Tangerina, 2015

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★★★★★

O diretor Sean Baker dirigiu em 2012 o pequeno grande filme “Starlet” que, basicamente, acompanha uma menina e uma relação nada provável que se estabelece entre ela e uma senhora de 80 anos de idade.

O engraçado é que por mais que eu tenha gostado do filme, apenas a intenção de “mergulhar” na relação fora do comum entre uma pessoa querendo descobrir o mundo e uma senhora solitária que tem muito a oferecer, que realmente me chamou a atenção. Quando eu assisti, há uns 2 anos, jamais classificaria o diretor como ousado ou um grande nome para o futuro. Vejam só que ironia! Assistindo o seu mais recente filme foram exatamente essas certezas que eu tive.

“Tangerina” tem como proposta algo aparentemente simples: acompanhar a vida de duas meninas, transexuais, pelo mundo da prostituição. Como podemos imaginar, esse mundo suburbano traz consigo uma série de outros elementos que irão compor essa história como, por exemplo, violência, preconceito, amizade, falsidade etc.

 O trabalho de direção é muito eficiente pois consegue transmitir uma sensação de rebeldia, desprendimento e atitude, demonstrando com perfeição a alma do cinema independente. Filmado inteiramente com apenas 3 Iphones – o que não é algo inédito no cinema – os movimentos de câmera que acompanha a protagonista, geralmente enquanto ela perambula pelas ruas de Los Angeles, dá a sensação de mergulho na personagem, nas suas necessidades, bem como no seu olhar sobre as ruas.

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Mesmo que o diretor se utilize da tecnologia para a filmagem, o seu trabalho é tão eficiente e maduro, as decisões são tão oportunas, que logo nas cenas iniciais concluímos que o filme, de forma alguma, é amador. Muito pelo contrário.

O fato de ser utilizado celulares para a realização, não apenas diz respeito ao orçamento, como também dá a possibilidade de uma maior liberdade de criação, uma flexibilidade e intensidade que, no caso do filme em questão, se torna muito necessário. Com o ótimo resultado em grandes festivais como Sundance, por exemplo, essa decisão impacta diretamente na forma de se fazer filmes. Hoje com o crescimento da tecnologia, a evolução da qualidade, se tornou muito fácil produzir um conteúdo. Isso de forma alguma é algo ruim, pois dá voz à pessoas talentosas para produzirem a sua arte da forma mais acessível possível.

O celular pode ser uma ferramenta crucial no cinema, principalmente independente, pois é algo que a maioria possui. Então partir do pressuposto, em uma narrativa, que a realidade está sendo captada da forma mais amadora e visceral é possível, e, dependendo da forma como será trabalhada, poderá ser desenvolvidas outras grandes obras como “Tangerina”; Que consiga se sobressair a qualquer dúvida em relação a qualidade de filmagem.

Sean Baker, um diretor de 44 anos – com muita vontade e sensibilidade – conheceu duas pessoas em um evento LGBT: Kiki Kitana Rodriguez e Mya Taylor. Ambas não tinham nenhuma experiência como atrizes e desenvolvem as suas personagens de forma extremamente visceral. Existe uma liberdade ali, uma intenção de tornar as ruas em um grande palco e, assim, fazer as atrizes brilharem. Eu não hesitaria em afirmar que ambas as atuações poderiam ser reconhecidas em premiações grandes, caso não existisse tanto conservadorismo e preconceito no mundo.

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Logo no início já percebemos uma preocupação enorme em ser natural, o que poderia acabar resultando no equívoco da artificialidade, porém, se mantem com elegância no objetivo, a naturalidade se torna o maior mérito dessa obra. Talvez os conflitos apresentados sugiram algo vazio nas cenas iniciais, porém demonstra com perfeição a realidade dessas pessoas, que se utilizam da rua como uma forma de sobrevivência e aceitação.

A amizade está muito presente, assim como a comédia. É incrível a capacidade dos envolvidos em apresentar um tema tão profundo, de forma tão despretensiosa e que se relacione tão bem com o humor. Mais interessante ainda é notar que há uma inteligência na mescla do drama em momentos pontuais, homenageando essas personagens que conseguem ser tão fortes a ponto de sorrir mesmo em meio as lágrimas internas que existem quase que constantemente. Os conflitos, que pareciam vazios, vão dando lugar ao entendimento e respeito para com aquela forma de vida.

