Tara Maldita, 1956

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956) Direção: Mervyn LeRoy

“Tara Maldita” era uma história conhecida e aclamada do teatro quando migrou para o cinema. Isso é interessante, levando em conta que se trata de uma obra clássica de terror que, em nenhum momento deixa se levar por sustos ao invés de questionamentos e conflitos psicológicos. Certamente o sucesso prévio do roteiro no teatro gerou atenções, complicando ainda mais a vida do diretor e atores que, mesmo conhecendo a essência da obra, ainda se viam diante de um novo formato e público.

Felizmente a adaptação liderada pelo Mervyn LeRoy faz jus a grandiosidade filosófica da história que, por sua vez, traz uma garotinha de nove anos chamada Rhoda (Patty McCormack) que comete assassinatos, mente, elabora planos diabólicos, tudo isso sem levantar suspeitas, afinal, se trata de uma criança e, como tal, inocente aos olhos da sociedade. Em uma estrutura teatral, o conflito começa quando sua mãe Christine Penmark (Nancy Kelly) suspeita da própria filha, após a menina não demonstrar sentimento algum com o falecimento de um colega próximo da sua sala de aula.

O inimigo de todo o arco dramático é improvável, o conflito e questionamento sobre os limites da psicopatia, principalmente relacionado à idade, se tornam o triunfo de uma obra que é definitivamente muito maior do que “mais um filme de terror”. A força narrativa se encontra na naturalidade do desenvolvimento que, se baseando fortemente no desespero de sua protagonista – a mãe, cujas decisões são suspendidas diante a agonia provocada pela dicotomia entre o certo e a proteção materna – acontece de maneira despreocupada, como se o espectador fosse obrigado a, também, desacreditar que a angelical Rhoda tenha forças para agir de maneira tão monstruosa.

Ledo engano, o roteiro é inteligente em brincar com a relação entre a dúvida, moral e realidade quando os indícios se tornam claros, à medida que as ações da menina vão se tornando mais extremos. O texto é sustentado por uma direção maravilhosa, com ótimas decisões de enquadramentos – utilizações de espelhos são comuns e deveras importante – e atuações sensacionais. Destaque para a Eileen Heckart que aparece em cenas curtas como a mãe do falecido Claude, amigo da escola de Rhoda. A força da sua performance dá um brilhantismo para as consequências dos atos do pequeno anjo malvado, é quando as emoções das vítimas nos faz relembrar que por trás da imagem inocente existe um ser diabólico que, apesar do tamanho, tem o poder de causar sérios traumas nas vidas que estão ao redor. Eileen Heckart, inclusive, chegou a ser indicada ao Oscar.

A profundidade do tema é tão grande que essa clássica obra inspirou diversos filmes que, posteriormente, também se utilizariam de crianças como os vilões. Mas não é só pela novidade que é lembrado, mas também a boa utilização dos espaços da casa, isso é importante pois praticamente toda a história se desenvolve nela, com certeza alguns movimentos vêm das apresentações teatrais, visto que a mise en scène é sublime e existe uma sincronia que dá leveza e flexibilidade visual.

É sem dúvida um grande clássico do cinema e que, de brinde, nos apresentou a talentosa Patty McCormack, com um trabalho primoroso, pois sua personagem exige uma consciência madura escondida atrás de uma artificialidade infantil, o que na prática resulta em expressões e diálogos repletos de camadas. Simplesmente inesquecível.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Creepy, 2016

Creepy (Kurîpî: Itsuwari no rinjin, Japão, 2016) Direção: Kiyoshi Kurosawa

O cinema japonês é sempre lembrado quando falamos sobre bons filmes de suspense. Comumente lidando com personagens dimensionais, com valores ambíguos e passado sombrio. Podemos agregar ainda mais camadas quando citado o trabalho do diretor Kiyoshi Kurosawa que, trazendo todas as características típicas mencionadas acima, ainda se preocupa em trabalhar com elementos contemporâneos nos seus mistérios, algo que pode ser visto em “Kairo” (2001) – o qual explora a internet e o sentimento de novidade em relação à nova ferramenta para dar sustentação à sensação de medo.

