Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O suicídio de deus e o nascimento da angústia

Begotten, 1990

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Um trabalho visivelmente experimental. É essa a descrição óbvia de “Begotten” – uma obra que transcende o aceitável e caminha corajosamente pelo incerto, pelo errôneo. Há uma necessidade de se estabelecer paralelos, a arte tem como proposta principal a dúvida, esse questionamento parte de uma ânsia e de uma série de experiências daquele que sente determinada obra.

Encontrar respostas é morrer; morrer é lembrar-se da verdade; e a verdade é que não há nenhum deus. Aqui explico:

“Begotten”, com sua fotografia assustadoramente andarilha entre preto e branco, começa apresentando uma cabana. Deus está sentado em uma cadeira, no canto de uma sala. Sua figura é grotesca, agredida, violada, deforme e bizarra. Seria deus um demônio? Seriam, os dois, um só?

Deus ou o monstro, pega uma navalha e se fura, começa a sangrar e morrer. A mãe natureza brota da terra, transvestida de mulher e começa a masturbar o cadáver celestial. Do seu gozo ( sua semente ) nasce o homem que, encontrando-se sozinho e desesperado, teima em ser a morte.

O filme é uma agressão.

O filme é uma maldição.

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O filme só pode falar sobre o fim do mundo – pensei – quando deus se decepciona com as escolhas da sua criação e se suicida. Abandonando-nos. Ledo engano, Begotten é o registro, subversivo, da gênesis.

Então a verdade da obra é que deus criou os seres humanos a sua imagem, porém a melancolia o invadiu. O homem é um erro, um amontoado de merda. O criador se mata, castigando-se e, por consequência, o espectador parte para uma viagem onírica por um mundo tomado pela angústia.

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

A terra sem forma é o cinema. O cinema extremo têm como objetivo o choque que, por sua vez, causa uma catarse. O diretor E. Elias Merhige dedicou muitos anos da sua vida trabalhando na pós-produção, re-fotografando e filtrando fotograma por fotograma.

A sensação de estranheza começa com a fotografia, afinal, é a primeira coisa que percebemos. Passa pela trilha que, por diversas vezes, se baseia em um sussurro, distorções, culminando em dois momentos onde parece que um homem se engasga; a sensação provocada pelo som é estarrecedora.

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Se não bastasse, somos provocados constantemente. O cérebro cria definições com as imagens borradas, as mortes são evidentes, porém, na sua sugestão. O espectador se confunde, nada fica muito explícito. É uma viagem ao inferno.

A primeira camada é, sem dúvida, o experimentalismo. Existe uma intenção real de captar a reação das pessoas ao assistir. Mas a mensagem – segunda camada – também é muito interessante. Repleto de referências religiosas, desde o cristianismo, passando por religiões pagãs, somos transportados para um desastre, onde a maior tortura é estar diante ao sofrimento, como se o causador de todos os males fosse mostrado em um espelho. Após assistir, nos sentimos sujos.

Essa é uma viagem que pode, facilmente, cair no desdém. É comum confundir a arte com uma loucura desnecessária. Confundir a mensagem com vazio “pseudo-intelectual”. Mas, como amante do cinema, tento compreender as camadas, aceitar a mensagem e evoluir. Ninguém é obrigado a assistir Begotten, no entanto ao enfrentar a experiência, é preciso atenção e dedicação. Afinal, se trata de uma obra complexa e que, por conta da repetição, se torna cansativa.

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Madre Joana dos Anjos, 1961

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★★★★★

Quem conhece o filme “The Devils” de 1971, dirigido pelo ousado Ken Russell, já está familiarizado com a história das freiras que foram possuídas por demônios em pleno século XVII, despertando o interesse de pesquisadores anos depois, quando começaram a utilizar esse caso como forma de ilustrar os males da inquisição e como a religião oprimiu toda uma geração de pessoas.

