Tara Maldita, 1956

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956) Direção: Mervyn LeRoy

“Tara Maldita” era uma história conhecida e aclamada do teatro quando migrou para o cinema. Isso é interessante, levando em conta que se trata de uma obra clássica de terror que, em nenhum momento deixa se levar por sustos ao invés de questionamentos e conflitos psicológicos. Certamente o sucesso prévio do roteiro no teatro gerou atenções, complicando ainda mais a vida do diretor e atores que, mesmo conhecendo a essência da obra, ainda se viam diante de um novo formato e público.

Felizmente a adaptação liderada pelo Mervyn LeRoy faz jus a grandiosidade filosófica da história que, por sua vez, traz uma garotinha de nove anos chamada Rhoda (Patty McCormack) que comete assassinatos, mente, elabora planos diabólicos, tudo isso sem levantar suspeitas, afinal, se trata de uma criança e, como tal, inocente aos olhos da sociedade. Em uma estrutura teatral, o conflito começa quando sua mãe Christine Penmark (Nancy Kelly) suspeita da própria filha, após a menina não demonstrar sentimento algum com o falecimento de um colega próximo da sua sala de aula.

O inimigo de todo o arco dramático é improvável, o conflito e questionamento sobre os limites da psicopatia, principalmente relacionado à idade, se tornam o triunfo de uma obra que é definitivamente muito maior do que “mais um filme de terror”. A força narrativa se encontra na naturalidade do desenvolvimento que, se baseando fortemente no desespero de sua protagonista – a mãe, cujas decisões são suspendidas diante a agonia provocada pela dicotomia entre o certo e a proteção materna – acontece de maneira despreocupada, como se o espectador fosse obrigado a, também, desacreditar que a angelical Rhoda tenha forças para agir de maneira tão monstruosa.

Ledo engano, o roteiro é inteligente em brincar com a relação entre a dúvida, moral e realidade quando os indícios se tornam claros, à medida que as ações da menina vão se tornando mais extremos. O texto é sustentado por uma direção maravilhosa, com ótimas decisões de enquadramentos – utilizações de espelhos são comuns e deveras importante – e atuações sensacionais. Destaque para a Eileen Heckart que aparece em cenas curtas como a mãe do falecido Claude, amigo da escola de Rhoda. A força da sua performance dá um brilhantismo para as consequências dos atos do pequeno anjo malvado, é quando as emoções das vítimas nos faz relembrar que por trás da imagem inocente existe um ser diabólico que, apesar do tamanho, tem o poder de causar sérios traumas nas vidas que estão ao redor. Eileen Heckart, inclusive, chegou a ser indicada ao Oscar.

A profundidade do tema é tão grande que essa clássica obra inspirou diversos filmes que, posteriormente, também se utilizariam de crianças como os vilões. Mas não é só pela novidade que é lembrado, mas também a boa utilização dos espaços da casa, isso é importante pois praticamente toda a história se desenvolve nela, com certeza alguns movimentos vêm das apresentações teatrais, visto que a mise en scène é sublime e existe uma sincronia que dá leveza e flexibilidade visual.

É sem dúvida um grande clássico do cinema e que, de brinde, nos apresentou a talentosa Patty McCormack, com um trabalho primoroso, pois sua personagem exige uma consciência madura escondida atrás de uma artificialidade infantil, o que na prática resulta em expressões e diálogos repletos de camadas. Simplesmente inesquecível.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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As Bodas de Satã, 1968

As Bodas de Satã

Seria impossível analisar “As Bodas de Satã” sem se lembrar de como o satanismo foi discutido durante os anos 60. A liberdade e o movimento hippie trouxeram, também, um outro lado obscuro que envolvia o desconhecido e, claro, o satanismo está incluso na lista.

Em 1969, um ano após o lançamento desse filme, Charles Manson assassinou a Sharon Tate que era esposa do diretor Roman Polanski e estava grávida de oito meses. Então é de se imaginar a ousadia de todos os envolvidos em lidar com esse tema de forma tão natural e impactante.

O filme é baseado em um conto do Dennis Wheatley, inclusive ele teve o Aleister Crowley como consultor para criação da sua história.

