American Honey, 2016

Docinho da América ( American Honey, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Andrea Arnold

★★★★

Star – cujo nome é bem sugestivo – é uma garota que, após um convite, se sente tentada a sair viajando pelos Estados Unidos com um grupo de jovens em uma van, todos eles vendem revistas de casa em casa e, nas horas vagas, fazem sexo, bagunçam e usam drogas.

Esse é o típico filme que provoca o espectador desde o início, não se baseia em um formato comum, possui uma narrativa contemplativa e a longa duração é mais uma prova que a diretora Andrea Arnold não está afim de criar algo padronizado. Nem todos os minutos são bem utilizados, chega um momento que fica repetitivo, mas ainda assim é uma experiência singular acompanhar esse grupo de jovens, tão diferentes entre si mas que, dentro das suas esquisitices, se complementam ou se satisfazem.

Filmes como esse provam que a partir de um road movie é possível extrair uma extrema naturalidade, fazendo a sétima arte parecer simples e muito próxima. A cada olhar empolgado pelos vidros da van, um sorriso no rosto do espectador e indiferença ao mesmo tempo, abraçamos o entusiasmo e felicidade do grupo, no entanto algumas atitudes são tão subversivas e imaturas que somos obrigados a questionar. Mas essa com certeza era a intenção, provocar o senso de voyeurismo e fazer estar dentro do grupo e distante, em um vai e vem interminável, tentando encontrar a melhor forma de adaptação – assim como a protagonista que nunca parece se envolver totalmente com todos pois, como já era de se esperar, ela mora ao lado das estrelas, sua percepção é diferente dos demais.

A estreante Sasha Lane desempenha uma função primordial no desenvolvimento de sua personagem, atingindo expressões que beiram a doçura, indiferença e paixão; do outro lado temos o Shia LaBeouf que, desde que começou a levar sua carreira a sério, se entrega a todos os seus personagens, vivenciando cada diálogo como se fosse o último.

A diferença do grupo se torna pequena perto do que todos possuem em comum: a ânsia por serem enxergues, por isso cada diálogo soa como uma tentativa desesperada de ser essência para alguma piada ou observação. É provável que aja muitos preconceitos por jovens assim, afim de curtir a vida sem freios, mas não seria o próprio jovem um desequilíbrio ambulante? – essa questão pode ser exemplificada em uma cena que Jake ( Shia LaBeouf ) e Star entram na primeira casa para vender revistas e a filha da moça que os atendera, menor de idade, dança e tenta conquistar Jake. A vida padronizada americana se desestrutura nesse momento, pois a moça manda os jovens saírem da sua casa e recebe em troca a frase “acho que o demônio tomou conta da sua filha“, ou seja, a perversão está escondida nas artificialidades de cada família.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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A insatisfação do “aqui” e o vazio do crescimento

Little Birds, 2011

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★★★★

Há anos venho afirmando o meu fascínio por filmes que abordam temas relacionados com o jovem. São inúmeros grandes exemplos, que certamente acrescentam muito nesse nobre e difícil objetivo, afinal, o jovem é movido por incertezas e impulsos aparentemente irresponsáveis, registrar de forma coerente essa instabilidade é para poucos.

“Little Birds” é mais um bom representante de filme indie, do tipo que se utiliza da delicadeza para desenvolver uma história pesada e, nesse caso em específico, trabalha com perfeição a instabilidade do jovem, citada acima. É de se espantar que seja dirigido por um “novato” chamado Elgin James.

A história é sobre duas amigas chamadas Lily e Alison que moram em Salton Sea, Califórnia. As duas têm quinze anos e, no auge da perfeita divisão entre a liberdade, conhecimento e responsabilidade, enfrentam problemas próprios da idade, como namoros, isolamento, relacionamento conturbado com a família etc. Principalmente Lily – vivida pela excelente Juno Temple – que se corta e parece sempre querer provar o quanto não pertence ao lugar que vive e, na primeira oportunidade, decide fugir na sua terra natal, convidando a sua melhor amiga a entrar nessa aventura cheia de riscos e incertezas.

Os filmes de road movies são conhecidos por sempre apresentarem evoluções nítidas nos personagens, talvez seja o maior representante dessa postura de observação, caminho e conclusão, sendo uma metáfora até mesmo para o próprio roteiro; nesse filme de 2011 não é diferente, enquanto filme de estrada não apresenta nada novo, mas quando o relacionamos com a importância em se discutir os sentimentos do jovem, ai ele atinge um nível muito elevado, fugindo do contexto da própria evolução e concentra-se em um “ensaio de erros”, onde a conclusão se transforma em algo pouco previsível.