“The Devils” é baseado no livro de não ficção “Os Demônios de Loudun”, filosófico/histórico, o autor se propõe em relatar alguns eventos desse período, que aconteceram em Loudun, uma pequena cidade da França. O filme é, portanto, extremamente impactante enquanto reflexão sobre as atitudes um tanto quanto manipuladoras da igreja, por outro lado, a possessão é abordado de forma completamente diferente do que conhecemos hoje. As freiras nuas, blasfemando contra imagens sagradas, a insanidade demonstrada é aterrorizante e serviu, sem sombra de dúvidas, como inspiração para, dois anos depois, ser realizado o grande clássico “O Exorcista”. A partir de então surgiu o sub-gênero “exorcismo“, que é trabalhado até a exaustão atualmente.

O que poucos sabem é que, na verdade, dez anos antes do “The Devils” existiu um outro filme ambientado, igualmente, no século XVII e que, consecutivamente, também utiliza o caso real como base para refletir sobre a maldade: Madre Joana dos Anjos, de 1961.

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Esse é tido como o primeiro filme, na história do cinema, a retratar uma possessão demoníaca. Aliás, uma não, várias, afinal, algumas freiras em um convento são possuídas por inúmeros demônios diferentes.

Acompanhamos um padre que chega na pequena cidade para auxiliar nas séries de exorcismos que estão acontecendo no convento. A cidade é mostrada de forma que se extraia o maior isolamento possível, envolto de uma fotografia preto e branco, tudo é extremamente bem encaixado, cada plano, cada detalhe constrói a mesma ideia geral: o demônio está presente.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o demônio é tratado, muito além do que a própria igreja acredita, como uma energia. É incrível constatar que o primeiro filme que aborda a possessão demoníaca na história do cinema use esse elemento como pano de fundo para uma discussão filosófica sobre o que seria, de fato, a maldade. A narrativa é muito próxima aos filmes do Bergman, a mesma angústia se encontra aqui.

O trabalho do diretor Jerzy Kawalerowicz é sublime, fazendo um dos melhores filmes poloneses de todos os tempos, não à toa ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes de 1961, mas é importante lembrar que essa ideia não seria tão bem desenvolvida se os atores não estivessem em perfeita sincronia com a inteligência em compor as cenas. Destaque para a atriz Lucyna Winnicka que faz a madre Joana. Uma perfeição de atuação, entregue e ousada. Ela demonstra uma possessão demoníaca apenas com as expressões e físico, não há maquiagem, e é tão ameaçador como em qualquer filme de terror.

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O filme começa com o padre que chega na cidade e percorreremos, à partir de então, um caminho perverso, profundo e filosófico. Um pequeno bar, no qual o protagonista se prepará até seguir rumo ao convento, já deixa claro o que acontecerá em seguida: existe medo no olhar dos moradores. Não necessariamente há uma explicação para tamanha comunhão de desespero. Mas todos estão visivelmente incomodados, pensativos, como se estivessem tentando descobrir o que é o demônio e por qual motivo ele está ali.

No mesmo tempo que constantemente, nos excelentes diálogos, o espectador é direcionado para o entendimento do demônio como algo identificável, algo que mora em todos nós. Algo que mora na própria religião. Afinal, fica claro uma singela – na narrativa, pois o impacto é monstruoso – crítica a opressão sobre as mulheres, de todas formas, inclusive, sexual.

Um momento que reforça o questionamento sobre o demônio, é quando é dito que ele é o pai da mentira, traz ou lida com perfeição com a falsidade. Uma personagem rapidamente se indaga: O que é falsidade? O que é verdade?

Dado o contexto, é perfeitamente claro que o demônio não é propagado como algo abominável. Se ele é pai da maldade, não importa, o que importa é, antes, entender o que é, de fato, a falsidade. Só é possível afirmar quando se entende, por isso o filme representa em seus diversos devaneios uma cumplicidade com o conhecimento, ainda mais, o desprendimento da própria ignorância que mora na fé.