O uso da música, de uma forma geral, é muito boa, em dado momento temos um clássico de Beethoven e a personagem parece estar acorrentada pela vida, pelas pessoas, como se fosse invisível, e, de repente, diante a um movimento simples, começa a tocar um hip hop. Em outra cena, uma das melhores do filme, Alexandra ( Mya Taylor ) apresenta a canção “Toyland” em uma boate, extremamente linda, extremamente talentosa, porém, não consegue atrair tantos olhares, tantas admirações; Depois em uma discussão sabemos que ela teve que pagar para cantar na boate, ou seja, precisava se mostrar. No entanto, o sorriso no rosto ao convidar suas amigas e clientes para a sua apresentação, dá lugar a decepção da realidade: ela é uma pessoa que vive a margem da sociedade.

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O fato da história ou conflito acontecer na véspera de natal, só reforça o quanto faz falta um lar. No mesmo tempo que diante a fotografia alaranjada, os detalhes vermelhos e a própria postura das protagonistas, sugerem que aquele sistema se torna uma grande família imperfeita, por mais errôneo que possa parecer aos olhares exteriores.

Desde as prostitutas até os pais de famílias que procuram os seus serviços eventualmente. Aliás, o termo “família” é algo muito questionável durante o filme, talvez de forma implícita, assim como a amizade. Parece que todas precisam ser amigas, precisam estar conectadas, uma relação amorosa não é o suficiente, o sexo, por sua vez, não é prazeroso.

“Los Angeles é uma mentira embalada em um papel bonito”

Outro foco do longa é os taxistas armênios, além deles serem um dos clientes das prostitutas no filme, servem como uma fuga para o espectador. As cenas inseridas com pessoas, por vezes, aleatórias, conversando sobre o cotidiano é uma quebra, uma forma de direcionar rapidamente o olhar para o outro lado e, assim, percebemos que lá ocorre algo tão monótono ou complexo quanto. Enfim, tudo é a vida.

Se o começo do filme é de uma intensidade tamanha, no final temos um equilíbrio. Tecnicamente tudo vai se tornando mais calmo, um verdadeiro contraste a uma série de confusões que vínhamos acompanhando. Temos uma densidade que traz uma reflexão sobre todo o processo: percebemos o quão importante é tentar entender os motivos do outro e ultrapassar nossos próprios preconceitos sobre um mundo do qual não pertencemos mas que permanecemos vizinhos. Afinal, existe centenas de coisas absurdas acontecendo nas ruas nesse exato momento.

A cena final é extremamente carinhosa, onde o espectador se conforta junto com as duas amigas, e passa a ter certeza que, apesar das discussões, a amizade que existe ali é verdadeira e confortará ambos corações em momento de desespero – pelo menos naquele instante é de suma importância ter alguém para dividir a peruca.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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The Boy, 2015

the boy ( cronologia do acaso )

★★★★

The Boy surge com uma proposta desafiadora ao extremo: acompanhar a evolução da maldade através de um assassino em série. Baseado em um curta premiado, exibido em Sundance em 2012, acompanharemos a história do Ted Henley em uma trilogia. Esse primeiro ele tem 9 anos, nos próximos terá 14 e 18.

Essa ideia pode não parecer inédita, porém, se usar como base a narrativa contemplativa, perceberemos imediatamente que não se trata, necessariamente, de um filme de terror. Evidentemente o tema é assustador, afinal a criança é muito vinculada a bondade e verdade, acima de qualquer coisa, então essa ideia da maldade ser intrínseca a alguns seres ainda é alvo de muita contradição, curiosidade e, até mesmo, misticismo.

Ted Henley será desvendado em três filmes, nesse primeiro, “The Boy”, a única preocupação é investigar a normalidade de suas ações e, no mesmo tempo, anormalidade das suas interpretações do mundo, principalmente a despreocupação com a morte – visto que o menino mata vários animais na estrada -, no entanto, se por um lado temos um menino frágil e desprotegido, pois o seu pai vive bêbado e ausente, do outro nos surpreendemos em observar um ser independente que parece ter calculado com antecedência os seus passos.

O designer de som é brilhante nesse aspecto, pois dá ao filme uma densidade constante, contrastando com as ações do menino que, por mais que faça algumas “travessuras” em nenhum momento, no início, se compara com a profundidade do som. Parece que está acontecendo algo incrivelmente grande e, por consequência, invisível aos olhos.

