Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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