CdA #73 – O feminino e a natureza de Satã

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Voltamos ao formato [Moscas] do podcast CdA. Dessa vez, Emerson Teixeira e Tiago Messias se reuniram para discutir o filme Anticristo (2009), dirigido pelo sempre polêmico Lars von Trier. Embarque conosco em dilemas atemporais femininos, dicotomia entre Eva e Lilith e a linha tênue que separa a psicologia humana da natureza que, como alguns dizem, “é o palco de Satã“.

Edição feita por: Tiago Messias

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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As Bodas de Satã, 1968

As Bodas de Satã

Seria impossível analisar “As Bodas de Satã” sem se lembrar de como o satanismo foi discutido durante os anos 60. A liberdade e o movimento hippie trouxeram, também, um outro lado obscuro que envolvia o desconhecido e, claro, o satanismo está incluso na lista.

Em 1969, um ano após o lançamento desse filme, Charles Manson assassinou a Sharon Tate que era esposa do diretor Roman Polanski e estava grávida de oito meses. Então é de se imaginar a ousadia de todos os envolvidos em lidar com esse tema de forma tão natural e impactante.

O filme é baseado em um conto do Dennis Wheatley, inclusive ele teve o Aleister Crowley como consultor para criação da sua história.

Dirigido por Terence Fisher, “As Bodas de Satã” conta a história de Duc de Richleau ( Christopher Lee ) que descobre que o seu sobrinho está envolvido com rituais satânicos e magia negra, ele passa a usar os seus conhecimentos místicos para combater o mal e os livrarem dessa situação.

A produtora Hammer é icônica na história do cinema, trabalhou exaustivamente com alguns monstros famosos como o “Drácula” e a “Múmia”, aqui trabalha com a magia negra e consegue se sair muito bem. A técnica empregada pelo Terence Fisher dá um tom elegante e o roteiro é dinâmico e aproxima o espectador do conflito principal. É uma aula de cinema para os jovens, que teimam em se utilizar dos sustos gratuitos. Aqui acontece o contrário, existe uma atenção maior para com a história, depois os personagens, o visual e só depois vem a necessidade de provocar o medo. Contudo, como o foco está totalmente na ambientação, a sensação de urgência e o trabalho inteligente com elementos diabólicos traz a sensação de medo de forma mais pura, é realmente uma experiência prazerosa.

Ainda há espaços para algumas discussões sobre o mal e o ceticismo, o que é importante, mas em nenhum momento se torna o principal na narrativa. Felizmente é tudo singelo, trabalhado de forma delicada, destoando inclusive do próprio tema, sem dúvida se trata de um dos melhores filmes da Hammer.

“-Você acredita no mal?
-Como uma ideia.
-Acredita nos poderes das trevas?
-Como uma superstição.
-Estão erradas!
O poder das trevas é muito mais que mera superstição!
É uma força viva que pode atacar a qualquer momento da noite.”

A teatralidade, com ajuda do clima gótico, faz jus a mitologia que o filme alcançou posteriormente, tendo sido inspirações dentro da música, escritores, enfim, é impossível falar de terror sem citar essa obra maravilhosa, cercada de muita dedicação e carinho e, por que não, relacionada com a curiosidade e medo da sociedade na década de sessenta.

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Scorpio Rising, 1964

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Scorpio Rising é o curta-metragem mais conhecido do excelente diretor experimentalista Kenneth Anger – isso se deve ao fato de ser o único filme, da sua filmografia, que figura entre os mil e um filmes do livro “1001 filmes para ver antes de morrer” mas, também, por sintetizar toda a sua obra.

Kenneth Anger se interessou pelo ocultismo muito cedo, bastou pouco tempo para ser seguidor de Aleister Crowley e começar amizades com nomes importantes da literatura ou música, principalmente aqueles com algum vínculo com o ocultismo ou mundo underground, como  Anton LaVey, Jimmy Page,  Keith Richards etc. Eu conheci o seu trabalho, inclusive, em pesquisas sobre ocultismo, visto que o diretor desenvolveu um trabalho chamado “The Man We Want to Hang” ( 2002 ) onde ele registra algumas pinturas do Crowley.

Kenneth Anger, geralmente, abusa da atmosfera surrealista, a maioria dos seus filmes contém cortes frenéticos, inserções de imagens que fazem referência à algo místico ou que determina a característica principal de um local ou personagem, também sempre dialoga com a polêmica, contracultura, religião, satanismo, homossexualidade, enfim, é uma daquelas experiências frenéticas acompanhar os seus trabalhos. Mas, para os corajosos, vale a pena pois sua influência no meio artístico é muito grande, mesmo nunca tendo saído do circuito independente, prova disso é que realizou inúmeros trabalhos, porém, todos curtas-metragens experimentais; é um nome desconhecido que influenciou cineastas modernos como Martin Scorsese e David Lynch.