A iluminação orgânica, cria uma atmosfera claustrofóbica, inclusive a fotografia avermelhada faz uma clara referência ao inferno. Pelo fato do filme se passar todo em um motel afastado da grande cidade, o menino parece ter uma liberdade além do normal para alguém da sua idade e vivendo nos dias atuais, fazendo da estrada o seu palco, onde é um grande protagonista de filme de terror e os animais, coitados, os figurantes que serão mortos na primeira oportunidade.

Aquela paisagem hostil consome o protagonista. E o protagonista, por sua vez, aproveita as oportunidades para reinar e ser cruel. A sua naturalidade vai dando vez a um sentido de urgência em praticar aquilo que vinha treinando com tanta paciência, os minutos finais são arrebatadores, fazendo jus aos grandes clássicos do cinema onde existem crianças malvadas como em “The Bad Seed” de 1956.

Craig McNeil consegue em seu primeiro longa, fazer um filme realista, fugindo do caricato e sem preocupações de agradar um grande público. É o terror na sua essência, causando desconforto e reflexão sobre a própria iniciativa de praticar o mal.

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Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer, 2015

Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer ( Cronologia do Acaso )

★★★★

“Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”, premiado em Sundance, caminha em direção oposta a outros filmes feitos para jovens – muitas vezes baseados em livros: ele traz personagens bem identificáveis e naturais.

Apesar de ter gostado de “A Culpa é das Estrelas”, é impossível não perceber que a comunicação que se estabelece entre o casal é de uma maturidade tamanha, isso nem seria absurdo, o problema é quando existe uma relação quase perfeita, no que diz respeito a atitudes e a própria palavra. É tão bem encaixado, tão bem desenvolvido, existe tanta esperança no outro e o outro, por sua vez, nunca decepciona. São exibidos os melhores momentos, as melhores referências, os melhores questionamentos e as melhores escolhas. Parece ser a vitrine do relacionamento “popular” ou “descolado”.

De forma alguma é ruim, muito pelo contrário, é possível os jovens se identificarem, ou até melhor, podem buscar a melhor versão deles mesmos através dos personagens que adquiriram uma intelectualidade e maturidade por estarem a beira da morte. Mas ainda assim me parece forçado. O mesmo acontece com “Crepúsculo”, “Cidade de Papel” etc.

Quando afirmo que “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer” caminha em direção oposta a essa questão, é possível, dada a explicação, entender como uma real forma de se identificar de forma orgânica com os personagens e não somente tentar desesperadamente ser ou sentir aquilo que os amados bonitinhos são ou sentem. O filme dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, que dirige também American Horror Story e Glee, ou seja, entende as expectativas do jovem, começa com a brincadeira do clichê logo em seu título: Me and Earl and the Dying Girl. 

A tradução para o português, ao que parece, resolveu trocar o nome do amigo do protagonista “Earl” por “você”. É uma diferença pequena, nem se compara com outras catástrofes em termos de traduções, mas ainda assim é motivo para refletir. O relacionamento que se estabelece é pano de fundo, um mero detalhe, para evolução de um ser humano e, coincidentemente, esse ser é um jovem. Portanto, existe três elementos chaves para a composição desse rito de passagem: Greg, um jovem que não sabe o que fazer da vida. Earl, seu amigo e extremamente importante para o não isolamento total do protagonista. E, por fim, Rachel, que é uma menina que tem leucemia, que está morrendo e que vai, diferentemente de outros filmes já citados, contribuir com o crescimento de Greg através da própria situação, pessimismo e distância, tudo isso através de uma amizade.

É tão natural ao ponto de nunca tentar deixar a dúvida se existirá um futuro namoro, claro que os mais otimistas pensarão isso, mas o ponto positivo é trabalhar o amor de forma mais abrangente, afinal, a importância de uma pessoa para uma outra nem sempre é traduzida em beijo na boca, abraço e relacionamento em que todos ficam felizes e bem no final. O aprendizado parte justamente do contrário, das experiências, independente da relação que se cria.

