A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A jovem dorme e o homem observa a sua calma

Enquanto Elas Dormem ( Onna ga Nemuru Toki, Japão, 2016 ) Direção: Wayne Wang

Esse é famoso exemplo de filme que promete desde o começo uma reflexão absurda sobre algum tema e, durante o processo, se perde em meio à tramas que surgem sem motivos.

Dirigido com uma certa preocupação em provocar o sono por Wayne Wang – diretor japonês que têm carreira nos Estados Unidos – a história, em teoria, é sobre um escritor que, hospedado em um hotel, se vê muito interessado em um senhor que tem uma relação com uma jovem. Esse senhor filma todas as noites a suas namorada dormindo.

Essa é, na verdade, como a obra se apresenta, pois esse fato nunca chega a ser trabalhado com propriedade, servindo apenas como um elemento curioso, que desencadeia algumas boas observações mas que resulta em perplexidade por tamanho descompromisso.

Hidetoshi Nishijima – ator japonês bastante conhecido – faz o protagonista, Kenji Shimizu, sua atuação é boa mas prejudicada pelo roteiro, que por vezes transforma o seu personagem em patético e sem propósito.

O ponto positivo do filme se encontra justamente na questão que, depois dos vinte minutos iniciais, passa a ser ignorado: o senhor Sahara – interpretado pelo sempre sensacional Takeshi Kitano – que filma sua jovem “namorada” enquanto ela dorme, imortalizando as transformações do seu corpo e antecipando um evento que será desenvolvido ao longo.

Essa ideia, não inédita, é insuficiente para sustentar um filme de uma hora e quarenta que mais parecem trinta dias. Apesar de algumas decisões inteligentes e visual bonito e acolhedor, o longa têm muitos problemas e descarta uma excelente proposta, perdendo-se na intenção de surpreender.

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Amores Imaginários, 2010

Les Amours Imaginaires

★★★

Xavier Dolan, em seu segundo trabalho, esquece temporariamente a questão familiar e se preocupa em dissecar o interesse romântico e como se dá esse processo, principalmente na cabeça de um jovem – o que, de fato, não está atrelado exclusivamente a idade – e se estende para uma tentativa de mensurar a intensidade da entrega ou até mesmo esperança que temos em um outro alguém.

A vida é repleta de encontros, o homem, por consequência, é envolto de desejos, então é questão de segundos o processo de se apaixonar, no mesmo tempo que é fácil se enganar sobre tal sentimento, bem como a decepção é bem comum. Uma dúvida sempre permanece presente: será esse sentimento recíproco?

Onde se encontra o limite em enxergar no outro uma possibilidade de romance e estar completamente cego? O fato é que nunca chegaremos a uma resposta para isso, no entanto existe a certeza de que nossos primeiros contatos com essa questão se dá na adolescência e, como já mostrado no seu trabalho anterior, Dolan se revela especialista em desenvolver trabalhos completamente identificáveis. O fato de ser jovem, sem dúvida, faz com que essa necessidade de desabafo seja muito mais intenso; ele é um jovem, falando sobre jovens e para jovens.

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Era de se esperar que depois do estrondoso sucesso de “Eu Matei Minha Mãe”, o diretor adquirisse uma maturidade maior e isso acontece, seu segundo filme se trata de uma obra diferente, porém, traz consigo algumas coisas que prejudicam o resultado.

Partindo de uma premissa por si só envolvente, o longa nos mostra um jovem chamado Francis ( Dolan ) e sua amiga inseparável Marie ( Monia Chokri ) que conhecem Nicolas ( Niels Schneider ), um jovem bonito e espontâneo, e ambos se apaixonam por ele.

