A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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À Sombra de Uma Mulher, 2016

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★★★★★

Esse filme me chamou a atenção por inúmeros motivos, dentre eles, a simplicidade e realismo, maravilhosas características do diretor Philippe Garrel. Mas nada me tocou tanto do que os dois personagens centrais, o casal Manon ( Clotilde Courau ) e Pierre ( Stanislas Merhar ).

Contudo, após terminar de assistir esse filme, me peguei pensando que, talvez, o motivo do meu fascínio por esses singelos personagens, se encontre no fato de que eles são documentaristas. Grande parcela da minha identificação partiu dessa conexão de ambos, criadores e sobreviventes, tão pouco e tanta arte. Enfim, é algo mostrado de forma extremamente natural e que me conquistou desde o primeiro momento.

Com poucos minutos de duração, o diretor percorre uma história de incertezas que, aparentemente, não pretende chegar a lugar nenhum; ledo engano, há alguns artistas que pronunciam mil palavras em um silêncio. Existe muitas coisas a serem ditas sobre o final de uma relação e Philippe Garrel sabe disso.

Com a narração de Louis Garrel, filho do diretor, somos conduzidos a admirar a beleza da verdade, a incoerência da traição e questionar as relações do homem. Manon e Pierre fazem pequenos documentários, sobrevivem do pouco, criam, mas não estão completos. Estranho é imaginar algo assim, parece ser perfeito encontrar um outro alguém que abrace os mesmos projetos que você. Mas, repetindo, Maron e Pierre fazem documentários, isso quer dizer que são devotos da verdade. Eles existem e se adaptam ao meio, no mesmo tempo que, nas suas intimidades, sofrem com a ausência um do outro, sempre em silêncio e nunca registram isso, nunca desabafam, diferentemente do documentário que produzem.

Uma cena linda é quando Maron e Pierre assistem a um filme e dão as mãos, como se existisse uma série de conexão entre eles: as mãos, ele e ela, eles e o filme, o filme e as mãos. É tudo muito sútil, a fotografia preto e branco, as músicas delicadas, a linguagem cotidiana, enfim, tudo muito bem pensado e que nos leva para uma viagem deliciosa e impactante.

Por diversas vezes Pierre parece se camuflar, a mais explicita cena é quando ele está sentado em uma escada e se confunde com o cenário, parece não ser ninguém ou apenas mais um, a forma como essa questão é trabalhada é interessante.

Para desestabilizar o casal, entra em cena a Elisabeth – interpretada pela Lena Paugam – e ela começa uma relação com Pierre, se torna a sua amante. Importante é que ela sempre fica na sombra dos dois e se consome justamente por essa posição.

“você está me vampirizando”

“À Sombra de Uma Mulher” é uma preciosidade, analisa o relacionamento e as suas diversas questões com uma maturidade impressionante. Seriam as traições uma fuga do óbvio ou um medo da sensação de completude?

É curioso notar que, no momento que Pierre e Manon estão passando por problemas, ambos não filmam, como se deixassem de criar para serem criados. E, assim, somos todos nós, protagonistas das nossas pequenas histórias indecifráveis.

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Nada Pessoal, 2009 – O caminho do silêncio e solidão

Nothing Personal

★★★★

A diretora polonesa Urszula Antoniak não tem um trabalho fácil. Essa dificuldade diz respeito à maneira brusca que a realizadora desenvolve os seus personagens, sempre de modo a exaltar algum tipo de falha. Essa metáfora pode ser melhor percebida nas conclusões de suas obras, como se os movimentos silenciosos das personagens fossem, na verdade, todos em direção a um mesmo fim trágico, um mártires.

Em “Code Blue”, de 2011, a diretora parece querer brincar, por vezes, de ser Haneke e consegue tão bem quanto. Já em “Nada Pessoal”, um dos seus primeiros trabalhos mais conhecidos, ela opta por ser feminista ao extremo e, ainda assim, provocar o espectador com uma infinidade de silêncios e uma personagem que está completamente livre, até mesmo para se contradizer.