É de se lamentar, portanto, que o último filme do diretor, “Creepy” (2016), seja um filme ruim. A novidade, outrora primordial nos filmes do realizador, dá lugar ao comum aqui, o que temos é um filme de mistério que percorre absurdamente os mesmos caminhos de muitos outros e, no que tenta se diferenciar, acaba caindo em uma armadilha, pois as decisões provocam somente um leve cansaço e constrangimento.

A história gira em torno de um jovem policial que se aposenta por causa de um grave acidente e vira professor de psicologia criminal. Ele e sua esposa vão morar em um bairro tranquilo no subúrbio mas, por desconfiança sobre algumas atitudes de um suspeito vizinho e com o convite de um amigo da policia, o protagonista ajuda a policia em mais uma investigação.

O primeiro e começo do segundo ato entregam a promessa de bons eventos e descobertas, personagens complexos vão aparecendo timidamente, momentos em sala de aula onde o protagonista fala sobre serial killers e os classifica de três formas “organizados, desorganizados e mistos” dão a sensação – e deveriam – de que assumiriam uma importância no desenvolvimento, mas isso é plenamente descartado ao longo dos minutos.

Os vizinhos do casal são estranhos, não aceitam os presentes e contrastam com a simpatia dos novos moradores. No entanto essa relação de pouca comunicação também se estende para o próprio casal principal, cuja interação é nula e alguns acontecimentos poderiam ser facilmente superados se houvessem diálogos entre os dois.

A conclusão caminha para o óbvio, o roteiro deixa claro quais serão os desdobramentos mas ainda se vê preocupado em acrescentar, no final, uma série de cenas grotescas e que se perdem em seu sentido dramático. No entanto, há de se destacar a atuação do grande Teruyuki Kagawa que emprega características assustadoras ao seu antagonista e o posicionamento de câmeras dentro das casas de todos os personagens, pois geralmente deixam o objeto na diagonal, representando brilhantemente a confusão e insegurança, sentimentos pelos quais eles estão passando.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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Shelley, 2016

Shelley 2016

★★★★

Shelley tem tudo para provocar o espectador, cria um clima soturno desde a primeira cena, a tensão se estende para os olhares, pequenos movimentos, enfim, o clima adentra o espaço da dúvida e a trilha ajuda a alimentar esse contexto sombrio.

Há muita comparação desse filme com o clássico “O Bebê de Rosemary”, de 1968, a influência é óbvia, no entanto nunca se desenvolve da mesma maneira. Aliás, é importante que aja filmes que estão dispostos a seguir o caminho dos clássicos psicológicos, é preciso abordagens diferentes, visto que o cinema de terror é inundado de clichê e sustos gratuitos.

“Shelley” é um filme dinamarquês, dirigido pelo estreante em longas Ali Abbasi – maravilha esses novos diretores do gênero que vêm surgindo ultimamente, todos extremamente corajosos e dispostos a quebrar as regras – e tem como história principal um casal, Louise e Kasper, que desejam ter um filho mas, mesmo com várias tentativas, não conseguem. Eles vivem em uma mansão isolada, aparentemente normal, e com a chegada de uma nova empregada chamada Elena, eles começam a ter uma relação de extrema confiança por conta da sua bondade e sinceridade, passando a vê-la como uma oportunidade de carregar o filho que eles tanto desejam.

O ritmo lento e contemplativo, unido com a trilha ameaçadora, lembra muito o outro ótimo filme lançado esse ano chamado “A Bruxa”; além do mais, outros dois pontos se assemelham bastante: a famosa divergências de opiniões daqueles que assistem e, por se tratar de uma obra diferente, creditam isso à uma pretensão por parte do realizador; E o papel de extrema importância da mulher. É evidente que o mistério se desenrola através da gravidez, algo extremamente sensível e de uma conexão extrema, e por isso é possível observar uma atenção especial para as personagens Louise ( Ellen Dorrit Petersen ) e Elena ( Cosmina Stratan ).

Ellen Dorrit Petersen, com sua presença eletrizante, dá a sua personagem uma frieza impressionante, com a expressão sempre serene, distante, parece se importar pouco com a sua empregada – que aqui mais parece um veículo – e o motivo constantemente parece nebuloso. Petersen já havia demonstrado os seus talentos no ótimo “Blind” que, no final de 2014, o coloquei na minha lista dos melhores do ano.

