Indicação de filmes – O olhar das crianças sobre o mundo que as cercam

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We are the world, we are the children/ Nós somos o mundo, nós somos as crianças

Quem são as crianças? Os adultos crescem e, erroneamente, aceitam o fato de que se tornam mais distantes da imaginação. O ser humano é o único animal capaz de sorrir e talvez o mais genuíno sorriso seja o da criança.

No cinema, diversos temas já foram trabalhados sob a perspectiva das crianças e, quando bem explorado, é sempre muito interessante acompanhar essas histórias. É possível transformar coisas simples em mágicas, simplesmente por ser possível utilizar a inocência como forma de desenvolver determinada história, mesmo que seja repleta de medos e dores.

As crianças estão no cinema desde o seu início, quem não se lembra, por exemplo, do menininho do filme “O Garoto”, do Charles Chaplin? Esse é um ótimo exemplo pois se trata de uma transição, Chaplin passou a construir histórias pautadas na drama e comédia e a sua ousadia atingiu o limite, passou a dizer coisas horríveis sorrindo, de forma a amenizar os sofrimentos do mundo e, ainda assim, alertar à todos.

Essa é a primeira parte de uma postagem, onde irei recomendar alguns filmes que são desenvolvidos sob a perspectiva de uma criança. Ela pode ser protagonista ou não, mas certamente terá um papel crucial na história. Dei um maior destaque para obras pouco conhecidas, pois esse é o perfil do Cronologia do Acaso. Obs: As obras não estão em ordem de preferência, isso certamente seria um erro, pois todos atingem uma qualidade incrível.

1- Hugo och Josefin ( 1967 ), Suécia

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A Suécia é o segundo cinema, ao meu ver, que melhor trabalhou/trabalha com as crianças. O primeiro é certamente o cinema iraniano. Mas, enfim, o primeiro filme dessa lista se chama “Hugo och Josefin” que, basicamente, conta a história de Hugo e Josefin, duas crianças solitárias, que decidem virar amigos e andam pelas ruas da vida se divertindo e se conhecendo, de forma muito minimalista somos apresentados há alguns dramas pessoais deles, mas tudo isso é em segundo plano. O que realmente importa é o amor que existe ali.

Sem dúvida é um dos filmes mais carinhosos que eu já vi, me peguei chorando por diversas vezes, principalmente quando eles encontram um adulto e ele, extremamente inocente, ensina para os pequenos amigos alguns valores. Esse filme tem uma das risadas mais lindas da história do cinema, a protagonista dessa cena é Marie Öhman. O diretor captou um momento verdadeiro, onde a menina está comendo e se diverte – de verdade – pois não consegue engolir um ovo. O diretor teve tanta sensibilidade, que continuou filmando e registrou o momento onde todos os atores, incluindo a Marie, dão muitas risadas com a reação da menina. Um verdadeiro momento inesquecível da história do cinema.

2- Oshin ( 2013 ), Japão

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“Oshin”, dirigido pelo Shin Togashi, é um dos filmes que eu mais chorei na minha vida. E ele foi feito para mexer com o psicológico da humanidade. A protagonista, Oshin, é enviada para trabalhar em outra família, pois a sua está passando por sérios problemas financeiros.

O que mais encanta nesse filme é a protagonista, dona de uma maturidade sem fim, ela aceita a sua condição, mas sofre silenciosamente. E só demonstra ser criança em cenas bem singelas, é de uma força esse filme que beira o inacreditável. Recomendado para todas as mulheres, pois é uma verdadeira homenagem à elas, triste é pensar que essa é uma história que foi vivida por inúmeras crianças.

Kokone Hamada é a atriz protagonista e ela é um absurdo. Quando eu escrevi sobre o filme a coloquei como uma das maiores promessas do cinema mundial, tomara que eu esteja certo e apareça outras oportunidades, porque o que ela faz é impressionante.

3 – Corpo Celeste ( 2012 ), Itália

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Dirigido pela queridíssima Alice Rohrwacher, esse filme foi selecionado para a quinzena dos realizadores no festival de Cannes em 2011. A história concentra-se em uma menina chamada Marta, de 13 anos, que se vê sufocada pela religião e passa a questionar a sua liberdade.

Esse é o típico filme poderoso, pois aborda tanto a liberdade da mulher, como também um desprendimento religioso, imposto pela família. Em uma cena crucial, Marta está fazendo crisma e tem os seus olhos vedados, representando a sua situação, cega diante a uma infinidade de possibilidades. Interessante é que depois que ela corta o cabelo, a sua postura muda completamente. Ela passa a se enxergar como uma mulher livre e vai de encontro com um amadurecimento provindo do incomodo e ousadia para livrar-se do comum.

