Gojitmal (1999)

Gojitmal que, em inglês, foi traduzido como “Lies”, ou seja, “Mentiras”, é estranho, assim como a sua tradução. Fiquei imaginando o motivo do título, seria uma ironia? Talvez, em outra situação esse questionamento poderia ser banal, mas aqui se faz necessário, ao terminar de assistir, tive a ligeira impressão de que o diretor, Jang Sun Woo, poderia ter extraído bem mais dessa história.

Não posso negar, aliás, que o início do filme é um primor, mesmo com uma filmagem que apresenta um certo desequilíbrio, senti como se fosse um voyeur, seguindo aqueles personagens comuns a caminho de suas próprias descobertas. Em muitos momentos a câmera se esconde atrás da parede, como se estivesse espionando o sexo, as pronúncias envoltas de muita excitação. Enfim, como disse, “Lies” me ganhou nesse início onde temos, representativamente, um diretor de cinema apresentando a ideia do próprio filme que virá à seguir, nas palavras dele a obra fala sobre possessão, o que me parece deveras interessante, temos dois personagens centrais que possuem um ao outro mas não se possuem, ou seja, vazios, não há identificação por eles, não passam de almas penadas enquanto sozinhos, parece que voltam à vida quando estão, de alguma maneira, relacionados ao sexo. E bota sexo nisso, há em todos os momentos cenas picantes, motivo que levou o filme, inclusive, a ser banido na Coréia do Sul em 1999.

A certeza que fica no início é realmente essa: o filme fugirá dos padrões, parecerá com um documentário e, ao longo, será inserido uma espécie de Making-Off. Tentarei explicar, antes dos créditos iniciais o diretor fala para alguém – espectador – sobre o que trata o filme, surgem os créditos e depois somos apresentados a personagem Y, uma menina de 18 anos que está indo encontrar um cara que ela fez sexo por telefone, depois corta e temos a atriz que interpreta Y falando, nos bastidores da entrevista para entrar no elenco, que se estava se sentindo um pouco desconfortável por estar fazendo um filme que apareceria bastante tempo nua. Bem, é uma loucura, mas genial. Não me lembro de outro filme utilizando esse artifício, para mim foi uma novidade maravilhosa.

Y encontra J, ela uma menina de 18 anos e ele um homem de 38, sua mulher está viajando e ele conhece Y no telefone, fica claro que ambos já se excitaram um com o outro, por meio da voz. Ela até fala que não teria como não aceitar encontrá-lo pois tinha ficado molhada apenas ao ouvi-lo. Bem, eles vão para um quarto de motel – durante uma hora e quarenta minutos, vinte minutos é de filmagens externas e uma hora e vinte é tudo dentro de quartos – e lá se conhecem visualmente, cada detalhe, a calcinha, o pênis, o cheiro da axila (?) enfim, é de se admirar(estranhar) a naturalidade que eles agem no primeiro encontro, ou esse seria simplesmente uma consequência da afinidade adquirida por telefone, ou seja, sem o toque. Ele narra suas ações, fala do corpo dela, pergunta se sabe o que está fazendo, avisa o momento de penetrá-la, enfim, alguns exageros mesmo, até que esses encontros vão trazendo outras consequências, ele começa a levar uma mala com chicotes, varas, madeiras e, juntos, aderem o sadomasoquismo.

Em tempos de “50 Tons de Cinza”, Lies é uma bela contradição, filme Sul Coreano, difícil de digerir, enfim, poderia ser muito mais elaborado, infelizmente acaba se perdendo na mesmice, pois da metade para frente é só bunda erguida para levar palmada, os dois protagonistas – ou seria apenas um? – chegam ao cúmulo de sair pelas ruas procurando pedaços de madeira e outras coisas para bater e apanhar, culminando em uma cena onde Y passa perto de uma construção, vê um pedreiro com um martelo e se delicia nas suas imaginações.
Uma coisa que achei muito interessante, é a analogia da violência com as lembranças de quando criança, J afirma que, enquanto apanha, é como se transportasse para sua infância, enquanto Y acrescenta, logo após, que se sente como sua mãe.

