Helpless, 2012

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★★★★

O cinema Sul-Coreano sempre surpreende e não é de hoje que afirmo, com convicção, que se trata de um dos melhores cinemas da atualidade. O motivo é muito simples: Há uma preocupação por parte dos diretores em mesclar um bom roteiro com uma direção extremamente consciente e honesta. Não existe muita preocupação em exibir todos os truques do mundo para contar uma história, apenas o essencial. Essa simplicidade técnica é crucial para o desenvolvimento das tramas que, como é o caso de “Helpless”, depende do seu mistério para prender a atenção.

Essa postura citada dos diretores coreanos parece ser parte de uma fórmula própria do cinema Sul-Coreano, isso porque até mesmo diretores novatos em longas conseguem resgatar essa necessidade e, muitos, o fazem com perfeição. Como é o caso de Young-Joo Byun, diretor de “Helpless” que segue o padrão mas nunca cai no clichê dos filmes de investigação por investir no seu protagonista e em uma série de dramas que o perseguem, principalmente vinculado ao “abandono”.

A história é super simples e direta: Um casal está prestes a se casar e, de repente, a noiva some. O que desencadeia um verdadeiro desespero no noivo e ele parte então para uma investigação junto com um policial para encontrar sua mulher. Mas durante o processo ele começa a perceber que nunca conheceu, de fato, a mulher que ele dividiu momentos felizes e sonhos.

Começo ressaltando a performance dos atores Lee Hee Joon e Kim Min Hee – o noivo e a noiva, respectivamente -, dando um maior destaque para o primeiro. A investigação existe nos filmes da Coréia do Sul, é um tema muito “investigado” por esse cinema. Contudo, o aspecto mais importante de “Helpless” é que, em nenhum momento, o filme se entrega ao suspense ou abraça a tentativa desesperada de criar tensão. Muito pelo contrário, desde o começo, através de algumas decisões técnicas, o diretor parece mais interessado em analisar o sentimento de abandono por parte do noivo, do que criar a dúvida no espectador. Aliás, essa dúvida pode surgir através da empatia pelo sofrimento de Seung-joo. Afinal, quais as consequências psicológicas de uma barreira colocada de forma brusca entre o protagonista e o amor/sonho de se casar?

O casamento na Coréia do Sul é visto de forma diferente, há uma série de pretensões diferentes do mundo ocidental. Até por esse motivo existe algumas cenas que remetem a dor e solidão de forma extremamente impactantes e, no mesmo tempo, inacreditavelmente sutis.

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O casal é apresentado logo no início do filme, em um dia chuvoso a noiva – Kyeong-seon – olha através do vidro e a sua expressão se relaciona subliminarmente com o incomodo. Contrastando com o olhar alegre do noivo – Seung-joo -; Esse olhar por sinal é intimidador, assim como as cenas das lembranças que parecem sempre querer extrair o máximo o desejo de proteção por parte do noivo.

Ainda nas primeiras cenas a noiva desaparece. E a fotografia vai ficando cada vez mais soturna, com muitas sombras e o personagem envolto de cores azuis, desde sua roupa até a própria iluminação no exterior das janelas.

Essa mesma fotografia escura, remetendo-nos a melancolia, dá lugar a luz e claridade das primeiras cenas de flashback, onde vemos o noivo e a noiva conversando sobre o casamento e os impactos dessa união em suas vidas posteriormente. Engraçado é ressaltar que, além da luz, outra coisa que agride emocionalmente o espectador é a forma que o Seung-joo abraça Kyeong-seon, como se estivesse gritando “por favor, não vá embora“.

Um pouco antes do flashback. Fotografia soturna, protagonista mergulhado na depressão.

Um pouco antes do flashback. Fotografia soturna, protagonista mergulhado na depressão e sentado em frente a um quadro do seu casamento, a sua fuga.

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Super exposição da luz, que transmite a ideia de paz, bem como transforma a noiva em uma deidade, visto que a luz está bem direcionada à ela

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Uma superproteção por parte do noivo. No mesmo tempo que a noiva se “sufoca” com esse amor, como se não fosse merecedora de tal afeto.

Young-Joo Byun não está preocupado com reviravoltas – até porque nesse quesito o filme não surpreende -, mas é possível sentir o quanto está obcecado em levar esse sentimento de perda à quem assiste. É um verdadeiro ensaio sobre o “desprender”. Tanto que durante as investigações o diretor opta por planos que deixam o protagonista sem espaço, aprisionando-o em alguns objetos de cena, o que imediatamente transmite a sensação de claustrofobia.

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Existe também um certo momento, mais ou menos na transição do primeiro para o segundo ato, onde o desespero para encontrar a noiva dá lugar a ansiedade de saber quem ela é. Justamente nesse ponto o filme se torna mais desesperador, de forma sublime vamos desvendando pequenos detalhes sobre a vida da noiva e percebemos que ambos são vítimas de suas próprias expectativas.

