Olhos de Ressaca – primeiro curta de Petra Costa

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No final desse lindo filme – o primeiro da diretora Petra Costa – acompanhamos com um sorriso no rosto e algumas lágrimas pedindo licença, os créditos finais. Percebemos que o nome da diretora aparece em vários setores como produção, roteiro e montagem; isso provaria, em outra análise, o quanto é difícil fazer cinema independente no Brasil, restando ao artista abraçar todos os pequenos detalhes da sua obra. Mas após “Olhos de Ressaca” essa afirmação é contraditória; a onipresença por parte da realizadora é quase uma devoção exagerada, uma mãe que abraça a sua arte e, por descuido, a devora.

Petra Costa é uma preciosidade que transita por entre a sensibilidade humana, dialogando direta ou indiretamente com a perda e, na maioria das vezes, consegue achar o brilho na ausência pela sua postura crítica e revoltada diante da normalidade. Ela inverte o normal e agride o tempo, consultando-o como um oráculo mas se desviando constantemente das suas obrigações.

Como documentarista, destaco a sua humanidade que, ligado com a sua visão fotográfica, consegue registrar o eterno de pequenos movimentos; o colorido do preto e branco e a vida da morte. Ela ultrapassa a barreira da vida e cria poesia com a sugestão, faz sorrir com a sua montagem e, por fim, nos relembra da importância do equilíbrio.

Esse documentário percorre a vida de dois seres humanos, casados há 60 anos: Gabriel e Vera. Eles falam como se conheceram, a intensidade, passando pela aceitação até culminar no carinho. Talvez o amor seja esse sentimento profundo de querer bem, simplesmente. Quando o fato de ser casado não atinge mais a obrigação e o “dois” se transforma em “um”.

O título do filme faz referência à um trecho do livro “Dom Casmurro“, onde há uma descrição dos olhos de Capitu como sendo “olhos de ressaca”. Àquele olhar que trás tudo para si, contempla o mundo e o devora. O amor é improvável demais, parte de um desencontro, por isso, é uma sincronia perfeita de ilusões.

Em uma cena, Vera está na piscina e começa a tocar “Valsa para a Lua“, do Vítor Araújo. Exatamente no momento em que ela começa a falar da sua mãe, que falecera. Então é questão de segundos para percebemos que Petra não veio ao mundo por acaso, ela tinha que deixar suas emoções e esperar que outros pudessem entender tanto quanto ela. A brevidade da vida não tira a emoção de viver, mas nos dá humildade para o fazer com calma.

Se alguém apontar o dedo para você e te julgar por conhecer pouco da vida, por ser criança… diga, com todo orgulho do mundo: “eu vi a alma de Petra Costa“.

“olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.”

  • Texto sobre o documentário “Elena”: clique aqui.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Juventude, 2015

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★★★★★

Paolo Sorrentino é, impressionantemente, um jovem de 45 anos. Utilizo essa expressão pois sua capacidade de estudar o tempo e a velhice é sublime e envolta de muita sensibilidade/maturidade. No seu mais recente trabalho, “Youth“, o diretor brinca com uma linguagem desprendida, repleta de referências e informações – imediatamente lembrei-me do “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain“, pois ao assistir o filme francês o sorriso no canto da boca também permanece constantemente – e mistura alguns elementos melancólicos que podem ser vistos em dois trabalhos específicos da diretora polonesa chamada Dorota Kedzierzawska: “Koniec Swiata” (1988) e “Pora umierac” (2007). Ambos exemplos refletem sobre a passagem do tempo, perda e aceitação.

O cinema é uma ponte para catarse. Existem poucos filmes hoje em dia que se destacam por serem tão carinhosos. Essa ponte nos leva para vários lugares, várias idades e encontros, mas muitas vezes nos proíbe de imaginar o futuro. O cinema popular cria exaustivamente um mundo futurístico, com pessoas imortais ou dotadas de muitas facilidades. Mas seria mesmo o fim a insipidez da existência? Talvez a monotonia se forma e ganha forças através da nossa indiferença com o idoso e com os ganhos que o tempo nos dá.

