A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Olhos de mamãe ensinam a crueldade e apatia

The Eyes of My Mother ( The Eyes of My Mother, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Pesce

★★★★★

É impressionante a sensação mágica que acontece – principalmente para os amantes do cinema obscuro – quando uma obra audiovisual consegue adentrar o espaço do incômodo, mas do que isso, estabelece toda a sua estrutura na invasão de privacidade e mostra, através de uma ótica quase imperceptível, os erros, segredos e psicológico doentio que existe em diversas famílias ao redor do mundo.

Ora, seria terrível terminar um filme como “The Eyes of My Mother” acreditando que os eventos registrados, por mais agressivos e insanos que possam parecer, dialogam com diversos casos reais de abuso psicológico por parte dos pais, abusos físicos e atitudes monstruosas relacionadas diretamente com a vingança.

Em dado momento, um homem que acabara de invadir uma casa e matar um ser humano, confessa para uma menina que o fez pois o assassinato provoca uma sensação brilhante. Ironicamente o filme começa com uma mãe explicando detalhes referentes aos olhos de uma vaca para sua filha, a cabeça do animal permanece sobre uma mesa enquanto há o diálogo trivial – mas não sem propósito – e tal abuso de poder não significa absolutamente nada para ambas.

Dirigido pelo estreante Nicolas Pesce com uma segurança exemplar, “The Eyes of My Mother” acompanha a história de uma família que mora em uma fazenda no interior de Portugal e suas reações nada previsíveis e sãs, após o assassinato da mãe/esposa.

A fotografia é brilhante, usa o preto e branco como uma forma de demonstração da alma dos personagens que, propositalmente, são desenvolvidos de forma flexível; é evidente a despreocupação em analisar toda a história dos personagens, essa é uma decisão que possibilita ao espectador preencher as lacunas com possíveis explicações para psicológicos tão corrompidos. Assim como os eventos partem de uma naturalidade que, por conta do contexto, se tornam horrorosos, o roteiro transmite a sensação de perdidão, como se estivéssemos sendo cúmplices do erro ou até mesmo as próximas vítimas, simplesmente por sabermos a verdade.

Por se tratar de um filme de curta duração – 76 minutos – o longa é inteligente em utilizar alguns artifícios técnicos para transmitir a ideia de forma direta, otimizando o tempo e direcionando o olhar para os pontos que realmente demonstram evoluções na narrativa: no primeiro ato a câmera na mão define que os eventos terríveis que acontecem desencadearão uma sequência de atitudes absurdas relacionadas à vingança; no segundo e terceiro ato a fotografia ressalta o isolamento da protagonista Francisca – interpretada maravilhosamente bem pela Kika Magalhaes – como, por exemplo, no momento que existe um plano aberto que preocupa-se nitidamente em reforçar a grandiosidade de uma floresta, em comparação com a personagem que, consumida pelo local, é invisível aos olhos da sociedade.

Kika Magalhaes dá a sua personagem uma carga emocional grande, mesmo que saia por vezes da atmosfera criada pela obra por conta de alguns exageros, volta sempre com muita elegância e se adapta rapidamente por conta da intensidade do seu olhar, sempre fixo e distante, mesmo nos possíveis momentos de afeto.

Ainda sobre a fotografia – que poderia ser dissecada por horas – é válido ressaltar os diversos trabalhos com a luz que, por diversas vezes, criam silhuetas, reforçando a ideia de que os personagens são sombras da normalidade, ocultando segredos e se mantendo à margem da sociedade. Outros momentos a janela é utilizada, em primeiro plano, como uma forma de barreira para com o mundo exterior – não coincidentemente suas divisões formam uma cruz invertida, símbolo que remete, dentre tantas coisas, à maldade.

O longa percorre a crueldade e incomoda com diversas cenas que, por serem tratadas de forma crua, outras vezes com cortes abruptos, instigam à imaginação e, principalmente, provocam o choque com tamanha realidade. Em uma cena, Francisca ainda criança após um ato de violência extrema que impedirá o assassino de sua mãe de falar, retorna aos braços do seu alienado pai e fala: “ele não vai mais falar… Te amo papai”, enquanto ouve como resposta o silêncio. Ou seja, o seu pai também não fala, como se todas as terríveis atitudes mostradas ao longo, remetessem não só as vítimas como aos abusadores, a família sofre da maldição da solidão, sem ternura, sem propósito, os olhos da mamãe ensinam apenas a crueldade e apatia.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Shelley, 2016

Shelley 2016

★★★★

Shelley tem tudo para provocar o espectador, cria um clima soturno desde a primeira cena, a tensão se estende para os olhares, pequenos movimentos, enfim, o clima adentra o espaço da dúvida e a trilha ajuda a alimentar esse contexto sombrio.