Não poderia deixar de citar uma frase, ainda no primeiro encontro deles, onde J fica lambuzando o ânus da pequena ninfeta, avisando-a que irá penetrá-la, ele então solta um “imagine meu pau como merda”. É no mínimo divertido.
Eles passam por diversos motéis, todos eles funcionam como um ninho de amor e interpretação de quem são e, principalmente, o que gostam. Em dado momento Y diz que gostaria de cortar o pênis do seu amante e guardar. Isso demonstra o enorme carinho e obsessão pela posse. O filme fala de possessões, introduções, sexo, posse e vício. O que importa é ter para si o corpo de alguém e, fazer desse alguém o seu boneco, construindo dores compartilhadas.
“Minha esposa viu o “meu amor” tatuado na minha coxa, me perguntou o que significava aquilo. Então eu comecei a mentir.”
Obs: Texto originalmente publicado em 25 de abril de 2015

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

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Califórnia, 2015

california

O ano é 1984. Estela vive a conturbada passagem pela adolescência. O sexo, os amores, as amizades; tudo parece muito complicado. Seu tio Carlos é seu maior herói, e a viagem à Califórnia para visitá-lo, seu grande sonho. Mas tudo desaba quando ele volta magro, fraco e doente. Entre crises e descobertas, Estela irá encarar uma realidade que mudará, definitivamente, sua forma de ver o mundo.

“Califórnia” é uma junção de diversas coisas deliciosas que estão relacionadas com um tempo específico mas que, nem por conta disso, são apenas lembranças. Mesmo que o filme se passe nos anos 80 e se utilize de algumas características como o ponto principal para a trama, seja no figurino ou as músicas que, por sua vez, impactam a personalidade dos personagens, o comportamento do jovem é um ciclo atemporal.

Marina Person é uma diretora que sempre esteve envolvida com a música e com a juventude, trabalhava na MTV; depois foi dirigir um documentário, “Person”, sobre a vida do diretor Luiz Sérgio Person. Em sua mais recente obra – e primeiro longa de ficção da sua carreira – ela imprime diversas experiências pessoais em suas personagens, utilizando-os como avatares não apenas de um tempo, como de si. Aventurando-se pela descoberta do próprio corpo e diante ao processo natural de se tornar adulto.

O filme começa com a protagonista Estela ( Clara Gallo ) menstruando. Nesse momento ela tem 15 anos e, assim como qualquer garota dessa idade, se sente um monstro, anormal.

Então acompanharemos esse caminho, repleto de singelas descobertas, comunicações frágeis e influência cultural. Ainda há espaços para temas importantes como a AIDS, novamente, inserida em um contexto, visto que nos anos 80 era impossível transar sem se preocupar com a terrível doença e a transformação física, no caso dos portadores, era muito mais evidente.

Caio Blat demonstra mais uma vez o seu talento e compõe um personagem doce, delicado e simpático, chama a atenção constantemente e simboliza o desprendimento da protagonista. A obra começa com a menstruação e termina com Estela perdendo a virgindade. Sugerindo que, a partir daquele momento, nasce uma mulher.

É um filme feliz na sua naturalidade, ideal para relembrarmos de algumas das maiores características culturais dos anos 80.  Ainda há espaço para curtir a inocente juventude com um sorriso sincero no rosto, algo muito comum em filmes como “Clube dos Cinco” que, a própria diretora afirma, serviu como inspiração para “Califórnia”.

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O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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Strange Circus, 2005

Strange Circus ( Kimyô na Sâkasu, Japão, 2005 ) Direção: Sion Sono

★★★★

Sion Sono é um dos diretores mais corajosos da atualidade. Primeiro porque não se acostuma com o seu próprio ritmo, intercalando filmes trashs com os subversivos e profundos dramaticamente. E, segundo, pela própria ambição e inerência à fuga do óbvio: mesmo que se utilize da estranheza para compor a sua arte, sempre busca formas de surpreender, não contenta-se apenas com a ideia e faz questão de investigá-la sob diversos pontos de vista.

Filmes como “Extensões Capilares” e “Não se Esqueça de Compartilhar” podem ser utilizados para exemplificar a flexibilidade do diretor. Representam diretamente a facilidade que ele possui em conversar de diversas formas com o público, mesmo que sempre utilize um elemento incomum como essência para o desenvolvimento do roteiro.