Focalizamos o arrependimento e esquecemos que o fim não representa, necessariamente, o encerramento do espetáculo. O fim não é, nunca foi e nunca acontecerá de forma súbita. O fim é um processo, uma estrada, e cabe ao ser, de forma individual, escolher entre isolar-se ou doar-se.

Juventude” conta a história de um maestro aposentado chamado Fred – interpretado maravilhosamente bem por Michael Caine – e o seu amigo cineasta Mick ( Harvey Keitel ), eles estão passando as férias em um hotel luxuoso enquanto refletem sobre o passado, futuro, amores, enfim, a vida. Mick tem o desejo de realizar um último filme, que teima em classificá-lo como o seu testamento.

Mick, explicando a sua ideia para a realização do novo filme – vale ressaltar que ele teve uma carreira brilhante no passado, porém com o tempo a qualidade dos seus filmes foi diminuindo – diz que se chamará “O Último Dia da Vida”. O que escrevi sobre o “fim” acima, é a representação dessa obra que ele sonha realizar. Além de que esse filme é uma metalinguagem, pois se trata do próprio “Juventude” que, por sua vez, é repleto de referências – como comprovação, na última cena do filme, temos Mick fazendo um enquadramento para o próprio espectador, sugerindo também uma inversão de papeis, ora, por segundos o espectador se torna o “capturado” e, assim, parte do testamento.

As referências não param por ai – e seria impossível dissertar sobre todas – vejam por exemplo o personagem do querido Paul Dano, Jimmy Tree. Ele é um ator frustado pois mesmo fazendo diversos filmes alternativos só é lembrado por um filme popular de robôs. Paul Dano, por outro lado, se destaca também por filmes alternativos, apesar de serem conhecidos sempre exigem do ator uma mudança, mesmo que sutil.

A relação entre os dois amigos é tão natural e delicada, que é incrivelmente fácil adentrar naquele universo. Vivenciamos aquela paisagem maravilhosa, a trilha sempre oportuna, a fotografia que demonstra com perfeição a psicologia dos personagens, entregues aquela vida equilibrada, com poucas aventuras ou responsabilidades. A aventura, de fato, são os diálogos. Sempre pontuais, interessantes e, por vezes, engraçados.

A filha de Fred, Lena – interpretada pela lindíssima e talentosa Rachel Weisz – está presente no filme como um contraponto a tranquilidade já citada. Ela está em meio a uma separação e possui diversos ressentimentos em relação ao pai. E é através da sua visão que vamos conhecendo as falhas do maestro, afinal, pouco sabemos sobre sua história.

Tanto o cinema, como a música – que aqui representam a arte como um todo – aproximam e distanciam Fred e Mick do mundo. Lena diz em certo momento que o seu pai trabalhava constantemente e as palavras que mais dizia para ela era “silêncio Lena“. Não é contraditório um musico almejar silêncio? Seria o verdadeiro artista o maestro que se distancia de todos para trabalhar ou o homem simples que aprecia ouvir a família, o outro?

A resposta para essas perguntas, no filme, assumem a forma de uma jovem massagista ( Luna Mijovic ). Em dado momento ela afirma que “é possível entender tudo com o toque“. Ou seja, algo que o protagonista nunca teve com sua filha, porém, “Juventude” é uma obra prima e transforma o testamento em redenção, por isso, Fred acaricia de leve o rosto de Lena a noite, ela acordada sente, mas finge estar dormindo. Mas, no fim, “os pais sabem quando os filhos estão fingindo dormir”.

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CdA #12 – O Curioso caso de Benjamin Button

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Participaram desse podcast: Emerson Teixeira, Sandro Macena, Matheus Souza, Paulo Ribeiro e Rafa Tanaka. Edição de: Diego Pinto.

Foi com muito carinho que falamos sobre O Curioso Caso de Benjamin Button. Falamos mesmo do personagem e sua visão sobre o amor, morte e tempo. Por isso não esperem encontrar um papo de todas as cenas, pelo menos em ordem cronológica, pois o que fizemos foi destacar o quão esse filme consegue, com toda a sua magia e simplicidade, resgatar esses temas em nossos corações.