O filme holandês conta a história de uma jovem, Anne – contudo nunca há destaque para o nome da garota, como se a sua identidade fosse uma maldição e inútil – que após uma separação, decide cair na estrada atrás de reflexão e silêncio.

Esse é o típico filme que amantes da cultura hippie amam. Pois apresenta uma mulher, solitária, caminhando por ruas maravilhosas e se confundindo por diversas vezes com a paisagem maravilhosa, como se ela própria fosse a natureza. O filme começa dessa forma, ressaltando o meio e lidando com a protagonista de forma curiosa, as filmagens, por diversas vezes acompanhando a personagem caminhando, dá a sensação de que ela deixa algo de si para trás a cada trecho andado.

No mesmo tempo que há uma clara alusão a mesclagem do indivíduo com o redor que o envolve, nos primeiros minutos ainda temos uma lembrança de que o mundo é hostil – em uma cena onde Anne pega uma carona em um caminhão e se sente pressionada a fazer sexo com o motorista em troca de ajuda, a garota pula do caminhão e continua a andar, como se nada tivesse acontecido.

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A solidão e isolamento sempre nos trás a ideia de fragilidade. Quando Anne está pegando uma comida do lixo, ainda em constante silêncio, uma família comendo sanduíches ao lado pergunta para a moça se ela precisa de ajuda, sem entender ela responde que não e ainda retribui a mesma pergunta. Como se para ela o fato de estar na rua fosse normal e não a inferiorizasse de forma alguma, ela pode ajudar tanto quanto poderia ser ajudada, pois tem a mesma força, apesar de não ter um lar.

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A fotografia dá um tom elegante para a trama, pois se conecta com perfeição com os objetivos da diretora que, por sua vez, consegue extrair o máximo da atriz Lotte Verbeek. É questão de tempo perceber que em diversas cenas a personagem aparece centralizada no quadro, desde quando está olhando um lugar fantástico até sentada em um banco, encostada na parede. O espectador não sabe ao certo os seus motivos, mas entende perfeitamente que o mundo é o seu palco, mesmo que ela própria ainda desconheça as suas reais intenções.

O maior mérito do longa é lidar com uma personagem sem objetivos, senão, se perder. Teremos então uma série de referências, como por exemplo a música. Em dado momento crucial, a personagem ouve Patsy Cline, ao som de “Crazy”. Ficando óbvio esse mergulho no isolamento, mas é evidente que se perder dessa forma, nos dias atuais, é loucura. Até porque somos dependentes das relações humanas e não à toa entra um segundo personagem que lhe dará abrigo: Martin. Interpretado por Stephen Rea, Martin mora em uma casa escondida no meio do nada e se sente atraído, de imediato, por Anne, e oferece a menina uma oportunidade de emprego na sua casa em troca de comida.

No começo, ela tenta resistir as emoções, mas é questão de tempo para se deixar levar, indo de desencontro com o que estava deixando para trás e vivendo com um parceiro – apesar de que qualquer interesse romântico ou sexual é deixado nas entrelinhas, com exceção de um momento que ela se despe e Martin fala que não quer nada e complementa brilhantemente: “O talento é saber quando parar” – fazendo uma referência à própria Anne, que parece aceitar que precisa parar de andar e se estabelecer em um lugar novamente, como uma segunda chance.

A conclusão do filme chama a atenção e trás consigo uma cena maravilhosa, que inclusive virou a capa da obra. A fotografia clara remete a ideia de paraíso, quando a protagonista aceita que precisa parar de tentar lutar contra os sentimentos e, no mesmo tempo, se recusa a aceitar que a perda é algo comum.

É uma obra de ritmo diferente mas que é perfeito em desmistificar alguns símbolos sobre a solidão, relação e silêncio.

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À Beira Mar, 2015

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★★

Brad Pitt e Angelina Jolie são, hoje, o casal mais famoso da indústria do cinema. Quem assiste “Sr. e Sra. Smith”, de 2005, percebe que os dois são quase entidades de tão lindos e, ainda mais, juntos ficam perfeitos. Desde então saem muitas notícias sobre separação e diversas especulações sobre eles, claro, afinal são dois dos maiores nomes de Hollywood. O que é possível perceber é o carinho que Brad Pitt tem pela Angelina e os seus filhos; juntos eles formam, também, uma família muito querida.