Parece, hoje, que temos uma necessidade em achar crucial o relacionamento amoroso. E afirmar em todos os cantos que só assim seremos felizes para sempre. Mas espera! Será mesmo que uma pessoa no final da vida, temendo a morte e pessimista quanto a possibilidade de uma salvação, teria tempo para conhecer um príncipe encantado e se apaixonar? Pode ser, pode acontecer, mas e o outro lado?

estranho na escola Sempre nas escadas ( algo a alcançar )

Somos apresentados ao protagonista como um jovem comum. Na escola ele é mais um, o talento do diretor em lidar com o clichê, mais uma vez, é muito eficiente, visto que explora certas técnicas para dizer o “de sempre”, porém, sem precisar de muita explicação. Nas imagens acima, por exemplo, vemos Greg caminhando pelo corredor da sua escola em um plongée e, na primeira vez que encontra Rachel, é apresentado a menina em um contra-plongée, mesmo que a moça represente uma iminente fragilidade, se revela ao espectador como uma figura bem mais segura e confiante que o protagonista e é justamente esse ponto que deverá ser trabalhado ao longo dos 105 minutos de projeção.

Uma das coisas que eu sempre perguntei era como ficariam minhas coisas se eu morresse hoje. Não que eu seja uma pessoa materialista – quem não é um pouco hoje em dia? – mas existem certos objetos que estão atrelados a nossas lembranças mais impactantes, um diário, uma caixinha de cartas, enfim, são diversos elementos materiais que ajudam na composição da nossa história. Sendo assim, me peguei fascinado com a exploração do quarto que existe em “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”. O relacionamento dos personagens/desenvolvimento acontece, basicamente, no quarto da menina, as pelúcias e os seus inúmeros travesseiros representam a sua personalidade, um tanto quanto atenue.

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Greg definitivamente não sabe lidar com a morte, definitivamente não sabe lidar com as pessoas – inclusive chega a teorizar sobre tudo, inclusive as “gostosas”, mostrando mais uma vez a sua vulnerável personalidade – sua amizade com Earl parece ser estruturado a partir da sorte e, principalmente, do cinema. Repleto de citações cinematográficas, afinal, ambos são “cineastas” amadores, esses trabalhos ao longo chegam a acrescentar a trama e, ainda por cima, criar um alívio cômico pois, mesmo que não pareça, estamos falando de um filme profundo.

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No final temos a conclusão da subversão do clichê em relação aos filmes de jovens, com a reflexão: “ela ia dizer aquelas coisas que só aprendemos no final da vida “, no entanto, nessa obra, dentro de suas limitações, ousada, eles simplesmente sentem o silêncio juntos, como verdadeiros amigos onde, em uma simbiose, entendem que nenhuma palavra que seja pronunciada aliviará a dor de estar prestes a morrer. E, para você que pensa que esse último parágrafo contém spoiler, te provoco perguntando: será possível uma pessoa morrer enquanto vive dia após dia?

A única coisa que afirmo, para finalizar, é: na minha morte, eu adoraria estar assistindo um filme.

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The Nightmare, 2015

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★★★

Rodney Ascher fez em 2012 uma análise, em forma de documentário, do filme “O Iluminado” do Stanley Kubrick, ou seja, é necessário uma alta dose de paixão para fazer algo assim, ainda mais como em “Room 237” que traz diversas teorias interessantes, outras nem tanto, sobre o clássico do terror de 1980.

Rodney ainda se aventurou com um pequeno curta no “O ABC da Morte 2” e, enfim, chegamos ao seu esperado documentário “The Nightmare”, lançado no Festival de Sundance desse mesmo ano ( 2015 ).

A ansiedade em assistir era enorme, principalmente por causa do assunto que soa tão natural, enquanto analisado psicologicamente e, no mesmo tempo, extremamente misterioso pois, como escreverei a seguir, o tema é cercado e criado a partir das crenças, ou seja, a ideia do mal ou desconhecido ainda está muito atrelado ao demônio, mesmo com todos os avanços tecnológicos, esse medo primitivo ainda se revela muito  presente na vida do homem moderno, ainda que, por vezes, seja preciso um impulso do seu subconsciente, como é o caso da “paralisia do sono”.

Coloco “paralisia do sono” entre aspas, justamente pelo entendimento e crenças diferentes, a “paralisia do sono” remete-nos a uma maravilha/acontecimento bizarro da psicologia no qual o ser humano desperta durante o sonho REM e é nesse estágio do sono que o seu corpo fica imóvel para, assim, ter uma maior segurança diante aos possíveis reflexos que traduzem o mundo dos sonhos, ou seja, a pessoa acorda durante a noite e não consegue mexer o corpo. Estando praticamente em uma posição de “intruso” pois, de fato, era para estar sonhando, o sujeito começa a ter alucinações e visões dentro do seu próprio quarto ou onde quer que esteja, geralmente essas visões – mediante a crença de cada um – são relacionadas com demônios, sombras, enfim, criaturas pouco amigáveis, afinal, estamos falando, literalmente, de um pesadelo acordado.

