Meu Nome é Ray, 2015

Meu Nome é Ray (About Ray, EUA, 2015) Direção: Gaby Dellal

Apesar de algumas boas intenções do cinema em falar sobre a transexualidade – sempre apoiarei a discussão e, consecutivamente, a existência de inúmeros filmes que apresentem o tema, diretamente ou não – é de ser levado em conta que, em alguns casos, a discussão pertinente é deixada de lado para uma sequência de interesses.

A transexualidade é um tema delicado, a sociedade ainda tem sérias dificuldades em entender a diferença entre gênero e opção sexual, e enquanto pessoas que nem estão inseridas na vivência do dilema discutem e apontam o dedo para julgar os indivíduos, crianças do mundo inteiro se olham no espelho e não conseguem assimilar a imagem com a mente, com os sentimentos. Por conta disso, há de mencionado a importância da arte como elemento de difusão, auxiliando crianças e jovens de todos os lugares a, quem sabe, se identificarem, ajudando-os a encontrar o melhor caminho para uma longa jornada.

“Meu Nome é Ray” conta a história de Ray, um garoto transexual, que precisa viver entre a ansiosidade para o começo dos tratamentos com hormônios e os dramas da sua família, seja para compreendê-lo da melhor forma, ou demônios do passado. Dado a sinopse, é preciso salientar, a partir de então, que o principal problema do filme é justamente possuir um protagonista transexual, enfrentando dilemas emocionais enormes, mas nunca dar atenção dedicada a essa problematização. Enfatizando a família constantemente. O curioso é que a família é pessimamente desenvolvida, nem mesmo a vovó Dolly – vivida pela excelente Susan Sarandon – cuja personalidade poderia ser bem aproveitada, visto que sua atitude parte da espontaneidade e, nos momentos mais tensos, o seu bom humor se destacada, recebe atenção aqui. É uma mescla de conflitos, escritos de uma forma incoerente, tentando desesperadamente se tornarem melhores através dos talentos da já citada Sarandon, da Naomi Watts – que faz a mãe de Ray – e a Elle Fanning, que vem provando ser mais talentosa que a irmã, Dakota Fanning, há anos.

Mesmo que Elle Fanning prove a sua força dramática mais uma vez, há sérios problemas no que diz respeito a estruturação dramática que envolve o seu personagem. A começar pelos vídeos que Ray grava com o seu celular e edita no computador, como um registro da sua metamorfose, a ideia é interessante, apesar de não ser nada inédita, mas o que frusta realmente é que sua função na trama é descartada no segundo ato, se não bastasse isso, a qualidade visual e de edição dos seus vídeos se trata de algo profissional, o que tira drasticamente a visceralidade da proposta. Como pode um vídeo caseiro e despretensioso feito com um Iphone, de repente, se parecer com uma mega produção profissional, inclusive com ângulos precisos e impossível para um garoto fazer sozinho?

Com uma premissa poderosa, mas execução falha, o que percebemos é que se trata de uma sequência de cenas padronizadas que ganham forças esporádicas, se tratando de uma obra que apela para o seu conteúdo e é, por ele, traído. E empurra a responsabilidade de provocar a empatia para as suas atrizes. Uma decisão pouco corajosa da Gaby Dellal que, apesar das boas intenções, se deixa levar pelo caminho fácil do processo criativo.

Obs: Algo que sempre mencionarei é: dado a importância do tema e a indiferença de muitos, principalmente por se tratar de um problema de minorias, que bom seria se todo papel de transexual fosse vivido por um transexual, assim sentiríamos precisamente os seus conflitos, bem como abriria um espaço seja na grande industria ou veículo independente para os transgêneros. Por isso, recomendo fortemente o maravilhoso e recente “Tangerina”, dirigido pelo Sean Baker.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

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Mãe Só Há Uma, 2016

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★★★★

Leia a crítica sobre “Que Horas ela Volta?” clicando aqui.

Mesmo que a sensação, após terminar de assistir “Mãe Só Há Uma”, novo filme da excelente diretora Anna Muylaert, seja um pouco vazia, principalmente se analisarmos a capacidade da diretora e a qualidade de suas outras obras, é questão de tempo para percebermos que o ritmo lento, a narrativa, por vezes, desconectada, é uma simulação das emoções de um jovem que, se não bastasse ter descoberto que a sua mãe o roubara na maternidade, ainda têm que lidar com a transexualidade. A partir dessa releitura sobre o próprio processo, fica evidente o poder da história que a diretora desenvolve, seja pela reflexão sobre o que é ser mãe ou o vazio do jovem diante à um mundo cercado de regras.