Angelina Jolie dirige “À Beira Mar”, de maneira bem alternativa, deixando de lado a narrativa convencional e dedicando-se exclusivamente à contemplação. Ela contracena ao lado do marido Brad Pitt e, no meio de tantos trabalhos populares e bem aceitos pelas pessoas, essa pequena obra soa como um desabafo, onde os dois atores podem ser naturais e viscerais.

A história acompanha o casal Roland e Vanessa, escritor fracassado e ex-bailarina, respectivamente, em uma viagem para uma pequena cidade da França. Roland, afim de buscar inspiração para escrever um livro, anda por entre a cidade para conhecer as pessoas e beber, enquanto a sua esposa mergulha em depressão e álcool dentro do apartamento. Os dois vivem um momento muito conturbado no casamento, onde a distância e o silêncio estão muito presentes.

Vale ressaltar que do lado do apartamento está um outro casal, em lua de mel, chamado François e Lea, eles vivem a efervescência do início de uma relação e servem como contraste ao casal protagonista. No mesmo tempo essa dicotomia ajuda-os a repensar suas atitudes e o quanto o tempo mudou a relação entre eles.

Eu não citei “Sr. e Sra. Smith” por acaso, desde 2005 Angelina e Brad não trabalhavam juntos e, aqui, eles estão bem diferentes daquela época. Não acredito que seja autobiográfico, mas é sabido o fato que a Angelina Jolie não anda muito bem ultimamente – ela está assustadoramente magra nesse filme em questão – e Brad Pitt, apesar de continuar muito bonito, agora é um senhor. Então se “À Beira Mar” fala sobre o tempo, os atores se mostram verdadeiramente e ajudam, através das suas próprias histórias, a compor essa reflexão. É impossível assistir esse filme e não se questionar sobre todas essas coisas, até porque as cenas contemplativas, com longos planos, nos permitem pensar bastante.

Apesar da Angelina Jolie tentar chamar bastante a atenção para si, com grandes enquadramentos e aproveitando bastante a paisagem da sua varanda, quem se destaca mesmo é Brad Pitt. Ele faz qualquer atuação ser fácil e aqui a sua naturalidade surpreende. Ainda mais, a obra não é construída em base à cenas memoráveis, mas uma em específico vale todas as atenções: Roland/Brad Pitt olha a sua mulher e, se emocionando, diz “você está sorrindo“.

Contudo, apesar das intenções serem as melhores, Angelina peca na direção por repetir algumas ideias, principalmente no que diz respeito ao visual, como ângulos e movimentos que sugerem ou dialogam constantemente com a melancolia. O roteiro também se torna bastante repetitivo. Ainda existe uma singela preocupação em deixar as metáforas bem claras, como por exemplo o buraco na parede que representa a fuga para um outro tempo, uma outra intensidade. Apesar dessa ideia ser interessante, o desenvolvimento exaustivo dessa metáfora cansa e, na terceira vez, chega a ser engraçado.

Com fortes inspirações em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?“, o filme ainda peca por não desenvolver bem os jovens que moram ao lado. A sensação é de lamentação, pois o o casal é vivido pelos excelentes Melvil Poupaud e Mélanie Laurent e, infelizmente, a diretora trabalha ambos com indiferença, contrariando a sua intenção e prejudicando o resultado final.

“À Beira Mar” mais decepciona do que acerta, pertence ao grupo de filmes com ideias fantásticas, mas que fracassam na execução. Contudo, a atuação do Brad Pitt e a fotografia são os dois elementos que merecem atenção.

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A inesperada virtude do encontro

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Não conhecia o trabalho do diretor Deivid Almeida, mas inesperadamente – como deveria ser toda e qualquer obra de arte – me deparei com um dos seus curtas e simplesmente me senti feliz com a qualidade e profundidade.