Dirigido por Terence Fisher, “As Bodas de Satã” conta a história de Duc de Richleau ( Christopher Lee ) que descobre que o seu sobrinho está envolvido com rituais satânicos e magia negra, ele passa a usar os seus conhecimentos místicos para combater o mal e os livrarem dessa situação.

A produtora Hammer é icônica na história do cinema, trabalhou exaustivamente com alguns monstros famosos como o “Drácula” e a “Múmia”, aqui trabalha com a magia negra e consegue se sair muito bem. A técnica empregada pelo Terence Fisher dá um tom elegante e o roteiro é dinâmico e aproxima o espectador do conflito principal. É uma aula de cinema para os jovens, que teimam em se utilizar dos sustos gratuitos. Aqui acontece o contrário, existe uma atenção maior para com a história, depois os personagens, o visual e só depois vem a necessidade de provocar o medo. Contudo, como o foco está totalmente na ambientação, a sensação de urgência e o trabalho inteligente com elementos diabólicos traz a sensação de medo de forma mais pura, é realmente uma experiência prazerosa.

Ainda há espaços para algumas discussões sobre o mal e o ceticismo, o que é importante, mas em nenhum momento se torna o principal na narrativa. Felizmente é tudo singelo, trabalhado de forma delicada, destoando inclusive do próprio tema, sem dúvida se trata de um dos melhores filmes da Hammer.

“-Você acredita no mal?
-Como uma ideia.
-Acredita nos poderes das trevas?
-Como uma superstição.
-Estão erradas!
O poder das trevas é muito mais que mera superstição!
É uma força viva que pode atacar a qualquer momento da noite.”

A teatralidade, com ajuda do clima gótico, faz jus a mitologia que o filme alcançou posteriormente, tendo sido inspirações dentro da música, escritores, enfim, é impossível falar de terror sem citar essa obra maravilhosa, cercada de muita dedicação e carinho e, por que não, relacionada com a curiosidade e medo da sociedade na década de sessenta.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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Olhos de mamãe ensinam a crueldade e apatia

The Eyes of My Mother ( The Eyes of My Mother, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Pesce

★★★★★

É impressionante a sensação mágica que acontece – principalmente para os amantes do cinema obscuro – quando uma obra audiovisual consegue adentrar o espaço do incômodo, mas do que isso, estabelece toda a sua estrutura na invasão de privacidade e mostra, através de uma ótica quase imperceptível, os erros, segredos e psicológico doentio que existe em diversas famílias ao redor do mundo.

Ora, seria terrível terminar um filme como “The Eyes of My Mother” acreditando que os eventos registrados, por mais agressivos e insanos que possam parecer, dialogam com diversos casos reais de abuso psicológico por parte dos pais, abusos físicos e atitudes monstruosas relacionadas diretamente com a vingança.

Em dado momento, um homem que acabara de invadir uma casa e matar um ser humano, confessa para uma menina que o fez pois o assassinato provoca uma sensação brilhante. Ironicamente o filme começa com uma mãe explicando detalhes referentes aos olhos de uma vaca para sua filha, a cabeça do animal permanece sobre uma mesa enquanto há o diálogo trivial – mas não sem propósito – e tal abuso de poder não significa absolutamente nada para ambas.

Dirigido pelo estreante Nicolas Pesce com uma segurança exemplar, “The Eyes of My Mother” acompanha a história de uma família que mora em uma fazenda no interior de Portugal e suas reações nada previsíveis e sãs, após o assassinato da mãe/esposa.

A fotografia é brilhante, usa o preto e branco como uma forma de demonstração da alma dos personagens que, propositalmente, são desenvolvidos de forma flexível; é evidente a despreocupação em analisar toda a história dos personagens, essa é uma decisão que possibilita ao espectador preencher as lacunas com possíveis explicações para psicológicos tão corrompidos. Assim como os eventos partem de uma naturalidade que, por conta do contexto, se tornam horrorosos, o roteiro transmite a sensação de perdidão, como se estivéssemos sendo cúmplices do erro ou até mesmo as próximas vítimas, simplesmente por sabermos a verdade.