Ora, pois o conceito de família é muito simples, não é mesmo? Família é aquela que está junto, o amor é cultivado com o tempo, não parte de uma condição intrínseca. Uma mãe não estabelece uma relação afetuosa com o seu filho apenas por emprestar o seu DNA; existe o mistério de parir e o milagre de criar.

O título nos revela que só há uma mãe, qual delas, me pergunto. E é polêmico, imaginem só se, por acaso, a verdadeira mãe é aquela que roubou o seu filho? Então a sua condição provém de um pecado mortal: tirar a possibilidade de uma mulher de amar a sua criação.

Não à toa, a primeira cena que mostra uma mãe – independente de qual seja – é através dos seus movimentos pela casa. Em planos detalhes direcionados à pequenos objetos, conhecemos a ação antes da imagem. Pois, compreenderemos a seguir, que a imagem é uma mentira, a verdade mora apenas no coração do protagonista Pierre.

Pierre, com as suas unhas perfeitamente pintadas, é um observador. Naomi Nero compõe o seu personagem com uma naturalidade assustadora, que, por vezes, transcende a própria atuação. Sempre cabisbaixo, falando arrastado, quase sussurrando, fazendo jus aos diálogos sempre diretos. A intenção é exibir-se como uma marionete da vida, sendo empurrado de todos os lados enquanto ele próprio não têm a oportunidade de dizer o que quer, claro, porque o mundo dos adultos é burocrático.

A fuga de Pierre é ser mulher, colocar vestidos, mudar de personalidade. Essa atitude pode soar repentina e desconectada de toda a trama, porém me vem a cabeça que o próprio personagem é. Como a diretora poderia desenvolver essa sub-trama se ela é pessoal, íntima, de um jovem cuja emoções são ignoradas pelos próprios personagens? Portanto, os espectadores acompanham distantemente essa opção do Pierre, é uma decisão artística consciente e oportuna.

A direção de arte é muito boa, o espaço das casas que Pierre percorre ajuda-nos a compreender a sua opinião. Por exemplo, umas das casas é mais apertada e bagunçada, a outra mãe, aparentemente, tem mais condições e mora em uma casa espaçosa. Pierre, ao entrar no seu novo quarto, não arruma imediatamente as suas coisas, como uma subversão do próprio local, colocando a característica que ele está habituado: uma pequena desordem. O figurino também é muito importante, com usos maravilhosos do vermelho e o posicionamento do protagonista nas cenas sempre é incômodo, apertado ou displicente.

A cena final isenta o Pierre de preocupações. No mesmo tempo que estabelece uma singela conexão com o seu novo irmão, como se fosse uma compreensão mútua. Pois, novamente, as crianças não entendem o porquê de tamanha preocupação. A praticidade toma conta das atitudes. A conclusão é de arrepiar, tamanha profundidade; Anna Muylaert volta aos seus temas recorrentes, mas de forma diferente e, por isso, merece toda a atenção do mundo.

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Laurence Anyways, 2012

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★★★

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobre “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários“.

“Laurence Anyways” é o terceiro filme do Xavier Dolan, o espaço de tempo entre o segundo e o terceiro foi maior, dois anos, e a primeira coisa que é possível perceber é a necessidade do diretor em contar uma história diferente, com muito mais profundidade no que diz respeito a sexualidade. Entretanto, se por um lado o jovem foi deixado um pouco de lado nesse terceiro filme, do outro ainda estão presentes certos “vícios” do diretor, como a câmera lenta, uso de boas músicas, filmagem acompanhando o personagem pelas ruas e, principalmente, o uso de cores. 

Na história acompanhamos uma década da vida de Laurence – interpretado maravilhosamente por Melvil Poupaud – que, depois do seu aniversário de 30 anos, resolve revelar para os amigos, namorada e família que deseja se tornar uma mulher, pois se sente como tal. A partir disso será desenvolvido, através de cenas bem singelas e ritmo lento, todo o processo de aceitação e coragem para enfrentar as mudanças, no mesmo tempo que o filme trabalha o lado emocional da namorada do protagonista, Fred – interpretada pela excelente Suzanne Clément – que não consegue aceitar a situação facilmente.