Sou suspeito, pois faço parte da geração mostrada no curta “Décimo segundo andar”, tenho 21 anos e vivo constantemente observando o meu redor e refletindo sobre a velocidade e responsabilidades que nos cercam. Às vezes me pego parado em algum lugar, perdido, só para acompanhar os movimentos das outras pessoas. Engraçado como que, por vezes, encontramos as mesmas pessoas, com os mesmos gestos e expressões e, por vezes, a mesma roupa. Temos todos nossas obrigações – ou deveríamos – e não sobra muito tempo para os detalhes, os sentimentos e olhares. Estamos rodeados de “rotina” e pessoas mas mesmo assim nos sentimos solitários.

Pesquisando um pouco sobre o diretor, Deivid Almeida, pude perceber que também é um jovem. um jovem fotógrafo. De imediato me senti ainda mais representado. Por algum motivo imaginei que essa história poderia ser muito intima do realizador, isso me confortou de alguma maneira. Como se eu gritasse para mim mesmo: não estou sozinho no mundo!

Ao som da rua, carros e ruídos da cidade, surge a frase “um filme por David Almeida”. Uma voz em off desabafa que acabara de pedir demissão do trabalho – deixando claro, de imediato, essa quebra do vínculo com a rotina – e continua enquanto surge o nome do curta: “Décimo Segundo Andar”. Uma música começa a tocar e a cidade – maravilhosamente bem fotografada – começa a ser revelada, uma sincronia perfeita com a música; Alguns cortes dão a obra um espirito jovial, um ritmo típico do hip hop. O efeito de time-lapse contribui para ideia do movimento mecanizado vindo diretamente da rotina.

A decisão do som diegético é interessante, pois distancia o protagonista do mundo exterior no mesmo tempo que ele ainda permanece próximo à ela. Aliás, é impossível se distanciar totalmente.

A narração em off – constante durante os quase sete minutos – ajuda a compor a ânsia do protagonista em novos acontecimentos. Quando ele encontra uma moça e começa a observá-la é como se encontrasse um propósito. A garota representa algo identificável, puro, poderia ser qualquer um ou qualquer coisa – mesmo que na primeira descrição da moça, ao fundo, ouvimos o som de um coração pulsando, como se aquilo provocasse alegria ou medo no narrador.

Com elementos modernos, decisões técnicas excelentes, o curta é uma verdadeira preciosidade. Em um momento crucial o narrador se pergunta o “porquê de não atravessar a rua para conversar sobre a vida”, e é justamente essa a maior força do curta: a dúvida. O que acontece depois da quebra da barreira social? E, por fim, como lidar com as vírgulas desse grande texto que é a vida?

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The Lobster, 2015

The Lobster

★★★★

“Cadáver adiado que procria”

O que, de fato, é o homem? A solidão parece um sofrimento, no mesmo tempo que é uma obrigação de viver. O ser tem essa dívida com as imposições “encontrar alguém legal para ficar”, no entanto, por muitas vezes, essa necessidade rege sua existência de forma ditatorial. Levando o individuo as últimas consequências, se entregando à alguém apenas para se livrar da maldição de estar só.

Em Ratos e Homens, de John Steinbeck, uma das frases mais célebres do livro faz referência a uma necessidade quase insana do homem em se manter acompanhado, caso contrário, pode se entregar facilmente à loucura. No livro a questão tem um significado mais abrangente, é preciso estar acompanhado de pessoas, independente das séries de classificações que teimamos fazer como amigos, namorado, amante etc.

De onde vem, então, essa necessidade contraditória de entregar-se ao outro, navegar por entre a despedida da sua liberdade para ser posse ou possuir alguém? Claro, estou aqui sendo extremista, boas relações acontecem o tempo todo, assim com o seu prazo de validade cada vez fica mais evidente. O grande problema não é o relacionamento em si, mas o quanto enfeitamos essa ideia primordial de se dividir, seja fisicamente ou emocionalmente.