“Scorpio Rising” acompanha um grupo de motoqueiros, de forma experimental, com uma linguagem vanguardista que, abusando da contracultura e rebeldia, relaciona temas como homossexualidade, sexo, religião, ocultismo, drogas, enfim, com paralelos iconoclastas, inserções de imagens que fazem referência à passagens bíblicas – todas envolvendo Jesus Cristo, apresentando-se de forma super sexualizada – e, como linguagem temos, principalmente, uma sequência de treze músicas de rock clássico que direciona a história para a subversão.

Como o curta-metragem não têm diálogo – se estrutura em uma série de imagens, apoiados à uma montagem hipnotizante – compreendemos a música como um guia espiritual, se não bastasse, a experiência é catártica e provém, primeiramente, da provocação e sensações. Contextualizando a liberdade sexual e liberdade de expressão, no entanto, em alguns momentos, sugere o perigo da exposição, somos convidados a uma viagem pelo submundo, onde o profano está frente a frente à condição de viver.

Uma inserção de Jesus Cristo, mais precisamente a passagem bíblica onde ele cura um cego, faz alusão à visão, resultando em uma jornada de desprendimento, livre, como se o homem pudesse, através desse milagre da cura, caminhar sem preconceitos ou insegurança. Outra inserção é quando Jesus chega à Jerusalém montado em um jumento, outra vez fazendo analogia à jornada, inclusive nessa cena há uma transição para as motos – veículo que simboliza poder, velocidade e modernidade.

É um excelente obra, recomendado para aqueles que estão dispostos a se despir de preconceitos e refletir sobre os mais diversos temas, pois sem dúvida se trata de um dos filmes mais subversivos de todos os tempos e que proporciona, com toda a sua polêmica, uma experiência singular.

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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A Bruxa, 2016

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★★★★★

No passado, Deus era creditado como o centro da vida, o teocentrismo trouxe diversas facilidades e amarras do homem com o poder. O controle das massas sempre existiu e ainda é muito presente, principalmente quando está ligado, direta ou indiretamente, com a fé. O homem se torna incrivelmente forte quando crê, mas no mesmo tempo fica muito próximo do desvio da ignorância.

O antropocentrismo preza pelo homem, o conhecimento deu à população a oportunidade de pensar criticamente sem nenhum tipo de interesse político. Saberes como a arte e filosofia ganharam força na busca por um novo destino. Se hoje temos o mínimo de liberdade e direitos, devemos a uma série de insatisfações.

A caça as bruxas foi algo muito real e representa com perfeição a manipulação do poder, bem como a sua inteligência em enxergar na fraqueza uma oportunidade para criar uma histeria coletiva. O desprendimento do conservadorismo traz consigo muitas inseguranças, boa parte dos inúmeros casos de mulheres condenadas por serem “bruxas” estão diretamente relacionadas com sua postura independente e intelectualidade. Suas posições sociais também influenciavam, jamais poderiam ser mais importantes que os homens.

Fica evidente que o tema de “A Bruxa”, dirigido de forma impecável pelo Robert Eggers, é de suma importância para a reflexão sobre um passado repleto de injustiças. Mas o medo, no mais sincero possível da palavra, se desenvolve de forma lenta, até o espectador entender que a opressão ainda existe e que a ignorância continua cegando as pessoas, mesmo com o acesso fácil à informação.

Fui assistir ao filme em uma sessão à noite, a sala estava extremamente lotada. Começa o longa e logo vem os primeiros “sustinhos”. As pessoas visivelmente esperavam outra coisa, e, finalmente, após uma cena grotesca – que funciona quase como um cartão de visita – começam as primeiras risadas, uns desconfortáveis, outros amenizando a atmosfera com piadas irrelevantes. O fato é que muitos ali são religiosos – o que não há problema algum – mas que nunca leram a bíblia. Nunca se deram o trabalho de pesquisar a sua religião e de tentar compreender os outros tantos pensamentos que existem.

O medo do filme é transmitido através da vivência do homem e a certeza, mesmo que nas entrelinhas, de que não evoluímos em nada. Apenas aprendemos a esconder melhor o nosso preconceito. O satanismo sempre esteve relacionado ao homem e sua busca por liberdade, criando uma distância com Deus, como se ele tivesse nos abandonado. Não está diretamente relacionado com morte de animais e crianças, assim como o catolicismo não é completamente relacionado com a pedofilia.

Há exceções em tudo na vida. O que falta é o senso de empatia e uma mente aberta para tentar compreender as ideias que moram do nosso lado.

O que escrevi acima é apenas um desabafo, pois a experiência com minha sessão esteve a beira de uma catástrofe – certamente teria ficado com raiva, mas como o filme é excelente, consegui isolar o mundo exterior para contemplar algo inimaginável – e certamente a citação do satanismo é muito pertinente, até porque se trata de algo extremamente polêmico.

O filme começa com uma família, no ano de 1630 na Nova Inglaterra. Eles são expulsos da cidade e o motivo, inicialmente, é muito nebuloso. Porém, com o auxílio da trilha sonora – que é ótima durante toda obra – e algumas decisões técnicas como a filmagem da cidade onde, junto com a família, vemos o lugar cada vez se tornando mais distante, o espectador consegue imaginar que existe um conflito de posições e ideais ali.