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Uma cena que ilustra visualmente toda a proposta do filme é um momento que vemos o protagonista sentado, em frente ao mesmo quadro do seu casamento que aparece logo nos minutos iniciais só que, desta vez, a iluminação exterior é azulada, o quadro ganha as cores azuis ao seu redor e desconstrói aquela iluminação, fruto de uma esperança em outrem que, como mostrado, não passa de uma ingenuidade, talvez todos os indícios estavam presentes desde o início, mas a paixão o tornou ignorante e cego.

Continuando as cenas impactantes é impossível não citar brevemente o final que, diferentemente do óbvio, não se utiliza de uma explosão da trilha sonora, muito menos exageros na atuação e direção, pelo contrário, tudo muito orgânico e natural, mesmo com a situação deveras estranha. É quando o ator Lee Hee Joon atinge o limite da sua performance e nos brinda com um desfecho maravilhoso, digno de uma obra extremamente preocupada com os detalhes e que sabe mesclar a direção e fotografia para criar uma obra extremamente obscura e, no mesmo tempo, melancólica.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Absentia, 2011

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★★★★★

Depois de assistir “Hush- A Morte Ouve” e “O Espelho” me interessei bastante pelo trabalho do jovem diretor Mike Flanagan. Em uma gravação de podcast, a querida Angélica Hellish do Masmorracast recomendou aos participantes o longa “Absentia”, de 2011, primeiro longa do Mike. Então eu não poderia começar essa crítica de outra forma que não seja agradecendo minha amiga pela experiência cinematográfica que ela me proporcionou através da sua indicação. Muito obrigado Angel!

Se discutia bastante, há algum tempo, sobre a qualidade dos filmes de terror e a mesmice do processo criativo para criar a atmosfera do medo. No entanto, parece que alguns festivais de cinema apostaram suas fichas no terror e, alguns casos específicos, se tornaram de fácil acesso do grande público. Mesmo que muitos não tenham compreendido a proposta, como é o caso famoso de “A Bruxa“, é impossível negar que andou aparecendo coisas no cinema que ultrapassaram alguns limites impostos pelo gênero e até mesmo utilizaram o clichê ao seu favor.

Um nome, ainda desconhecido, que vêm demonstrando um talento extraordinário é o Mike FlanaganCom apenas 37 anos, ele parece ser uma grande aposta para o futuro, pois consegue transformar algo simples em verdadeiras preciosidades, muito por conta da sua ousadia em lidar com alguns elementos técnicos ao seu favor, como o som. Escrevi na crítica de “Hush- A Morte Ouve” sobre a importância do som no filme, então me senti bem mais familiarizado quando me deparei com o seu primeiro longa, “Absentia” que abusa das ausências e distorções para compor uma atmosfera, no mínimo, claustrofóbica.

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“Absentia” começa nos apresentando uma personagem chamada Tricia, ela está colando diversos avisos nos postes do bairro e, no desenrolar, sabemos que se trata do seu marido, que está desaparecido há sete anos. Essa personagem esta vulnerável emocionalmente por causa desse desaparecimento, é visível desde os primeiros vinte minutos. Isso sem contar a gravidez, que a mantém ainda mais isolada do mundo e a centraliza nos problemas e preocupações. Mesmo o filme sendo de baixo orçamento, é possível perceber muita atenção com os detalhes e, principalmente, no uso do som para acrescentar veracidade à esses dilemas e medos que a personagem está vivendo. É tão desmesurado essa atmosfera fúnebre, que o filme poderia parar nesses problemas do desaparecimento, da vida solitária, etc, que já seria uma excelente obra; mas ele expande e caminha por outras direções.

“Absentia” atinge um nível ainda mais alto com a Callie, irmã da Tricia, que aparece na casa da irmã para ajudá-la com a gravidez e lhe fazer companhia. Essa irmã teve problemas com drogas e será a motivadora de algumas mudanças cruciais no filme.

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O terror começa a acontecer desde os primeiros minutos. Mas não se sabe ao certo o motivo. Após algumas explicações, a Tricia começa a ter algumas visões do seu marido dentro de casa. Mas o brilhantismo é a forma visceral, natural e até mesmo sutil, que essas aparições vão acontecendo. É tão incerto, que todos os objetos da casa parecem que assume formas assombrosas e prende a atenção do espectador, como se ele soubesse que algo terrível pode acontecer, mas não tem absolutamente nada gráfico! São sensações e uma angústia desconfortável que vão exigindo de quem assiste um alto grau de atenção, como se, aos poucos, fosse se sentindo desprotegido, assim como as duas irmãs.

Depois de assistir ao famoso “Corrente do Mal“, fica bem óbvio o quanto o som e músicas são importantes para criar a tensão. Em “Absentia” acontece o mesmo – lembrando que o filme é de 2011, ou seja, quatro anos antes – e, por incrível que pareça, a experiência é muito parecida. Os sons distorcidos, a brincadeira com sons diegéticos e não diegéticos – principalmente com Callie e seu fone de ouvido – contextualiza quem assiste na realidade sombria da cidade onde há desaparecimentos misteriosos.