A personagem Lily tem uma fragilidade absurda, no mesmo tempo que a sua impulsividade pode ser interpretada como ignorância, é nítido que ela é vítima de um sentimento muito grande de falta de propósito. A atriz Juno Temple – que escolhe muito bem os papeis que faz – se conecta perfeitamente com a trama pois fisicamente ela preenche muitas lacunas da personagem, no mesmo tempo consegue dar ainda mais qualidade com pequenos olhares e gestos que reforçam a inocência de Lily.

Como o outro lado da moeda, mesmo que ainda estejamos falando sobre jovem, temos a Alison, vivida pela Kay Panabaker, ela se mostra sempre muito madura, repleta de informações sobre coisas aparentemente banais para a sua idade. Parece que está muito satisfeita com a sua condição e destino.

A fotografia, por vezes pendendo para o amarelo, dá um tom confortante no começo, porém vai ficando mais obscura com o passar do tempo. Principalmente com as mudanças de cenários, como se ambas meninas estivessem passando por um ritual cujo objetivo é ilustrar como o mundo é malvado e podre. Essa transformação na fotografia/cenários é a perfeita demonstração do crescimento e conhecimento.

O fato de ser duas meninas é muito interessante pois remete diretamente ao clássico “Thelma & Louise”, inclusive tem uma referência clara a esse filme. Apesar da mudança drástica dos primeiros trinta minutos para o restante, tudo é feito de forma muito consciente, a densidade é revelada na medida certa e em nenhum momento o filme se torna cansativo.

O drama familiar é pouco desenvolvido, mas por outro lado seria um erro procurar explicações no vazio das sensações da protagonista, mesmo assim é importante os pequenos momentos onde fica claro o seu estado emocional desestruturado, como por exemplo o corte que a menina faz em sua própria perna.

Por fim, “Little Birds” é excelente e, assim como o seu título, transmite uma energia de liberdade muito grande, no mesmo tempo que alerta, tudo isso sem ser didático. É um verdadeiro ensaio de atitudes inexplicáveis, senão, pela própria vontade. Quando Alison questiona a sua amiga sobre o porquê da fuga, ela pergunta: “O que tem tão bom lá?“, enquanto Lily responde, simplesmente: “Não é aqui“. E isso, sem dúvida, responde tudo e nada ao mesmo tempo, assim como o processo de se tornar adulto.

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Copenhagen, 2014

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★★★★

Se existe um formato de filme que me conquista facilmente é, sem dúvida, os indies, principalmente se abordarem um relacionamento – seja de um casal, amigos ou uma catarse individual -, é a oportunidade ideal para se emocionar, sorrir e, claro, se divertir.

É o caso de “Copenhagen”, filme dirigido pelo Mark Raso de 2014, que consegue sustentar uma profundidade dramática mas, no mesmo tempo, está muito mais interessado nos seus personagens e na relação que se estabelece entre eles.

A história é centrada no William, de 28 anos, que viaja até Copenhagen com uns amigos e, dentre atividades como: baladas, mulheres e bebidas, ele ainda tem um desejo de encontrar o seu avô ou descobrir um pouco mais sobre ele. No meio do caminho ele encontra a adorável Effy, uma menina com personalidade forte e independente que, apesar de demonstrar muita maturidade e consciência sobre as suas atitudes, só tem 14 anos. Então o filme passa a se desenvolver nesse limite entre amizade, paixão e limitação por conta da diferença da idade, tudo isso enquanto ambos personagens andam de bicicleta pelas ruas maravilhosas e alegres de Copenhagen.

 A história é pautada em diversos clichês que vão desde a surpresa da paixão – afinal, William é do tipo que sai com várias mulheres mas começa a se encantar por apenas uma -, passando pelo problema da diferença de idade entre os dois até chegar no processo de evolução dos personagens através da caminhada pelas ruas afim de chegar ao objetivo, nesse caso, podemos resumir que é um típico road movie.