Uma obra super relevante que nos faz respirar forte e dizer baixinho “Tenho que seguir em frente”. Otimista ao extremo, com dose de melancolia e surrealismo, aliás, somos todos Benjamin(s) Button(s) à procura da nossa Daisy – leia-se uma pessoa disposta a fazer do tempo dela, o seu. No final, toda e qualquer relação só dá certo no meio. A vida é feita de momentos e são justamente esses momentos que nos movem a compartilha-lho com a mulher de olhos azuis que, quando crianças, juramos nos amar em todos nossos encontros pelo mundo. Seja na Russia ou na china. Só tenho a dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar.

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Carteiros nas Montanhas, 1999

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★★★★★

“Carteiros nas Montanhas” é mais um bom exemplo de filmes perdidos que, quando descobertos, raramente passarão despercebidos. O que me cativa em cinéfilos é essa disposição em nunca guardar para si pequenas preciosidades e, portanto, vou seguindo essa onda pedindo que você, leitor/amigo, procure essa obra.

Filme Chinês, dirigido por Jianqi Huo, conta a história de um senhor, ele foi carteiro por anos, andando muito por várias regiões e, por conta disso, é conhecido por muitos e amado por alguns, o interessante é que a figura do carteiro se revela extremamente importante. Ele está prestes a se aposentar e visando passar a sua responsabilidade para alguém de confiança, o filho se prepara para assumir sua função. Mas a última viagem – que dura em média três dias – os dois farão juntos, o filho está prestes a descobrir o seu trajeto, enquanto o pai está próximo de descobrir um pouco sobre o tempo e como o mesmo se desfaz por entre os dedos. Mas “Carteiros nas Montanhas” é, de fato, um vislumbre audiovisual, onde a relação de pai e filho é protagonista de uma belíssima história de amor.

O caminho é árduo, isso fica claro, aliás, é uma mensagem dita quase que constantemente. O filho não tem noção da responsabilidade que sua nova função exerce sobre as pessoas, pequenos povoados, sem luz ou acesso a informação como temos hoje, a maneira de escapar é justamente com a comunicação. O carteiro, um agente da possibilidade, representa uma fuga do convencional. Eu escreverei, basicamente, sobre cinco elementos ao longo dessa crítica: pai, filho, tempo, amor e caminho.

Caminho

É muito fácil nos lembrarmos dos famosos filmes Road Movie ou filmes de estrada, onde temos a estrada como canalizador de transformações dos personagens, na maioria das vezes, em crise. O caminhar vai acontecendo, o sujeito se fazendo. Como um feto que se desenvolve na barriga da mãe, temos um homem conquistando a sabedoria de saber quem é. Isso acontece aqui de uma forma diferente, o pai e filho transitam por entre imagens do campo, florestas, paisagens que remetem diretamente ao puro.  Enquanto encontram personagens que já conhecem o pai, portanto, conhecem o filho. Mesmo que com desconfiança, eles vão aos poucos entendendo que tudo na vida chega ao fim. Aquele que dedicou sua vida e saúde para ajudar, precisa deixar sua bondade de lado e seguir em frente, tentando espalhar seus ideais. Por isso em diversas cenas o filho olha para o pai como um mestre, um professor. Até um simples ato como fumar soa tentador ao filho e, quando o faz, exprime um longo sorriso no rosto por estar imitando o seu pai. Os dois vão trocando de papel, aquele que um dia cuidou, passa a ser cuidado. Aquele que um dia dedicou, passa a ser expectador. Aquele que um dia aprendeu, precisa lidar com a paciência, para entender que cada um tem o seu próprio tempo. O caminho está tão presente nesse filme, que seria impossível detalhar o quanto se torna sublime no roteiro acompanharmos esse rito de passagem. Menino para homem. Homem para sábio.