Por se tratar de um filme de curta duração – 76 minutos – o longa é inteligente em utilizar alguns artifícios técnicos para transmitir a ideia de forma direta, otimizando o tempo e direcionando o olhar para os pontos que realmente demonstram evoluções na narrativa: no primeiro ato a câmera na mão define que os eventos terríveis que acontecem desencadearão uma sequência de atitudes absurdas relacionadas à vingança; no segundo e terceiro ato a fotografia ressalta o isolamento da protagonista Francisca – interpretada maravilhosamente bem pela Kika Magalhaes – como, por exemplo, no momento que existe um plano aberto que preocupa-se nitidamente em reforçar a grandiosidade de uma floresta, em comparação com a personagem que, consumida pelo local, é invisível aos olhos da sociedade.

Kika Magalhaes dá a sua personagem uma carga emocional grande, mesmo que saia por vezes da atmosfera criada pela obra por conta de alguns exageros, volta sempre com muita elegância e se adapta rapidamente por conta da intensidade do seu olhar, sempre fixo e distante, mesmo nos possíveis momentos de afeto.

Ainda sobre a fotografia – que poderia ser dissecada por horas – é válido ressaltar os diversos trabalhos com a luz que, por diversas vezes, criam silhuetas, reforçando a ideia de que os personagens são sombras da normalidade, ocultando segredos e se mantendo à margem da sociedade. Outros momentos a janela é utilizada, em primeiro plano, como uma forma de barreira para com o mundo exterior – não coincidentemente suas divisões formam uma cruz invertida, símbolo que remete, dentre tantas coisas, à maldade.

O longa percorre a crueldade e incomoda com diversas cenas que, por serem tratadas de forma crua, outras vezes com cortes abruptos, instigam à imaginação e, principalmente, provocam o choque com tamanha realidade. Em uma cena, Francisca ainda criança após um ato de violência extrema que impedirá o assassino de sua mãe de falar, retorna aos braços do seu alienado pai e fala: “ele não vai mais falar… Te amo papai”, enquanto ouve como resposta o silêncio. Ou seja, o seu pai também não fala, como se todas as terríveis atitudes mostradas ao longo, remetessem não só as vítimas como aos abusadores, a família sofre da maldição da solidão, sem ternura, sem propósito, os olhos da mamãe ensinam apenas a crueldade e apatia.

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Shelley, 2016

Shelley 2016

★★★★

Shelley tem tudo para provocar o espectador, cria um clima soturno desde a primeira cena, a tensão se estende para os olhares, pequenos movimentos, enfim, o clima adentra o espaço da dúvida e a trilha ajuda a alimentar esse contexto sombrio.

Há muita comparação desse filme com o clássico “O Bebê de Rosemary”, de 1968, a influência é óbvia, no entanto nunca se desenvolve da mesma maneira. Aliás, é importante que aja filmes que estão dispostos a seguir o caminho dos clássicos psicológicos, é preciso abordagens diferentes, visto que o cinema de terror é inundado de clichê e sustos gratuitos.

“Shelley” é um filme dinamarquês, dirigido pelo estreante em longas Ali Abbasi – maravilha esses novos diretores do gênero que vêm surgindo ultimamente, todos extremamente corajosos e dispostos a quebrar as regras – e tem como história principal um casal, Louise e Kasper, que desejam ter um filho mas, mesmo com várias tentativas, não conseguem. Eles vivem em uma mansão isolada, aparentemente normal, e com a chegada de uma nova empregada chamada Elena, eles começam a ter uma relação de extrema confiança por conta da sua bondade e sinceridade, passando a vê-la como uma oportunidade de carregar o filho que eles tanto desejam.

O ritmo lento e contemplativo, unido com a trilha ameaçadora, lembra muito o outro ótimo filme lançado esse ano chamado “A Bruxa”; além do mais, outros dois pontos se assemelham bastante: a famosa divergências de opiniões daqueles que assistem e, por se tratar de uma obra diferente, creditam isso à uma pretensão por parte do realizador; E o papel de extrema importância da mulher. É evidente que o mistério se desenrola através da gravidez, algo extremamente sensível e de uma conexão extrema, e por isso é possível observar uma atenção especial para as personagens Louise ( Ellen Dorrit Petersen ) e Elena ( Cosmina Stratan ).