Mas o que difere esse filme de outros com a mesma temática é, sem dúvida, a super atenção que o diretor dá aos seus personagens, transformando-os em verdadeiros monumentos que, só de aparecer juntos em tela, cria uma sensação de bem estar no espectador- aquele súbito sorrisinho de canto. O relacionamento é desenvolvido com tanta sinceridade e ternura que, por algum momento, esquecemos que se trata de uma diferença de idade de 14 anos, esquecemos também de uma possível polêmica sobre pedofilia que poderia ser ainda mais trabalhada, mas, no final, é fácil perceber que William não vai fazer nada além de se apaixonar platonicamente, com muito respeito e carinho pela menina de 14 anos que o ajudou a crescer.

A fotografia de “Copenhagen” é muito oportuna, envolve os personagens em paisagens românticas, cheio de cores e alegria. Como o trajeto deles é quase sempre feito com bicicleta, conseguimos, ao assistir o filme, nos sentir imersos naquela cidade, como se fossemos os turistas. Aliás, o fato do protagonista ser um turista já é muito identificável, pois contextualiza-o no encantamento pela novidade, desprendendo-o da rotina e demais amarras da sociedade.

Os pontos mais importantes para a estrutura do filme são as atuações da Frederikke Dahl Hansen e do Gethin Anthony. Ambos possuem uma beleza singular, e o carisma deles se transforma em algo crucial para a aceitação da obra que, mesmo com toda a sua simplicidade, consegue encantar até os mais exigentes.

Obs: O filme se encontra atualmente em catálogo na Netflix

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Carteiros nas Montanhas, 1999

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★★★★★

“Carteiros nas Montanhas” é mais um bom exemplo de filmes perdidos que, quando descobertos, raramente passarão despercebidos. O que me cativa em cinéfilos é essa disposição em nunca guardar para si pequenas preciosidades e, portanto, vou seguindo essa onda pedindo que você, leitor/amigo, procure essa obra.

Filme Chinês, dirigido por Jianqi Huo, conta a história de um senhor, ele foi carteiro por anos, andando muito por várias regiões e, por conta disso, é conhecido por muitos e amado por alguns, o interessante é que a figura do carteiro se revela extremamente importante. Ele está prestes a se aposentar e visando passar a sua responsabilidade para alguém de confiança, o filho se prepara para assumir sua função. Mas a última viagem – que dura em média três dias – os dois farão juntos, o filho está prestes a descobrir o seu trajeto, enquanto o pai está próximo de descobrir um pouco sobre o tempo e como o mesmo se desfaz por entre os dedos. Mas “Carteiros nas Montanhas” é, de fato, um vislumbre audiovisual, onde a relação de pai e filho é protagonista de uma belíssima história de amor.

O caminho é árduo, isso fica claro, aliás, é uma mensagem dita quase que constantemente. O filho não tem noção da responsabilidade que sua nova função exerce sobre as pessoas, pequenos povoados, sem luz ou acesso a informação como temos hoje, a maneira de escapar é justamente com a comunicação. O carteiro, um agente da possibilidade, representa uma fuga do convencional. Eu escreverei, basicamente, sobre cinco elementos ao longo dessa crítica: pai, filho, tempo, amor e caminho.

Caminho

É muito fácil nos lembrarmos dos famosos filmes Road Movie ou filmes de estrada, onde temos a estrada como canalizador de transformações dos personagens, na maioria das vezes, em crise. O caminhar vai acontecendo, o sujeito se fazendo. Como um feto que se desenvolve na barriga da mãe, temos um homem conquistando a sabedoria de saber quem é. Isso acontece aqui de uma forma diferente, o pai e filho transitam por entre imagens do campo, florestas, paisagens que remetem diretamente ao puro.  Enquanto encontram personagens que já conhecem o pai, portanto, conhecem o filho. Mesmo que com desconfiança, eles vão aos poucos entendendo que tudo na vida chega ao fim. Aquele que dedicou sua vida e saúde para ajudar, precisa deixar sua bondade de lado e seguir em frente, tentando espalhar seus ideais. Por isso em diversas cenas o filho olha para o pai como um mestre, um professor. Até um simples ato como fumar soa tentador ao filho e, quando o faz, exprime um longo sorriso no rosto por estar imitando o seu pai. Os dois vão trocando de papel, aquele que um dia cuidou, passa a ser cuidado. Aquele que um dia dedicou, passa a ser expectador. Aquele que um dia aprendeu, precisa lidar com a paciência, para entender que cada um tem o seu próprio tempo. O caminho está tão presente nesse filme, que seria impossível detalhar o quanto se torna sublime no roteiro acompanharmos esse rito de passagem. Menino para homem. Homem para sábio.

