O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Strange Circus, 2005

Strange Circus ( Kimyô na Sâkasu, Japão, 2005 ) Direção: Sion Sono

★★★★

Sion Sono é um dos diretores mais corajosos da atualidade. Primeiro porque não se acostuma com o seu próprio ritmo, intercalando filmes trashs com os subversivos e profundos dramaticamente. E, segundo, pela própria ambição e inerência à fuga do óbvio: mesmo que se utilize da estranheza para compor a sua arte, sempre busca formas de surpreender, não contenta-se apenas com a ideia e faz questão de investigá-la sob diversos pontos de vista.

Filmes como “Extensões Capilares” e “Não se Esqueça de Compartilhar” podem ser utilizados para exemplificar a flexibilidade do diretor. Representam diretamente a facilidade que ele possui em conversar de diversas formas com o público, mesmo que sempre utilize um elemento incomum como essência para o desenvolvimento do roteiro.

Mais uma prova desse talento único é o “Kimyô na Sâkasu“, um dos filmes mais doentios e sublimes da sua carreira. A história é repleta de camadas, mas a principal é sobre Mitsuko, uma garotinha que vê o seus pais fazendo sexo e, depois disso, é forçada pelo pai à despertar a sua sexualidade. Ele a obriga assistir a sua relação sexual escondida e depois a abusa. A mãe, por sua vez, vê a filha e sente que ela está “tomando o seu lugar” e se sente traída, com ciúmes. Essa base será abordada de forma onírica, com uma série de referências visuais e símbolos, o trajeto perfeito de uma família corrompida pelos desejos mais obscuros da carne; monstros privando uma vida inocente de ser criança.

A atmosfera é surrealista, o brilho é ofuscado por uma sensação de sujeira e nebulosidade, as personagens são ambíguas, pronunciam cada palavra com um tom de artificialidade e arrogância. É difícil contextualizar a obra, seja em uma época ou sociedade, pois parece o inferno, uma caricatura das sombras, almas rastejando em busca da corrupção total.

O filme começa em uma boate onde uma drag queen interrompe o show para perguntar à platéia se há alguém interessado em ser decapitado em uma guilhotina. O show é a morte, a morte é presente e o sangue é comum. O quão pequeno é morrer em comparação com o sofrimento?

Como resposta a toda uma história e sentimento, alguém na platéia estende as mãos e indica que se dispõe a ter sua cabeça cortada no palco, com uma filmagem que se aproxima da subjetividade, somos transportados, a partir desse momento, para os sofrimentos de Mitsuko, a própria afirma que “sua vida é repleta de guilhotinas“.

O palco que exibe é o mesmo que transita por entre os corredores da sua casa. Onde o pai e a mãe fazem sexo por prazer e, no mesmo tempo, sua filha caminha em um corredor vermelho. O sangue das paredes é o mesmo que simboliza a evolução de criança para jovem; é o mesmo que corre dentro dela e, por consequência, do pai; é o mesmo que sujará a guilhotina; e, nesse caso, é o mesmo que toma o lugar do leite materno.

O pai indica à sua filha o voyeurismo, a obrigando ficar quieta escondida dentro de uma capa de violoncelo – ou seria a arte? – e assistir a sua performance sexual, impondo o prazer visual, carnal e crescimento. Esse abuso acarreta não só em uma maldição enraizada no âmago da Mitsuko, como também cria infinitas relações doentias e ódio.

O complexo de Electra é analisado sobre prismas polêmicos, o pai, após o sexo com a mãe, inverte as posições e abusa da filha. Caminho e criação; prazer e medo; mãe se transformando na filha e vice-versa – algo que será demonstrado visualmente, visto que nas cenas de abuso, como uma forma de simbolismo e respeito, o diretor opta por trocar a atriz, a filha literalmente se torna a mãe.

“…a diferença entre mim e mamãe era que ela parecia feliz.”