Há muita comparação desse filme com o clássico “O Bebê de Rosemary”, de 1968, a influência é óbvia, no entanto nunca se desenvolve da mesma maneira. Aliás, é importante que aja filmes que estão dispostos a seguir o caminho dos clássicos psicológicos, é preciso abordagens diferentes, visto que o cinema de terror é inundado de clichê e sustos gratuitos.

“Shelley” é um filme dinamarquês, dirigido pelo estreante em longas Ali Abbasi – maravilha esses novos diretores do gênero que vêm surgindo ultimamente, todos extremamente corajosos e dispostos a quebrar as regras – e tem como história principal um casal, Louise e Kasper, que desejam ter um filho mas, mesmo com várias tentativas, não conseguem. Eles vivem em uma mansão isolada, aparentemente normal, e com a chegada de uma nova empregada chamada Elena, eles começam a ter uma relação de extrema confiança por conta da sua bondade e sinceridade, passando a vê-la como uma oportunidade de carregar o filho que eles tanto desejam.

O ritmo lento e contemplativo, unido com a trilha ameaçadora, lembra muito o outro ótimo filme lançado esse ano chamado “A Bruxa”; além do mais, outros dois pontos se assemelham bastante: a famosa divergências de opiniões daqueles que assistem e, por se tratar de uma obra diferente, creditam isso à uma pretensão por parte do realizador; E o papel de extrema importância da mulher. É evidente que o mistério se desenrola através da gravidez, algo extremamente sensível e de uma conexão extrema, e por isso é possível observar uma atenção especial para as personagens Louise ( Ellen Dorrit Petersen ) e Elena ( Cosmina Stratan ).

Ellen Dorrit Petersen, com sua presença eletrizante, dá a sua personagem uma frieza impressionante, com a expressão sempre serene, distante, parece se importar pouco com a sua empregada – que aqui mais parece um veículo – e o motivo constantemente parece nebuloso. Petersen já havia demonstrado os seus talentos no ótimo “Blind” que, no final de 2014, o coloquei na minha lista dos melhores do ano.

Quanto a Cosmina Stratan, com sua beleza angelical e a progressiva transformação, representa o espectador com todas as dúvidas sobre os acontecimentos, é assustadoramente impactante a transição da doçura, no começo do longa, e a raiva/obsessão do final.

“Shelley” promete e cumpre. É difícil se destacar em um cinema repleto de julgamentos, por isso é louvável a atitude do diretor em desenvolver uma obra que abraça alguns elementos já conhecidos, mas subverte com o silêncio e a incomunicabilidade, chocando pela diferença da narrativa, ambientação e performance das atrizes principais.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O medo, o abandono e a opressão

Under the Shadow, 2016

under-the-shadows

“O Exorcista” ( 1973 ), “O Bebê de Rosemary” ( 1968 ) e “Os Inocentes” ( 1961 ), esses foram os três únicos filme que me deixaram com muito medo, daquele jeito que o indivíduo fica uma semana acordando assustado, olhando para os lados e indo ao banheiro correndo. Detalhe: todos esses eu assisti quando era criança, portanto estava mais suscetível à esse sentimento.

E, em 2016, eu tive medo novamente. “Under the Shadow”, novo filme iraniano do diretor Babak Anvari – que dirigiu um curta maravilhoso chamado “Dois mais Dois”, cujo tema aborda o totalitarismo e controle, de forma direta, simples e inteligente – fala sobre o medo, abandono e opressão social, a história é mostrada de forma brilhante, envolvendo o drama com a angústia do isolamento até, por fim, mesclar com o misticismo, afim de provocar a tensão.

O filme se passa no fim da década de 80, onde acontecia uma guerra entre o Iraque e o Irã. Uma mãe e a sua filha são obrigadas a ficarem em um apartamento, em pleno bombardeamento na cidade. O desespero pelo enclausuramento se mescla com eventos paranormais. Drama e terror se confundem, o medo acaba sendo provocado pela própria situação catastrófica do país, enquanto conceitos sobre família, proteção e opressão à mulher vão sendo desconstruídos.