Quanto a Cosmina Stratan, com sua beleza angelical e a progressiva transformação, representa o espectador com todas as dúvidas sobre os acontecimentos, é assustadoramente impactante a transição da doçura, no começo do longa, e a raiva/obsessão do final.

“Shelley” promete e cumpre. É difícil se destacar em um cinema repleto de julgamentos, por isso é louvável a atitude do diretor em desenvolver uma obra que abraça alguns elementos já conhecidos, mas subverte com o silêncio e a incomunicabilidade, chocando pela diferença da narrativa, ambientação e performance das atrizes principais.

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The Children, 2008

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★★

Só o fato de um filme usar crianças como vilãs é interessante, existe uma inconfundível certeza de que, se bem trabalhado, a obra poderá provocar o espectador com a sensação de desconforto, afinal, se trata de uma figura inocente e, talvez, uma das últimas que relacionamos quando o assunto é medo, morte, frieza, etc.

Tom Shankland dirige “The Children” com segurança, começando as primeiras cenas com aquelas clássicas reuniões de famílias para a comemoração do natal e, junto com toda essa felicidade, existe uma jovem – no auge da sua independência – reclamando por estar distante dos amigos. Por outro lado não há, na direção e roteiro, ousadia o suficiente para tentar algo diferente, a apresentação e o desenvolvimento só soam interessantes pela própria trama: as crianças dessa família vão, ao longo do tempo, mudando de personalidade até se transformarem em pequenos assassinos e sádicos.

A estrutura da narrativa é bem clichê, mas existe um desconforto real pelas modificações tão bruscas no comportamento das crianças, apesar de que, se por um lado as crianças chamam a atenção e se destacam – Eva Sayer, Raffiella Brooks e William Howes merecem boa parte dos créditos pela verossimilhança no que diz respeito as transformações. Aliás, vou além e afirmo com propriedade que eles merecem, também, os créditos por boa parte da qualidade do longa – os adultos de “The Children” são tão mal resolvidos que chega ao cúmulo de serem infantis. Não adianta trabalhar tanto os vilões ou o mal, quando não existe empatia de quem assiste por aqueles que deveriam sobreviver. O desejo aqui é que os adultos/fantoches morram o mais depressa possível e que as crianças malvadas reinem. Isso poderia até ser interessante, mas visivelmente a proposta era completamente diferente.

Não há nenhuma explicação sobre o porquê dos eventos, isso desencadeia uma série de erros como a velocidade das mortes e os dilemas frágeis que surgem ao longo dos 84 minutos. Ainda que exista duas ou três boas cenas – uma em específico é aterrorizante, mas em nenhum momento inédita -, o filme não possui aquele charme comum em filmes com criancinhas do mal e acaba não conseguindo sustentar a premissa poderosa que cria nas primeiras cenas.

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O Sono da Morte, 2016

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★★★

Em “O Sono da Morte” o diretor Mike Flanagan se limita a fazer algo popular e que dificilmente não será aceito pelas pessoas. Isso porque ele conduz a história de forma delicada, sempre mesclando com algumas questões familiares que acabam criando, inevitavelmente, um elo com quem assiste por conta da identificação para com elementos como carinho, proteção e perda.

A história é sobre um casal chamado Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) que, após perder um filho, adotam uma criança, Cody, da mesma idade. O filho adotivo se adapta à nova família rapidamente, por conta da atenção e dedicação dos pais, porém o menino guarda um segredo que afeta a vida de todos ao seu redor.

A premissa pode soar clichê, mas não é. Inclusive o ponto mais alto do filme é justamente o seu conceito, sendo incrível na concepção e inteligente no desenvolvimento. Infelizmente essa inteligência é, como disse anteriormente, movida por uma necessidade de ser entendida, fica evidente a preocupação de se explicar constantemente e isso sem dúvida irrita por diversas vezes.

Contudo, Mike Flanagan continua provando ser um dos diretores mais promissores da atualidade – principalmente no que diz respeito ao terror, fantástico, suspense etc – e se utiliza de uma série de técnicas para compôr a atmosfera da sua obra, principalmente elementos que contribuem para exaltar o onírico. A cor azul é muito importante em diversas cenas, bem como a borboleta, essa segunda representando a transformação pela qual o pequeno Cody precisa passar.

Cody, interpretado pelo pequeno Jacob Tremblay, é o ponto maravilhoso das atuações, o carisma do ator mirim é muito grande e aqui funciona muito bem para a narrativa.