Continuando com suas manias já características de câmeras lentas e acompanhamento dos personagens de costas, o diretor tenta desenvolver esse arco de forma excepcional e diferenciada, porém esse esforço se torna frágil por diversas vezes dentre tantos exageros.  Por exemplo, em seu primeiro filme, o já citado “Eu Matei Minha Mãe”, o uso da câmera lenta é sutil e muito apropriada as circunstâncias, já no segundo chega um momento que se torna simplesmente cansativo. Outro ponto e, sem dúvida, o mais prejudicial: no primeiro existem inserções de confissões, onde o próprio protagonista desenvolvia um monólogo interessantíssimo, aqui no seu segundo filme Dolan parece querer ampliar isso e traz outras pessoas devaneando sobre relacionamentos, o problema é que acontecem em momentos chaves, onde o ápice dos acontecimentos ainda estão sendo calculados pelo espectador quando, subitamente, Dolan corta abruptamente esse processo com as inserções. Ou seja, ele sabota a sua própria obra.

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Tirando esses fatores que acabam ofuscando a qualidade do filme, Xavier Dolan ainda continua fazendo jus ao seu incrível trabalho com detalhes. Nessa obra temos uma preocupação quase frenética com o figurino, os dois amigos que estão interessados em um objeto – pessoa – em comum, vivem uma confusão de sentimentos e por esse motivo precisam de deslocar do senso comum. O figurino assume uma importância gigantesca em destacar cada momento e o estado psicológico dos personagens. A utilização do azul e vermelho é evidente, porém, Marie é a única que se mantém constantemente próxima ao vermelho, os demais personagens ficam mesclando azul e vermelho, de modo a contemplar com mais afinco não só o interesse romântico como a barreira existente entre os dois em relação a opção sexual, afinal, durante toda a projeção o espetador – e personagens – nunca sabe ao certo qual é a opção sexual do Nicolas que parece tentar seduzir tanto Marie quanto Francis.

Marie é sem dúvida uma personagem pouco carismática, usa constantemente o vermelho – saltos altos, batom, blusa, saia etc – porém o significado forte que essa cor exala como paixão e sensualidade fica muito mais no campo da pretensão do que realidade. Existe uma barreira na moça que a impede de tomar uma iniciativa maior, talvez seja a própria maturidade. Por outro lado, Francis se doa completamente ao seus sentimentos, contrastando também com sua vestimenta, afinal, ele usa bastante o azul.

É válido ressaltar ainda uma cena em que Francis se masturba cheirando uma camisa do Nicolas, essa camisa é vermelha, como se fosse uma masturbação em prol a uma personalidade que se perderá em meio a um desespero em estar só.

No primeiro filme do diretor, a casa da mãe era um exemplo perfeito de como o cenário é importante para contar uma história. Em “Amores Imaginários” ele abusa das cenas exteriores, fazendo da rua o seu aconchego. Citações ou imagens de Audrey Hepburn e James Dean – símbolos do desprendimento – também se tornam extremamente relevante em ambos filmes.

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O cover da música Bang Bang que aparece bastante, principalmente nas cenas em que Francis e Marie estão se produzindo afim de alcançar a sua presa, é bem interessante. A música exala uma atmosfera brega e grandiosa e a letra ainda apresenta coisas importantes:

Bang bang,
Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão
Bang bang, aquele som terrível
Bang bang, meu querido me atingiu

Todo triângulo amoroso é, de certa forma, uma brincadeira, uma violação das regras e dos padrões impostos pelas sociedades. Essa música demonstra que, muito mais do que uma brincadeira, se trata de uma guerra, onde a produção, brincadeiras e os momentos particulares os aproximaram de seu alvo, no mesmo tempo que só haverá espaço para dois. Esse é o tiro da conquista e tanto Francis quanto Marie foram atingidos pela bala da paixão.

Quer forma mais intensa, infantil, crua de traduzir um triângulo amoroso sendo desenvolvido por um menino de vinte anos?

Ainda há oportunidades para cenas onde o trecho “Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão” seja desenvolvido literalmente, em uma cena onde Francis e Nicolas estão brincando na floresta.

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“Amores Imaginários” é um filme esteticamente perfeito, fotografia delicada e ângulos cuidadosos, características do Xavier Dolan. Ele realiza mais um bom trabalho, apesar das fragilidades se comparado ao seu primeiro trabalho. No entanto, se trata de uma exímia investigação sobre a busca do seu humano pela sua maravilha, traduzida aqui como o Nicolas. Não a toa, logo no início do filme, temos uma referência clara a “Alice no País das Maravilhas”, quando Francis está tentando pegar um coelho, esse animal o levará ao país das maravilhas, onde as emoções assumem o coração, deixando o individuo completamente cego em relação a falta de reciprocidade do amor platônico.

