#03 – [Três Quadros]: Teshi no Tamago (1985)

Finalmente chegamos a terceira publicação da coluna [Três Quadros], onde me proponho a discutir as obras cinematográficas a partir de três fotografias. A proposta principal da seleção das imagens e comentários é motivar uma reflexão sobre a importância da fotografia para a construção narrativa de um longa. Para isso, busco facilitar a explicação apresentando dilemas filosóficos de forma que se contextualizem com as imagens.

O filme escolhido dessa vez é uma animação chamada “Teshi no Tamago” (1985), dirigida pelo mestre Mamoru Oshii, que também dirigiu o incrível “Ghost in the Shell” (1995) – obra aclamada e que conquistou diversos seguidores com o tempo, muito lembrada por ter sido inspiração para o “Matrix” (1999).

É importante, antes de mais nada, lembrar que a história da animação é tão misteriosa quanto o seu desenvolvimento, pautado em uma proposta surrealista, seguimos uma menina que caminha por entre um mundo devastado. O mundo pós-apocalíptico representa uma desordem interna, no mesmo tempo que a sua jornada é o processo de observação e experimentação de si. A criança, cujo nome nunca é dito, anda sem rumo e o seu objetivo também é nebuloso, a única certeza que existe é que ela precisa cuidar e depositar todas as suas esperanças em um ovo.

O ovo, como já era esperado, representa o desdobramento do amanhã, o mistério, o novo e o renascimento. No filme, esse trajeto desperta a curiosidade e identificação de um outro personagem, um homem, que carrega uma arma em formato de cruz em suas costas.

A animação se constrói com poucos diálogos e por esse motivo a parte visual é tão importante. Vamos às imagens:

1)

O mundo que nossa heroína enfrenta e que, por conseguinte, somos inseridos, é repleto de escuridão. Cada passo da protagonista soa como uma aproximação do perigo, existe morte e tristeza. O visual da menina é interessante: vivendo em um mundo sem cor, seu figurino é a única coisa que contrasta. Vestido rosa, cabelos brancos e a expressão sempre indiferente.

Há diversas cenas onde ela está diante, inserida ou prestes à escuridão. Às vezes ela está na sombra, dá um passo e encontra e luz; outras é o contrário. A primeira imagem foi escolhida para representar essa decisão inteligente. Ela observa e a vemos de frente, a escuridão em suas costas esclarece, logo nas primeiras cenas, a sua condição imersa, principalmente psicologicamente.

2)

Essa imagem é, praticamente, uma continuação da anterior. A protagonista percorre um caminho estreito, as sombras são quase constantes, violadas somente por tímidas luzes que iluminam o caminho. Inclusive elas são extensões do ovo que ela carrega.

3)

O segundo personagem que aparece ao longo da jornada, o homem, segue a garota e se sente, por ela, atraído. O senso de proteção é imediato, mas os dois juntos funcionam como a representação do oposto na sociedade. Ela é jovem, deposita expectativas naquilo que abraça; ele é um adulto, sua arma em forma de cruz traz consigo muito sofrimento e desesperança. Ela veste roupas coloridas; ele roupas com cores frias etc.

A terceira imagem representa inúmeras coisas, começando pela divisão clara entre os dois. Mas há também uma inversão: ela está na cama, em um canto escuro, enquanto ele a observa em um ambiente iluminado. E isso não acontece na maioria das cenas, no entanto, é evidente durante o longa que a menina possui o dom de enfrentar as trevas, o que inspira o adulto a fazer o mesmo.

Sem dúvida essa é uma das maiores animações japonesas que existem, principalmente por unir uma série de dilemas existenciais com uma trilha sonora fantástica. Como já era esperado, a dedicação dos realizadores com o visual de modo a compor um pensamento crítico sobre a natureza é perfeito.