Ellen Dorrit Petersen, com sua presença eletrizante, dá a sua personagem uma frieza impressionante, com a expressão sempre serene, distante, parece se importar pouco com a sua empregada – que aqui mais parece um veículo – e o motivo constantemente parece nebuloso. Petersen já havia demonstrado os seus talentos no ótimo “Blind” que, no final de 2014, o coloquei na minha lista dos melhores do ano.

Quanto a Cosmina Stratan, com sua beleza angelical e a progressiva transformação, representa o espectador com todas as dúvidas sobre os acontecimentos, é assustadoramente impactante a transição da doçura, no começo do longa, e a raiva/obsessão do final.

“Shelley” promete e cumpre. É difícil se destacar em um cinema repleto de julgamentos, por isso é louvável a atitude do diretor em desenvolver uma obra que abraça alguns elementos já conhecidos, mas subverte com o silêncio e a incomunicabilidade, chocando pela diferença da narrativa, ambientação e performance das atrizes principais.

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O medo, o abandono e a opressão

Under the Shadow, 2016

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“O Exorcista” ( 1973 ), “O Bebê de Rosemary” ( 1968 ) e “Os Inocentes” ( 1961 ), esses foram os três únicos filme que me deixaram com muito medo, daquele jeito que o indivíduo fica uma semana acordando assustado, olhando para os lados e indo ao banheiro correndo. Detalhe: todos esses eu assisti quando era criança, portanto estava mais suscetível à esse sentimento.

E, em 2016, eu tive medo novamente. “Under the Shadow”, novo filme iraniano do diretor Babak Anvari – que dirigiu um curta maravilhoso chamado “Dois mais Dois”, cujo tema aborda o totalitarismo e controle, de forma direta, simples e inteligente – fala sobre o medo, abandono e opressão social, a história é mostrada de forma brilhante, envolvendo o drama com a angústia do isolamento até, por fim, mesclar com o misticismo, afim de provocar a tensão.

O filme se passa no fim da década de 80, onde acontecia uma guerra entre o Iraque e o Irã. Uma mãe e a sua filha são obrigadas a ficarem em um apartamento, em pleno bombardeamento na cidade. O desespero pelo enclausuramento se mescla com eventos paranormais. Drama e terror se confundem, o medo acaba sendo provocado pela própria situação catastrófica do país, enquanto conceitos sobre família, proteção e opressão à mulher vão sendo desconstruídos.

O longa começa apresentando a protagonista ( Shideh/mãe ) pedindo uma chance para voltar à universidade. No passado, ela fazia medicina mas o seu sonho foi interrompido por participar de revoluções políticas. Então o papel da mulher já começa a ser deveras importante para a compreensão da obra que, em suma, desenvolve o terror sob temas sociais e políticos.

A narrativa é importante e bem realizada, precisa ser a mais dinâmica possível sem soar artificial. A divisão dos atos é muito clara, até pela própria duração, o filme pede por uma montagem linear e isso é feito da forma mais coerente possível. Geralmente, em filmes populares de terror, há uma preocupação em encaixar os sustos da forma mais rápida possível, como se fosse a obrigação da produção para com o público. Essa pretensão infantil não calcula a essência do medo, o que não acontece aqui, Under the Shadow constrói tudo de forma lenta, preenchendo cada lacuna e estabelecendo a ordem para, só assim, entrar com elegância no caos psicológico.

Medicina cura vidas, ou pretende; guerras causam mortes. Um grande contraste. A protagonista vive em um meio que não a satisfaz, a menina rebelde e que lutava por uma causa política, dá lugar a uma dona de casa que se submete a concordar que fora uma “adolescente estúpida que nem sabia o que era direita e esquerda”. A sensação claustrofóbica já está presente na cena inicial, uma desilusão e impaciência, provocados pela ganância política e desdém do poder para com seu povo.

O terror começa quando a mãe e a filha ficam sozinhas. Por ser um filme iraniano, a paranormalidade se sustenta sobre a crença do Islamismo – que, por sinal, possui um dos infernos mais cruéis que existe – e será abordado nomes como Iblis que, na verdade, é o demônio do Islã.