O padre caminhando até o convento, metaforicamente, demonstra um homem tentando encontrar o seu sepulcro. Reparem que em um momento, em uma conversa com um sujeito, podemos ver ao fundo duas crianças brincando com um adulto, algo como um gorila, um animal irracional, que, por vezes, beira a total racionalidade. Poderia ser mais um simples elemento, mas não é. Assim como em diversas cenas o diretor faz questão de reforçar a sua principal intenção, desmistificando as sensações até, de fato, sermos apresentado ao palco do horror: convento.

Quando o padre entra no convento, ultrapassando o portão que é aberto por uma freira, é um rito de passagem. Inacreditável, novamente, a consciência técnica do diretor ao apresentar esse processo com uma câmera subjetiva: Se a pequena cidade está repleta de olhos amedrontados pelo desconhecido; Se acompanhamos o padre… nessa exata cena temos a oportunidade de ser o padre. Ser o visitante, ser a busca por respostas, ser o primeiro a adentrar naquela prisão de valores.

As freiras são prisioneiras. Claro que não estou generalizando. Mas, lembrando, o filme se passa no século XVII, um momento onde a religião exercia um papel muito mais autoritário – quer dizer, abertamente. Pois o autoritarismo sempre existirá -, ou seja, essas mulheres estão acomodadas com as suas respectivas posições de prisioneiras, o que veremos a seguir é apenas mais uma manifestação de aprisionamento: onde o “demônio” aprisionará as freiras em seus próprios corpos. Mas, agora te pergunto leitor: a religião não faz exatamente a mesma coisa? Oprimindo a mulher, proibindo o sexo? Enfim, evidentemente eles estão seguindo a palavra e, como possíveis “mensageiros de Deus na terra” precisam fazer certos sacrifícios, mas, em uma condição unicamente mundana/humana, eles são vítimas de suas próprias escolhas, precisam usar vossas existências para um único objetivo, transformando o corpo em um veículo e, com isso, em comparação com os outros, se transformando em prisioneiro do próprio corpo/existência.

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No primeiro encontro entre o padre e a Madre Joana, há um diálogo muito interessante:

– Estávamos esperando pela sua ajuda.
– Nossas preces conjuntas nos ajudarão.
– Por meses somos atormentadas por grandes misérias. Os padres que estão conosco, não tem poder sobre eles.
– Eu tentarei libertar você do seu demônio.
– Oito deles: Behemoth, Balaam, Isacaaron, Gresil, Aman, Asmodeus, Leviathan e Cauda do Cão.

Os nomes e todo o ritual de exorcismo, claro, partem da crença cristã. Influências bíblicas etc. O fato de uma pessoa acreditar em Deus, consiste automaticamente que ela acredite, também, no Diabo. É preciso haver esses opostos.

Então a leitura filosófica é movida por aqueles que conseguirem, durante o filme, ser imparciais quanto ao ritual. Não se trata de uma obra de terror, isso fica claro desde o início – apesar de que a ambientação e a construção técnica seja mais eficiente em causar a tensão do que muitas coisas de terror que temos atualmente no cinema – e o Diabo é a força do incalculável, bem como o ritual é o desprendimento.

No diálogo acima, a madre deixa claro que os padres que já estavam fazendo o ritual não exerciam poder sobre os demônios, ou seja, sobre as freiras. A religião fora abalada, antes de mais nada, e os demônios são o caos. Esse caos é disfarçado e ocultado com a própria crença. O padre ainda complementa, em uma sábia e oportuna resposta – para contextualizar o desenvolvimento filosófico – que “tentará libertar a madre do seu demônio”. Tentará enclausurar freira dentro da sua própria necessidade insana em sentir o novo.

O demônio atinge o ápice do seu significado ao percorrer a história do homem, e se estabelecer como o desejo inalcançável, diante as circunstâncias. É o viver, o transformar, o ser. O medo não é construído em base aquela figura mística com chifres, mas sim ao processo de mudança.