As camadas dramáticas vão sendo trabalhadas e expostas de forma pouco gentil, agredindo visualmente e filosoficamente pela tentativa de estabelecer o mistério como protagonista de uma experiência doentia. Os primeiros quarenta minutos são aterrorizadores e, sabiamente, o diretor opta, ao ultrapassá-los, em usar uma narrativa diferente, como se tudo não passasse de um sonho ou criação. Outros personagens aparecem, em especial um assexual que, tendo como base a sua opção sexual, é possível fazer uma ligação direta com o início onde a ideia primordial que conecta o sexo com o prazer é desmoronada. Outra personagem é a escritora que, mesmo possuindo a capacidade de andar, prefere ficar na cadeiras de rodas como um protesto por todo um abuso psicológico que resultou em uma paralisia dos seus movimentos.

Sem dúvida se trata de uma obra imperdível, verdadeiramente poético dentro da sua complexidade e obscuridade. Não é fácil se entregar para uma obra com tamanha densidade, no mesmo tempo que o resultado é brilhante. Além de possuir uma história extremamente complexa e relevante, o diretor é suficientemente inteligente para contá-la de forma que não fique cansativa. Em base às interpretações e direção de arte, o passado, criação e presente se confundem, todos se tornam uma só maldição.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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Imperador Ketchup, 1971

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★★★

Talvez esse seja o filme mais controverso de todos os tempos, uma polêmica crítica à liberdade sexual dos jovens nos anos 60/70, vemos um mundo tomado pelas crianças que, juntas, criam uma série de leis que proíbem os adultos de qualquer opressão e proibição. As crianças passam a ter todos os direitos, se deleitam em uma série de diversões perversas que vão desde o sexo até a tortura de adultos. Mulheres são escravizadas e servem como rede de ping pong, prostitutas guardadas no guarda roupa, enfim, se tornam objetos.

Juntos as crianças criam um governo totalitário, preenchem o mundo com a maldade e, por esse motivo, essa obra de Shuji Terayama é conhecida como um dos filmes mais malditos de todos os tempos.

Quem conhece o diretor, sabe a sua capacidade artística de explorar da polêmica temas atemporais, criando algum tipo de identificação, mesmo que a realidade mostrada seja suja e indecifrável. Aqui ele dedica-se à uma fotografia superexposta, que funciona como um alívio e, no mesmo tempo, leva terror para uma esfera onírica, como se essa guerra espiritual fosse um pesadelo.

As crianças, imagem essa de bondade e pureza, se transformaram em sádicos, talvez essa mudança seja extensão da liberdade; as narrações, durante boa parte do longa, fazem referência as novas regras desse mundo caótico, uma delas, em especial, diz que todos os professores serão presos, como um manifesto, limitando o conhecimento, algo extremo mas de suma importância para qualquer regime totalitário.

A nudez que Shuji Terayama explora sempre possui uma mensagem maior, aqui faz alusão ao desprendimento, até mesmo à pureza. “Imperador Ketchup” traz cenas onde crianças simulam sexo com adultos, porém, é perceptível que diversas vezes a simulação dá lugar ao afeto materno, é de se destacar a ousadia do diretor que transformou sua ideia em uma arte morta – hoje ela é imperdoável, no entanto a mensagem perdura, visto que estupros, mortes e torturas acontecem diariamente, mesmo com as infinitas oportunidades ao conhecimento e avanços tecnológicos, o homem parece sempre retomar à sua essência selvagem.

“Todas crianças são livres para limpar as suas bundas na bíblia”.

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A Frente Fria Que a Chuva Traz, 2016

Obs: Hoje, dia 31/07/2016, alteramos a imagem do cabeçalho aqui do Cronologia do Acaso e colocamos o desenho criado pela artista Julia de Andrade. A ideia é fazer uma referência ao filme “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson. Agradecemos a Julia, em especial, e recomendamos aos leitores que visitem o seu site para conhecerem o seu trabalho.

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★★★★

A beleza da Bruna Linzmeyer transcende o natural, sua aparência chama a atenção e o diretor Neville de Almeida usa isso à favor da sua mais recente obra. O diretor sempre soube trabalhar as relações de forma, no mínimo, curiosa, e agora, depois de tempos sem um trabalho de grande expressão, ele se mostra muito inteirado na vida dos jovens – interessante que o filme trabalha com a hipótese dos jovens terem se habituado a permanecer em um nível inferior, principalmente no que diz respeito ao objetivo.