Tempo

O tempo é motivo para dor de cabeça em muitos, inclusive para mim. É incrível como vai indo, sem ao menos explicar o motivo. Se transforma em lembranças ou em medo. Cada um aprende a encarar o seu, de frente, não de costa, como é recorrente. O pai, no filme, conheceu a sua mulher durante uma das viagens. Ele sempre contemplava o silêncio, enquanto o filho utiliza-se do artifício do som – com o seu pequeno rádio – para se esquivar do sentimento de solidão. Seria então o garoto mais sensível que o pai? Ou simplesmente o pai já passou da fase em que estar só pode ser traduzido como solidão. Me parece que ele se sente sempre bem acompanhado, seja com o seu fiel cachorrinho, ou com o vento. O vento parece um fantasma, nesse caso amigo, que vai soprando a sua direção, ele se mostra sempre como uma figura centrada, que sabe o que faz, só pode ser ajuda espiritual, ou seria apenas dedicação. Aliás, seria o filho, um dia, capaz de conseguir atingir o mesmo patamar?

Amor

Eu me considero um religioso pois acredito no amor. É o que nos liga, direcionando-nos a fé de não simplesmente existir. Exigindo-nos a capacidade de sentir. O pai vai com o filho, para iluminar o seu caminho, o filho se sente envergonhado com a sua presença, mas ali só existe respeito, mútuo, inclusive. O pai não é um diplomado, ou algo banal como isso, ele é um ser que sabe valorizar. Ele valoriza o espaço e, principalmente, o que faz, independente do que seja. O filho é a representação dessa nova geração, lembrando que o filme é de 1999, que faz as coisas mas não para e pensa, de fato, no que está construindo. Será que construímos algo sem amor? Eu diria que não, ambos personagens se conheciam muito pouco. O pai é um viajante, quando o menino nasceu ele estava longe de casa, mas as cicatrizes da infância perdida estão lá, ele pode se redimir com sua própria consciência e perguntar o motivo delas.

Em determinado momento, os dois encontram uma velhinha cega. Aproximadamente de 15 em 15 dias o carteiro(pai) senta ao seu lado, lhe entrega uma carta do seu neto – agora um rapaz intelectual e rico – e lê o que ele escreveu. O porém é que o neto nunca escreveu uma carta para a avó. O carteiro inventa coisas, para confortar o coração magoado da senhora. Ele então, junto com seu filho, vai ler a sua última carta para ela. Ele para no meio da leitura, e dá a vez ao filho. Momentos depois, longe da velhinha, eles conversam sobre isso, o filho indaga – visivelmente impaciente – que essa é uma obrigação do neto, não do carteiro. O pai não fala muito sobre isso, não precisa. Como se soubesse o tempo todo que, durante o percurso, os ventos assoprariam as respostas. O amor é isso, confortar corações independente do porquê.

Pais e filhos

O pai tem um grave problema nas pernas. Isso se agravou com o tempo pois ele vivia passando nas águas para prosseguir no seu caminho. Até que o filho chega nesse lugar, onde a água é um obstáculo e, no mesmo tempo, velha amiga do seu sábio. Ele se preocupa tanto com o pai, mesmo que essa fosse sua última vez, que acaba o carregando nas costas, para não molhar os seus pés. Como um rei em seu trono, nesse caso, o trono é sua criação. O pai, sempre sério, se desmancha em lágrimas no ombro do seu filho, enquanto se lembra dele criança, onde o carregava no cola, ainda bebê. Ao fundo temos uma narração em off – teremos bastante ao longo do filme, inclusive – onde o filho fala: “dizem que quando o filho consegue carregar o pai nas costas, significa que ele se tornou um homem”. Essa relação me causou uma comoção muito grande, bem como um mal estar. Desde criança sonhava com um super pai, que eu pudesse super me inspirar, profissionalmente ou não. Mas eu só consegui distância. Hoje, atingindo uma certa maturidade, resgato sentimentos e carinhos de outras formas mas, sem dúvida, o cinema me ensinou e me ensina ainda hoje que a única coisa que realmente importa é ter carinho pelo que faz. Seja ser pai, ser filho, profissionalmente ou emocionalmente. Agradando a nós mesmos, viveremos entregues, viveremos completos e em ordem com o nosso tempo, nosso caminho e nossos amores.

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