Outro ponto interessante é que o filme não força o susto em nenhum momento, por vezes há uma ausência total de som, mas não como um artifício de acumulo de atenção para, posteriormente, assustar com um barulho enorme como na maioria das vezes. A ausência de som existe para situar-nos, também, na mente da personagem. Por diversas vezes Tricia está meditando e não há som algum, como se a moça estivesse em um outro universo. Essa ausência de ruídos dissipa os olhares, ponderamos a aparição de qualquer coisa, pois o corpo da personagem está ali, mas sua mente não, portanto, demonstra com perfeição mais uma vez a fragilidade que existe, despertando o inerente desejo de proteção.

O jovem diretor ainda nos proporciona momentos interessantes, quando por exemplo acompanha o olhar assustado da protagonista diante a uma escuridão e, aos poucos, “adentra” ele. Como se essa sombra estivesse possuindo as pessoas e cidade, assim como o próprio túnel – lugar chave dos inúmeros desaparecimentos da cidade -, que surge e é trabalhado de forma extremamente assustadora, se tornando um elemento a parte que, só de olhar, provoca desespero.

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Nas primeiras imagens reforça a ideia da grandiosidade do túnel. Parece que “suga” Callie e a transforma em prisioneira. No entanto a luz em sua cabeça, parece ser um indício da sua inconformidade e força. O túnel poderia representar, literalmente, o mal. E diversos males do mundo, como o próprio desaparecimento ou o vício. Mas são pontos a ser discutidos, o fato é que “Absentia” é uma obra espetacular, que investe pesadamente no clima e usa todos os artifícios técnicos a favor de uma empatia e preocupação com os personagens.

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Hush – A Morte Ouve, 2016

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★★★★

O meu apreço por filmes de terror/suspense/thriller vai muito além do entretenimento. Desde criança me divirto com fantasmas, mundos destruídos, monstros, assombrações, mas acima de qualquer sensação penso que eu sempre tive uma curiosidade em compreender o medo. Sempre achei fascinante o nosso instinto de proteção ou até mesmo o horror do desconhecido, que vão desde situações novas até o próprio escuro.

Alguns filmes de terror conseguem transitar por entre o clichê e utilizar todos os artifícios já criados ao seu favor. É o caso do excelente “Corrente do Mal“, lançado ano passado. Isso mostra não só a força do gênero, como também a realidade: os filmes de terror possibilitam ao diretor, através do medo e apreensão, refletir sobre diversos aspectos da psicologia humana.

“Hush – A Morte Ouve” foi lançado pela Netflix – plataforma que vem surpreendendo bastante com os seus filmes – e, rapidamente, ganhou bastante estrelas no site. O filme conta a história de uma escritora Maddie que tem problemas de audição e vive em uma casa bem afastada da cidade. Em uma noite um assassino aparece e mata a sua amiga e, percebendo a indiferença de Maddie – pois ela não escuta o barulho nem percebe a presença do assassino – ele começa a fazer um jogo psicológico com a escritora até, de fato, matá-la.

Vale ressaltar que esse jogo psicológico, de certa forma, também existem em outros filmes, como exemplo cito o “A Invasora”, filme francês de 2007. Mas o diretor Mike Flanagan – que dirigiu outro bom filme chamado “O Espelho” – se preocupa com um detalhe que irá ser crucial para criar tensão: o som. A protagonista tem problemas de audição desde a infância, se comunica com a sua amiga por sinais e o espectador, desde o início, precisa se encaixar no estilo de vida silencioso da escritora. No entanto, os barulhos exteriores causado por ela – como pratos, celular etc – são ouvidos, ou seja, quem assiste o filme conhece os sons e a protagonista não. Quando ela está inserida em uma situação de sobrevivência, conseguimos antever as ações do assassino antes da protagonista, tão somente por causa dos barulhos. Além do mais, o pensamento imediato é que ela é inferior a ameaça, o que vai ser crucial para provocar o medo.

Nesse ponto, a edição de som é muito oportuna, por vezes fica distorcido, como se estivéssemos em plena viagem até nos transformarmos na isca, junto com Maddie.

Maddie é uma personagem tão forte que as suas limitações, no fim do segundo ato e terceiro, passam a ser um mero detalhe. A sua reação é de uma força inacreditável, nesse ponto o trabalho da lindíssima Kate Siegel é impecável, percorre momentos de medo mas sempre com uma segurança que conforta em momentos onde a tensão atinge níveis bem altos. O que era para ser um ataque fácil, vira uma guerra.

Kate Siegel assume, também, o roteiro. Bem realizado até o final, depois começamos a sentir uma pressa para terminar o filme e os acontecimentos se tornam bem artificiais. Felizmente a conclusão não apaga totalmente a brilhante construção da tensão e “Hush” é mais um bom representante do gênero thriller.