Certamente, “O Sono da Morte” não é dos melhores do Mike Flanagan, mas ainda assim é interessante, brinca com o visual e se estende, aos poucos, para algumas reflexões sobre a criação, imaginação humana e o mundo dos sonhos; também consegue atrair a atenção através do mistério e o leve suspense, que impulsiona a sensação de surpresa após uma conclusão inesperada.

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Rua Cloverfield, 10

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★★★★

Muito se discute sobre a forma que a indústria cinematográfica desenvolve suas personagens femininas e esse debate, felizmente, vem incentivando transformações interessantes, principalmente no que que diz respeito ao maior número de mulheres protagonistas de histórias. Só o protagonismo não é algo inacreditável, o mais interessante é que surgiram personagens femininas fortes e independentes, principalmente nas animações da Disney/Pixar e nos gêneros de terror e ação.

Alguns exemplos de filmes que poderiam ser utilizados são: “Valente” de ( 2012 ), “Divertida Mente” ( 2015 ) e, mais recentemente, “Zootopia”. Todos eles têm em comum o compromisso de trabalhar suas respectivas protagonistas de forma corajosa, desprendida e inteligente. Em “Valente” fica ainda mais evidente com a quebra da princesa frágil, esperando ser salva por um casamento; indo diretamente ao encontro de um novo mundo de igualdade onde, finalmente, começa a ser, também, bem representado pela arte cinematográfica.

“Rua Cloverfield, 10” faz jus a essa questão e é incrivelmente competente pois apresenta, de modo impressionante, uma protagonista cautelosa, inteligente e que felizmente foge de qualquer tipo de clichê envolvendo a ideia de “menina em apuros”.

O filme conta a história de uma garota chamada Michelle – interpretada brilhantemente pela maravilhosa Mary Elizabeth Winstead – que, após um acidente de carro, acorda presa em um quarto. Ela foi resgatada por um homem chamado Howard ( John Goodman ) que afirma, com toda a convicção, que o mundo sofreu um ataque químico, exigindo que sua refém fique no abrigo com ele. O problema é que ela não confia em nenhum momento nesse desconhecido e tenta fugir à qualquer custo.

Sim, “Rua Cloverfield, 10” está relacionado com o filme “Cloverfield” de 2008, porém não é necessário que tenha assistido ao anterior para compreender esse. O desenvolvimento é completamente diferente e essa união de universos é mais um ataque de oportunismo do JJ Abrams para expandir o que ele criou em 2008 de forma completamente nova e diferente.

Ainda assim, é curioso notar que mesmo que o espectador saiba o que está acontecendo com o mundo, ainda assim existe a tensão, desespero e curiosidade para saber o que, de fato, está acontecendo e, principalmente, se Howard está mentindo ou não sobre o ataque químico. Essa posição que o roteiro nos coloca é interessante, pois sabemos mais que os próprios personagens.

O que poderia ser apenas comum e mediano, se transforma em absurdo e maravilhoso com a direção de Dan Trachtenberg, sempre muito coeso nas suas decisões. Mesmo sendo jovem e inexperiente em longas, as posições de câmeras, o ritmo e os movimentos são sempre muito bem orquestrados. Unido a isso temos a fotografia que oscila bastante conforme o psicológico dos personagens – vale ressaltar que eles estão trancados e preocupados com o mundo externo, portanto o desequilíbrio é gigante – e a direção de arte que sempre faz questão de transformar o pequeno abrigo ou bunker em um lugar confortável e claustrofóbico, na mesma proporção.