Mais uma prova desse talento único é o “Kimyô na Sâkasu“, um dos filmes mais doentios e sublimes da sua carreira. A história é repleta de camadas, mas a principal é sobre Mitsuko, uma garotinha que vê o seus pais fazendo sexo e, depois disso, é forçada pelo pai à despertar a sua sexualidade. Ele a obriga assistir a sua relação sexual escondida e depois a abusa. A mãe, por sua vez, vê a filha e sente que ela está “tomando o seu lugar” e se sente traída, com ciúmes. Essa base será abordada de forma onírica, com uma série de referências visuais e símbolos, o trajeto perfeito de uma família corrompida pelos desejos mais obscuros da carne; monstros privando uma vida inocente de ser criança.

A atmosfera é surrealista, o brilho é ofuscado por uma sensação de sujeira e nebulosidade, as personagens são ambíguas, pronunciam cada palavra com um tom de artificialidade e arrogância. É difícil contextualizar a obra, seja em uma época ou sociedade, pois parece o inferno, uma caricatura das sombras, almas rastejando em busca da corrupção total.

O filme começa em uma boate onde uma drag queen interrompe o show para perguntar à platéia se há alguém interessado em ser decapitado em uma guilhotina. O show é a morte, a morte é presente e o sangue é comum. O quão pequeno é morrer em comparação com o sofrimento?

Como resposta a toda uma história e sentimento, alguém na platéia estende as mãos e indica que se dispõe a ter sua cabeça cortada no palco, com uma filmagem que se aproxima da subjetividade, somos transportados, a partir desse momento, para os sofrimentos de Mitsuko, a própria afirma que “sua vida é repleta de guilhotinas“.

O palco que exibe é o mesmo que transita por entre os corredores da sua casa. Onde o pai e a mãe fazem sexo por prazer e, no mesmo tempo, sua filha caminha em um corredor vermelho. O sangue das paredes é o mesmo que simboliza a evolução de criança para jovem; é o mesmo que corre dentro dela e, por consequência, do pai; é o mesmo que sujará a guilhotina; e, nesse caso, é o mesmo que toma o lugar do leite materno.

O pai indica à sua filha o voyeurismo, a obrigando ficar quieta escondida dentro de uma capa de violoncelo – ou seria a arte? – e assistir a sua performance sexual, impondo o prazer visual, carnal e crescimento. Esse abuso acarreta não só em uma maldição enraizada no âmago da Mitsuko, como também cria infinitas relações doentias e ódio.

O complexo de Electra é analisado sobre prismas polêmicos, o pai, após o sexo com a mãe, inverte as posições e abusa da filha. Caminho e criação; prazer e medo; mãe se transformando na filha e vice-versa – algo que será demonstrado visualmente, visto que nas cenas de abuso, como uma forma de simbolismo e respeito, o diretor opta por trocar a atriz, a filha literalmente se torna a mãe.

“…a diferença entre mim e mamãe era que ela parecia feliz.”

As camadas dramáticas vão sendo trabalhadas e expostas de forma pouco gentil, agredindo visualmente e filosoficamente pela tentativa de estabelecer o mistério como protagonista de uma experiência doentia. Os primeiros quarenta minutos são aterrorizadores e, sabiamente, o diretor opta, ao ultrapassá-los, em usar uma narrativa diferente, como se tudo não passasse de um sonho ou criação. Outros personagens aparecem, em especial um assexual que, tendo como base a sua opção sexual, é possível fazer uma ligação direta com o início onde a ideia primordial que conecta o sexo com o prazer é desmoronada. Outra personagem é a escritora que, mesmo possuindo a capacidade de andar, prefere ficar na cadeiras de rodas como um protesto por todo um abuso psicológico que resultou em uma paralisia dos seus movimentos.

Sem dúvida se trata de uma obra imperdível, verdadeiramente poético dentro da sua complexidade e obscuridade. Não é fácil se entregar para uma obra com tamanha densidade, no mesmo tempo que o resultado é brilhante. Além de possuir uma história extremamente complexa e relevante, o diretor é suficientemente inteligente para contá-la de forma que não fique cansativa. Em base às interpretações e direção de arte, o passado, criação e presente se confundem, todos se tornam uma só maldição.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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Imperador Ketchup, 1971

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★★★

Talvez esse seja o filme mais controverso de todos os tempos, uma polêmica crítica à liberdade sexual dos jovens nos anos 60/70, vemos um mundo tomado pelas crianças que, juntas, criam uma série de leis que proíbem os adultos de qualquer opressão e proibição. As crianças passam a ter todos os direitos, se deleitam em uma série de diversões perversas que vão desde o sexo até a tortura de adultos. Mulheres são escravizadas e servem como rede de ping pong, prostitutas guardadas no guarda roupa, enfim, se tornam objetos.