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Regressão, 2015

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★★★

O diretor Alejandro Amenábar se sai absurdamente bem na realização de filmes tensos. Mesmo que tenha feito bons dramas, parece saber construir o mistério de forma especial, envolvendo o espectador de forma natural e, ainda por cima, apresentando de forma sutil alguns signos que dão indícios para compreender a história. O espectador consegue adentrar no universo e brincar de investigador, junto com as personagens.

O seu mais recente trabalho, “Regression“, consegue ser extremamente maduro no desenvolvimento, prezando pela realidade, mesmo que mescle por vezes com o sobrenatural. Ainda por cima, o faz de forma psicológica, jogando a quem assiste a responsabilidade de desmistificar o que está sendo mostrado.

Diferentemente de “Lugares Escuros” – outro filme de 2015 e que, por sinal, é muito parecido com o do Amenábar – é um primor visual e, inclusive, a fotografia casa perfeitamente com os acontecimentos.

O filme se passa em Minnesota no ano de 1980 e acompanha um homem que é prezo e acusado de ter estuprado a sua própria filha. O que se entende, parcialmente, é que se trata de um ritual satânico, pois o pai não lembra dos acontecimentos, o que sugere que outras pessoas estão envolvidas. Então um investigador – interpretado de forma excelente pelo maravilhoso Ethan Hawke – e um psicólogo partem em busca de respostas sobre o caso, inclusive utilizando o método da regressão.

Logo no início do filme estamos dentro do carro do pai da menina, que está sendo julgado. Temos um destaque ao crucifixo que está no retrovisor e logo seguimos os seus passos até a delegacia. Entrando nela, rapidamente, a câmera se torna subjetiva – algo que será feito identicamente no meio do filme com o personagem do Ethan Hawke. O jogo psicológico que existe é imenso. Isso porque não há lembranças, portanto cabe ao investigador uma confiança no instinto, o que acaba corroborando com a sua fragilidade e medo ao longo. O equilíbrio acontece através do personagem do psicólogo, interpretado com uma sobriedade inacreditável por David Thewlis.

As cenas onde acontece a regressão são excepcionais, pois tem uma distorção, a fotografia muda, o onírico se faz presente e, com isso, aumenta o clima de tensão e estranhamento, até porque no primeiro ato nada fica muito claro. Aliás, a única forma que o passado é mostrado é nas regressões, o que funciona como uma isca para os mais atentos.

Algo contraditório é a personagem da Ângela Gray. Isso porque, positivamente, Emma Watson a interpreta de forma contida, diferente de todos os seus papeis anteriores – sabemos todos que a atriz é alvo de muitas atenções por causa das suas longas participações como Hermione em “Harry Potter” – ela consegue transitar por entre a tristeza e o conhecimento sobre a seita satânica que à persegue. No entanto, a partir disso temos o lado negativo do filme: A partir do segundo ato, tanto a interpretação da Emma quanto a personagem Ângela dão indícios sobre a conclusão da história para o espectador. Então fica fácil antever o final e o processo não se torna mais tão denso ou divertido.

Ainda assim é um bom filme para assistir, aborda alguns temas interessantes e, como brinde, nos faz pensar sobre algumas injustiças/erros, tanto familiares como da própria investigação da polícia.

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Mother – A Busca pela Verdade, 2009

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★★★★

Joon-ho Bong é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores sul coreano em atividade. O realismo que os seus personagens são apresentados, dialogam de forma bem direta com o onírico, repleto de absurdos e de falhas. A sua facilidade em subverter o gênero policial é outra virtude, como visto nesse seu trabalho lançado em 2009, onde uma mãe assume a função de pessoa que procura desvendar os fatos, afim de procurar o(s) culpados de um assassinato, e, consecutivamente, livrar o próprio filho – doente mental, inclusive – da cadeia.

O fato é que a personagem é uma mãe, Mother em inglês, em nenhum momento revela o seu nome; É, portanto, unicamente uma mãe, nada mais. Já nas cenas iniciais fica evidente o cuidado especial e obsessivo que ela tem pelo seu filho, em singelos momentos essa ideia vai, aos poucos, sendo passada ao espectador. Ainda mais, e talvez mais perigoso, em alguns momentos é mostrado pequenas atitudes que demonstram que a mãe possui uma ansiedade em ocultar os erros. Principalmente do filho mas, no desenvolver da trama, percebemos que o tratamento dado é apenas um reflexo dos erros pessoais desse ser humano misterioso.

O próprio nome da mãe fora tirado dela. O único direito e necessidade que ela tem é cuidar do seu filho, a preocupação é nebulosa, não se sabe muito bem se é por algum tipo de medo, diante da clara doença mental do filho – o que, por sinal, em nenhum momento o impede de viver e entender as coisas ao redor – ou algum tipo de remorso ou insegurança.