Se a direção de Dan Trachtenberg é um ponto crucial para a qualidade desse filme, o mesmo pode-se dizer do trio de atores: John Gallagher Jr., Mary Elizabeth Winstead e John Goodman. O primeiro interpreta o Emmett – que também está preso no bunker – de forma muito competente, para quem já o viu em “Hush” sabe o seu potencial. Mary Elizabeth Winstead faz algo tão grandioso que, ouso dizer, já entrou na história como uma das personagens mais fortes e impactantes do cinema de suspense, sempre muito atenta, concentrada e demonstrando muita confiança. Agora, quem mais se destaca é John Goodman; Ele é muito querido pelos amantes do cinema alternativo, principalmente pelo seus trabalhos com os irmãos Cohen, até mesmo os olhares menos atenciosos percebem que se trata de um excelente ator que, infelizmente, não recebe muitas oportunidades para brilhar, senão, como coadjuvante. Mas aqui ele possui todos os caminhos possíveis para criar um personagem complexo, utilizando-se do seu corpo grande, é um verdadeiro monstro – e os enquadramentos ressaltam isso por diversas vezes -, demonstrando uma força descomunal, contrastando com os seus recorrentes personagens, sempre bondosos. No entanto, no mesmo tempo que ele é uma ameaça direta à protagonista, a atuação de Goodman chega a um nível tão alto que a linha que o separa entre bem e mal se torna cada vez mais tênue. Não se sabe ao certo se ele é a ameaça ou o ameaçado, torturador ou torturado…

Se fosse uma obra lidando com a personagem feminina como qualquer outro, com certeza iriam sugerir um romance entre Emmett e Michelle. Mas isso não acontece, para a felicidade de muitos. Isso porque essa inocência é importante para compreender a personagem, extremamente focada na liberdade e forte o suficiente para não se deixar levar pelo cômodo. No mesmo tempo que sua relação com Howard é ainda mais complexa, principalmente por existir um lado paternal que beira a obsessividade. Uma prova disso é a cena em que os três estão jogando e Howard diz que Michelle é uma princesinha, menina e se rejeita a todo custo imaginar que se trata de uma  mulher. Esse carinho é o que possibilita os eventuais espaços para uma fuga, sua maior força e fraqueza, ao mesmo tempo.

Se até o final o filme se mantêm inacreditável, o mesmo, infelizmente, não podemos dizer do final. Não quero deixar a ideia de que é ruim, porém fica aquém do começo. Temos dois filmes: um é um drama, suspense e chega perto do horror psicológico o outro um filme genérico de ação.. Se a força da protagonista começou sendo trabalhada de forma simples e impactante, no final houve um desespero para criar uma versão feminina de “Rambo”. O que me leva a pensar, seriamente, que o roteiro era a primeira parte e veio o JJ Abrams e impôs a segunda. Evidentemente se trata apenas de uma especulação, o fato é que piora bastante no terceiro ato mas que, por conta do desenvolvimento inicial, ainda permanece como um dos melhores filmes do ano.

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Helpless, 2012

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★★★★

O cinema Sul-Coreano sempre surpreende e não é de hoje que afirmo, com convicção, que se trata de um dos melhores cinemas da atualidade. O motivo é muito simples: Há uma preocupação por parte dos diretores em mesclar um bom roteiro com uma direção extremamente consciente e honesta. Não existe muita preocupação em exibir todos os truques do mundo para contar uma história, apenas o essencial. Essa simplicidade técnica é crucial para o desenvolvimento das tramas que, como é o caso de “Helpless”, depende do seu mistério para prender a atenção.

Essa postura citada dos diretores coreanos parece ser parte de uma fórmula própria do cinema Sul-Coreano, isso porque até mesmo diretores novatos em longas conseguem resgatar essa necessidade e, muitos, o fazem com perfeição. Como é o caso de Young-Joo Byun, diretor de “Helpless” que segue o padrão mas nunca cai no clichê dos filmes de investigação por investir no seu protagonista e em uma série de dramas que o perseguem, principalmente vinculado ao “abandono”.

A história é super simples e direta: Um casal está prestes a se casar e, de repente, a noiva some. O que desencadeia um verdadeiro desespero no noivo e ele parte então para uma investigação junto com um policial para encontrar sua mulher. Mas durante o processo ele começa a perceber que nunca conheceu, de fato, a mulher que ele dividiu momentos felizes e sonhos.

Começo ressaltando a performance dos atores Lee Hee Joon e Kim Min Hee – o noivo e a noiva, respectivamente -, dando um maior destaque para o primeiro. A investigação existe nos filmes da Coréia do Sul, é um tema muito “investigado” por esse cinema. Contudo, o aspecto mais importante de “Helpless” é que, em nenhum momento, o filme se entrega ao suspense ou abraça a tentativa desesperada de criar tensão. Muito pelo contrário, desde o começo, através de algumas decisões técnicas, o diretor parece mais interessado em analisar o sentimento de abandono por parte do noivo, do que criar a dúvida no espectador. Aliás, essa dúvida pode surgir através da empatia pelo sofrimento de Seung-joo. Afinal, quais as consequências psicológicas de uma barreira colocada de forma brusca entre o protagonista e o amor/sonho de se casar?