Juntos as crianças criam um governo totalitário, preenchem o mundo com a maldade e, por esse motivo, essa obra de Shuji Terayama é conhecida como um dos filmes mais malditos de todos os tempos.

Quem conhece o diretor, sabe a sua capacidade artística de explorar da polêmica temas atemporais, criando algum tipo de identificação, mesmo que a realidade mostrada seja suja e indecifrável. Aqui ele dedica-se à uma fotografia superexposta, que funciona como um alívio e, no mesmo tempo, leva terror para uma esfera onírica, como se essa guerra espiritual fosse um pesadelo.

As crianças, imagem essa de bondade e pureza, se transformaram em sádicos, talvez essa mudança seja extensão da liberdade; as narrações, durante boa parte do longa, fazem referência as novas regras desse mundo caótico, uma delas, em especial, diz que todos os professores serão presos, como um manifesto, limitando o conhecimento, algo extremo mas de suma importância para qualquer regime totalitário.

A nudez que Shuji Terayama explora sempre possui uma mensagem maior, aqui faz alusão ao desprendimento, até mesmo à pureza. “Imperador Ketchup” traz cenas onde crianças simulam sexo com adultos, porém, é perceptível que diversas vezes a simulação dá lugar ao afeto materno, é de se destacar a ousadia do diretor que transformou sua ideia em uma arte morta – hoje ela é imperdoável, no entanto a mensagem perdura, visto que estupros, mortes e torturas acontecem diariamente, mesmo com as infinitas oportunidades ao conhecimento e avanços tecnológicos, o homem parece sempre retomar à sua essência selvagem.

“Todas crianças são livres para limpar as suas bundas na bíblia”.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Frente Fria Que a Chuva Traz, 2016

Obs: Hoje, dia 31/07/2016, alteramos a imagem do cabeçalho aqui do Cronologia do Acaso e colocamos o desenho criado pela artista Julia de Andrade. A ideia é fazer uma referência ao filme “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson. Agradecemos a Julia, em especial, e recomendamos aos leitores que visitem o seu site para conhecerem o seu trabalho.

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★★★★

A beleza da Bruna Linzmeyer transcende o natural, sua aparência chama a atenção e o diretor Neville de Almeida usa isso à favor da sua mais recente obra. O diretor sempre soube trabalhar as relações de forma, no mínimo, curiosa, e agora, depois de tempos sem um trabalho de grande expressão, ele se mostra muito inteirado na vida dos jovens – interessante que o filme trabalha com a hipótese dos jovens terem se habituado a permanecer em um nível inferior, principalmente no que diz respeito ao objetivo.

O filme segue alguns jovens em um dia, onde no final da noite, eles farão uma festa em uma das favelas do Rio de Janeiro. Cercados de drogas, bebidas, funk e sexo, a obra levanta algumas reflexões sobre essa forma de vida, principalmente de menininhos e menininhas ricas, através de uma personagem complexa chamada: Amsterdã. Ela se prostitui para alimentar o seu vício em heroína e mantém uma amizade com esses jovens, completamente diferentes, apenas para conseguir bebidas, baseados e cigarros.

Há um preconceito gigante, hoje mais do que nunca, com os filmes nacionais. Na verdade isso não passa de uma ignorância pois o nosso cinema é maravilhoso, basta pesquisar um pouco e encontrar diretores fantásticos e artistas talentosíssimos. Infelizmente sempre estaremos cercados de visões conservadoras que, inclusive, relacionam o cinema nacional com a nudez e sexo.

O cinema Sueco foi considerado libertino nas décadas de 50/60/70 e ainda assim é um dos melhores do mundo. Trabalhar a sexualidade e o sexo não é um crime, e escrevo isso porque “A Frente Fria Que a Chuva Traz” traz, em seu vasto conteúdo, extensos diálogos e gestos que sugerem o ato sexual, mas todos eles compõem a intenção de desconstruir a vida dos jovens repleta de vazios e alegrias passageiras preenchidas ignorantemente pelo prazer, seja sexual ou as drogas.