A cena inicial temos a mãe, em um campo, solitária, ela começa a dançar, um contraste curioso em relação ao comportamento que será desenvolvido a seguir. Poderia ser apenas uma apresentação, porém serve como porta de entrada e representa um claro indício de que essa mulher é uma marionete de suas escolhas, que sua função é controlar um outro pois, na sua cabeça, a fragilidade está em todos os lugares, menos nela mesma. É um trabalho muito difícil interpretar a relação da mãe e do filho, extremamente ambíguo e obscuro.

A multiplicidade dessa relação é reforçada com a técnica cinematográfica de forma muito consciente, destaque para a fotografia, com tons azulados e cinzas, demonstra com perfeição o psicológico da mãe, estabelecendo desde o começo um interesse involuntário em descobrir mais sobre esse ser humano frio, sem amor próprio. No mesmo tempo que o fato de estar sempre chovendo, ajuda a criar um ambiente perfeito para se estabelecer o mistério.

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O figurino da mãe recorrentemente traz o vermelho ou vinho, remetendo-nos a ideia da paixão, sangue – que será derramado em dado momento de forma literal, mas existe sangues derramados durante quase todo o filme nas entrelinhas – e, se aprofundarmos um pouco mais, a excitação.

Tracei uma relação óbvia entre a relação mãe e filho – que assume diversas outras funções – com o complexo de Édipo. Essa dependência inconsciente do filho, movido, inicialmente, pelas suas próprias limitações, atingem um outro patamar a partir do momento que o garoto começa a ter atitudes impulsivas e grotescas por influência de um amigo. Ele começa a sentir o que é ser independente, no mesmo tempo que não é capaz para tal desprendimento.

Ele precisa de alguém para guiar; Não à toa, mesmo diante a iminente descoberta sexual, ele permanecia “inocente” até o seu amigo preencher sua mente com desejo por mulheres, despertando a necessidade humana de se relacionar com o sexo oposto. O que seria absurdamente normal, se a vida dele não fosse tão conturbada. Em uma provocação o amigo pergunta para ele se já dormiu com uma mulher, ele responde positivamente e, depois de algum mistério, fala: “eu dormi com a minha mãe“.

A relação percorre diversos degraus, pai e filho, filho e mãe e, entre eles, ainda há espaço para o homem e mulher. Ora, ambos personagens só possuem um ao outro, é um contato doentio, baseado em uma necessidade primordial. Existe apenas um personagem: a mãe. O filho é parte dela, os dois são os mesmos, nasceram de um mesmo ponto e caminharão juntos para um mesmo fim.

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Existe uma sombra, a personagem da mãe busca o seu sepulcro. A “busca pela verdade” da tradução permanece como um questionamento durante todo o longa. Que verdade seria essa? O conflito do assassinato, a resposta sobre o que realmente aconteceu parece muito simples diante a complexidade daquela relação provocante. Aliás, quando a mãe descobre quem matou a menina – mistério que move o filme até certo ponto, pois os fatos não são tão difíceis assim de assimilar mas, repito, causar a surpresa não é a preocupação principal do filme – ela permanece com mesma intenção e atitude que tinha no início, nada mudou além de compreender a verdade.

No final, fechando o ciclo que começa na apresentação onde a personagem dança em um campo, metaforicamente temos uma mulher perdida em meio a tantas outras, ela se torna ainda mais prisioneira da culpa e, ainda por cima, começa a entender que o seu destino é cobrir erros para sempre, assim podemos interpretar que a própria é um grande erro do universo e precisa, assim, se esconder constantemente.

O choro ao final, ao ver a conclusão da sua busca, faz-nos pensar que ela não se entristece apenas pelo seu filho, mas por todos os filhos do mundo.

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Horror Hotel, 1960

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★★★★

Dirigido pelo argentino John Llewellyn Moxey, “The City of the Dead” é do mesmo ano de outro clássico do suspense: “Psicose“. Poderia ser loucura da minha parte comparar a qualidade dos dois, no entanto ouso afirmar que ambos mantém o mesmo nível – mesmo que isso possa causar confusão, pois os clássicos geralmente são intocáveis – mas tracei uma comparação óbvia entre a narrativa desses dois filmes.

“The City of the Dead” ou “Horror Hotel” traz a história de uma cidade chamada Whitewood que, em 1692, foi amaldiçoada por uma bruxa enquanto ela queimava em um fogueira. A bruxa e o seu amante serviam a lúcifer, a partir de então, conta a lenda, a cidade permaneceu aos cuidados de satanás.

Centenas de anos depois, acompanhamos um professor sinistro – interpretado pelo sempre magnífico Christopher Lee – de bruxaria. Ele recomenda a uma de suas alunas, aparentemente a mais exemplar e curiosa sobre o tema obscuro, que visite a cidade de Whitewood para fins de pesquisar e sentir o clima de um lugar que permanece até a atualidade amaldiçoada.