– O diabo está lá e aqui também. O mundo é assim.
– O que você sabe sobre o mundo?

O padre não é herói, muito menos sabe o que vai acontecer. Ele é cheio de falhas e também teme o antagonista, em seus ombros carrega uma cruz constantemente, se mostrando sempre atônito. A atuação do excelente Mieczyslaw Voit é magnífico, transmite com uma precisão intocável todos esses conflitos. Destaque para uma cena, extremamente significativa, onde ele está “conversando” com o Diabo, prevendo o embate que virá a seguir e, curiosamente, ele está em frente ao seu próprio reflexo no espelho. Como se o embate fosse contra ele próprio.

– E se o Diabo entrar em mim?
– Ele não se importa com gente como nós.

Se hoje em dia estão cada vez mais produzindo filmes sobre exorcismos e demônios, poderiam, ao menos, buscar referências nesses filmes que trazem consigo uma profundidade enorme.

“Madre Joana dos Anjos” é a prova que para criar o terror é preciso se ater aos detalhes. E, para discutir algo tão profundo que, em algum momento, envolve-se com a religião, é preciso ter coragem e seriedade. Desde a fotografia, direção, trilha, atuação, tudo está possuído pelo mal. A sensação é que o Diabo está possuindo o espectador ao assistir essa obra-prima. E isso é crucial, pois para acreditar que ele possa existir, é preciso senti-lo e, independente da crença de quem assiste, o filme nos prova que o mal é muito mais do que algo que possamos definir ou simplificar, sendo assim, o demônio ainda permanece uma incógnita e, enquanto existir o homem, ele será sempre algo a ser compreendido.

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14 Estações de Maria, 2015

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★★★★★

Todo e qualquer texto que escrevo é, antes de mais nada, uma iniciativa corajosa de me enfrentar. Não sei o motivo, mas eu sou infinitamente indiferente para com muitas coisas, me pego pensando, às vezes, que o cinema é o que me salva e, no mesmo tempo, o que me destrói. Essa minha ousadia de pesquisar cinema, mesmo que por vezes só aconteça na minha cabeça, me consome muito, seja por tempo ou profundidade. Imagino o quanto ganho com minhas viagens em busca de compreensão, ou até mesmo se expresso adequadamente o que sinto dos filmes, pouco importa, senão, escrever.

Estou escrevendo isso, pois, cada filme desabrocha um lado da minha persona, que por muito desconhecia ou, entre diversos motivos, havia guardado. É uma força muito forte, impactante ao extremo, em relação ao que relaciono com o cotidiano ou, simplesmente, me questionar se a seriedade que eu o trato é plausível.
Seria impossível falar de “14 Estações de Maria” e não falar sobre religião e, portanto, ser incrivelmente – ou pateticamente – extenso.

Religião é, para mim, algo desconhecido. Deveria ser limpo, claro, mas se tornou escuro e borrado. Religião poderia significar, em interpretação livre, ligar-se ao outro, tornar o nós somente um, mas essa ideia é simplesmente traduzida como infantil. É importante sonhar, assim como, talvez, seja importante ser um tanto iludido em acreditar que as pessoas viveriam mais felizes se o mundo fosse regido por amor. Será que é tão difícil ter carinho e respeito ao próximo? Não por querer algo em troca, muito menos para propagar aos ventos, mas sim para fazer o bem. Nesse ponto, se existe um Deus o nome dele é amor. Esse sentimento inexplicável que nos possui por completo e, no mesmo tempo, impressiona, só pode ser fruto de um milagre. No mesmo tempo, eu considero que a redução de “bem” para “Deus” e “mal” para o “Diabo” são atitudes desnecessárias. Primeiro porque simplificar a vida é coisa de fracassado, segundo que, se existe mesmo um Deus ou Diabo, certamente eles ficam muito zangados com a banalização de seus valores. Isso inclui o próprio homem, que teima em responder por eles. Se Deus é tão poderoso – percebam, eu não estou o tratando com ironia, por incrível que pareça – ele não selecionaria alguns para serem os porta vozes de suas vontades mais primitivas como, a principal: um mundo devoto. Agora, se Deus precisa de pessoas fracassadas para guiar outros homens, ainda mais, ter preconceitos, precisa de dinheiro e etc então eu não preciso dele. Certamente, supondo que ele exista, preferiria beber um chá com Lúcifer pois, nesse quesito, ele me parece bem mais centrado.
O que quero dizer, de fato, é que pouco me importa essa propagação dos homens, a religião, como bem vemos hoje em dia, é um turbilhão de interesses, assim como diversas outras formas de manipulação. Então se me perguntam se eu acho que Deus exista, eu respondo em alto e bom tom “SIM!”, agora, se me perguntam se eu acredito “NÃO!”. Se um pai de família, ignorante, acredita em Deus e faz o bem, ok, eu fico feliz por ele. Se um pai de família, ignorante, acredita em Deus e deixa a sua vida e de sua família para Deus cuidar, então imediatamente eu sei que esse pai está sendo guiado por homens oportunistas. Deus existe a partir do momento que acreditamos nele, ponto final. Assim como eu acredito que o papai Noel existe.