O longa começa apresentando a protagonista ( Shideh/mãe ) pedindo uma chance para voltar à universidade. No passado, ela fazia medicina mas o seu sonho foi interrompido por participar de revoluções políticas. Então o papel da mulher já começa a ser deveras importante para a compreensão da obra que, em suma, desenvolve o terror sob temas sociais e políticos.

A narrativa é importante e bem realizada, precisa ser a mais dinâmica possível sem soar artificial. A divisão dos atos é muito clara, até pela própria duração, o filme pede por uma montagem linear e isso é feito da forma mais coerente possível. Geralmente, em filmes populares de terror, há uma preocupação em encaixar os sustos da forma mais rápida possível, como se fosse a obrigação da produção para com o público. Essa pretensão infantil não calcula a essência do medo, o que não acontece aqui, Under the Shadow constrói tudo de forma lenta, preenchendo cada lacuna e estabelecendo a ordem para, só assim, entrar com elegância no caos psicológico.

Medicina cura vidas, ou pretende; guerras causam mortes. Um grande contraste. A protagonista vive em um meio que não a satisfaz, a menina rebelde e que lutava por uma causa política, dá lugar a uma dona de casa que se submete a concordar que fora uma “adolescente estúpida que nem sabia o que era direita e esquerda”. A sensação claustrofóbica já está presente na cena inicial, uma desilusão e impaciência, provocados pela ganância política e desdém do poder para com seu povo.

O terror começa quando a mãe e a filha ficam sozinhas. Por ser um filme iraniano, a paranormalidade se sustenta sobre a crença do Islamismo – que, por sinal, possui um dos infernos mais cruéis que existe – e será abordado nomes como Iblis que, na verdade, é o demônio do Islã.

[ Iblis é retratado como sendo uma criação do próprio Alá e que foi rebaixado após recusar-se a submeter aos homens que foram feitos do barro. Para ele, uma criatura que se originou no fogo era mais grandiosa do que todos. Como curiosidade, para alguns pensadores, Iblis possuía uma crença monoteísta. Afinal, ele rejeitou-se se ajoelhar perante qualquer criatura que não fosse Alá. ]

O fogo provocado pela guerra é o mesmo que Iblis se originou. O temor nasce do abandono, percorre a incerteza e cresce na resistência. Há cenas assustadoras, simples e impactante, como um momento que vemos Shideh dormindo, em uma filmagem vertical e a câmera gira quando a personagem fica frente a frente com a filha. É relevante esse momento pois o fato de ser mãe consome muito a protagonista, apesar de amar a sua condição, ela se vê fraca e desamparada, e é nesse ponto que mora a importância da personagem Dorsa – interpretada brilhantemente pela Avin Manshadi: exigir da sua mãe o processo contínuo de reflexão sobre a sua postura.

Como exercício narrativo, é válido perceber que todos elementos e cenas que envolvem o susto ou medo estão estreitamente conectados com os sentimentos mais profundos da personagem principal – isso é confirmado quando ela coloca uma fita na janela para proteção dos vidros em um possível bombardeio, e a sombra forma um “x” em seu rosto, como se ela/população fossem o alvo da guerra.

 Outra cena de suma importância é quando Shideh sai de casa sem a túnica – por conta do tormento causado pelas assombrações – e vai presa. Na volta, quando fecha a porta, ela se assusta com a sua própria imagem no espelho e tira a túnica, como um ato de revolta para com a sua condição, principalmente as ordens e julgamentos que lhe são impostos diariamente. Novamente, ela convive com o demônio dentro de si.

“Uma mulher deve temer a exposição acima de qualquer coisa”

Com uma abordagem inteligente e precisa, Under the Shadow é brilhante na concepção do terror psicológico. Transformando cenas simples em poesias por conta da crítica social e opressão à mulher, provoca o medo como há muito tempo não sentia. A atuação da Narges Rashidi reforça a atmosfera sombria, no mesmo tempo que a utilização dos espaços da casa é muito oportuna para a sensação de aprisionamento. Um dos melhores filmes do ano.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

terror-2016

No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

alucarda-one

★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

The Children, 2008

The-Children-2008-1

★★

Só o fato de um filme usar crianças como vilãs é interessante, existe uma inconfundível certeza de que, se bem trabalhado, a obra poderá provocar o espectador com a sensação de desconforto, afinal, se trata de uma figura inocente e, talvez, uma das últimas que relacionamos quando o assunto é medo, morte, frieza, etc.