O casamento na Coréia do Sul é visto de forma diferente, há uma série de pretensões diferentes do mundo ocidental. Até por esse motivo existe algumas cenas que remetem a dor e solidão de forma extremamente impactantes e, no mesmo tempo, inacreditavelmente sutis.

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O casal é apresentado logo no início do filme, em um dia chuvoso a noiva – Kyeong-seon – olha através do vidro e a sua expressão se relaciona subliminarmente com o incomodo. Contrastando com o olhar alegre do noivo – Seung-joo -; Esse olhar por sinal é intimidador, assim como as cenas das lembranças que parecem sempre querer extrair o máximo o desejo de proteção por parte do noivo.

Ainda nas primeiras cenas a noiva desaparece. E a fotografia vai ficando cada vez mais soturna, com muitas sombras e o personagem envolto de cores azuis, desde sua roupa até a própria iluminação no exterior das janelas.

Essa mesma fotografia escura, remetendo-nos a melancolia, dá lugar a luz e claridade das primeiras cenas de flashback, onde vemos o noivo e a noiva conversando sobre o casamento e os impactos dessa união em suas vidas posteriormente. Engraçado é ressaltar que, além da luz, outra coisa que agride emocionalmente o espectador é a forma que o Seung-joo abraça Kyeong-seon, como se estivesse gritando “por favor, não vá embora“.

Um pouco antes do flashback. Fotografia soturna, protagonista mergulhado na depressão.

Um pouco antes do flashback. Fotografia soturna, protagonista mergulhado na depressão e sentado em frente a um quadro do seu casamento, a sua fuga.

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Super exposição da luz, que transmite a ideia de paz, bem como transforma a noiva em uma deidade, visto que a luz está bem direcionada à ela

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Uma superproteção por parte do noivo. No mesmo tempo que a noiva se “sufoca” com esse amor, como se não fosse merecedora de tal afeto.

Young-Joo Byun não está preocupado com reviravoltas – até porque nesse quesito o filme não surpreende -, mas é possível sentir o quanto está obcecado em levar esse sentimento de perda à quem assiste. É um verdadeiro ensaio sobre o “desprender”. Tanto que durante as investigações o diretor opta por planos que deixam o protagonista sem espaço, aprisionando-o em alguns objetos de cena, o que imediatamente transmite a sensação de claustrofobia.

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Existe também um certo momento, mais ou menos na transição do primeiro para o segundo ato, onde o desespero para encontrar a noiva dá lugar a ansiedade de saber quem ela é. Justamente nesse ponto o filme se torna mais desesperador, de forma sublime vamos desvendando pequenos detalhes sobre a vida da noiva e percebemos que ambos são vítimas de suas próprias expectativas.

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Uma cena que ilustra visualmente toda a proposta do filme é um momento que vemos o protagonista sentado, em frente ao mesmo quadro do seu casamento que aparece logo nos minutos iniciais só que, desta vez, a iluminação exterior é azulada, o quadro ganha as cores azuis ao seu redor e desconstrói aquela iluminação, fruto de uma esperança em outrem que, como mostrado, não passa de uma ingenuidade, talvez todos os indícios estavam presentes desde o início, mas a paixão o tornou ignorante e cego.

Continuando as cenas impactantes é impossível não citar brevemente o final que, diferentemente do óbvio, não se utiliza de uma explosão da trilha sonora, muito menos exageros na atuação e direção, pelo contrário, tudo muito orgânico e natural, mesmo com a situação deveras estranha. É quando o ator Lee Hee Joon atinge o limite da sua performance e nos brinda com um desfecho maravilhoso, digno de uma obra extremamente preocupada com os detalhes e que sabe mesclar a direção e fotografia para criar uma obra extremamente obscura e, no mesmo tempo, melancólica.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Absentia, 2011

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★★★★★

Depois de assistir “Hush- A Morte Ouve” e “O Espelho” me interessei bastante pelo trabalho do jovem diretor Mike Flanagan. Em uma gravação de podcast, a querida Angélica Hellish do Masmorracast recomendou aos participantes o longa “Absentia”, de 2011, primeiro longa do Mike. Então eu não poderia começar essa crítica de outra forma que não seja agradecendo minha amiga pela experiência cinematográfica que ela me proporcionou através da sua indicação. Muito obrigado Angel!