“14 Estações de Maria”, filme alemão dirigido pelo Dietrich Brüggemann, um novo diretor do circuito independente, traz a mesa a discussão sobre a opressão que o acreditar pode exercer na vida dos fiéis. Mas não é, necessariamente, acreditar em Deus, mas sim nos homens, pelo menos é o que me parece durante todo o filme, Deus está muito ausente, dando lugar a uma família cercada de regras e intolerâncias. As 14 estações dizem respeito a alguns capítulos que vão acontecendo, eles seguem as 14 estações que Jesus passou em seus momentos finais de vida na terra. O que representa para os que creem, basicamente, é que Jesus abdicou a sua real imagem, ou seja, divina, para sofrer pelo homem, em prol a salvação, se sacrificando. É uma bonita história que preza, sem dúvida, pela humildade.

  1. Jesus é condenado à morte.
  2. Jesus recebe a sua cruz.
  3. Jesus cai pela primeira vez.
  4. Jesus encontra sua mãe Maria.
  5. Simão de Cirene é forçado a carregar a cruz.
  6. Verônica enxuga o sangue do rosto de Jesus.
  7. Jesus cai pela segunda vez.
  8. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém.
  9. Jesus cai pela terceira vez.
  10. Jesus é despojado de suas vestes.
  11. Jesus é pregado na cruz – a Crucificação.
  12. Jesus morre na cruz.
  13. O corpo de Jesus é retirado da cruz – a Deposição ou Lamentação.
  14. O corpo de Jesus é colocado no sepulcro. 

Essas estações destacam alguns momentos cruciais, até bem conhecidos, como a traição de Judas, negação de Pedro, crucificação e sepulcro. Até onde eu sei, ressalto que não pesquisei para escrever, haveria um 15° que seria a ressurreição. Mas, evidentemente, o filme não acompanha isso pois se trata de uma menina de 14 anos, não de uma figura divina. Mas será que podemos afirmar isso?

A sinopse do filme coloca a menina protagonista, Maria, presa entre dois mundos. Um é a escola, onde ela tem contato com a diferença, e o outro é em casa, onde ele se sente como uma prisioneira de um ensinamento extremamente religioso, católica fundamentalista. Enquanto assistia ao filme, inclusive, tracei consecutivas comparações com “Carrie, a Estranha”, por exemplo, temos uma personagem igualmente perturbada por dogmas exagerados, que a proíbem de, basicamente, impulsos e descobertas próprios da sua idade.