O que acontece em seguida é o seguinte: a pessoa tenta mexer o corpo e pelo fato de estar imóvel, começa a sentir uma pressão no peito, é por esse motivo que existem várias culturas que atribuem esse evento a um demônio que fica em cima da barriga da pessoa ou até mesmo há quem diga que demônios transaram com eles na cama.

O documentário explora a história de algumas pessoas que passam/passaram por isso, cada um narra as suas histórias e, enquanto isso, é nos mostrado através de uma simulação, extremamente eficiente no que diz respeito ao uso das cores e dos sons, aproximando os espectadores das sensações que a paralisia traz ao indivíduo.

Existem algumas séries de terror com esse formato, aliás, se engana quem pensa que “The Nightmare” é um documentário que explicará cientificamente a paralisia do sono, o objetivo é, claramente, provocar o medo, abusando dessa ideia de vulnerabilidade que temos enquanto estamos dormindo.

A hipótese de que realmente exista algo sobrenatural nessas experiências é bem explícita ao longo dos 90 minutos, o que pode acabar causando um cansaço, repete várias vezes o mesmo formato, até chegar no real interesse que é compreender ou tentar a alucinação que cada um teve. Portanto, é curioso questionar o quanto a ciência pode nos explicar esses acontecimentos, no mesmo tempo que se existisse apenas um psicólogo no documentário já enriqueceria a discussão, por vezes eu acredito que a mente humana é mais assustadora do que inúmeros filmes de terror e provocar o medo com essa afirmação seria, ao menos para mim, muito mais interessante.

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Hot Girls Wanted, 2015

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★★★★

Esse é um documentário, que causou um certo barulho em sundance, dirigido por Jill Bauer, Ronna Gradus, acompanha a vida de algumas atrizes pornográficas, enquanto reflete sobre algumas das principais características da indústria, além do motivo dessas meninas, manipulação e, até mesmo, violação do corpo.

Essas e outras questões importantes não são levados a última potência, pois a preocupação em ser politicamente correto atrapalha. Ou melhor, o maniqueísmo é bem forte e afeta drasticamente o desenvolvimento.

Não que seja ruim, longe disso, só estou questionando o porquê de tamanha cautela, ao mostrar algo que é extremamente recorrente no mundo contemporâneo. Por exemplo, após terminar de assistir, eu simplesmente anotei os nomes de algumas atrizes para procurar os seus vídeos. Só para certificar.

Os vídeos pornôs são de fáceis acessos, a curiosidade do homem, como consequência, se amplia de forma astronômica. Os jovens tem uma facilidade à informação inacreditável, tirando-o, assim, da primeira barreira de “perigo” que existia há algum tempo atrás. Quando eu era criança, pegar uma revista da Playboy era a mesma coisa que matar alguém, meu coração até palpitava de medo de alguém descobrir. Fui descobrir o que, de fato, era o sexo com uns 12 anos, assim acabei percebendo que aqueles eróticos da Band não eram tão reais.

A demanda pelos vídeos de sexo está relacionado ao prazer do voyeur, muitas vezes as atrizes/atores estão níveis acima do nosso potencial físico, acabam, por sua vez, preenchendo as nossas inseguranças. A industria pornô é pautada em bundas arredondadas, peitos grandes, cara de ninfeta, pau gigante, gozo na cara etc.

A gente sabe que a realidade é diferente. Não há violação do corpo humano… ou será que tem[…] melhor ainda, será que teria mais se não existisse os vídeos pornôs? Talvez esse seja o real motivo, admiram o audiovisual, as possibilidades infinitas para, assim, se distanciarem da perigosa impulsão.

O pornô é pura arte. Porém se abstém com facilidade da sua essência. Por personalidade primitiva dos homens, o pornô é a puta, não o registro. Mas reparem, caros punheteiros, que existem pessoas ali, existem atrizes e atores, diretores. E o fato deles todos estarem excitados, não te dá o direito de menosprezar os seus respectivos valores.

