O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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#03 – [Três Quadros]: Teshi no Tamago (1985)

Finalmente chegamos a terceira publicação da coluna [Três Quadros], onde me proponho a discutir as obras cinematográficas a partir de três fotografias. A proposta principal da seleção das imagens e comentários é motivar uma reflexão sobre a importância da fotografia para a construção narrativa de um longa. Para isso, busco facilitar a explicação apresentando dilemas filosóficos de forma que se contextualizem com as imagens.

O filme escolhido dessa vez é uma animação chamada “Teshi no Tamago” (1985), dirigida pelo mestre Mamoru Oshii, que também dirigiu o incrível “Ghost in the Shell” (1995) – obra aclamada e que conquistou diversos seguidores com o tempo, muito lembrada por ter sido inspiração para o “Matrix” (1999).

É importante, antes de mais nada, lembrar que a história da animação é tão misteriosa quanto o seu desenvolvimento, pautado em uma proposta surrealista, seguimos uma menina que caminha por entre um mundo devastado. O mundo pós-apocalíptico representa uma desordem interna, no mesmo tempo que a sua jornada é o processo de observação e experimentação de si. A criança, cujo nome nunca é dito, anda sem rumo e o seu objetivo também é nebuloso, a única certeza que existe é que ela precisa cuidar e depositar todas as suas esperanças em um ovo.

O ovo, como já era esperado, representa o desdobramento do amanhã, o mistério, o novo e o renascimento. No filme, esse trajeto desperta a curiosidade e identificação de um outro personagem, um homem, que carrega uma arma em formato de cruz em suas costas.

A animação se constrói com poucos diálogos e por esse motivo a parte visual é tão importante. Vamos às imagens:

1)

O mundo que nossa heroína enfrenta e que, por conseguinte, somos inseridos, é repleto de escuridão. Cada passo da protagonista soa como uma aproximação do perigo, existe morte e tristeza. O visual da menina é interessante: vivendo em um mundo sem cor, seu figurino é a única coisa que contrasta. Vestido rosa, cabelos brancos e a expressão sempre indiferente.

Há diversas cenas onde ela está diante, inserida ou prestes à escuridão. Às vezes ela está na sombra, dá um passo e encontra e luz; outras é o contrário. A primeira imagem foi escolhida para representar essa decisão inteligente. Ela observa e a vemos de frente, a escuridão em suas costas esclarece, logo nas primeiras cenas, a sua condição imersa, principalmente psicologicamente.

2)

Essa imagem é, praticamente, uma continuação da anterior. A protagonista percorre um caminho estreito, as sombras são quase constantes, violadas somente por tímidas luzes que iluminam o caminho. Inclusive elas são extensões do ovo que ela carrega.

3)

O segundo personagem que aparece ao longo da jornada, o homem, segue a garota e se sente, por ela, atraído. O senso de proteção é imediato, mas os dois juntos funcionam como a representação do oposto na sociedade. Ela é jovem, deposita expectativas naquilo que abraça; ele é um adulto, sua arma em forma de cruz traz consigo muito sofrimento e desesperança. Ela veste roupas coloridas; ele roupas com cores frias etc.

A terceira imagem representa inúmeras coisas, começando pela divisão clara entre os dois. Mas há também uma inversão: ela está na cama, em um canto escuro, enquanto ele a observa em um ambiente iluminado. E isso não acontece na maioria das cenas, no entanto, é evidente durante o longa que a menina possui o dom de enfrentar as trevas, o que inspira o adulto a fazer o mesmo.

Sem dúvida essa é uma das maiores animações japonesas que existem, principalmente por unir uma série de dilemas existenciais com uma trilha sonora fantástica. Como já era esperado, a dedicação dos realizadores com o visual de modo a compor um pensamento crítico sobre a natureza é perfeito.

Utilizando-se de extremos opostos, a obra fala subliminarmente sobre o crescimento, bem como a sobrevivência que, pela arrogância do homem, se torna de extrema dificuldade para aqueles que teimam em acreditar que o amanhã trará consigo a felicidade. O uso das cores, sombras e desenho dos personagens são brilhantes, assim como diversas e sutis cenas onde existem alusões ao aprisionamento.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Rua Cloverfield, 10

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★★★★

Muito se discute sobre a forma que a indústria cinematográfica desenvolve suas personagens femininas e esse debate, felizmente, vem incentivando transformações interessantes, principalmente no que que diz respeito ao maior número de mulheres protagonistas de histórias. Só o protagonismo não é algo inacreditável, o mais interessante é que surgiram personagens femininas fortes e independentes, principalmente nas animações da Disney/Pixar e nos gêneros de terror e ação.

Alguns exemplos de filmes que poderiam ser utilizados são: “Valente” de ( 2012 ), “Divertida Mente” ( 2015 ) e, mais recentemente, “Zootopia”. Todos eles têm em comum o compromisso de trabalhar suas respectivas protagonistas de forma corajosa, desprendida e inteligente. Em “Valente” fica ainda mais evidente com a quebra da princesa frágil, esperando ser salva por um casamento; indo diretamente ao encontro de um novo mundo de igualdade onde, finalmente, começa a ser, também, bem representado pela arte cinematográfica.