Utilizando-se de extremos opostos, a obra fala subliminarmente sobre o crescimento, bem como a sobrevivência que, pela arrogância do homem, se torna de extrema dificuldade para aqueles que teimam em acreditar que o amanhã trará consigo a felicidade. O uso das cores, sombras e desenho dos personagens são brilhantes, assim como diversas e sutis cenas onde existem alusões ao aprisionamento.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Destino, 2003

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Destino é um curta-metragem que resultou da parceria entre Walt Disney e Salvador Dalí. Foi idealizado no ano de 1945, mas o projeto ficou abandonado por problemas de verba e só foi retomado novamente em 2003 por Roy Edward Disney (sobrinho de Walt Disney).

Algumas questões se mostraram proeminentes no roteiro, seriam elas:
Quanto tempo dura um amor?
É possível resistir ao tempo?
É possível resistir a distância?
É possível resistir a dor?
Seriam essas mazelas parte do destino?

Cabe a cada um de nós buscar a resposta, mas antes de partirmos nessa jornada permita-me contar minhas impressões sobre o curta.

O mundo surrealista de Salvador Dali é uma investigação imagética da psique humana. As figuras, por vezes, disformes ou de aspecto líquido tentam traduzir sentimentos profundos, sentimentos suplantados pelo peso de existir.

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A animação trata de maneira surreal a passagem do tempo e o peso de amar. Acompanhamos a trajetória de uma mulher que busca e sente o amor de uma forma muito particular, amor este que não se realiza de uma forma física e por esse motivo deixa uma sensação de incompletude. Conforme o tempo passa o amor mantém-se vivo, e a busca continua incessante, mas será que só isso basta para enfim esse sentimento atingir sua plenitude? 

E se o acaso, ou melhor, o destino interferir no processo? 

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Vemos o homem se libertar da prisão temporal e a partir dai segue-se sua busca pela amada, nasce a expectativa do encontro, do final feliz que aprendemos com as histórias contadas pelo estúdio de Walt Disney. Dizem que a esperança é última que morre e que o amor é imortal, dentro desse padrão, essa história parece encaminhada para o final perfeito, mas não é bem assim na realidade (ou na surrealidade, se preferir). 

Há um desencontro. E é desesperador, ver aquelas duas almas lutando por um mesmo objetivo (um ao outro) sofrer nas mãos do Destino. É desesperador pensar que é tão mais simples o amor ser soterrado pela vastidão do deserto. É um sofrer pelo outro e por si próprio que cala como uma noite escura no âmago.

            destino,

            traga-a de volta para mim,

            para o meu lado,

            eu tanto chorei

            por este amor ingrato.

Esse trecho da canção ecoa após o término e nos persegue como quem persegue a pessoa amada.

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Júlio Belisário

Quando eu cheguei já estava assim. ¯\_(ツ)_/¯

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Flowers, 2015

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★★★★★

Sempre surge, em uma discussão sobre o terror, a questão do gênero estar em plena decadência. É evidente que mudanças são feitas por conta do contexto, esse gênero tão querido se transforma conforme as situações que a sociedade passa.

No mesmo tempo, surgem inovações, como o found footage que se mostrou uma boa oportunidade para produzir com pouco e render bastante, uma verdadeira porta de entrada para realizadores independentes criarem o seu, as vezes, bom conteúdo.

Ou seja, há diversas experimentações e, por consequência, no mesmo tempo que existem coisas boas, há muitos oportunistas. O que é normal em qualquer área da criatividade humana. Esse ano de 2015 está sendo muito interessante para os, como eu, amantes do terror. Tivemos “It Fallows” que brinca com os clichês de forma inteligente e, principalmente, o suspense de forma eficiente. “Goodnight Mommy” é um drama com resquícios de horror psicológico – talvez o subgênero mais complicado que existe, pois é preciso ter consciência do objetivo e saber conduzir a trama para esse fim, com artifícios técnicos. Outro que, na minha opinião, se destacou bastante foi o “The Atticus Institute” pois pega um elemento conhecido dos filmes atuais, o exorcismo, e subverte a regra, tranca a protagonista, usa o homem como peão para tentar controlar o mal.