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Esse é um exemplo incrível de filme que sabe trabalhar de forma sublime o mistério e a construção da tensão. O professor, até por conta da excelente performance de Lee, parece um porteiro do inferno, mandando a sua alma inocente ao submundo e ela, por sua vez, deixa a curiosidade consumir a razão.

Desde o início o tema “bruxaria” é trabalhado com cautela, é evidente uma preocupação em questionar a veracidade dos fatos, inclusive, apresentando personagens ao longo da trama que desconhecem ou simplesmente não acreditam em nada do que está sendo dito. Esse é um dos pontos chaves para o começo de uma viagem através do medo, transformando esse filme em uma pequena obra-prima clássica do terror. Inclusive, a utilização da protagonista se aproxima muito do, já citado, “Psicose”; É muito curioso a decisão do diretor em utilizar apenas uma personagem para ir na cidade, uma jornada solitária, o que acaba resultando em uma ótima performance e eleva o clima de tensão.

Nesse ponto, a atuação da belíssima Venetia Stevenson é muito importante, construindo uma personagem ( Nan Barlow ) que está preparada para embarcar nas emoções que, até então, só havia tido contato através de aulas e livros. O destaque fica mesmo com Patricia Jessel, sua atuação é tão excelente que consome todos os demais – não classifico como algo ruim, apenas uma constatação – que, aliado com a fotografia em preto e branco, uso inteligente das sombras, névoa e hotel com aspecto assombrado, surge desde o início como uma personagem ameaçadora, misteriosa, quase a representação fiel das intenções do longa.

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Com direito a um cenário impecável, no que diz respeito a provocação do medo – como um cemitério que não é usado há 200 anos – e frases como “essa cidade é do diabo”, esse filme é um dos melhores da história sobre bruxaria. Tem uma estrutura interessante e sabe utilizar-se de pequenos elementos para compor o suspense, sem contar que o desenvolvimento dos personagens, mesmo que a duração seja bem curta, é muito eficiente.

Um verdadeiro clássico, deveria servir de inspiração para os novos filmes de terror que esquecem todo o processo e se utilizam de artifícios fáceis para provocar o susto. Aqui temos mais um belo exemplo de que, mais do que susto, o pavor é provocado, antes de mais nada, pelo clima e, para se alcançar isso, é preciso uma boa história, ambientação macabra e boas atuações.

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Madre Joana dos Anjos, 1961

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★★★★★

Quem conhece o filme “The Devils” de 1971, dirigido pelo ousado Ken Russell, já está familiarizado com a história das freiras que foram possuídas por demônios em pleno século XVII, despertando o interesse de pesquisadores anos depois, quando começaram a utilizar esse caso como forma de ilustrar os males da inquisição e como a religião oprimiu toda uma geração de pessoas.

“The Devils” é baseado no livro de não ficção “Os Demônios de Loudun”, filosófico/histórico, o autor se propõe em relatar alguns eventos desse período, que aconteceram em Loudun, uma pequena cidade da França. O filme é, portanto, extremamente impactante enquanto reflexão sobre as atitudes um tanto quanto manipuladoras da igreja, por outro lado, a possessão é abordado de forma completamente diferente do que conhecemos hoje. As freiras nuas, blasfemando contra imagens sagradas, a insanidade demonstrada é aterrorizante e serviu, sem sombra de dúvidas, como inspiração para, dois anos depois, ser realizado o grande clássico “O Exorcista”. A partir de então surgiu o sub-gênero “exorcismo“, que é trabalhado até a exaustão atualmente.

O que poucos sabem é que, na verdade, dez anos antes do “The Devils” existiu um outro filme ambientado, igualmente, no século XVII e que, consecutivamente, também utiliza o caso real como base para refletir sobre a maldade: Madre Joana dos Anjos, de 1961.

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Esse é tido como o primeiro filme, na história do cinema, a retratar uma possessão demoníaca. Aliás, uma não, várias, afinal, algumas freiras em um convento são possuídas por inúmeros demônios diferentes.

Acompanhamos um padre que chega na pequena cidade para auxiliar nas séries de exorcismos que estão acontecendo no convento. A cidade é mostrada de forma que se extraia o maior isolamento possível, envolto de uma fotografia preto e branco, tudo é extremamente bem encaixado, cada plano, cada detalhe constrói a mesma ideia geral: o demônio está presente.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o demônio é tratado, muito além do que a própria igreja acredita, como uma energia. É incrível constatar que o primeiro filme que aborda a possessão demoníaca na história do cinema use esse elemento como pano de fundo para uma discussão filosófica sobre o que seria, de fato, a maldade. A narrativa é muito próxima aos filmes do Bergman, a mesma angústia se encontra aqui.

O trabalho do diretor Jerzy Kawalerowicz é sublime, fazendo um dos melhores filmes poloneses de todos os tempos, não à toa ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes de 1961, mas é importante lembrar que essa ideia não seria tão bem desenvolvida se os atores não estivessem em perfeita sincronia com a inteligência em compor as cenas. Destaque para a atriz Lucyna Winnicka que faz a madre Joana. Uma perfeição de atuação, entregue e ousada. Ela demonstra uma possessão demoníaca apenas com as expressões e físico, não há maquiagem, e é tão ameaçador como em qualquer filme de terror.