O filme segue alguns jovens em um dia, onde no final da noite, eles farão uma festa em uma das favelas do Rio de Janeiro. Cercados de drogas, bebidas, funk e sexo, a obra levanta algumas reflexões sobre essa forma de vida, principalmente de menininhos e menininhas ricas, através de uma personagem complexa chamada: Amsterdã. Ela se prostitui para alimentar o seu vício em heroína e mantém uma amizade com esses jovens, completamente diferentes, apenas para conseguir bebidas, baseados e cigarros.

Há um preconceito gigante, hoje mais do que nunca, com os filmes nacionais. Na verdade isso não passa de uma ignorância pois o nosso cinema é maravilhoso, basta pesquisar um pouco e encontrar diretores fantásticos e artistas talentosíssimos. Infelizmente sempre estaremos cercados de visões conservadoras que, inclusive, relacionam o cinema nacional com a nudez e sexo.

O cinema Sueco foi considerado libertino nas décadas de 50/60/70 e ainda assim é um dos melhores do mundo. Trabalhar a sexualidade e o sexo não é um crime, e escrevo isso porque “A Frente Fria Que a Chuva Traz” traz, em seu vasto conteúdo, extensos diálogos e gestos que sugerem o ato sexual, mas todos eles compõem a intenção de desconstruir a vida dos jovens repleta de vazios e alegrias passageiras preenchidas ignorantemente pelo prazer, seja sexual ou as drogas.

Na vida há, sim, coisas maravilhosas, muitas das quais são consideradas proibidas e/ou tabus, mas a degradação humana está mais vinculada a forma como é feita a nossa transição do que propriamente os erros. Quase todas as personagens nesse filme são despreocupadas, mimadas e sem objetivos, só o fato de ter dinheiro as tiram da responsabilidade de viver, elas se arrastam atrás de pequenos momentos. Por outro lado, em um país de terceiro mundo, quem tem dinheiro são os que continuarão comandando e, sob essa perspectiva, nossa liderança não vai nada bem.

Logo nas cenas iniciais é possível perceber que na laje, onde acontecerá a festa, está repleta de bolinhas, daquelas que vemos em shoppings, todas coloridas, isso remete a infantilidade. Os que se acham “adultos”, não passam de crianças isolada em um mundo de faz de conta, onde a felicidade pode ser comprada. No mesmo tempo que o jovem domina, ele é constantemente dominado.

Outra coisa interessante é que o segurança ( um homem adulto ) que foi pago por um dos jovens ( criança ) é chamado duas vezes ao longo do filme de “ninguém”, enfatizando e generalizando os adultos como seres monstruosos e sem forma, sem riso e disposição para a boemia.

Mas é na analise humana que o filme se sai maravilhosamente bem, Bruna Linzmeyer dá a sua Amsterdã uma intensidade muito grande, utilizando a beleza exótica ao seu favor. A atriz emagreceu para viver a sua personagem e, se não bastasse, a maquiagem sempre borrada e o olhar perdido demonstram uma perfeita sintonia entre o desequilíbrio, loucura e o medo.

Linzmeyer se mostra um verdadeiro talento e, se no ano passado fez o terrível “O Amuleto”, agora consegue demonstrar que, além de diferenciada, é perfeita para papeis intensos. A sua personagem é aqueles “papeis brindes” que todo ator quer ganhar, é de se impressionar que ela o tenha conseguido tão jovem e, mais ainda, feito jus a complexidade do papel.

Qualquer chuva trás consigo uma mudança. “A Frente Fria Que a Chuva Traz” é uma discussão e reflexão de dois mundos, o da inconsequência e da realidade, elementos que serão representados da forma mais improvável em cenas de festas, beijos e sexo. Se o Harmony Korine fez algo parecido com “Spring Breakers”, podemos então colocar o filme do Neville de Almeida do mesmo nível e tão importante quanto.