A família adentra um mundo selvagem, o desconhecido. Eles caminham por entre a insegurança e ignorância, deixando para trás o seguro e o normal. Portanto, esse mundo selvagem se torna, cada vez mais, demoníaco. Existem certas referências à algumas religiões que depositam na natureza a sua fé, mas isso acontece para preencher as lacunas da verdadeira mensagem que é a fragilidade do homem quando está exposto ao desconhecido.

O pai da família, interpretado pelo excelente Ralph Ineson, transmite uma preocupação constante, bem como a sua expressão percorre por diversas vezes a obsessão. Com sua voz grave, parece se relacionar perfeitamente com o clima sombrio do filme, intimidando quem assiste. Mas o destaque fica por conta da protagonista Thomasin que, em meio a essa ousadia da família e opressão religiosa, está se desenvolvendo – fisicamente e emocionalmente. O diretor faz questão de, em dois momentos cruciais, ressaltar a sua sexualidade através dos olhos do irmão, onde a câmera subjetiva focaliza os seus seios. A primeira vez acontece enquanto ela está dormindo e a segunda perto do lago, ou seja, como se o irmão estivesse frágil perante esse desejo proibido.

Aliás, penso no filme e sua atmosfera como um representação metafórica de um amor incestuoso entre irmãos que, aprisionados em um tempo espinhoso, passam a se interpretar como pecadores e monstros. Eles são os “bruxos” para uma sociedade puritana.

O abuso existe por parte do pai também, que pretende vender a sua filha para conseguir sobreviver. Nesse ponto, posso afirmar que a atuação da lindíssima Anya Taylor-Joy é de suma importância para a obra, pois sua feição angelical e calma esconde uma inteligência à frente do seu tempo, e, como expliquei na introdução acima, mulheres assim eram classificadas como bruxas.

Thomasin representa o desejo proibido. Tanto das mulheres e o desejo de desprendimento, quanto do irmão que observa a sua beleza com olhares maliciosos. Por isso acontece, em um momento crucial, a referência clara da maça, e é justamente essa fruta que desperta na família a ideia de que o filho fora enfeitiçado. Poucos minutos antes, ele ainda se depara com uma figura extremamente sexualizada, fazendo uma alusão à Sucubus – demônio do sexo. A partir dessa desmistificação do desejo que exala Thomasin, ainda temos os irmãos gêmeos que a acusam de bruxaria. Curioso é notar que, quando o irmão começa suas descrições na cama – aparentemente em um ataque – elas repetem o movimento, se tratando de uma histeria coletiva.

O mais interessante é: Seria o filme sobrenatural ou psicológico? A resposta simplesmente não existe. Se a fé envolve o espectador de modo fervoroso e dita suas decisões ou olhar, certamente passa a entender o filme como um evento sobrenatural. Caso contrário, investigará todo o contexto histórico e será fácil a classificação da obra como uma discussão importantíssima do aprisionamento da mulher ao longo dos anos.

O coelho passa a indicar os caminhos e valores. Representa o olhar do espectador, ele é a isca. Assim como o misterioso e surpreendente Black Phillip. Interessante notar que, no final do filme, quando a menina consegue, finalmente, fazer contato com essa “entidade”, é colocado em jogo a liberdade e conhecimento, bem como timidamente ela diz que não sabe escrever enquanto ouve: “eu seguro a sua mão”. Essa ponte com o sobrenatural – ela mesma – dá a oportunidade de enfrentar o mundo e se rebelar contra as regras imposta pela sociedade. Essa cena é horripilante, tanto por conta da conexão com a entidade, como também por ela parecer muito – sarcasticamente – com o pai. Seria então esse demônio um desejo da garota, que almejava ter um pai que desse oportunidade para ser livre?

É estudado muitos casos nessa época de mulheres que passavam a acreditar que eram bruxas por conta da intimidação. Ou seja, essa atmosfera diabólica e assustadora que vemos em “A Bruxa” é simplesmente a cabeça da personagem principal, que se banha em proibições e está no limite da sua própria sanidade.

Com centenas de elementos metafóricos e referências satânicas, o espectador comum – leia-se aquele de mente fechada que não se dá o trabalho de procurar coisas novas – se atém apenas a primeira camada, excluindo o restante por conta do seu próprio preconceito. Sem perceber que a ignorância presente na sua atitude ao assistir uma obra de arte é muito similar do que está presente na família.

Com referências claras ao sangue e leite, transformando ambos em uma ponte entre a alimentação, sobrevivência e morte, chegamos na última cena que demonstra a ambiguidade que já estava presente desde o início. A protagonista segue o seu caminho de esperança em rumo ao ritual (ela) e se torna leve, sem amarras, finalmente livre. Ainda percebemos que o último quadro é ela na frente de uma árvore, dando lugar a um inevitável elo com Lilith e, ainda mais, o conto de Adão e Eva, fortalecendo a teoria de que ela é o fruto proibido e que o proibido foi, é e, infelizmente, sempre será: pensar diferente.

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