Na vida há, sim, coisas maravilhosas, muitas das quais são consideradas proibidas e/ou tabus, mas a degradação humana está mais vinculada a forma como é feita a nossa transição do que propriamente os erros. Quase todas as personagens nesse filme são despreocupadas, mimadas e sem objetivos, só o fato de ter dinheiro as tiram da responsabilidade de viver, elas se arrastam atrás de pequenos momentos. Por outro lado, em um país de terceiro mundo, quem tem dinheiro são os que continuarão comandando e, sob essa perspectiva, nossa liderança não vai nada bem.

Logo nas cenas iniciais é possível perceber que na laje, onde acontecerá a festa, está repleta de bolinhas, daquelas que vemos em shoppings, todas coloridas, isso remete a infantilidade. Os que se acham “adultos”, não passam de crianças isolada em um mundo de faz de conta, onde a felicidade pode ser comprada. No mesmo tempo que o jovem domina, ele é constantemente dominado.

Outra coisa interessante é que o segurança ( um homem adulto ) que foi pago por um dos jovens ( criança ) é chamado duas vezes ao longo do filme de “ninguém”, enfatizando e generalizando os adultos como seres monstruosos e sem forma, sem riso e disposição para a boemia.

Mas é na analise humana que o filme se sai maravilhosamente bem, Bruna Linzmeyer dá a sua Amsterdã uma intensidade muito grande, utilizando a beleza exótica ao seu favor. A atriz emagreceu para viver a sua personagem e, se não bastasse, a maquiagem sempre borrada e o olhar perdido demonstram uma perfeita sintonia entre o desequilíbrio, loucura e o medo.

Linzmeyer se mostra um verdadeiro talento e, se no ano passado fez o terrível “O Amuleto”, agora consegue demonstrar que, além de diferenciada, é perfeita para papeis intensos. A sua personagem é aqueles “papeis brindes” que todo ator quer ganhar, é de se impressionar que ela o tenha conseguido tão jovem e, mais ainda, feito jus a complexidade do papel.

Qualquer chuva trás consigo uma mudança. “A Frente Fria Que a Chuva Traz” é uma discussão e reflexão de dois mundos, o da inconsequência e da realidade, elementos que serão representados da forma mais improvável em cenas de festas, beijos e sexo. Se o Harmony Korine fez algo parecido com “Spring Breakers”, podemos então colocar o filme do Neville de Almeida do mesmo nível e tão importante quanto.

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CdA #58 – Lolita: Entre o amor doentio e a obsessão

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“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O livro “Lolita” escrito por Vladimir Nabokov é um dos mais polêmicos da história. Aborda um relacionamento proibido e doente entre um professor e uma menina de 12 anos. Contudo, apesar do tema, existem milhares de pessoas que ainda enxergam a história como uma linda obra de amor. Nesse episódio do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e Tiago Messias conversam sobre as duas adaptações cinematográficas de “Lolita” e tentam entender as qualidades e erros desse amor pedófilo e incestuoso.

Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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Pássaro Branco na Nevasca, 2015

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★★★★

Gregg Araki é um diretor que surgiu nos anos 90, ele é, ao lado de Wes Anderson, Tarantino etc, mais um bom representante do grupo de artistas independentes que reformularam o cinema norte-americano. Sua proposta é muito interessante: falar sobre o jovem e o mundo que o cerca; O diretor, homossexual assumido, também trabalha com frequência o tema, de forma bem sincera e, por vezes, provocante.

“Pássaro Branco na Nevasca” poderia ser apenas mais um filme mediano do diretor – principalmente se analisarmos exclusivamente o roteiro que se torna muito pretensioso no terceiro ato – mas, por alguns motivos que descreverei a seguir, ele mexe com o nosso coração de forma quase imperceptível, despertando uma empatia, seja pelo jovem e sua ânsia de viver ou a mulher de meia-idade repleta de arrependimentos e angústias.

O filme acompanha a vida da jovem Katrina que é filha única de uma família extremamente dentro dos padrões norte-americanos. Ela se vê em meio a um terrível clima de falta de carinho e respeito dos seus pais, que parecem apenas viver dia após dia para manter suas máscaras e gritar para a sociedade que está tudo bem. Então certo dia, sem nenhum tipo de explicação,  Eve Connors ( mãe ) abandona a sua família e nunca mais retorna. A partir desse fato veremos quais as consequências desse fato na vida da Katrina e, ainda mais, procuraremos juntos com ela uma resposta para a atitude da mãe.