Tom Shankland dirige “The Children” com segurança, começando as primeiras cenas com aquelas clássicas reuniões de famílias para a comemoração do natal e, junto com toda essa felicidade, existe uma jovem – no auge da sua independência – reclamando por estar distante dos amigos. Por outro lado não há, na direção e roteiro, ousadia o suficiente para tentar algo diferente, a apresentação e o desenvolvimento só soam interessantes pela própria trama: as crianças dessa família vão, ao longo do tempo, mudando de personalidade até se transformarem em pequenos assassinos e sádicos.

A estrutura da narrativa é bem clichê, mas existe um desconforto real pelas modificações tão bruscas no comportamento das crianças, apesar de que, se por um lado as crianças chamam a atenção e se destacam – Eva Sayer, Raffiella Brooks e William Howes merecem boa parte dos créditos pela verossimilhança no que diz respeito as transformações. Aliás, vou além e afirmo com propriedade que eles merecem, também, os créditos por boa parte da qualidade do longa – os adultos de “The Children” são tão mal resolvidos que chega ao cúmulo de serem infantis. Não adianta trabalhar tanto os vilões ou o mal, quando não existe empatia de quem assiste por aqueles que deveriam sobreviver. O desejo aqui é que os adultos/fantoches morram o mais depressa possível e que as crianças malvadas reinem. Isso poderia até ser interessante, mas visivelmente a proposta era completamente diferente.

Não há nenhuma explicação sobre o porquê dos eventos, isso desencadeia uma série de erros como a velocidade das mortes e os dilemas frágeis que surgem ao longo dos 84 minutos. Ainda que exista duas ou três boas cenas – uma em específico é aterrorizante, mas em nenhum momento inédita -, o filme não possui aquele charme comum em filmes com criancinhas do mal e acaba não conseguindo sustentar a premissa poderosa que cria nas primeiras cenas.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O Espelho, 2014

oculus-kids

★★★★

Você pode ler as outras críticas sobre os filmes do diretor Mike Flanagan clicando aqui.

Depois de experimentar três trabalhos do diretor, era a hora de reassistir o seu mais conhecido, “O Espelho”, de 2014. No ano do seu lançamento, lembro-me desse filme figurar em muitas listas dos melhores do gênero terror, o que me espantou, pois acreditava se tratar de apenas mais um genérico, com todos os clichês incluindo crianças, cachorro e casa assombrada; mas o fato de haver um “espelho” me chamou a atenção, por se tratar de algo indefinido e repleto de simbolismo, desde muito tempo e em muitas culturas diferentes. 

Como já era de se esperar, o diretor Mike Flanagan sempre se preocupa em trabalhar com elementos incomuns para acrescentar no clima estranho de suas obras, aqui ele aborda dois irmãos que presenciam, na infância, a morte de seus pais, de forma extremamente perturbadora. Eles relacionam os eventos terríveis à um espelho amaldiçoado, e prometem um para o outro que, quando crescerem, destruirão o objeto misterioso para ninguém se machucar novamente e, também, como uma forma de vingança.

A sinopse já revela um ponto interessante da obra: ambos irmãos já têm conhecimento da paranormalidade, restando ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça ao longo do primeiro ato para compreender o porquê eles possuem tanto interesse em um espelho velho. É um pequeno detalhe, mas para filmes assim funcionar é preciso algumas alterações, como é o caso dessa inversão. Geralmente temos uma apresentação conjunta, tanto o espectador quanto os personagens vão entendendo e acreditando nos eventos paranormais, aqui ele já está muito bem estabelecido, é como se largasse na frente de forma inteligente e direta.

Quando Tim sai do hospital psiquiátrico – que o força, durante anos, a acreditar que os eventos do passado não têm nenhuma ligação com o sobrenatural – e encontra a sua irmã Kaylie, ela já possui uma série de ferramentas para usar contra o suposto perigo, embora possa cair por vezes na imaturidade de apresentá-los quase como um filme de ação – ela, por vezes, parece ser uma espécie de espiã – o interessante é que essas ferramentas são, na sua maioria, tecnológicas, é como se existisse nela o interesse desenfreado de registrar o oculto através de equipamentos mundanos e suscetível ao erro.