O documentário peca, infelizmente, em um único ponto: no abuso do coitadismo, quando se tratando das atrizes. É evidente que há exploração, elas são submetidas a coisas “terríveis” – gozada na cara – etc. Mas há uma observação importante no que diz respeito a própria vontade delas.

Todas estão nesse meio porque querem. Ninguém obrigou, a situação financeira nem estava tão difícil assim. É a desenfreada busca pela fama e dinheiro que todos sabemos que movem montanhas. Então agir como se elas fossem marionetes é, em suma, menosprezar as suas capacidades intelectuais.

Eu tenho uma vontade grande em realizar pornôs, como diretor – que fique claro! – pois admiro a capacidade de alguns em brincar tão lindamente com o tema, como Gaspar Noé, por exemplo. Mas me atenho aos fatos e, por enquanto, sou somente um punheteiro.

Obs: Em dado momento entra em questão o fato de que a maioria das buscas em sites pornográficos correspondem a palavra-chave “adolescência”. É algo a se questionar, essa ânsia pela inocência pode, também, ser um reflexo de vários abusos que acontecem diariamente. A internet é um verdadeiro perigo.

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Kurt Cobain: Montage of Heck, 2015

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★★★★★

É difícil escrever sobre um documentário biográfico, como esse, pois o gosto de cada um pelo artista ou personalidade que está sendo retratado interfere bastante no que diz respeito ao cinema. Na verdade, não podemos esquecer de quem somos fãs e do motivo de gostamos de determinada pessoa. Mas também temos que ser abertos o suficiente para reconhecer belas trajetórias que nem ao menos conhecíamos.

Quando é o caso de artistas, seja música, cinema, entre outros, é um pouco diferente, pois a ansiedade fala alto. Eu estava querendo assistir esse documentário desde que soube da sua exibição em Sundance, nesse ano mesmo (2015), primeiro porque sou um grande admirador do Kurt, segundo pelo diretor, Brett Morgen que é, para quem não sabe, o realizador daquele documentário indicado ao Oscar, excelente, chamado “On the Ropes” que humaniza três figuras do boxe, esse que é um esporte que eu desconheço e não me interesso.

Temos um diretor que sabe humanizar os relatos/histórias avordando uma figura icônica, o que poderia dar errado? Bem, só vai desgostar de alguma forma, aqueles que não se interessam nem um pouco em conhecer mais sobre a vida desse ser humano, digamos, triste, que foi Kurt Cobain. Dado essa introdução, peço licença e me dedico, agora, exclusivamente a falar sobre esse homem.

Não sou como eles
Mas posso fingir
O sol se pôs
Mas tenho uma luz
O dia acabou
Mas estou me divertindo
Acho que sou Idiota
Talvez apenas feliz

Kurt Donald Cobain é um símbolo para uma transição muito estranha que ocorria nos anos 90. O mundo passou e passa por diversas transformações ao longo da história, é só sentar do lado dos nossos avós e eles nos contam infindáveis histórias de um tempo cheio de trabalho e pouco tempo para pensar na vida. Esses momentos não permitiam ao indivíduo uma auto-experimentação. Veja as drogas, por exemplo, em uma vida simples parece que há algum tempo atrás elas nem existiam, pois mesmo que louco você teria que arcar com as responsabilidades. A sociedade precisava caminhar em direção a algo, seja trabalho, família, amizades, bebidas, guerras, etc.

Os anos 70 foram importante para a massificação do sentido contrário do “em frente”. O homem se dava ao luxo de, por vezes, parar e pensar em si mesmo. Bem, como podemos imaginar, as guerras acabaram, as cidades já estavam construídas, as famílias não tão mais conservadoras. E o jovem? O jovem dessa geração, ainda que influenciado, mesmo que indiretamente, por diversos movimentos como o punk e hippie, teve filhos. Esses filhos sentiam na pele, desde crianças, a influência da liberdade, o conservadorismo, tão presente tempos atrás, se desfazia aos poucos, até porque os pais, que outrora foram filhos, não queriam ser a mesma coisa que aqueles, supostos, seres caretas, que foram os seus pais.