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CdA #58 – Lolita: Entre o amor doentio e a obsessão

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“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O livro “Lolita” escrito por Vladimir Nabokov é um dos mais polêmicos da história. Aborda um relacionamento proibido e doente entre um professor e uma menina de 12 anos. Contudo, apesar do tema, existem milhares de pessoas que ainda enxergam a história como uma linda obra de amor. Nesse episódio do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e Tiago Messias conversam sobre as duas adaptações cinematográficas de “Lolita” e tentam entender as qualidades e erros desse amor pedófilo e incestuoso.

Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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Pássaro Branco na Nevasca, 2015

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★★★★

Gregg Araki é um diretor que surgiu nos anos 90, ele é, ao lado de Wes Anderson, Tarantino etc, mais um bom representante do grupo de artistas independentes que reformularam o cinema norte-americano. Sua proposta é muito interessante: falar sobre o jovem e o mundo que o cerca; O diretor, homossexual assumido, também trabalha com frequência o tema, de forma bem sincera e, por vezes, provocante.

“Pássaro Branco na Nevasca” poderia ser apenas mais um filme mediano do diretor – principalmente se analisarmos exclusivamente o roteiro que se torna muito pretensioso no terceiro ato – mas, por alguns motivos que descreverei a seguir, ele mexe com o nosso coração de forma quase imperceptível, despertando uma empatia, seja pelo jovem e sua ânsia de viver ou a mulher de meia-idade repleta de arrependimentos e angústias.

O filme acompanha a vida da jovem Katrina que é filha única de uma família extremamente dentro dos padrões norte-americanos. Ela se vê em meio a um terrível clima de falta de carinho e respeito dos seus pais, que parecem apenas viver dia após dia para manter suas máscaras e gritar para a sociedade que está tudo bem. Então certo dia, sem nenhum tipo de explicação,  Eve Connors ( mãe ) abandona a sua família e nunca mais retorna. A partir desse fato veremos quais as consequências desse fato na vida da Katrina e, ainda mais, procuraremos juntos com ela uma resposta para a atitude da mãe.

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O filme se constrói em vários flashbacks, inclusive eles aparecem de forma abrupta às vezes, como se quisesse simular as angústias tanto da mãe quanto da filha. Essa vida bagunçada e cheio de conflitos invisíveis, parece transcender à realização, transformando o filme em, praticamente, um recorte de momentos. Causa um certo desconforto inicial, mas esse sentimento de confusão vai nos aproximando, cada vez mais, da curiosidade, a vida daquela família comum se torna enigmática e grandiosa.

Se existe uma incomunicabilidade no que diz respeito ao didatismo do roteiro, não podemos dizer o mesmo da inteligência do diretor em usar a fotografia ao seu favor: sempre muito bonita e clara, demonstrando tranquilidade no presente, serve como um verdadeiro contraste nas cenas de flashback onde temos umas misturas mais gritantes, principalmente o uso do amarelo. Em dado momento, quando é mostrado a mãe e o pai formando suas vidas/ comprando a casa, a fotografia é amarela, demonstrando o calor e energias daquela relação, fruto da expectativa. Consecutivamente, com o declínio dessa empolgação inicial, a fotografia vai se tornando cada vez mais fria e sem cor ou com uma iluminação superexposta.

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Não posso escrever sobre esse filme e não citar, com um certo aprofundamento, as excelentes performances da Shailene Woodley e Eva Green. Começamos pela primeira: Shailene pertence a esse novo grupo de grandes atores com menos de 25 anos, é uma verdadeira aposta desde “Os Descendentes” e, a cada dia, vem mostrando a sua perspicácia e versatilidade transitando por entre os filmes populares e alternativos. De todos esses novos nomes de Hollywood, incluindo a própria Jennifer Lawrence, Shailene Woodley me parece ser a mais talentosa.
Sua personagem, Katrina, esteve desde criança em contato com a sexualidade, então ela cresce com essa mentalidade livre, com um certo desprendimento. A atriz resgata esse lado muito bem, até o momento nunca visto na sua carreira, que sempre pendeu para o lado da pureza e inocência.