[ Iblis é retratado como sendo uma criação do próprio Alá e que foi rebaixado após recusar-se a submeter aos homens que foram feitos do barro. Para ele, uma criatura que se originou no fogo era mais grandiosa do que todos. Como curiosidade, para alguns pensadores, Iblis possuía uma crença monoteísta. Afinal, ele rejeitou-se se ajoelhar perante qualquer criatura que não fosse Alá. ]

O fogo provocado pela guerra é o mesmo que Iblis se originou. O temor nasce do abandono, percorre a incerteza e cresce na resistência. Há cenas assustadoras, simples e impactante, como um momento que vemos Shideh dormindo, em uma filmagem vertical e a câmera gira quando a personagem fica frente a frente com a filha. É relevante esse momento pois o fato de ser mãe consome muito a protagonista, apesar de amar a sua condição, ela se vê fraca e desamparada, e é nesse ponto que mora a importância da personagem Dorsa – interpretada brilhantemente pela Avin Manshadi: exigir da sua mãe o processo contínuo de reflexão sobre a sua postura.

Como exercício narrativo, é válido perceber que todos elementos e cenas que envolvem o susto ou medo estão estreitamente conectados com os sentimentos mais profundos da personagem principal – isso é confirmado quando ela coloca uma fita na janela para proteção dos vidros em um possível bombardeio, e a sombra forma um “x” em seu rosto, como se ela/população fossem o alvo da guerra.

 Outra cena de suma importância é quando Shideh sai de casa sem a túnica – por conta do tormento causado pelas assombrações – e vai presa. Na volta, quando fecha a porta, ela se assusta com a sua própria imagem no espelho e tira a túnica, como um ato de revolta para com a sua condição, principalmente as ordens e julgamentos que lhe são impostos diariamente. Novamente, ela convive com o demônio dentro de si.

“Uma mulher deve temer a exposição acima de qualquer coisa”

Com uma abordagem inteligente e precisa, Under the Shadow é brilhante na concepção do terror psicológico. Transformando cenas simples em poesias por conta da crítica social e opressão à mulher, provoca o medo como há muito tempo não sentia. A atuação da Narges Rashidi reforça a atmosfera sombria, no mesmo tempo que a utilização dos espaços da casa é muito oportuna para a sensação de aprisionamento. Um dos melhores filmes do ano.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

terror-2016

No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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The Children, 2008

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★★

Só o fato de um filme usar crianças como vilãs é interessante, existe uma inconfundível certeza de que, se bem trabalhado, a obra poderá provocar o espectador com a sensação de desconforto, afinal, se trata de uma figura inocente e, talvez, uma das últimas que relacionamos quando o assunto é medo, morte, frieza, etc.

Tom Shankland dirige “The Children” com segurança, começando as primeiras cenas com aquelas clássicas reuniões de famílias para a comemoração do natal e, junto com toda essa felicidade, existe uma jovem – no auge da sua independência – reclamando por estar distante dos amigos. Por outro lado não há, na direção e roteiro, ousadia o suficiente para tentar algo diferente, a apresentação e o desenvolvimento só soam interessantes pela própria trama: as crianças dessa família vão, ao longo do tempo, mudando de personalidade até se transformarem em pequenos assassinos e sádicos.

A estrutura da narrativa é bem clichê, mas existe um desconforto real pelas modificações tão bruscas no comportamento das crianças, apesar de que, se por um lado as crianças chamam a atenção e se destacam – Eva Sayer, Raffiella Brooks e William Howes merecem boa parte dos créditos pela verossimilhança no que diz respeito as transformações. Aliás, vou além e afirmo com propriedade que eles merecem, também, os créditos por boa parte da qualidade do longa – os adultos de “The Children” são tão mal resolvidos que chega ao cúmulo de serem infantis. Não adianta trabalhar tanto os vilões ou o mal, quando não existe empatia de quem assiste por aqueles que deveriam sobreviver. O desejo aqui é que os adultos/fantoches morram o mais depressa possível e que as crianças malvadas reinem. Isso poderia até ser interessante, mas visivelmente a proposta era completamente diferente.

Não há nenhuma explicação sobre o porquê dos eventos, isso desencadeia uma série de erros como a velocidade das mortes e os dilemas frágeis que surgem ao longo dos 84 minutos. Ainda que exista duas ou três boas cenas – uma em específico é aterrorizante, mas em nenhum momento inédita -, o filme não possui aquele charme comum em filmes com criancinhas do mal e acaba não conseguindo sustentar a premissa poderosa que cria nas primeiras cenas.