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O filme se constrói em vários flashbacks, inclusive eles aparecem de forma abrupta às vezes, como se quisesse simular as angústias tanto da mãe quanto da filha. Essa vida bagunçada e cheio de conflitos invisíveis, parece transcender à realização, transformando o filme em, praticamente, um recorte de momentos. Causa um certo desconforto inicial, mas esse sentimento de confusão vai nos aproximando, cada vez mais, da curiosidade, a vida daquela família comum se torna enigmática e grandiosa.

Se existe uma incomunicabilidade no que diz respeito ao didatismo do roteiro, não podemos dizer o mesmo da inteligência do diretor em usar a fotografia ao seu favor: sempre muito bonita e clara, demonstrando tranquilidade no presente, serve como um verdadeiro contraste nas cenas de flashback onde temos umas misturas mais gritantes, principalmente o uso do amarelo. Em dado momento, quando é mostrado a mãe e o pai formando suas vidas/ comprando a casa, a fotografia é amarela, demonstrando o calor e energias daquela relação, fruto da expectativa. Consecutivamente, com o declínio dessa empolgação inicial, a fotografia vai se tornando cada vez mais fria e sem cor ou com uma iluminação superexposta.

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Não posso escrever sobre esse filme e não citar, com um certo aprofundamento, as excelentes performances da Shailene Woodley e Eva Green. Começamos pela primeira: Shailene pertence a esse novo grupo de grandes atores com menos de 25 anos, é uma verdadeira aposta desde “Os Descendentes” e, a cada dia, vem mostrando a sua perspicácia e versatilidade transitando por entre os filmes populares e alternativos. De todos esses novos nomes de Hollywood, incluindo a própria Jennifer Lawrence, Shailene Woodley me parece ser a mais talentosa.
Sua personagem, Katrina, esteve desde criança em contato com a sexualidade, então ela cresce com essa mentalidade livre, com um certo desprendimento. A atriz resgata esse lado muito bem, até o momento nunca visto na sua carreira, que sempre pendeu para o lado da pureza e inocência.

Do outro lado temos a mãe, Eva Green. Que o talento da Eva é absurdo, todos sabem. A sua qualidade mora na obrigação em exigir de si mesma a cada detalhe, reação e olhar; Todos esses elementos são imprescindíveis para as composições de seus personagens, sempre abusando muito da sensualidade que lhe é inerente – afinal, trata-se de uma das atrizes mais lindas do mundo. Nesse filme sua personagem está afundada em arrependimentos e monotonia, cansada da vida de dona de casa, ela sempre se mostra abatida. A sensualidade da atriz, como descrita acima, consegue ser essencial pois se encontra escondida em expressões de desespero. Isso, inclusive, me faz pensar que o “pássaro” do título faz referência direta a mãe, presa em uma gaiola boa parte do filme.

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Se a construção da história é excelente, muito se deve a discussão filosófica e a pitada da crítica social, principalmente aquela voltada ao “american way of life“, nesse ponto o filme nos lembra bastante o “Beleza Americana”. Por outro lado, na discussão filosófica a obra encontra a sua maior força.

Existe uma mensagem implícita sobre o sentimento de urgência da mãe em viver, não apenas existir. A sua casa, aparentemente perfeita, se torna um ruído em sua vida. A filha, de aspecto jovial e perfeito, se torna aos poucos sua inimiga. A questão da imagem têm uma importância gigantesca na trama, movendo as duas personagens principais para um encontro místico, como se as duas fossem uma só.

Katrina se relaciona com alguém mais velho, enquanto a mãe aparentemente seduz um jovem rapaz – namorado da filha. Então existe um conflito de posições e/ou aceitação da condição, isso é extremamente relevante para a compreensão da obra e os seus significados. Se existe uma maturidade enorme na criação e desenvolvimento dos fatos, o mesmo não se pode dizer da conclusão. Concentrando-se na surpresa, o diretor parece se tornar extremamente pretensioso e preguiçoso nos minutos finais, transformando toda a possível surpresa em uma ferramenta de tragédia, manchando um pouco a atenção minuciosa das cenas anteriores.

Baseado no livro “White Bird in a Blizzard”, da escritora Laura Kasischke, o filme ainda consegue sobressair as más decisões do final e se mantém como um bom estudo de personagens, principalmente referente à mulher e o jovem, bem como a relação de amor/inveja entre mãe e filha.

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