Abraçando a espera

O pôster de The Lobster, filme dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos, é incrível, nos revela um personagem abraçando uma imagem apagada. Alguém que não está ali, evidente apenas pela sua própria ausência. E o filme fala exatamente sobre isso, dos diversos abraços que damos diariamente na “espera”, acariciamos o espaço entre uma relação e outra, beijamos as diversas oportunidades desperdiçadas e, por fim, brincamos de Deus ao imaginar o quanto pessoas aleatórias nas ruas poderiam nos fazer sorrir.

Há diversas regras: Precisamos nos relacionar, precisamos transar, precisamos multiplicar e precisamos urgentemente morrer para aliviar o alto índice de população.

The Lobster parece ser desenhado com maturidade por um diretor jovem, Yorgos Lanthimos saiu de uma obra prima da tensão chamada “Dente Canino” e parou em um raríssimo trabalho – bem feito – de humor negro, onde a comédia e drama estão em perfeita sincronia.

O filme se passa em um futuro ( ou seria presente? ) onde as pessoas estão proibidas de estarem só, sem relacionamento amoroso. Solteiros até viúvos, todos são submetidos a uma “prisão” em um hotel, onde terão 45 dias para encontrarem alguém e se, por ventura, isso não acontecer, serão transformados em algum animal. Detalhe: esse animal deverá ser escolhido pela pessoa que não conseguiu um amor.

Lagosta

A tradução do título é “lagosta”, isso porque acompanhamos David ( Colin Farrell ) em sua estadia no hotel e ele revela, em um questionário inicial, que quer ser transformado em uma lagosta se não conseguir arrumar uma namorada.

Os motivos:

  • Vivem mais de cem anos
  • Tem sangue azul
  • Continuam férteis durante toda a vida
  • Ele gosta bastante do mar

Colin Farrell, um verdadeiro galã, prova o seu talento mais uma vez ao apresentar um personagem fora de forma e fora de qualquer sintonia com as circunstâncias que se encontra.

Na primeira parte o filme se atém em apresentar o hotel e a maneira mecânica que o ser humano passou a tratar o relacionamento. Desde conhecer alguém até a divulgação da união. Não se sabe o motivo da necessidade de estar acompanhado, a não ser claro, a imposição da sociedade. É uma analise em base ao humor e estranhamento, de toda a questão que mencionei na introdução dessa crítica.

Momentos como os exemplos de o porquê uma vida de solitário é ruim são deveras engraçado e, no mesmo tempo, crítico. Abordando com perfeição a nossa falta de argumento quando o assunto é união. E, se não bastasse, ao entender as regras, percebemos que aqueles que conseguem um par – se livram de virar animais – vão para um outro quarto e, se o relacionamento não der certo, eles colocarão um terceiro personagem nessa história: um filho. Não é exatamente isso que acontece? Essa atitude de preencher a distância com a criação, estreitar os laços através de um amor/preocupação em comum?

A fotografia é essencial na criação de uma fábula, bem como os tons de azul dão uma ajuda na melancolia que parece acompanhar os personagens durante todo o tempo. Com uma abordagem interessantíssima, navegamos por entre a realidade disfarçada de surrealidade.

A criatividade aparece e acena aos amantes da arte audiovisual, nessa obra que sabe usar o estranho a seu favor e fazer do inexplicável a sua ferramenta principal para chamar a atenção. A verdade é que a opressão existirá em qualquer lugar e o homem, por sua vez, sempre precisará estar caçando um par, pelo menos assim pensam os que banalizam o destino.

“Um dia ele percebeu que é muito mais difícil fingir que você tem sentimentos quando não tem do que fingir que não tem sentimentos quando os tem”.

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Garota Sombria Caminha Pela Noite, 2014

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★★★★

Anunciado como “O primeiro Western de vampiros iraniano” esse filme, no mínimo, diferente da diretora Ana Lily Amirpour só ressalta o quanto a figura do vampiro vem sendo transformada ao longo do tempo. A modernização dessa criatura histórica difere bastante do clássico “Drácula”, utilizando-se dos principais conceitos e traduzindo, através de uma metáfora, conflitos da nossa própria época.