Tempo

O tempo é motivo para dor de cabeça em muitos, inclusive para mim. É incrível como vai indo, sem ao menos explicar o motivo. Se transforma em lembranças ou em medo. Cada um aprende a encarar o seu, de frente, não de costa, como é recorrente. O pai, no filme, conheceu a sua mulher durante uma das viagens. Ele sempre contemplava o silêncio, enquanto o filho utiliza-se do artifício do som – com o seu pequeno rádio – para se esquivar do sentimento de solidão. Seria então o garoto mais sensível que o pai? Ou simplesmente o pai já passou da fase em que estar só pode ser traduzido como solidão. Me parece que ele se sente sempre bem acompanhado, seja com o seu fiel cachorrinho, ou com o vento. O vento parece um fantasma, nesse caso amigo, que vai soprando a sua direção, ele se mostra sempre como uma figura centrada, que sabe o que faz, só pode ser ajuda espiritual, ou seria apenas dedicação. Aliás, seria o filho, um dia, capaz de conseguir atingir o mesmo patamar?

Amor

Eu me considero um religioso pois acredito no amor. É o que nos liga, direcionando-nos a fé de não simplesmente existir. Exigindo-nos a capacidade de sentir. O pai vai com o filho, para iluminar o seu caminho, o filho se sente envergonhado com a sua presença, mas ali só existe respeito, mútuo, inclusive. O pai não é um diplomado, ou algo banal como isso, ele é um ser que sabe valorizar. Ele valoriza o espaço e, principalmente, o que faz, independente do que seja. O filho é a representação dessa nova geração, lembrando que o filme é de 1999, que faz as coisas mas não para e pensa, de fato, no que está construindo. Será que construímos algo sem amor? Eu diria que não, ambos personagens se conheciam muito pouco. O pai é um viajante, quando o menino nasceu ele estava longe de casa, mas as cicatrizes da infância perdida estão lá, ele pode se redimir com sua própria consciência e perguntar o motivo delas.

Em determinado momento, os dois encontram uma velhinha cega. Aproximadamente de 15 em 15 dias o carteiro(pai) senta ao seu lado, lhe entrega uma carta do seu neto – agora um rapaz intelectual e rico – e lê o que ele escreveu. O porém é que o neto nunca escreveu uma carta para a avó. O carteiro inventa coisas, para confortar o coração magoado da senhora. Ele então, junto com seu filho, vai ler a sua última carta para ela. Ele para no meio da leitura, e dá a vez ao filho. Momentos depois, longe da velhinha, eles conversam sobre isso, o filho indaga – visivelmente impaciente – que essa é uma obrigação do neto, não do carteiro. O pai não fala muito sobre isso, não precisa. Como se soubesse o tempo todo que, durante o percurso, os ventos assoprariam as respostas. O amor é isso, confortar corações independente do porquê.

Pais e filhos

O pai tem um grave problema nas pernas. Isso se agravou com o tempo pois ele vivia passando nas águas para prosseguir no seu caminho. Até que o filho chega nesse lugar, onde a água é um obstáculo e, no mesmo tempo, velha amiga do seu sábio. Ele se preocupa tanto com o pai, mesmo que essa fosse sua última vez, que acaba o carregando nas costas, para não molhar os seus pés. Como um rei em seu trono, nesse caso, o trono é sua criação. O pai, sempre sério, se desmancha em lágrimas no ombro do seu filho, enquanto se lembra dele criança, onde o carregava no cola, ainda bebê. Ao fundo temos uma narração em off – teremos bastante ao longo do filme, inclusive – onde o filho fala: “dizem que quando o filho consegue carregar o pai nas costas, significa que ele se tornou um homem”. Essa relação me causou uma comoção muito grande, bem como um mal estar. Desde criança sonhava com um super pai, que eu pudesse super me inspirar, profissionalmente ou não. Mas eu só consegui distância. Hoje, atingindo uma certa maturidade, resgato sentimentos e carinhos de outras formas mas, sem dúvida, o cinema me ensinou e me ensina ainda hoje que a única coisa que realmente importa é ter carinho pelo que faz. Seja ser pai, ser filho, profissionalmente ou emocionalmente. Agradando a nós mesmos, viveremos entregues, viveremos completos e em ordem com o nosso tempo, nosso caminho e nossos amores.

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