“Rua Cloverfield, 10” faz jus a essa questão e é incrivelmente competente pois apresenta, de modo impressionante, uma protagonista cautelosa, inteligente e que felizmente foge de qualquer tipo de clichê envolvendo a ideia de “menina em apuros”.

O filme conta a história de uma garota chamada Michelle – interpretada brilhantemente pela maravilhosa Mary Elizabeth Winstead – que, após um acidente de carro, acorda presa em um quarto. Ela foi resgatada por um homem chamado Howard ( John Goodman ) que afirma, com toda a convicção, que o mundo sofreu um ataque químico, exigindo que sua refém fique no abrigo com ele. O problema é que ela não confia em nenhum momento nesse desconhecido e tenta fugir à qualquer custo.

Sim, “Rua Cloverfield, 10” está relacionado com o filme “Cloverfield” de 2008, porém não é necessário que tenha assistido ao anterior para compreender esse. O desenvolvimento é completamente diferente e essa união de universos é mais um ataque de oportunismo do JJ Abrams para expandir o que ele criou em 2008 de forma completamente nova e diferente.

Ainda assim, é curioso notar que mesmo que o espectador saiba o que está acontecendo com o mundo, ainda assim existe a tensão, desespero e curiosidade para saber o que, de fato, está acontecendo e, principalmente, se Howard está mentindo ou não sobre o ataque químico. Essa posição que o roteiro nos coloca é interessante, pois sabemos mais que os próprios personagens.

O que poderia ser apenas comum e mediano, se transforma em absurdo e maravilhoso com a direção de Dan Trachtenberg, sempre muito coeso nas suas decisões. Mesmo sendo jovem e inexperiente em longas, as posições de câmeras, o ritmo e os movimentos são sempre muito bem orquestrados. Unido a isso temos a fotografia que oscila bastante conforme o psicológico dos personagens – vale ressaltar que eles estão trancados e preocupados com o mundo externo, portanto o desequilíbrio é gigante – e a direção de arte que sempre faz questão de transformar o pequeno abrigo ou bunker em um lugar confortável e claustrofóbico, na mesma proporção.

Se a direção de Dan Trachtenberg é um ponto crucial para a qualidade desse filme, o mesmo pode-se dizer do trio de atores: John Gallagher Jr., Mary Elizabeth Winstead e John Goodman. O primeiro interpreta o Emmett – que também está preso no bunker – de forma muito competente, para quem já o viu em “Hush” sabe o seu potencial. Mary Elizabeth Winstead faz algo tão grandioso que, ouso dizer, já entrou na história como uma das personagens mais fortes e impactantes do cinema de suspense, sempre muito atenta, concentrada e demonstrando muita confiança. Agora, quem mais se destaca é John Goodman; Ele é muito querido pelos amantes do cinema alternativo, principalmente pelo seus trabalhos com os irmãos Cohen, até mesmo os olhares menos atenciosos percebem que se trata de um excelente ator que, infelizmente, não recebe muitas oportunidades para brilhar, senão, como coadjuvante. Mas aqui ele possui todos os caminhos possíveis para criar um personagem complexo, utilizando-se do seu corpo grande, é um verdadeiro monstro – e os enquadramentos ressaltam isso por diversas vezes -, demonstrando uma força descomunal, contrastando com os seus recorrentes personagens, sempre bondosos. No entanto, no mesmo tempo que ele é uma ameaça direta à protagonista, a atuação de Goodman chega a um nível tão alto que a linha que o separa entre bem e mal se torna cada vez mais tênue. Não se sabe ao certo se ele é a ameaça ou o ameaçado, torturador ou torturado…

Se fosse uma obra lidando com a personagem feminina como qualquer outro, com certeza iriam sugerir um romance entre Emmett e Michelle. Mas isso não acontece, para a felicidade de muitos. Isso porque essa inocência é importante para compreender a personagem, extremamente focada na liberdade e forte o suficiente para não se deixar levar pelo cômodo. No mesmo tempo que sua relação com Howard é ainda mais complexa, principalmente por existir um lado paternal que beira a obsessividade. Uma prova disso é a cena em que os três estão jogando e Howard diz que Michelle é uma princesinha, menina e se rejeita a todo custo imaginar que se trata de uma  mulher. Esse carinho é o que possibilita os eventuais espaços para uma fuga, sua maior força e fraqueza, ao mesmo tempo.

Se até o final o filme se mantêm inacreditável, o mesmo, infelizmente, não podemos dizer do final. Não quero deixar a ideia de que é ruim, porém fica aquém do começo. Temos dois filmes: um é um drama, suspense e chega perto do horror psicológico o outro um filme genérico de ação.. Se a força da protagonista começou sendo trabalhada de forma simples e impactante, no final houve um desespero para criar uma versão feminina de “Rambo”. O que me leva a pensar, seriamente, que o roteiro era a primeira parte e veio o JJ Abrams e impôs a segunda. Evidentemente se trata apenas de uma especulação, o fato é que piora bastante no terceiro ato mas que, por conta do desenvolvimento inicial, ainda permanece como um dos melhores filmes do ano.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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