Em mais um representante dessa liberdade criativa, a diretora parece transcrever fervorosamente a mediocridade da existência na figura do monstro, no mesmo tempo que, evidentemente, ele é poderoso e faz desse poder sua única fuga. Além disso, ela consegue complementar essa questão utilizando, também, um humano que se destaca em meio a um redor destroçado.

Acompanhamos, inicialmente, uma cidade iraniana chamada “Bad City” – mais risível que isso impossível, aliás, a comicidade exagerada está presente constantemente – que é repleta de violência, sexo, drogas, enfim, monstruosidades. Abriga também, como podemos interpretar, a representação de tudo isso: uma vampira.

Interpretada com toda graciosidade – mas entendo que essa afirmação pode soar estranho – pela Sheila Vand, somos apresentados a vampira em um momento particular, pré-caça, onde ela está dançando. Esse ser vaga pelas ruas perseguindo pessoas para, enfim, beber seus sangues e, com isso, sugar para si todos os seus males.

A cidade é iraniana, mas o filme foi filmado na Califórnia. Isso dá uma liberdade sem tamanho, inclusive bem diferente da que existe no Irã. Talvez um retrato das consequências do “ser livre”. Parte daí o melhor elemento técnico de Garota Sombria Caminha Pela Noite: a fotografia.

Todos personagens estão enclausurados, isso é demonstrado esteticamente, uma fotografia que, assim como sua protagonista, “suga” toda a felicidade, no mesmo tempo que enquanto arte é impossível não se impressionar, em absolutamente toda cena há algo que chame atenção.

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Há um romance entre a vampira e Arash – inclusive esse último tem um pai viciado em heroína, ou seja, sua vida é repleta de solidão e desesperança – os dois começam a se entender subitamente, ressaltando que a vampira é a representação de um sentimento. Ironicamente, as duas primeiras cenas de “encontros” dos personagens são sublimes: a primeira eles se olham através de uma grade, caracterizando, de imediato, a distância existente com o natural. E a segunda é um momento em que Arash está vestido de Drácula.

 Ressalto o relacionamento que é criado, para, principalmente, estruturar o pensamento e exprimir o quão surrealista algumas cenas se tornam. O mundo está doente, não há esperanças e os personagens todos, por sua vez, parecem ter saído de um hospital psiquiátrico. No meio de uma paisagem absurda, visto que a fotografia transforma pequenas ações em verdadeiros milagres – e, não, não estou sendo exagerado apesar de o ser boa parte do tempo – e, diante a essa desconexão, existe uma mulher que caminha pelas ruas a noite. A noite pode ser a representação, nesse caso, das barbáries, então temos um ser que funciona como um reflexo. Suas presas são, antes de mais nada, pessoas sem objetivo, sem necessidade e sem futuro. Em alguns momentos ela só os observa, outros aguarda até o último momento para saciar a sua sede… ou chega ao extremo de intimidar um pequeno garoto, obrigando-o a prometer que será um “bom menino”. Algo parecido acontece em “Clube da Luta”, onde Tyler Durden ameaça e, com o medo, pretende transformar uma vida.

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Infelizmente o ponto negativo do filme se encontra justamente no ritmo. Misturado com a superficialidade, intencional, dos personagens, bem como algumas ausências de explicações, se torna um pouco cansativo acompanhar. No mesmo tempo que a alma alternativa transforma A Girl Walks Home Alone at Night em um bom representante para um novo cult.

Usando o humor sempre com inteligência e transformando a vampira em uma figura intimidadora, muito por conta do visual, afinal, não é todo dia que vemos um vampiro de burca o que, para nós, que desconhecemos essa realidade, já causa uma estranheza. O filme é uma experiência interessante que merece ser usado e revisitado, um verdadeiro colírios para os olhos, mas não se engane, “Garota Sombria Caminha Pela Noite” apesar de ser meio hipster é extremamente complicado e não agradará a todos.

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CdA #024 – Namorados para Sempre

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Fizemos uma análise, dessa vez, sobre relacionamentos, mais precisamente o final de uma relação. Usamos como base o filme “Namorados para Sempre”.

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