Se discutia bastante, há algum tempo, sobre a qualidade dos filmes de terror e a mesmice do processo criativo para criar a atmosfera do medo. No entanto, parece que alguns festivais de cinema apostaram suas fichas no terror e, alguns casos específicos, se tornaram de fácil acesso do grande público. Mesmo que muitos não tenham compreendido a proposta, como é o caso famoso de “A Bruxa“, é impossível negar que andou aparecendo coisas no cinema que ultrapassaram alguns limites impostos pelo gênero e até mesmo utilizaram o clichê ao seu favor.

Um nome, ainda desconhecido, que vêm demonstrando um talento extraordinário é o Mike FlanaganCom apenas 37 anos, ele parece ser uma grande aposta para o futuro, pois consegue transformar algo simples em verdadeiras preciosidades, muito por conta da sua ousadia em lidar com alguns elementos técnicos ao seu favor, como o som. Escrevi na crítica de “Hush- A Morte Ouve” sobre a importância do som no filme, então me senti bem mais familiarizado quando me deparei com o seu primeiro longa, “Absentia” que abusa das ausências e distorções para compor uma atmosfera, no mínimo, claustrofóbica.

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“Absentia” começa nos apresentando uma personagem chamada Tricia, ela está colando diversos avisos nos postes do bairro e, no desenrolar, sabemos que se trata do seu marido, que está desaparecido há sete anos. Essa personagem esta vulnerável emocionalmente por causa desse desaparecimento, é visível desde os primeiros vinte minutos. Isso sem contar a gravidez, que a mantém ainda mais isolada do mundo e a centraliza nos problemas e preocupações. Mesmo o filme sendo de baixo orçamento, é possível perceber muita atenção com os detalhes e, principalmente, no uso do som para acrescentar veracidade à esses dilemas e medos que a personagem está vivendo. É tão desmesurado essa atmosfera fúnebre, que o filme poderia parar nesses problemas do desaparecimento, da vida solitária, etc, que já seria uma excelente obra; mas ele expande e caminha por outras direções.

“Absentia” atinge um nível ainda mais alto com a Callie, irmã da Tricia, que aparece na casa da irmã para ajudá-la com a gravidez e lhe fazer companhia. Essa irmã teve problemas com drogas e será a motivadora de algumas mudanças cruciais no filme.

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O terror começa a acontecer desde os primeiros minutos. Mas não se sabe ao certo o motivo. Após algumas explicações, a Tricia começa a ter algumas visões do seu marido dentro de casa. Mas o brilhantismo é a forma visceral, natural e até mesmo sutil, que essas aparições vão acontecendo. É tão incerto, que todos os objetos da casa parecem que assume formas assombrosas e prende a atenção do espectador, como se ele soubesse que algo terrível pode acontecer, mas não tem absolutamente nada gráfico! São sensações e uma angústia desconfortável que vão exigindo de quem assiste um alto grau de atenção, como se, aos poucos, fosse se sentindo desprotegido, assim como as duas irmãs.

Depois de assistir ao famoso “Corrente do Mal“, fica bem óbvio o quanto o som e músicas são importantes para criar a tensão. Em “Absentia” acontece o mesmo – lembrando que o filme é de 2011, ou seja, quatro anos antes – e, por incrível que pareça, a experiência é muito parecida. Os sons distorcidos, a brincadeira com sons diegéticos e não diegéticos – principalmente com Callie e seu fone de ouvido – contextualiza quem assiste na realidade sombria da cidade onde há desaparecimentos misteriosos.

Outro ponto interessante é que o filme não força o susto em nenhum momento, por vezes há uma ausência total de som, mas não como um artifício de acumulo de atenção para, posteriormente, assustar com um barulho enorme como na maioria das vezes. A ausência de som existe para situar-nos, também, na mente da personagem. Por diversas vezes Tricia está meditando e não há som algum, como se a moça estivesse em um outro universo. Essa ausência de ruídos dissipa os olhares, ponderamos a aparição de qualquer coisa, pois o corpo da personagem está ali, mas sua mente não, portanto, demonstra com perfeição mais uma vez a fragilidade que existe, despertando o inerente desejo de proteção.