Ela é produto de uma fé incontestável mas, aliado a isso, ela se torna um fantoche. Ao meu ver, toda e qualquer prática religiosa deve ser refletida, com maturidade, de modo a criar um significado maior que o mero “seguir”.  A mãe de Maria, figura quase diabólica, classifica a música como produto satanista, ao ponto da menina, nas aulas de educação física, não querer participar por estar tocando uma música pop. O interessante dessa cena, em questão, é que a professora não consegue lidar com essa apreensão e, inclusive, chega a se assumir como uma crente em Deus também, assegurando-se que aquela música não é satanista, mas a menina afirma o contrário. Para ela essas músicas são portas abertas para o movimento, a exposição e, portanto, manifestos diretos da maldade. Ora, mas se música é música ela vem da harmonia, harmonia é de Deus, não? Estaria Maria e sua família adorando a Deus ou porta vozes?

O filme começa com uma cena genial onde um padre, ao centro da mesa, catequiza algumas crianças, Maria parece ser a única inteiramente lúcida, visto que responde as perguntas com muita propriedade. Aliás, o padre no centro da mesa pode, de fato, representar Jesus na santa ceia, junto aos seus, na obra cinematográfica, seis apóstolos. Entre as perguntas quase que frenéticas do padre, podemos perceber que duas respostas remetem a escola, seria uma oposição? A crença contra o intelectual e o possível desenvolvimento do mesmo?
Bem colocado pelo padre, a crisma representa a transformação da criança para a vida adulta, o espectador estará, então, exposto a dilemas naturais da idade em conflito com uma fé desequilibrada.

– Um soldado luta por quê? – pergunta o padre, quase que um ditador
– Pelo rei – responde o primeiro
– Pela sua família – responde Maria
– Pela namorada – responde sobre influências da escola?
– Pelo seu país – responde com insegurança
Em seguida ele discorre – Isso mesmo, um soldado luta por seu rei, seu país, sua família. Se somos soldados, quem é o rei?
– Jesus!
– E nosso país?
– A igreja
– Quem é nossa família?
– Todas as pessoas.
– Exato – responde o padre com brilho nos olhos e ainda lê “devemos salvar os próximos”.

Colocando-os, nesse comprido diálogo, como soldados de Deus cuja missão se resume em espalhar a sua crença – aliás, ponto chato de qualquer religião. Aliás, a “salvação” é algo excepcionalmente pessoal, cada um entende, ou deveria, a própria vida, cabendo ao mesmo definir o que quer e o que não quer, ser salvo ou não. De todo modo, esse início já revela crianças manipuladas, mas a crença é algo extremamente pesado, um fardo que só a maturidade pode carregar e, ainda assim, sai abalada. É a prova de que desde o início assistimos um suicídio e, se acima eu mencionei que as 14 estações representam os últimos momentos de vida de Jesus, acompanharemos os 14 últimos momentos de vida de uma menina que está, com a ajuda da família, se destruindo. É o Jesus moderno. Enfrentando a escola, a intolerância religiosa nas aulas, assim como a própria também se torna intolerante quando não aceita a diferença, mesmo quando acaba, levemente, se apaixonando por um colega de outra classe que, por ironia, canta em outra igreja, soul e gospel mas, como disse, são músicas satânicas.

“14 Estações de Maria” é um filme que resgata muito a alma do cinema Alemão, clima gélido, personagens impactantes, silêncio que ajuda na contemplação, o tema discutido é facilmente classificado como oportuno, visto que temos atualmente vastos exemplos de situações onde a religião se torna veículo para mortes, literalmente ou figurativamente, pois o preconceito pode ser aceito como uma exímio assassinato.
Quando a personagem principal vai ao médico, começa haver um conflito entre a crença desenfreada e a lógica ou ciência, a mãe é presa dentro de sua própria arrogância, mas ela é regida por ignorância, nessa história e em muitas que existem por ai, não existe vilões, somente cobaias. No caso do filme, Maria é a inocente que provou para o mundo, pelo menos para mim, que a obsessão deixa o ser humano cego. Diferentemente de Jesus, suas ambições não eram nada nobres ou humildes, uma entrega direta, sem rodeios, mas ambos foram, até porque são parte da mesma família, sacrificados.

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