Do outro lado temos a mãe, Eva Green. Que o talento da Eva é absurdo, todos sabem. A sua qualidade mora na obrigação em exigir de si mesma a cada detalhe, reação e olhar; Todos esses elementos são imprescindíveis para as composições de seus personagens, sempre abusando muito da sensualidade que lhe é inerente – afinal, trata-se de uma das atrizes mais lindas do mundo. Nesse filme sua personagem está afundada em arrependimentos e monotonia, cansada da vida de dona de casa, ela sempre se mostra abatida. A sensualidade da atriz, como descrita acima, consegue ser essencial pois se encontra escondida em expressões de desespero. Isso, inclusive, me faz pensar que o “pássaro” do título faz referência direta a mãe, presa em uma gaiola boa parte do filme.

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Se a construção da história é excelente, muito se deve a discussão filosófica e a pitada da crítica social, principalmente aquela voltada ao “american way of life“, nesse ponto o filme nos lembra bastante o “Beleza Americana”. Por outro lado, na discussão filosófica a obra encontra a sua maior força.

Existe uma mensagem implícita sobre o sentimento de urgência da mãe em viver, não apenas existir. A sua casa, aparentemente perfeita, se torna um ruído em sua vida. A filha, de aspecto jovial e perfeito, se torna aos poucos sua inimiga. A questão da imagem têm uma importância gigantesca na trama, movendo as duas personagens principais para um encontro místico, como se as duas fossem uma só.

Katrina se relaciona com alguém mais velho, enquanto a mãe aparentemente seduz um jovem rapaz – namorado da filha. Então existe um conflito de posições e/ou aceitação da condição, isso é extremamente relevante para a compreensão da obra e os seus significados. Se existe uma maturidade enorme na criação e desenvolvimento dos fatos, o mesmo não se pode dizer da conclusão. Concentrando-se na surpresa, o diretor parece se tornar extremamente pretensioso e preguiçoso nos minutos finais, transformando toda a possível surpresa em uma ferramenta de tragédia, manchando um pouco a atenção minuciosa das cenas anteriores.

Baseado no livro “White Bird in a Blizzard”, da escritora Laura Kasischke, o filme ainda consegue sobressair as más decisões do final e se mantém como um bom estudo de personagens, principalmente referente à mulher e o jovem, bem como a relação de amor/inveja entre mãe e filha.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #57 – A Serbian Film – Existe um limite na arte?

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No episódio #57 do Cronologia do Acaso voltamos ao formato [Moscas] e, dessa vez, falamos sobre um filme extremamente polêmico: A Serbian Film!
Emerson Teixeira convidou o Tiago Messias e, juntos, conversaram sobre esse filme nada sútil. Discutiram sobre o papel da arte na sociedade e, com isso, surgiu a dúvida: “existe um limite na arte?”.  Ouça ainda reflexões sobre o sexo no cinema e outras questões pertinentes.

Obs: Nesse episódio convidamos a ouvinte Ana Paula para ouvir a gravação de um Cronologia do Acaso. Ela ainda deu a sua importante contribuição para a discussão. Agradecemos a sua participação Ana!

. Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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Flower and Snake: Zero – Entre o sexo e a tortura

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Queridos leitores, apreciadores ou curiosos do cinema alternativo, faz algum tempo que queria voltar a escrever sobre filmes eróticos – para quem não sabe, quando o Cronologia do Acaso ainda estava no blogspot, eu escrevi diversos textos sobre sexploitation e Pinku Eiga, bem como algumas obras eróticas da Rússia e Brasil. Esses textos não tinham como principal objetivo analisar o filme, portanto, não se tratava de uma crítica cinematográfica, apenas uma resenha onde o interesse é realmente fazer piada sobre o mau gosto.

Alguns exemplos: A Menina do Lado ( clássico e polêmico filme nacional onde o Reginaldo Faria contracena com a Flávia Monteiro que, na época, tinha apenas 14 anos ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/05/a-menina-do-lado-1987.html

Russian Lolita ( Versão tosca e erótica do clássico livro “Lolita”. O filme é tão ruim que é até ridículo falar que se trata de uma adaptação de um dos melhores livros da história, porém, é assim que ele foi divulgado ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/russian-lolita-2007-18.html

A eterna musa do Sexploitation ( nesse texto eu escrevi sobre a carreira e indiquei três filmes da musa Christina Lindberg, atriz que ficou conhecida por seu papel em “Eles a Chamam de Caolha”: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2013/08/a-eterna-musa-do-sexploitation.html

Siren X: ( Filme japonês, nesse texto falo um pouco sobre o “Pinku Eiga” que é basicamente os filmes eróticos do Japão ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/02/siren-x-2008.html

Seguindo em frente, hoje vou analisar o filme “Flower and Snake: Zero” ou “Hana To Hebi: Zero” de 2014. Antes de mais nada, é válido ressaltar que essa obra também é um representante do sub-gênero Pinku Eiga e, ainda mais, é derivado de uma série antiga – de mesmo nome – que começou nos anos 70.