O jovem diretor ainda nos proporciona momentos interessantes, quando por exemplo acompanha o olhar assustado da protagonista diante a uma escuridão e, aos poucos, “adentra” ele. Como se essa sombra estivesse possuindo as pessoas e cidade, assim como o próprio túnel – lugar chave dos inúmeros desaparecimentos da cidade -, que surge e é trabalhado de forma extremamente assustadora, se tornando um elemento a parte que, só de olhar, provoca desespero.

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Nas primeiras imagens reforça a ideia da grandiosidade do túnel. Parece que “suga” Callie e a transforma em prisioneira. No entanto a luz em sua cabeça, parece ser um indício da sua inconformidade e força. O túnel poderia representar, literalmente, o mal. E diversos males do mundo, como o próprio desaparecimento ou o vício. Mas são pontos a ser discutidos, o fato é que “Absentia” é uma obra espetacular, que investe pesadamente no clima e usa todos os artifícios técnicos a favor de uma empatia e preocupação com os personagens.

emersontlima

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Hush – A Morte Ouve, 2016

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★★★★

O meu apreço por filmes de terror/suspense/thriller vai muito além do entretenimento. Desde criança me divirto com fantasmas, mundos destruídos, monstros, assombrações, mas acima de qualquer sensação penso que eu sempre tive uma curiosidade em compreender o medo. Sempre achei fascinante o nosso instinto de proteção ou até mesmo o horror do desconhecido, que vão desde situações novas até o próprio escuro.

Alguns filmes de terror conseguem transitar por entre o clichê e utilizar todos os artifícios já criados ao seu favor. É o caso do excelente “Corrente do Mal“, lançado ano passado. Isso mostra não só a força do gênero, como também a realidade: os filmes de terror possibilitam ao diretor, através do medo e apreensão, refletir sobre diversos aspectos da psicologia humana.

“Hush – A Morte Ouve” foi lançado pela Netflix – plataforma que vem surpreendendo bastante com os seus filmes – e, rapidamente, ganhou bastante estrelas no site. O filme conta a história de uma escritora Maddie que tem problemas de audição e vive em uma casa bem afastada da cidade. Em uma noite um assassino aparece e mata a sua amiga e, percebendo a indiferença de Maddie – pois ela não escuta o barulho nem percebe a presença do assassino – ele começa a fazer um jogo psicológico com a escritora até, de fato, matá-la.

Vale ressaltar que esse jogo psicológico, de certa forma, também existem em outros filmes, como exemplo cito o “A Invasora”, filme francês de 2007. Mas o diretor Mike Flanagan – que dirigiu outro bom filme chamado “O Espelho” – se preocupa com um detalhe que irá ser crucial para criar tensão: o som. A protagonista tem problemas de audição desde a infância, se comunica com a sua amiga por sinais e o espectador, desde o início, precisa se encaixar no estilo de vida silencioso da escritora. No entanto, os barulhos exteriores causado por ela – como pratos, celular etc – são ouvidos, ou seja, quem assiste o filme conhece os sons e a protagonista não. Quando ela está inserida em uma situação de sobrevivência, conseguimos antever as ações do assassino antes da protagonista, tão somente por causa dos barulhos. Além do mais, o pensamento imediato é que ela é inferior a ameaça, o que vai ser crucial para provocar o medo.

Nesse ponto, a edição de som é muito oportuna, por vezes fica distorcido, como se estivéssemos em plena viagem até nos transformarmos na isca, junto com Maddie.

Maddie é uma personagem tão forte que as suas limitações, no fim do segundo ato e terceiro, passam a ser um mero detalhe. A sua reação é de uma força inacreditável, nesse ponto o trabalho da lindíssima Kate Siegel é impecável, percorre momentos de medo mas sempre com uma segurança que conforta em momentos onde a tensão atinge níveis bem altos. O que era para ser um ataque fácil, vira uma guerra.

Kate Siegel assume, também, o roteiro. Bem realizado até o final, depois começamos a sentir uma pressa para terminar o filme e os acontecimentos se tornam bem artificiais. Felizmente a conclusão não apaga totalmente a brilhante construção da tensão e “Hush” é mais um bom representante do gênero thriller.

emersontlima

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