O casamento passou a ser visto de uma forma diferente, o amor, a adoção, ter filhos, os filhos… tudo estava diferente. O que o jovem poderia pensar, senão, na sua própria tristeza? Os jovens dos anos 90 adiante, não generalizando, sentiram na pele a dor de não fazer nada, não ter grandes problemas para pensar, para ocupar a cabeça. A falta de carinho da família, como visto no documentário, já se revelava um grande motivo para ser o que era legal: rebelde. Não quero dizer aqui que isso é errado, ou que as gerações anteriores foram melhores, muito pelo contrário, eu me enquadro nesse perfil de tristeza-melancolia-rebeldia-fracasso e, por isso, coloco do fundo do coração que o que Kurt Cobain representa para essa geração não é pouca coisa.

Eu conheci o Nirvana com mais ou menos 12 anos, minha vida já estava uma catástrofe para ouvir coisas do tipo, o grunge era coisa de menina para mim. Mas quando retornei meus olhares para essas músicas, percebi que simplesmente eu era uma consequência delas. O processo de identificação foi imediato.

Minha fonte interna favorita
Eu vou beijar suas feridas abertas
Aprecio sua preocupação
Você vai feder e queimar.
Me estupre,
Me estupre, meu amigo
Me estupre, me estupre novamente

As pessoas fingem que não são tristes, que o mundo não é uma doença. Mas será que todos simplesmente não colocamos uma máscara para ocultar? E se a essência de tudo está no vazio, se as relações só existirem para fracassarmos, para sermos superados e não escolhidos? Bem, parece coisa de idiota para você? Ok, mas o jovem hoje de 13 anos, como eu um dia já fui, está ouvindo coisas que a manipulam de tal forma, a acreditar que por ela ser “novinha” é merecedora de aplausos, recebendo, assim, falsos sorrisos, por ser uma pessoa doente e ignorante. O que Kurt fez foi ser o exemplo de alguém “foda-se”, não importa quem lhe escuta, contanto que buscasse respostas dentro do seu próprio sofrimento.

Eu  não sou a favor de suicídios, nem nada do tipo, mas acredito fielmente que o ser humano não é forte quando sorri diante das mentiras, mas sim quando consegue sorrir mesmo diante as duras verdades. Kurt não era uma pessoa triste, era uma pessoa sem motivos para existir, senão, inspirar, como todos nós. Mas para ele isso não era o suficiente.

Quando perguntado, por uma repórter, se não achava que seus fãs tinham curiosidade para o entender, através das suas músicas, ele responde com desdém que espera, mesmo, que eles tentem se entender através delas, que eles interpretem. Parece óbvio vindo de um artista, mas o grupo Nirvana cantava para, digamos, crianças.

Esse é um outro motivo de preconceitos, as crianças gostam de Nirvana. Será que as meninas que andam com a camisa da banda, sabe ao menos o que ela significou? Aliás, é preciso saber?

Eu não sou tão cercado de preconceitos, ou pelo menos tento não ser, e adoro o fato dos jovens descobrirem constantemente Nirvana, até hoje eles permanecem como o hino de uma geração fracassada, fracassada por preferir o mesmo. Kurt foi tudo, menos o mesmo, ele ao menos fez sexo.

Eu sou pior no que faço de melhor
E por essa dádiva eu me sinto abençoado
Nosso pequeno grupo sempre foi
E sempre será até o fim

Os pontos cruciais do documentário são as animações, que exprimem com os traços e fotografia, a atmosfera da mente do vocalista, refazendo-o, recontando-o, não com sua imagem e ações verdadeiras, pois essas hoje estão em um caixão. Aliás, não considero e nunca considerei Kurt como um gênio, muito pelo contrário, ele passa longe, mas a identificação é tamanha que, sim, algumas de suas músicas são geniais, pois eu sou genial, ou deveríamos todos ser.

Os momentos finais do Cobain com Courtney, em uma vida extremamente destrutiva, se torna incomodo, senti-me invadindo a privacidade de um casal, por outro lado me peguei imaginando uma série de outros casais na história da música como Sid e Nancy, quando a relação se torna um vício ou uma ponte para o vício. Engraçado é que o filme, Sid e Nancy(1986) protagonizado pelo Gary Oldman e Chloe Webb tem como atriz secundária a própria Courtney, inclusive ela estava cotada para interpretar a Nancy.

Me perguntaram uma vez, como foi que Kurt Cobain faleceu, de imediato, sem parar pra pensar, respondi: Sufocado com a sua própria popularidade. O curioso é ouvir a sua própria mãe, no documentário, falando que disse para ele, após ouvir o álbum Nevermind, que o mesmo não aguentaria o que viria a seguir. Quem aguenta, afinal?

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