4 – Garoto-Estilingue ( 1960 ), Tchecoslováquia

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Esse é dirigido por um dos melhores diretores tchecos de todos os tempos, chamado Karel Kachyna. “Garoto-Estilingue” é um dos seus primeiros longas, anos depois viria a fazer outra preciosidade chamada “The High Wall”. Inclusive escrevi uma crítica sobre esse filme e é uma das que eu mais me orgulho de ter feito, você pode conferir clicando aqui.

Garoto-Estilingue” conta a história de um garoto que é salvo de um campo de concentração e levado pelo exército tcheco. Lá ele se torna uma espécie de mascote, todos o tratam com muito carinho, e o garoto começa a se sentir como parte de uma grande família. No mesmo tempo tenta mostrar a sua força e se diz pronto para entrar na guerra com os amigos. O garoto-estilingue da tradução ou prace no original faz referência aos garotos tchecos que lutavam com estilingues na guerra.

Esse é super esquecido e é um dos melhores que eu já assisti na minha vida. É difícil encontrar bons filmes sobre a guerra e esse sem dúvida é um dos melhores. O menino protagonista é muito carismático e o espectador sente todos os seus dramas. Outro ponto interessante é acompanhar o exército que, mesmo em meio a guerra, encontra no menino uma fuga para a inocência, eles o tratam como filho, como se fosse uma possibilidade real de voltar para a casa.

5 – Doro no Kawa ( 1981 ), Japão

Mais um filme japonês, esse é o primeiro do diretor Kôhei Oguri. É um filme super sensível sobre a amizade de dois garotos pós-guerra.

É mais um que usa bem a guerra para contextualizar os dramas dos seus personagens, com destaque para todo o elenco infantil que interpretam com o coração, doam tudo o que sabem e constroem algo lindo e emocionante de se ver.

Alguns temas como abandono e dificuldades financeiras são trabalhados de forma muito minimalista, chega a doer tamanho carinho e dedicação. Esse é um outro tesouro perdido que, sem dúvida, emocionará muitos com a sua profundidade e simplicidade.

6 – Uma Vida Nova em Folha ( 2009 ), Coréia do Sul

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Particularmente eu tenho um carinho muito grande com esse filme. Foi o primeiro do cinema sul coreano que eu assisti na vida. Lembro-me que era apenas um adolescente e conheci esse cinema maravilhoso, repleto de sensibilidade. A diretora Ounie Lecomte simplesmente marcou a minha vida, eu assisti esse filme há muito tempo e ainda me lembro de todas as cenas como se tivesse assistido ontem.

A história é sobre uma menina chamada Jin-hee, de 9 anos, que é levada pelo pai à um orfanato, então passamos a acompanhar a menina e a sua dificuldade em aceitar a nova vida, talvez a palavra “aceitação” é a mais trabalhada durante toda a obra.

Destaque para a atuação da Sae-ron Kim que, hoje, tem quinze anos e é muito popular na Coréia do Sul. Ela é um verdadeiro talento e merece todas as coisas boas nesse mundo, a acompanho desde novinha e é sempre um prazer perceber o quanto é talentosa.

Destaque para uma cena onde a protagonista, cansada da sua “nova vida”, cava um buraco e joga terra por cima. Como se estivesse gritando para o mundo que não quer mais pertencer a ele. O filme é extremamente silencioso mas, através do silêncio, machuca muito.

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Bem, essa é a primeira parte, eu vou retomar a lista na semana que vem. Espero que tenham gostado e convido à todos a deixarem nos comentários as suas recomendações. Abraço amigos!

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #42 – Juventude, 1951

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No episódio 42 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, Tiago Messias, Marcus Rocha, André Albertim e Cliff Rodrigo conversam sobre um clássico do grande mestre Ingmar Bergman de 1951 chamado: “Sommarlek” ou “Juventude”. Falamos um pouco sobre a história do cinema sueco, abordamos brevemente o começo da carreira do diretor e, claro, conversamos bastante sobre esse lindo filme que mostra com perfeição as principais características do trabalho do Bergman, que muitos consideram como o “maior diretor de todos os tempos”.

Assista ao filme, escuta o podcast e comente as suas impressões!

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CdA #019 – Amigas de Colégio ( A sexualidade nos define? )

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No episódio de hoje, Emerson Teixeira chama o amigo Diego Alcantara para, juntos, refletirem sobre a questão da sexualidade, em base ao filme do Lukas Moodysson de 1998 chamado “Amigas de Colégio”.

Contatos do Diego Alcantara:

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CdA #015 – We are the Best!

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Emerson Teixeira e Sandro Macena se juntam novamente para, dessa vez, viajar através do mundo punk sob olhares de três meninas. Viva o cinema Sueco! E viva o grande diretor Lukas Moodysson!