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O filme começa com o padre que chega na cidade e percorreremos, à partir de então, um caminho perverso, profundo e filosófico. Um pequeno bar, no qual o protagonista se prepará até seguir rumo ao convento, já deixa claro o que acontecerá em seguida: existe medo no olhar dos moradores. Não necessariamente há uma explicação para tamanha comunhão de desespero. Mas todos estão visivelmente incomodados, pensativos, como se estivessem tentando descobrir o que é o demônio e por qual motivo ele está ali.

No mesmo tempo que constantemente, nos excelentes diálogos, o espectador é direcionado para o entendimento do demônio como algo identificável, algo que mora em todos nós. Algo que mora na própria religião. Afinal, fica claro uma singela – na narrativa, pois o impacto é monstruoso – crítica a opressão sobre as mulheres, de todas formas, inclusive, sexual.

Um momento que reforça o questionamento sobre o demônio, é quando é dito que ele é o pai da mentira, traz ou lida com perfeição com a falsidade. Uma personagem rapidamente se indaga: O que é falsidade? O que é verdade?

Dado o contexto, é perfeitamente claro que o demônio não é propagado como algo abominável. Se ele é pai da maldade, não importa, o que importa é, antes, entender o que é, de fato, a falsidade. Só é possível afirmar quando se entende, por isso o filme representa em seus diversos devaneios uma cumplicidade com o conhecimento, ainda mais, o desprendimento da própria ignorância que mora na fé.

O padre caminhando até o convento, metaforicamente, demonstra um homem tentando encontrar o seu sepulcro. Reparem que em um momento, em uma conversa com um sujeito, podemos ver ao fundo duas crianças brincando com um adulto, algo como um gorila, um animal irracional, que, por vezes, beira a total racionalidade. Poderia ser mais um simples elemento, mas não é. Assim como em diversas cenas o diretor faz questão de reforçar a sua principal intenção, desmistificando as sensações até, de fato, sermos apresentado ao palco do horror: convento.

Quando o padre entra no convento, ultrapassando o portão que é aberto por uma freira, é um rito de passagem. Inacreditável, novamente, a consciência técnica do diretor ao apresentar esse processo com uma câmera subjetiva: Se a pequena cidade está repleta de olhos amedrontados pelo desconhecido; Se acompanhamos o padre… nessa exata cena temos a oportunidade de ser o padre. Ser o visitante, ser a busca por respostas, ser o primeiro a adentrar naquela prisão de valores.

As freiras são prisioneiras. Claro que não estou generalizando. Mas, lembrando, o filme se passa no século XVII, um momento onde a religião exercia um papel muito mais autoritário – quer dizer, abertamente. Pois o autoritarismo sempre existirá -, ou seja, essas mulheres estão acomodadas com as suas respectivas posições de prisioneiras, o que veremos a seguir é apenas mais uma manifestação de aprisionamento: onde o “demônio” aprisionará as freiras em seus próprios corpos. Mas, agora te pergunto leitor: a religião não faz exatamente a mesma coisa? Oprimindo a mulher, proibindo o sexo? Enfim, evidentemente eles estão seguindo a palavra e, como possíveis “mensageiros de Deus na terra” precisam fazer certos sacrifícios, mas, em uma condição unicamente mundana/humana, eles são vítimas de suas próprias escolhas, precisam usar vossas existências para um único objetivo, transformando o corpo em um veículo e, com isso, em comparação com os outros, se transformando em prisioneiro do próprio corpo/existência.

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No primeiro encontro entre o padre e a Madre Joana, há um diálogo muito interessante:

– Estávamos esperando pela sua ajuda.
– Nossas preces conjuntas nos ajudarão.
– Por meses somos atormentadas por grandes misérias. Os padres que estão conosco, não tem poder sobre eles.
– Eu tentarei libertar você do seu demônio.
– Oito deles: Behemoth, Balaam, Isacaaron, Gresil, Aman, Asmodeus, Leviathan e Cauda do Cão.

Os nomes e todo o ritual de exorcismo, claro, partem da crença cristã. Influências bíblicas etc. O fato de uma pessoa acreditar em Deus, consiste automaticamente que ela acredite, também, no Diabo. É preciso haver esses opostos.

Então a leitura filosófica é movida por aqueles que conseguirem, durante o filme, ser imparciais quanto ao ritual. Não se trata de uma obra de terror, isso fica claro desde o início – apesar de que a ambientação e a construção técnica seja mais eficiente em causar a tensão do que muitas coisas de terror que temos atualmente no cinema – e o Diabo é a força do incalculável, bem como o ritual é o desprendimento.