O núcleo é apoiado na relação entre os dois irmãos, como se eles fossem os únicos a compreender as verdades do mundo e incapazes de provarem a sua sanidade e no registro através de filmadoras, quase como um experimento amador. No entanto, o desenrolar só ganha proporções maiores com o trabalho dedicado do diretor em mesclar os eventos do presente com fragmentos do passado, parece que o próprio passado é o demônio que transtorna os irmãos, e a relação que se estabelece entre Tim e  Kaylie ainda crianças e Tim e Kaylie adultos, é extremamente eficaz. Em diversas vezes essa opção confunde, propositalmente, essas duas linhas do tempo acabam se tornando uma só. Aliás, essa mesma estratégia foi usada posteriormente, pelo Mike Flanagan, em Sono da Morte, só que nesse caso era o mundo dos sonhos, que por sinal também tinha relação com o passado.

Quanto aos atores, destaco a Annalise Basso que chama tanto a atenção com a sua qualidade, que a Kaylie Russell criança se torna até mais impactante do que adulta, se mostrando sempre forte e preparada, apesar de transmitir muito medo. A atriz Annalise Basso já havia demonstrado um certo talento em um filme bem divertido chamado “Ilha da Aventura” e, além de fazer parceria com o Mike Flanagan, anda fazendo alguns trabalhos alternativos. Outro destaque é a atriz Katee Sackhoff que faz uma mãe que desmorona após perceber as mudanças psicológicas do marido, sua expressão sempre perdida e apreensiva chama a responsabilidade e até ofusca o Rory Cochrane que, sem dúvida, é o único que não faz jus ao seu papel.

“O Espelho” é mais uma prova que o cinema de terror pode inovar, apesar de ser extremamente complicado, basta pequenas novas ideias e talento, algo que já podemos esperar do jovem Mike Flanagan, sempre nos entregando obras, no mínimo, interessantes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Dabbe: Bir cin vakasi e o cinema de terror turco

Dabbe: Bir cin vakasi

★★★

Depois do sucesso de “Atividade Paranormal”, bastou pouco tempo para o formato de gravações em diversas casas ao redor do mundo se tornasse uma ferramenta exaustivamente utilizada. Teve filme desse formato no Japão, Espanha e outros diversos países, mesmo que por algumas cenas. É o caso de “Dabbe: Bir cin vakasi”, um filme da Turquia, dirigido pelo Hasan Karacadag, que é um dos grandes nomes do terror por lá.

Se pegarmos a história do cinema turco, veremos que nas décadas de 70-80-90 houveram muitas adaptações clássicas de filmes hollywoodianos, como por exemplo uma versão horrível de Rambo, chamada “Korkusuz”.

Korkusuz, 1986

Korkusuz, 1986

Mas o gênero terror foi muito pouco explorado, talvez por uma questão meramente social e de interesse econômico. No entanto, as coisas começaram a mudar com o aparecimento de um diretor chamado Hasan Karacadag. Ele estudou cinema no Japão, se aprimorou no que diz respeito a linguagem cinematográfica e lançou, em 2005, com apenas 28 anos, um filme chamado “Dabbe”. Esse filme revolucionou a Turquia, as pessoas começaram a acreditar no seu cinema de horror. A obra, mesmo sendo fortemente influenciada pelo cinema americano e, principalmente, o japonês, apresentava conceitos interessantes e contextualizava o medo com a cultura da Turquia. Por exemplo, a demonologia islâmica sendo trabalhada para provocar o medo, foi um atrativo importante para o mundo.

“Dabbe” mescla o paranormal, com ondas de suicídios sem explicações. É muito interessante para quem gosta de adentrar em culturas diferentes, principalmente quando o medo é a porta de entrada para esse estranhamento.

Hasan Karacadag, sendo inspirado fortemente pelo Stephen King, se interessando pelo misticismo desde criança e apaixonado pela forma que o cinema de terror japonês conduz o medo, realizou diversos outros trabalhos na Turquia e ganhou fama por lá. Sendo sinônimo de sucesso, quando falamos de cinema de terror turco.

Bebendo da fonte do cinema americano, novamente, chegamos em 2012 com o filme “Dabbe: Bir cin vakasi”, onde o diretor utiliza ao seu favor o famoso mockumentary, ou documentários falsos. Onde um ou vários personagens registram os seus passos afim de se protegerem ou buscar explicações para algum fato estranho.