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Eu Matei Minha Mãe, 2009

Eu matei a minha mae

★★★★★

Xavier Dolan esteve desde muito cedo ligado ao cinema. Parece ter conseguido, anos depois, unir as experiências da atuação com o olhar curioso, afim de desmistificar o papel do diretor em uma obra, ou melhor, o papel de um criador.

Com vinte anos, ele dirigiu o seu primeiro filme. Se não bastasse, Eu Matei Minha Mãe foi aplaudido longos minutos em Cannes. O jovem diretor conseguiu transformar a sua ansiedade em arte, levando as ultimas consequências o fator identificação: jovens do mundo inteiro se identificam com o tema abordado pela obra, sua alma indie e as fortes influências de videoclipes.

Pretendendo navegar por entre uma relação conturbada de um filho – interpretado pelo próprio Xavier – com sua mãe – Anne Dorval em uma performance estarrecedora – o desenvolvimento atinge muitos outros fragmentos familiares do homem moderno como opção sexual, busca pelo inalcançável e, principalmente, amor.  A relação entre filho e mãe desencadeia uma série de reflexões sobre os mais diversos temas, que são propostos de maneira sutil e inteligente.

Vivemos em um mundo que diminui a importância da criança, muito por conta de uma inevitável insegurança; Isso cria uma distância, muitos adultos acabam ignorando as crianças, de forma a proibi-las de dizer o que pensam sobre o mundo e as futilidades que o cercam. O mesmo acontece, infelizmente, com o jovem.

O homem adulto tem a mania de achar que sua juventude é melhor do que a atual, mesmo que não compreenda o que é a atualidade. O processo de empatia surge como uma piada para os desavisados, as relações familiares partem de uma necessidade de estabelecer regras esquecendo, consecutivamente, do carinho.

Xavier Dolan, em Eu Matei Minha Mãe se transforma em uma ferramenta para alcançar algo proibido: a voz. O título faz referência a um sentimento muito pessoal e complexo, podemos matar uma pessoa sem ao menos encostar os dedos nela. O pior tipo de morte é morrer existindo, fruto de uma existência vã ou uma relação extremamente degradante – no filme temos justamente o segundo caso.

Hubert, o jovem protagonista, se mostra insurrecto constantemente, principalmente quando direcionado a sua mãe. No entanto, em um dos diversos momentos onde faz suas confissões perante uma câmera, ele parece compreender a realidade que precisa da figura materna tanto quanto a odeia. Ainda mais, o ódio aqui assume uma definição ambígua, podendo desviar-se com facilidade pelos caminhos da adoração: ele ama a independência da mãe na mesma proporção que odeia a sua falta de preparo em cuidar e ter carinho por ele, no mesmo momento que se identifica com essas falhas, pois também não consegue ser um filho exemplar.

As “falhas” dos personagens são analisados de forma pertinente, o diretor faz questão de expor isso freneticamente, por esse mesmo motivo pode soar forçado para muitos, mas pelo fato de se tratar de um jovem realizador, o personagem que vemos na obra é o alter ego do seu criador, podemos traduzir como uma metalinguagem o próprio processo criativo, visto que se trata de um jovem querendo desabafar para o mundo tudo aquilo que tem a dizer, mesmo que o “tudo” seja muito grande para ser feito depressa.

Um fator crucial para o entendimento do filme, na sua essência, é analisar a composição dos cenários, bem como a iluminação. Pautando-se em uma fotografia aparentemente comum, visivelmente temos as curvas dramáticas dos personagens sendo retratadas através de um destaque na iluminação dos cenários – quando Hubert está na casa do seu namorado, no quarto, a iluminação da casa é extremamente clara, ressaltando a pureza e limpeza existente na relação do seu namorado e amigo com a mãe extremamente liberal. Um verdadeiro contraste se comparado as diversas cenas em que Hubert está sentado na cozinha com sua mãe, onde o cenário teima engolir ambos personagens, principalmente com a ajuda da iluminação vermelha e o posicionamento alto da câmera, que destaca a pequenice da mãe e filho, bem como o afeto inexistente ali.