No diálogo acima, a madre deixa claro que os padres que já estavam fazendo o ritual não exerciam poder sobre os demônios, ou seja, sobre as freiras. A religião fora abalada, antes de mais nada, e os demônios são o caos. Esse caos é disfarçado e ocultado com a própria crença. O padre ainda complementa, em uma sábia e oportuna resposta – para contextualizar o desenvolvimento filosófico – que “tentará libertar a madre do seu demônio”. Tentará enclausurar freira dentro da sua própria necessidade insana em sentir o novo.

O demônio atinge o ápice do seu significado ao percorrer a história do homem, e se estabelecer como o desejo inalcançável, diante as circunstâncias. É o viver, o transformar, o ser. O medo não é construído em base aquela figura mística com chifres, mas sim ao processo de mudança.

– O diabo está lá e aqui também. O mundo é assim.
– O que você sabe sobre o mundo?

O padre não é herói, muito menos sabe o que vai acontecer. Ele é cheio de falhas e também teme o antagonista, em seus ombros carrega uma cruz constantemente, se mostrando sempre atônito. A atuação do excelente Mieczyslaw Voit é magnífico, transmite com uma precisão intocável todos esses conflitos. Destaque para uma cena, extremamente significativa, onde ele está “conversando” com o Diabo, prevendo o embate que virá a seguir e, curiosamente, ele está em frente ao seu próprio reflexo no espelho. Como se o embate fosse contra ele próprio.

– E se o Diabo entrar em mim?
– Ele não se importa com gente como nós.

Se hoje em dia estão cada vez mais produzindo filmes sobre exorcismos e demônios, poderiam, ao menos, buscar referências nesses filmes que trazem consigo uma profundidade enorme.

“Madre Joana dos Anjos” é a prova que para criar o terror é preciso se ater aos detalhes. E, para discutir algo tão profundo que, em algum momento, envolve-se com a religião, é preciso ter coragem e seriedade. Desde a fotografia, direção, trilha, atuação, tudo está possuído pelo mal. A sensação é que o Diabo está possuindo o espectador ao assistir essa obra-prima. E isso é crucial, pois para acreditar que ele possa existir, é preciso senti-lo e, independente da crença de quem assiste, o filme nos prova que o mal é muito mais do que algo que possamos definir ou simplificar, sendo assim, o demônio ainda permanece uma incógnita e, enquanto existir o homem, ele será sempre algo a ser compreendido.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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NH10, 2015

nh10

★★★

O cinema indiano, também conhecido como Bollywood, merece ser analisado com atenção, visto que sua produção e narrativa traduz com perfeição o país, as circunstâncias que o povo vive e, até mesmo, a sua opinião sobre a arte. Então a música e dança é muito presente, as cores geralmente são bem vivas, destacando uma riqueza, um brilho, aparentemente exclusivo da Índia. Há também diversas preciosidades do trash, ainda assim ótimos filmes – para dar risadas, claro.

No meio de inúmeras obras, existe um ou outro que chama a atenção, que tenta alguns truques, critica o sistema de categorizar o ser humano, também conhecido como “castas” e, por consequência, o machismo, o abuso, superioridade, sexismo etc. Esse é o caso do recente “NH10”.

O filme conta a história de um casal que estão prestes a fazer uma viagem, na estrada se deparam com um grupo de homens humilhando/agredindo uma mulher, o marido fica extremamente indignado com a situação constrangedora e, pior, segue os homens pela estrada. Descobrindo mais sobre esse grupo, percebem se tratar de algo muito maior do que acharam e começam a ser perseguidos.

Um exemplo de Thriller de qualidade, os primeiros vinte minutos dão alguns indícios falsos sobre a trama, é lento, mas ao decorrer o espectador vai embarcando junto com aquele casal que parecem ser, mesmo com algumas trocas de carinho, totalmente diferente um do outro, essa postura distante dos dois serve como base para as primeiras questões do filme: tentar ajudar o próximo e raiva perante a superioridade do homem em relação a mulher.

Para aqueles que tem preconceito com a duração ou até mesmo a fórmula dos filmes indianos, não precisa se preocupar, esse é um exemplo interessante onde a narrativa norte-americana é muito bem homenageada. Há correria, há algumas tensões, reviravoltas, enfim, a crítica ainda complementa, dando um sabor de estranheza mas, se observarmos com atenção, são questões universais, principalmente relacionado a manipulação e violência.

O local que acontece boa parte da história é isolado, seco, desértico mas, quando aliado com o desespero dos protagonistas, a sensação que causa é um desconforto, beira a claustrofobia, parece uma rua sem saída, onde as ações só levam a armadilhas e decepções, não há como confiar em ninguém.

Mesmo com algumas falhas técnicas, o filme é realmente muito feliz em conseguir transmitir uma mensagem e, ainda por cima, cativar quem assiste, visto que no terceiro ato temos uma feliz mudança de postura, digna de palmas, aliás, a atuação da lindíssima Anushka Sharma é um dos pontos fortes para a veracidade do desespero que “NH10” nos causa.

emersontlima

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