O filme começa com uma suposta gravação real, de um caso de uma mulher que sofria com o sonambulismo mas que, aos poucos, foi-se descobrindo que o problema era muito mais do que isso. Somos apresentado à uma família e o estilo de filmagem já está preparado, a apresentação é feita de forma direta e até agressiva, pois coisas estranhas já estão acontecendo.

Passado alguns clichês como coisas caindo, luzes apagando, pessoas levitando etc. Há uma segunda parte onde o motivo dos casos sobrenaturais vão sendo explicados, é nesse momento que o filme parece funcionar realmente: pois sabemos que se trata de um caso de magia negra, que envolve demônios e alguns conceitos bem diferentes, como uma cena em que um dos personagens invade uma casa abandonada, e se depara com inúmeros objetos amaldiçoados, como espelhos e bonecos de vodoo.

Apesar dos efeitos bem simples e de algumas atuações forçadas, “Dabbe: Bir cin vakasi” é um filme com uma estrutura bem diferenciada e, apesar de beber da fonte do “Atividade Paranormal”, consegue ser melhor que todos os filmes da série ao redor do mundo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Musarañas, 2014

Macarena-Gomez-Musaranas_EDIIMA20141225_0278_13

★★★★

Dirigido por Esteban Roel e Juanfer Andrés “Ninho de Musaranho” é o típico filme que agrada bastante, mesmo com toda sua densidade, é altamente envolvente e tentador. Musaranho ou Soricidae é o nome de pequenos mamíferos roedores que são conhecidos pela sua ferocidade, mesmo sendo bem pequenos. Com essa analogia clara, temos a história de duas irmãs: Montse e Hermana. A primeira é a mais velha e sofre de uma doença chamada agorafobia, ou seja, ela tem um medo avassalador de sair de casa ou tudo que vai além dos limites do seu território. Já Hermana possui uma ânsia de viver, tem namorado, enfim, uma vida altamente normal se não fosse alvo de cuidados extremos por parte da irmã. A vida de ambas começa a se transformar com o aparecimento do vizinho Carlos.

Hermana é vivida por Nadia de Santiago, dona de uma beleza angelical e que utiliza isso à favor da sua personagem. No entanto, sempre existe um quê de estranheza nos seus trejeitos e, principalmente, na aceitação quase impensável sobre as atitudes da irmã mais velha. Fica evidente que existe algum tipo de obsessão ou passado sombrio entre elas. Já a irmã mais velha, Montse, é interpretada incrivelmente bem pela Macarena Gómez, atriz que doa o impossível para construir uma personagem além dos limites da insanidade. Ela não é muito conhecida do grande público, mas já trabalhou com Álex de la Iglesia – que assina a produção desse filme – em “As Bruxas de Zugarramurdi”.

O filme se passa em 1950 e é importante a pequena ambientação exterior para aumentar a nossa distância para com alguns conceitos, principalmente em relação à liberdade. No mesmo tempo que as vestes e o comportamento religioso obsessivo dá ao filme um ar clássico de terror psicológico; isso desde o começo do filme, a ambientação sombria funciona e causa muitas estranhezas no espectador, típico de filmes de terror ou suspense espanhóis.

Alguns elementos ficam bem claros já no começo do filme, como o papel da mãe na trama e os cuidados extremos, além de que o apartamento onde as irmãs vivem, assume uma importância gigantesca para provocar quem assiste, se tornando uma espécie de personagem principal. As paredes sufocam e, nas primeiras cenas onde vemos a limitação da Montse que a impede de colocar o braço na parte externa da casa, a suposta estranheza dá lugar a compreensão de que realmente há coisas que deveriam ser temidas no mundo e que sua fobia é mais a representação da proteção do que qualquer outra coisa.

Há ainda brincadeiras clássicas – aqui muito bem utilizadas – como a iluminação, que em diversas cenas são diferentes nas duas irmãs, ressaltando o contraste entre inocência e maldade.

O filme atinge um nível mais alto com o aparecimento de Carlos, o roteiro joga o espectador para todos os lados e sacode com tamanhas curvas na narrativa, que em determinados momentos nos impulsiona para o entendimento da protagonista, ora nos faz ter raiva pela sua atitude e, de uma hora para outra, pena pelo seu desequilíbrio. É o típico filme que é preciso recomendar mas sem contar absolutamente nada, pois pode afetar diretamente na experiência de quem assiste.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube