À Procura de Sugar Man, 2012

sugar man

★★★★★

Assim como escrevi na crítica sobre “Kurt Cobain: Montage of Heck“, esses documentário que se propõem, com tanto carinho, em dissecar a obra de um artista, pedem uma maior liberdade na análise, afim de compartilhar não a história inteira do personagem estudado – pois para isso é preciso assistir ao próprio documentário –  mas de traduzir as sensações ao descobrir um pouco mais sobre a vida do cantor, ator, enfim, ser humano.

O documentário investiga a vida, no mínimo, curiosa de um cantor mexicano de folk dos anos 70 chamado Sixto Rodriguez. Ele gravou dois álbuns, foi um sucesso de crítica na época, porém, não vendeu nada. Ele então entrou em um ostracismo. Alguns dizem que em uma apresentação, após ouvir vaias do público, pegou uma pistola e atirou na própria cabeça, outros dizem que ele ateou fogo em si próprio, no palco.

O fato é que nos Estados Unidos, onde foram feitas as gravações dos dois álbuns, “Cold Fact” ( 1970 ) e “Coming from Reality” ele não era nem um pouco conhecido e sua “morte” foi superada imediatamente. Mas na África ele era tido como um Deus da música. Pois suas letras libertadoras foram um verdadeiro símbolo de ousadia, incentivando o povo a lutar contra o poder, em busca dos seus direitos. Sixto era, na África, mais conhecido que Elvis Presley. Duas pessoas se dedicam, então, a procurar mais sobre a vida desse homem misterioso e temos o documentário “À Procura de Sugar Man” que, inclusive, ganhou o Oscar.

Se não assistiu, confia nesse que vos escreve e assista, sinta, pois sua visão sobre a música mudará, ou melhor, sua visão sobre criação. Eu lembro que passei rapidamente, há algum tempo, pelo Imdb e só copiei o nome “Sixto Rodriguez” no google. Consegui os seus dois álbuns e fui escutar. Fiquei boquiaberto com tamanha qualidade e profundidade da letra. Depois, sem saber absolutamente nada, fui assistir o documentário.

Chorei em 90% do filme, pois me senti parte de alguma coisa. Me senti feliz por acreditar na arte feita com amor e distante de interesses. Eu cresci sendo torturado com insinuações, pessoas querendo manipular o meu destino, me transformando, precipitadamente, em um boneco cuja vida já está planejada. Isso me sufocava, me angustiava. Até que cresci.

Cresci e aprendi que no mais profundo que eu possa chegar, dentro do meu coração, sempre haverá alguém movido por amor. Como poderia um homem crescido sobreviver assim? Sem ser definido por ignorantes como vagabundo, anormal, estranho etc? Então achei um caminho, um não, vários, pequenas coisas que me fazem me sentir completo e que, no mundo dos homens importantes, seria visto como infantil, pois não me deixa tão rico assim. Porém, me sinto feliz, a pessoa mais rica do mundo.

A história de Sixto demonstra para todos os amantes de música que, por mais que vivemos em um mundo de interesses, o bom conteúdo sempre encontra um caminho. E não estou falando só sobre música, aliás, músicas não são só músicas, filmes não são só filmes, estou falando de criação, a partir do momento que você cria, a partir da sua verdade, está sujeito a críticas, mas entre o silêncio e o grito, sempre devemos escolher a segunda opção, simplesmente, por que sempre terá alguém no mundo que te entenderá.

No caso do Sixto, esse entendimento acontece diante uma realidade social. Sua arte foi reconhecida, mesmo que depois da sua morte e o que seria a morte? Depois que parou de criar. No mais humilde possível, ele cantou, não conquistou a fama de, talvez, o seu interior esperasse, mas teve a oportunidade de se mostrar sereno quanto a ideia de que fez o seu melhor. Independente se uma ou seis pessoas compraram o seu disco, o melhor foi feito, o amor está compartilhado e a arte o eternizou.

Quando penso em mim, depois de assistir o documentário, fico feliz por ter entendido antes que é preciso acreditar nas nossas loucuras. Criar e, talvez, fazer disso um trabalho mas, se não der certo, ter capacidade o suficiente para sorrir e nunca se esquecer que tentou. O quão importante é a arte e, no mesmo tempo, aos desavisados, o quão perigoso pode ser, mas se você acredita no que faz, nenhuma opinião destrutiva te derruba, pelo contrário, te faz ter mais certeza de que para se encontrar a arte, é preciso dialogar verdadeiramente com o amor e fazer dele o seu único elo com o outro.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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