Hana to hebi

Esse é a capa do “Hana to hebi” original, de 1974, dirigido pelo Masaru Konuma

O diretor ficou muito conhecido em 74 por conta desse filme que, inserido em um contexto conservador, quebrou várias barreiras por se tratar de uma obra que aborda o universo do S&M – vulgo, sadomasoquismo -, algo muito importante para destacar é, sem dúvida, a forma como a mulher é mostrada nesses filmes: sempre submissa ao homem, como se fosse uma boneca sexual. Essa objetificação passa por inúmeros fragmentos da sociedade japonesa, que vê nas mulheres uma fragilidade sem tamanho.

Embora seja um clássico, pessoalmente esse tratamento me incomoda bastante, se a proposta do filme erótico é provocar a excitação – principalmente dos homens – em mim o resultado não é muito eficaz. Mas ainda assim recomendo pelas decisões toscas e algumas cenas que, certamente, atrairão os amantes do cinema B.

Outro ponto a se destacar é que o diretor Masaru Konuma, em dado momento da carreira, quis pegar a carona do sucesso com Nagisa Ōshima e a sua obra-prima: “O Império dos Sentidos”, em 1976. Esse filme é a prova que o sexo e sadomasoquismo pode ser usado como ferramenta para se analisar elementos como a obsessão e o limite da intimidade.

Para quem quiser pesquisar sobre o Japão e o sadomasoquismo, eu indico um artista chamado Namio Harukawa que, com os seus traços obscuros, subverte o papel da mulher e a coloca como dominadora de uma relação, no mínimo, selvagem.

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É evidente que, nas suas obras, a mulher é fisicamente forte e suas expressões demonstram uma indiferença em relação ao homem. Ela manipula a situação e inferioriza o sexo oposto, fazendo questão de afirmar a sua grandiosidade com a vagina. No mesmo tempo que manipula com suas partes íntimas, ela entende exatamente o limite e usa isso ao favor do seu próprio prazer.

Além do mais, na segunda obra acima, temos a personagem olhando uma revista cuja imagem demonstra exatamente a mesma coisa. Ou seja, é realmente um ensaio criticando essa posição do japonês de classificar as mulheres como frágeis e que precisam ser domadas.

Voltando ao filme…

Depois de uma série de remakes e continuações, chegamos, em 2014, na mais recente obra representante do universo “Flower & Snake”. Dessa vez, misturando alguns elementos do gore e de filmes policiais.

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A história gira em torno da policial Misaki Amemiya que se vê diante uma rede ilegal de pornografia na internet. Diversas pessoas do país acessam o conteúdo – onde existe mulheres sendo violentadas – e cria-se, a partir disso, uma sociedade secreta. Algo parecido com os boatos que correm na Deep Web.

Uma das primeiras cenas é um pessoal da sociedade secreta “Vabyron.com”, fazendo um vídeo. Depois chegam alguns policiais – tendo a Misaki Amemiya como uma das líderes – e acabam com a festa. No entanto, após esse embate épico e muito bem elaborado tecnicamente ( ironia ) Amemiya acaba descobrindo que sua irmã está envolvida com esse submundo perigoso e deixa ela partir para longe, acreditando na sua recuperação.

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Exemplo 1

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Exemplo 2

O diretor faz de tudo para explicar para o espectador a dualidade de comportamento e aparente desconfiança da irmã. Ele tenta reforçar de tantas maneiras, que acaba soando até infantil. Como por exemplo o destaque no lado “boa moça” da irmã da protagonista no exemplo 1 e o lado “vida loka” no exemplo 2: Sim! Se trata da mesma pessoa.