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A Última felicidade, 1951

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★★★★

Confesso ser um fã do cinema Sueco. A Suécia tem algumas características que eu adoro, inclusive estética, desde “A Carruagem Fantasma” de 1921, passando pelas obras primas do Bergman até chegar ao cinema contemporâneo, que tem como grande representante o querido Lukas Moodysson. Mas o foco aqui é o cinema clássico, principalmente no que diz respeito a ousadia em trabalhar com temas polêmicos, dentre eles, o sexo. “Hon Dansade En Sommar” junto com “Mônica E O Desejo” do já citado Bergman foram responsáveis pela propagação de um movimento – pelo menos representava basicamente isso – chamado “pecado sueco”. A visão que o mundo tinha sobre a Suécia, a partir desses filmes e alguns outros, era de um país liberal, o que por sinal é até exagerado. Esse “Hon Dansade En Sommar” ou “Última Felicidade”, de 1951, é considerado por muitos o primeiro filme com distribuição mundial que contém cenas de nudez, ou seja, tem uma relevância histórica muito grande mas que, por um motivo ou outro, hoje se encontra esquecido. Há algum tempo ele fora banido em diversos países, causando desconforto em muita gente, em plena década de 50, período de grandes transformações no cinema e no mundo.

“Última Felicidade” apresenta uma história bem comum, talvez nem tanto na época. É válido ressaltar que mesmo com a questão das cenas de nudez, o filme passa longe de ser polêmico, eu trocaria essa palavra por “ousado”, pois preza pela liberdade da mulher, em fazer o que bem quiser com a sua vida. Funciona como uma espécie de hino em prol a voz feminina. O protagonista é Göran, um rapaz que terminou o ensino médio, faz o típico galã da cidade, ele vai passar um tempo na casa do seu tio, em uma fazenda. Lá acaba fazendo alguns amigos e, principalmente, aprendendo a trabalhar e lidar com as terras. Surge também um interesse romântico, Kerstin, personagem inesquecível interpretada pela musa da época Ulla Jacobsson. O jovem rapaz se vê cada vez mais preso a vida simples por causa de sua paixão. Tendo que dividir-se entre “o bom futuro” planejado pelo seu pai e a coragem em desistir de tudo pelo seu novo amor.

Moça pobre, moço rico, moça do interior e moço da cidade. Bem, Göran não sabe trabalhar, é curioso o papel de Kerstin nesse filme, pois ela representa a força. Ela sabe trabalhar muito bem, em comparação ao seu interesse romântico, que soa por diversas vezes como intocável. É importante perceber, também, a importância do jovem nesse filme, eles utilizam o teatro como forma de protesto pelos seus direitos de serem livres, visto que o padre da pequena cidade é extremamente autoritário e, ainda por cima, influência os pais desses jovens a cercá-los de uma falsa moral onde, principalmente as mulheres, são prisioneiras.

Dosando adequadamente as cenas dramáticas com o bom humor, o filme possui uma boa estrutura narrativa, não à toa venceu o Urso de Ouro de Berlim e fez parte da seleção de Cannes em 1952. Como mantém uma postura, de certa forma, anticlerical, chegou a ser banido na Espanha. É realmente uma obra a frente do seu tempo, mesmo com tamanha naturalidade consegue atrair os olhares pela sua subversidade.

Conforme o tempo vai passando, o filme vai se tornando mais denso, o clima romântico, doce e inocente do início da lugar a uma dose de sensualidade e intensidade. A icônica cena de nudez, por exemplo, deixa bem claro isso. Göran vai ao encontro de Kerstin – pois a menina fora mandada para outra fazenda quando a sua mãe descobriu a relação dos dois – e a convida para nadar com ele, ela então responde rapidamente: “não fico tímida com você, é como se fosse parte de mim”, eles brincam um pouco e fazem amor. Evidentemente a cena é cortada, mas certamente é digna de bater palmas.

Esse amor proibido traz conseqüências para a menina, que luta bravamente para  manter a sua reputação e, enfim, curtir sua paixão, mas cada vez mais o filme vai adentrando na melancolia de seus personagens, se aproximando muito, inclusive, dos filmes do Bergman, há uma cena em que a personagem desabafa, quase que olhando para a câmera:

“Eu aprendi a odiar Deus, e a querer destruir o céu e a terra. Eu só quero seguir meu próprio caminho na vida. Eles disseram que eu pequei, que estou sem salvação. Quando estou acordada a noite é como se eles tivessem lá me repreendendo. Como pode o amor ser sujo e imoral? Os humanos são criados dele, então como pode?”

É um filme corajoso, por embarcar no drama de uma jovem menina que, dada a eventualidade de se apaixonar, precisa enfrentar os julgamentos alheios como mulher. Acaba sendo um registro audacioso dessa metamorfose. É realmente um clássico imperdível.

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