Acrescentando mais um para a lista, “Flowers” é uma perfeita viagem surrealista através da destruição e a própria morte. Antes de, fatalmente, revelar um pouco da sinopse, indico ao leitor que não se atenha simplesmente as informações/sinopses como indicadores se devem ou não assistir essa pequena obra prima pois é muito pouco, nem de longe demonstrará a profundidade que é acompanhar a experimentação dirigida pelo estreante Phil Stevens.

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A história toda se passa em uma espécie de mansão, cujos porões escondem prisioneiras que, na sua maioria, foram abusadas. Acompanharemos seis mulheres, se arrastando como vermes a caminho de uma fuga, mas para chegar lá são expostas a destroços humanos, sangue, medo e a própria morte.

Destacarei dois aspectos importantes para contextualizar os elogios que virão a seguir, sim, pois o filme é perfeito dentro da sua proposta. Primeiro: Não temos um diálogo sequer, uma hora e vinte minutos de desespero, com sons estranhos, distorcidos, as vezes abafados, como se as mulheres estivessem no inferno. Segundo: Se trata de um filme extremo, com muito sangue, podridão, violência e sujeira – inclusive o tom sépia ajuda na construção desses elementos, principalmente na “sujeira”.

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Logo no começo percebemos que o filme acompanha uma prisioneira, aos que não leram nada antes de assistir, como eu, esperam ansiosos por gritos e pedidos de socorro e, extraordinariamente, isso não acontece. O fato de não haver uma frase sequer, subverte o clichê clássico da moça indefesa que grita por ajuda, inclusive existem seis mulheres que, mesmo em meio ao desespero, se mantém, estranhamente, calmas, como se os seus corpos estivessem em um lugar e a mente em outra, ou como se a tortura fosse tão grande que, aos poucos, elas foram se distanciando da própria persona, se transformando em um zumbi.

A edição de som se aproveita para assumir o posto de protagonista, pois se as personagens, cuja existência fora deixado no passado, não falam, existe no som uma tradução do que elas estão vendo. Gemidos, moscas, gritos, barulhos, incomoda muito os mais conservadores pois, como disse anteriormente, talvez seja uma fiel demonstração, no audiovisual, do que é o inferno para aqueles que acreditam. Aliás, o inferno, como sentido em Flowers, é a casa de um monstro e esse monstro é mesmo um ser humano.

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Há ainda uma provocação, uma distorção de lógica, em muitos momentos é possível encontrar um crânio de porco no chão ou em cima de algo, imediatamente ouvimos um porco, bem abafado, como se fosse uma lembrança ou, simplesmente, uma analogia o quão vivo aquele porco se encontra. O surrealismo que está presente constantemente, impulsiona ainda mais o sentimento de repulsa e curiosidade, nada é explicado, o que faz desse filme uma obra extremamente particular, muitos não conseguirão passar dos vinte minutos iniciais.

Quem assistiu o também fascinante e terrível “Subconscious Cruelty”, de 2000, percebe imediatamente que este serviu como inspiração para que “Flowers” tivesse a oportunidade de ser tão ousado e, no mesmo tempo, profundo no seu drama. Assim como sua inspiração, a mensagem em “Flowers” está protegido por camadas de carne e o diretor, sabiamente, entrega uma faca a cada espectador e lhe promete respostas se tiver coragem de dissecar, rasgar e torturar a vítima.

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Sabe quando você leva um susto muito grande e fica sem a voz? Então, “Flowers” se passa nesses três segundos sem reação, onde o medo é tão insano que perdemos o controle do nosso corpo. Onde a dor dá lugar a busca interminável por sobrevivência. Existe beleza na violência quando explorada no audiovisual, pois mesmo que alguns tentem provar a gratuidade do extremo, os artistas que pensam os objetivos atrás da cortina geralmente tentam encontrar respostas, muitos se perdem em meio a própria verdade de que, infelizmente, o homem é abominável.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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