Depois que Misaki deixa a irmã fugir, o mentor ou responsável por essa sociedade de viciados em pornografia violenta, começa a chantagear a moça. Então a heroína e protagonista, dá lugar apenas mais um papel feminino que se submete aos abusos – claro, no seu caso ela faz porque precisa, no entanto fica claro que em certo momento passa a sentir tesão com o exibicionismo.

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Engraçado que aparece, logo na primeira cena, uma terceira personagem chamada Ruri que representa a pessoa comum que, por acaso, entrou o site ilegal e se corrompeu. Pois a menina passa de uma conservadora para uma caçadora de homens, ainda mais, fica se amarrando e, o mais inacreditável, chega ao cúmulo de ficar lambendo o notebook enquanto vê outra mulher sendo castigada.

Na boa, existe essa necessidade de lamber o notebook mesmo e eu estou por fora ou é apenas bobo mesmo?

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Aliás, é interessante como a tecnologia é misturada com a trama principal. A internet está muito presente e até é um pouco mostrado os perigos de se jogar joguinhos online. Para você, pai e mãe, pode ser um grande estudo de caso assistir esse filme. É tão poderoso em sua mensagem que poderia servir como panfleto de conscientização ( chega de apontar as ironias agora ).

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O desespero sendo representado por uma grande atuação ( NOT ) de um marido que vê sua mulher pelada, amarrada por cordas e sendo chicoteada.

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Mas o filme vai atingindo um outro patamar quando vamos adentrando nesse mundo pervertido e conhecemos o vilão e mente por traz dessa grande organização. Ele está sempre com um capuz e fica 24 horas por dia na frente da TV, é um verdadeiro punheteiro.

Se prepare, pois ele não é o pior:

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Dizem que todo filme precisa ter um excelente vilão: Flower and Snake: Zero é, talvez, a maior prova disso na história do cinema. Esse senhor acima provoca os maiores medos e angústias que seria possível nessa existência. Como prova da sua insanidade e imponência, ele está sempre regendo uma ópera que não se vê nem se escuta, criando uma dimensão paranormal e reforçando a sua loucura.

No mesmo tempo que clichê, o diretor consegue imprimir nesse simples personagem todo o mau gosto da obra, ele é o representante fiel do trash.

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A fotografia sem sombra de dúvida é o único ponto positivo do filme, com decisões acertadas e contundentes. Deveria estar no Oscar. Brincadeira, mas eu curti mesmo.

A irmã da protagonista é a personagem mais interessante e linda do filme, tem em sua aparência a representação da dupla personalidade e traz em seu corpo uma série de tatuagens belíssimas. Uma pena que ela seja muito mal aproveitada, a não ser, claro, na cena da sua morte, que é um banho de sangue e sofrimento. Importante destacar que no momento da violência, o “perfil do mal” no seu rosto aparece e, no sofrimento da protagonista ao ver o seu corpo no chão, percebemos que o “lado da bondade” dá as caras. Imaginei o diretor sussurrando feliz no meu ouvido: “entendeu!?, entendeu!?, fui bem não é?”

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Se durante todo o filme o espectador permanece diante uma montanha russa de emoções e excitações – cof, cof – no terceiro até choramos de emoção, pois acaba se tornando ainda mais trash e faz, de alguma forma, referência ao clássico “Sex and Fury” onde tem uma cena épica que a personagem principal sai da banheira, nua, para matar capangas do mal. Aqui, por outro lado, depois de ser extremamente violentada – mas ter lapsos de prazer, como um orgasmo estratosférico – a protagonista/heroína se desprende das amarras com uma super faquinha – alguém depois me explica porque ela não fez isso antes(?) – e toca o terror no ambiente.

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Ainda existe uma lacuna para uma surpresa muito grande no final, pode ser comparado com a dimensão do “Oldboy” – anos luz de distância na qualidade, claro – mas o que interessa mesmo é mulheres nuas e sangue e isso tem de sobra.

