velho com uma menina. Pode existir outros diversos casos e questões, como a ex-mulher ou a amante do amigo Mary ( Diane ), mas o foco realmente é esse. Essa primeira cena explica muita coisa, pois o personagem ignora o fato dela ser linda, como o amigo afirma, se preocupando em deixar claro que não tem como haver nada sério ali. Algo como se a consciência estivesse gritando o tempo todo, mesmo que bêbado. A menina, por sua vez, é quase tão madura quando o próprio homem, criando, assim, um enorme problema, pois a mesma se vê em condições, mesmo que Isaak tente se colocar para ela apenas como um sábio, que a guiará no presente para, enfim, poder desfrutar do futuro. Ele a recusa no agora e ainda, sem querer, tem pretensões arrogantes, do tipo “aprenda comigo, mas não se preocupe, deixe-me um dia”. Não há julgamento, nem por parte do espectador, nem os personagens do filme, apesar que a Mary tira um sarro dele quando descobre que a menina tem 17 anos dizendo “Nabokov deve estar rindo em algum lugar, não é? Enfim a menina se mostra apaixonada, Isaak a conforta passando a imagem de um atalho, mas será que essa tentativa de se esquivar da responsabilidade, essa tentativa de proteger a menina não acaba virando um machucar grande? Para mim, essa atitude a agride muito e, pensando bem, deve ser justamente esse ponto que mais me identifico, essa ânsia por se considerar atalho para o outro, te transforma em alguém pessimista para com o tempo, você necessita explicar que possivelmente não durará o quanto imagina, mas as pessoas precisam sentir que será eterno, caso o contrário, nem começariam.

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O breve relacionamento de Isaak com Mary também resulta em ótimos momentos, a começar que ele vive dizendo que ela pensa demais, usa o cérebro com demasia, enquanto o próprio também o faz com perfeição. Ou seja, o sujo falando do mal lavado. Em uma das conversas ele afirma que ela deveria conhecer alguém burro para, quem sabe, aprender algo, é basicamente isso que acontece. Ela não precisa de alguém igual a ela, em termos intelectuais, ela está cansada de gênios, eles não a satisfazem mais, como um dia foi, ela própria diz que o seu primeiro marido era um avassalador na cama, e quando finalmente o vemos, é perceptível que ele foge dos padrões de beleza, ou seja, ela estava no auge de uma necessidade diferente, por isso se encontra em um relacionamento proibido com um homem casado, quer algo mais desprendido que isso? De todos os personagens ela é mais problemática, prova disso é que seu analista, o querido Donny, não soa muito bem. O fato é que esse relacionamento se fez através de encontros inesperados e, consecutivamente, forçados, mesmo que contraditório, então cabe a Isaak, em um passeio de barco, colocar a mão na água e, depois, reparar que a mesma está repleta de lodo, simbolizando a situação daquela relação e, ainda por cima, uma crítica a própria cidade. Coisa de gênio.

Diferentemente de outros filmes, a piada aqui surge em momentos oportunos como o “eu tenho dinheiro para viver por um ano… se eu viver como Gandhi.” mas não o vejo como uma comédia, pelo contrário, uma profundidade sem tamanho que, unido a fotografia e ótimo roteiro, tudo se torna sim um pouco mais leve. Cenas como o passeio de Isaak e Tracy na carruagem em que, após um beijo, ele fala que ela é a resposta de Deus a jó, ou quando Isaak vai contar para ela que está se envolvendo com alguém mais velho, ela vira para ele e ele fala “não me encare com esses olhos grandes está parecendo crianças carente precisando dos pais” entraram para a história como uma das melhores, sendo a segunda uma ousadia sem tamanho, pois, realmente, se trata de uma criança que precisa sim dos pais. Mexendo em uma ferida grande, principalmente aos olhos dos mais conservadores.

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No fim, quando depois da sua aventura, ora bolas, com uma mulher mais madura – algo que parece totalmente ao contrário, é mais comum as aventuras serem com jovens – ele percebe que a única que mexeu com ele de uma forma verdadeira é a menos provável. A criança. Sai correndo em direção dela, que por sua vez está de partida para Londres. Tudo o que ele havia dito, sobre experiências ou sobre ser visto como atalho, foi jogado no lixo. Ela era um atalho para ele se encontrar, mais irônico que isso impossível. Ele se desespera como uma crianças precisando dos pais, o mesmo brinca com isso pedindo para a menina parar de ser madura, fica aflito pois serão seis meses sem se verem e, nesse tempo, poderá conhecer alguém mais interessante… ela olha para ele e diz que “nem todos se corrompem” e, finalizando essa obra de arte, continua com “você tem que ter mais fé nas pessoas”. Woody Allen, não Isaak agora, não mais, fica sem graça e dá um leve sorriso. É sorriso de aceitação, do tipo “é, você tem mais que razão e é por isso que estou fazendo esse filme”, é de tamanha importância e impacto no meu coração, tanto quanto Charles Chaplin sorrindo no final de “Luzes da Cidade”. Amores, sentimentos, nunca nos sentiremos totalmente seguros, improvável ter fé, mesmo que seja necessário ter, para continuar vivendo confortavelmente. Quantas oportunidades desperdiçadas, quantas pessoas se foram por arrogância, quantas outras virão e perceberão, que somos/sou só uma pessoa tentando me entender. Uma pessoa imperfeita, buscando me encaixar em outras imperfeições, ser aceito e receber carinho, pois, só assim, em meio a distância da idade, discrepância de desejos, seremos parte de um outro, seremos um. Estaremos a espera da nossa criança, assim como criança. Pois não há julgamento de valor quando se ama, não há cérebro que vença a batalha, pois essa habita o coração, esse lugar hostil, repleto de promessas e afeições.

“Fatos? Eu tenho um milhão de fatos na ponta dos dedos!”
“Pois é, e eles não significam nada não é? Porquê nada que vale a pena saber pode ser entendido com a mente.”

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CdA #034 – Filmes que mudaram as nossas vidas

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No sexto episódio do podcast Cronologia do Acaso trouxemos uma gravação antiga que fizemos sobre os filmes especiais dos nossos corações. Emerson Teixeira, Tiago Messias (https://altverso.wordpress.com/), Bruno Costa (http://supernovo.net/oscinefilos/ ) e Cliff Rodrigues (http://www.planonove.com.br/) fizeram uma lista de 4 filmes que mudaram suas vidas e/ou ensinaram algo importante. Seria o cinema capaz de mudar uma vida?

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CdA #18 – A Vida Sobre a Terra

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Emerson Teixeira Sandro Macena conversam sobre “A Vida Sobre a Terra” ( 1998 ), filme do Mali que retrata a pobreza do país através do olhar de um cineasta, que regressa ao seu lugar após um tempo na França.

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