O casal é apresentado com o ritmo acelerado, conhecemos pouco, no início, além da paixão descontrolada entre eles e a postura livre e despreocupada. O que é bem interessante e funciona para o entendimento da história, visto que no segundo e terceiro ato a história se arrasta demais, sendo um reflexo da própria maturidade.

Assim como ressaltei nas críticas anteriores sobre os filmes do Xavier Dolan, os objetos da casa são muito importantes para a compreensão simbólica da psicologia dos personagens, no entanto me aprofundar aqui seria me repetir, pois apesar de ter admirado essas mensagens subliminares em “Eu Matei Minha Mãe“, em “Laurence Anyways” se transforma em algo pouco inovador. Esse é um ponto fraco do terceiro trabalho de Dolan, o diretor, muito provável que seja pela idade, teima em repetir truques desnecessários.

No entanto, algo que volta a fazer muito bem é o uso das cores, se em “Amores Imaginários” o azul era uma cor crucial, nesse terceiro o vermelho assume tal importância, talvez maior. Desde as primeiras cenas o casal cita o vermelho e é possível perceber que a cor soa como uma entidade mística que envolve os dois. Percebam – aliás, é difícil não perceber – que durante boa parte do filme o cabelo da Fred – namorada do protagonista – é vermelho, ela só muda a cor quando vai se distanciando do seu amor ou de quem foi um dia.

A câmera subjetiva, utilizada com frequência desde o início, dá um tom interessante a trama, nos posicionando nas angústias do protagonista, admirando um mundo repleto de julgamentos. Não à toa o diretor faz questão, muitas vezes, de filmar os personagens em segundo plano, sempre escondidos atrás de uma parede, de forma que eles sejam “engolidos” pelo cenário. É visualmente estranho essa decisão – principalmente por conta do uso com frequência – mas remete diretamente aos sentimentos das personagens.

Se existe toda a capacidade e incapacidade do diretor, o outro lado e, talvez, o que mais me encanta no Xavier Dolan é sua capacidade de escrever roteiros tão sutis e, no mesmo tempo, impactantes. É de grande importância que exista um hino ou representante dos filmes LGBT, e o mais incrível é que Dolan ultrapassa essa barreira e desconstrói tudo para falar sempre de amor. Nem mesmo o ritmo fraco do filme tira a profundidade das suas personagens: Laurence é a representação do homem moderno, mergulhado em indecisões, ele passa a enxergar a vida de outra forma, sendo representado pela troca de identidade. No mesmo tempo que a sexualidade é importante, não é a maior importância, pois o diretor pretende analisar o homem sensível, independente de qualquer outra coisa. Um ponto importante do personagem é que ele, mesmo com a decisão de se assumir mulher, é hétero, o que gera ainda mais confusão na namorada e família, e que representa fielmente a ignorância da população em questões como gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

A namorada, por sua vez, é a sem dúvida a personagem mais interessante, pois os impactos de toda a mudança do filme cai sobre ela, a ousadia e coragem de Laurence o isenta de melancolia, enquanto Fred, sua namorada, não está preparada para tal atitude. A menina agitada e rebelde dá lugar a uma perdida, Suzanne Clément cria uma personagem maravilhosa através de olhares, expressões corporais e protagoniza uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema: quando surta com a gerente de uma cafeteria, de modo a se proteger e proteger o namorado do preconceito que os atinge constantemente.

O filme é, sem dúvida, uma preciosidade para ser sentida com muita entrega, é uma verdadeira ferramenta de evolução pois aborda um tema pesadíssimo de forma sutil, quase imperceptível. A borboleta, que culturalmente representa a transformação, nunca aparece em momentos importunos, pois vivemos sempre atrás de uma outra vida e outras oportunidades. E, no final do filme, quando o cabelo de Fred já não é mais vermelho e fica claro que a moça se desprendeu do passado, ela pede licença para Laurence e entra em um banheiro com paredes vermelhas, como se fosse prisioneira de algo que viveu, prisioneira de um sentimento. Quem não é, afinal?

  • Isso é uma revolta?
  • Não, uma revolução.

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