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O Espelho, 2014

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★★★★

Você pode ler as outras críticas sobre os filmes do diretor Mike Flanagan clicando aqui.

Depois de experimentar três trabalhos do diretor, era a hora de reassistir o seu mais conhecido, “O Espelho”, de 2014. No ano do seu lançamento, lembro-me desse filme figurar em muitas listas dos melhores do gênero terror, o que me espantou, pois acreditava se tratar de apenas mais um genérico, com todos os clichês incluindo crianças, cachorro e casa assombrada; mas o fato de haver um “espelho” me chamou a atenção, por se tratar de algo indefinido e repleto de simbolismo, desde muito tempo e em muitas culturas diferentes. 

Como já era de se esperar, o diretor Mike Flanagan sempre se preocupa em trabalhar com elementos incomuns para acrescentar no clima estranho de suas obras, aqui ele aborda dois irmãos que presenciam, na infância, a morte de seus pais, de forma extremamente perturbadora. Eles relacionam os eventos terríveis à um espelho amaldiçoado, e prometem um para o outro que, quando crescerem, destruirão o objeto misterioso para ninguém se machucar novamente e, também, como uma forma de vingança.

A sinopse já revela um ponto interessante da obra: ambos irmãos já têm conhecimento da paranormalidade, restando ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça ao longo do primeiro ato para compreender o porquê eles possuem tanto interesse em um espelho velho. É um pequeno detalhe, mas para filmes assim funcionar é preciso algumas alterações, como é o caso dessa inversão. Geralmente temos uma apresentação conjunta, tanto o espectador quanto os personagens vão entendendo e acreditando nos eventos paranormais, aqui ele já está muito bem estabelecido, é como se largasse na frente de forma inteligente e direta.

Quando Tim sai do hospital psiquiátrico – que o força, durante anos, a acreditar que os eventos do passado não têm nenhuma ligação com o sobrenatural – e encontra a sua irmã Kaylie, ela já possui uma série de ferramentas para usar contra o suposto perigo, embora possa cair por vezes na imaturidade de apresentá-los quase como um filme de ação – ela, por vezes, parece ser uma espécie de espiã – o interessante é que essas ferramentas são, na sua maioria, tecnológicas, é como se existisse nela o interesse desenfreado de registrar o oculto através de equipamentos mundanos e suscetível ao erro.

O núcleo é apoiado na relação entre os dois irmãos, como se eles fossem os únicos a compreender as verdades do mundo e incapazes de provarem a sua sanidade e no registro através de filmadoras, quase como um experimento amador. No entanto, o desenrolar só ganha proporções maiores com o trabalho dedicado do diretor em mesclar os eventos do presente com fragmentos do passado, parece que o próprio passado é o demônio que transtorna os irmãos, e a relação que se estabelece entre Tim e  Kaylie ainda crianças e Tim e Kaylie adultos, é extremamente eficaz. Em diversas vezes essa opção confunde, propositalmente, essas duas linhas do tempo acabam se tornando uma só. Aliás, essa mesma estratégia foi usada posteriormente, pelo Mike Flanagan, em Sono da Morte, só que nesse caso era o mundo dos sonhos, que por sinal também tinha relação com o passado.

Quanto aos atores, destaco a Annalise Basso que chama tanto a atenção com a sua qualidade, que a Kaylie Russell criança se torna até mais impactante do que adulta, se mostrando sempre forte e preparada, apesar de transmitir muito medo. A atriz Annalise Basso já havia demonstrado um certo talento em um filme bem divertido chamado “Ilha da Aventura” e, além de fazer parceria com o Mike Flanagan, anda fazendo alguns trabalhos alternativos. Outro destaque é a atriz Katee Sackhoff que faz uma mãe que desmorona após perceber as mudanças psicológicas do marido, sua expressão sempre perdida e apreensiva chama a responsabilidade e até ofusca o Rory Cochrane que, sem dúvida, é o único que não faz jus ao seu papel.

“O Espelho” é mais uma prova que o cinema de terror pode inovar, apesar de ser extremamente complicado, basta pequenas novas ideias e talento, algo que já podemos esperar do jovem Mike Flanagan, sempre nos entregando obras, no mínimo, interessantes.

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