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A protagonista caminha em direção ao seu destino e para logo adiante, em um carrossel – ou seja, não vai muito longe mesmo – e no final do filme ainda vida evidente a pretensão de fazer uma continuação. Os filmes da série “Flower and Snake” continuarão, querido leitor, para a alegria de muitos e infelicidade do resto. Boa diversão/decepção!

Aqui no Cronologia do Acaso é assim, filosofia e sacanagem andam lado a lado ;D

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Parasita Sexual: A Vagina Assassina, 2004

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★★★

Mais um bom representante do sub-gênero “pink film”, que são, basicamente, os sexploitation do Japão. Me perdoem a breve explicação, prometo que algum dia falo mais sobre isso. Por enquanto, vocês podem ler minha resenha sobre “Siren X”, para entender esse clima contagiante.

Esses filmes sobre vaginas assassinas são quase uma moda, existem vários, incluindo “Vagina Dentada”. Mas Parasita Sexual deve ter sido o primeiro. Uma verdadeira obra prima ( cof cof ) do cinema trash/erótico.

A história é simples, um grupo de pesquisadores estão na Amazônia(Brasil) para procurar um peixe esquisito, um monstro, mas não fica muito claro. Eles encontram e colocam o negócio em uma caixa de isopor(?). Depois disso um índio-maluco-cara de satanás-japonês – ora, mas eles não estavam no Brasil? – os alerta sobre o grau de perigo que estão enfrentando.

Depois disso acontece eventos trágicos, que dá até vontade de chorar de emoção só de lembrar, e a mulher, dentre os pesquisadores, senta no tal isopor. Pronto! Está feito, o bicho entra em sua vagina e a mulher começa a ser um abrigo para a criatura. Sua vagina é como se fosse o portão para o demônio sair. O bizarro é que o monstro passa de vagina para vagina, como se fosse um vírus do amor.

Ok, continuando – não posso parar para pensar muito, senão desanimo de escrever – depois de anos, acho que dez, tem um grupo de amigos que estão perdidos na floresta. Eles entram em uma mansão abandonada com uma placa enorme escrito “não entrem”. Lá funcionará como um refúgio para orgias, rock sinistro, banho na banheira quentinha, peitões e, claro, a mulher com a vagina do mal.

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Eu ia escrever algo engraçado mas, poxa, reparem esse peito. Talvez a maior surpresa nesse longa seja compreender que as japas também podem ter peitos grandes. O nome dessa atriz é Sakurako Kaoru, a primeira coisa que fiz foi pesquisar sobre ela no Xvideos, o meu âmago sussurrava em meus ouvidos que já tinha visto essa peituda em algum lugar, mas meu lado racional dizia que não era em nenhum filme.

Eu estava certo! Essa par de tetas dedicada atriz é famosa, também, por fazer vários pink films, esbanjando carisma por onde passa. Um verdadeiro talento artístico poucas vezes visto na história.

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Uma das cenas mais brilhantes, dentre várias, é quando uma das japas – são três meninas – vai tomar banho. Então temos uma cena onde a própria enxuga o seu próprio corpo com uma toalha enquanto canta “Se você está contente”, imortalizado no Brasil com a doce, e sorridente, Eliana. Mas essa brincadeira de ser feliz só poderia acabar mal, pois o mundo é cruel, aqui as melhores pessoas se fodem.

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Aparece nesse momento a Sra Vagina, mas ela não está muito normal. Não fala nada, parece um zumbi. A mesma entra na banheira junto com a pobre garota e tenta beijá-la, passando o monstro para ela. A partir dai começa uma viagem alucinante de boceta para boceta.

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Esse pobre coitado está prestes a conhecer os dentes afiados da periquita

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Enquanto isso só analisando o capozão do fusca…

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A cena acima merece mais do que uma simples legenda. Percebam a intenção artística em ocultar o pênis e, em lugar disso, colocar uma garrafa. Palmas.

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Repare bem o que acontece com o rapaz. Suas tripas saíram de tanto tesão.

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No final temos a Sr(a) Peitão contra a barba da vó dentada. Um duelo que entrará para a história. Onde o bem não vence, pois o poder da biribinha é maior que tudo nessa vida.

Esse é o Cronologia do Acaso amiguinhos, aqui filosofia e sacanagem andam lado a lado! Até a próxima!

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