A importância do cenário e objetos ganha uma nova proporção quando nos deparamos com diversas inserções ao longo de imagens aparentemente desconectadas da história. Logo no começo temos, por exemplo, imagens de miniaturas de borboletas – borboletas, como todos sabem, significam a transformação – essas borboletas, veremos a seguir, são enfeites na parede do quarto da Chantale ( mãe ), portanto, metaforicamente ela guarda a transformação do filho na parede pois não consegue lidar diretamente com o seu desenvolvimento e independência.

A casa e sua decoração representa a alma da mãe, sua personalidade e expectativas, por isso Hubert nunca parece estar a vontade naquele local. No entanto, é curioso notar, em determinada cena, que o garoto passa a ajudar a cuidar da limpeza, da arrumação da casa e, imediatamente, a iluminação – voltemos a ela – se torna mais clara, ou seja, o filho ao cuidar da casa e dos objetos, está cuidando da própria mãe.

Outro elemento que compõe as cenas iniciais e se estende durante quase todo o filme, é os planos detalhes. Olhar, dedos, xícaras, enfim, aproximam o espectador da rotina. Há ainda uma preocupação em posicionar os personagens sempre em lugares desproporcionais no quadro, ora no canto esquerdo, ora em baixo, poucas vezes eles estão centralizados.

Paradoxo é tentar entender a angústia de não ser aceito. Hubert é um ser em formação, cheio de falhas e passando por momentos difíceis e confusos, de forma minimalista a sua relação homoafetiva vai sendo trabalhada, junto com a sua insegurança em confiar na mãe, porém a mesma não parece agir de forma a extrair tal iniciativa do filho. Essa barreira vai moldando formas obscuras e a raiva vai dando lugar à rebeldia. Um jovem genuinamente ansioso, à espera de uma oportunidade para fugir.

E, quando o menino/criança, entra no ônibus para voltar ao seu lugar nenhum, a estabilidade dá lugar ao desequilíbrio, sendo mostrado através da câmera que treme constantemente enquanto, ao fundo, temos a cidade desfocada. O mundo particular de um jovem inocente a espera de crescer e, principalmente, ser aceito.

“Você é um peixe de águas profundas, cego e luminoso. Nada em águas turbulentas, com a raiva da era moderna, mas com a frágil poesia de um outro tempo.”

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Mother – A Busca pela Verdade, 2009

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★★★★

Joon-ho Bong é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores sul coreano em atividade. O realismo que os seus personagens são apresentados, dialogam de forma bem direta com o onírico, repleto de absurdos e de falhas. A sua facilidade em subverter o gênero policial é outra virtude, como visto nesse seu trabalho lançado em 2009, onde uma mãe assume a função de pessoa que procura desvendar os fatos, afim de procurar o(s) culpados de um assassinato, e, consecutivamente, livrar o próprio filho – doente mental, inclusive – da cadeia.

O fato é que a personagem é uma mãe, Mother em inglês, em nenhum momento revela o seu nome; É, portanto, unicamente uma mãe, nada mais. Já nas cenas iniciais fica evidente o cuidado especial e obsessivo que ela tem pelo seu filho, em singelos momentos essa ideia vai, aos poucos, sendo passada ao espectador. Ainda mais, e talvez mais perigoso, em alguns momentos é mostrado pequenas atitudes que demonstram que a mãe possui uma ansiedade em ocultar os erros. Principalmente do filho mas, no desenvolver da trama, percebemos que o tratamento dado é apenas um reflexo dos erros pessoais desse ser humano misterioso.

O próprio nome da mãe fora tirado dela. O único direito e necessidade que ela tem é cuidar do seu filho, a preocupação é nebulosa, não se sabe muito bem se é por algum tipo de medo, diante da clara doença mental do filho – o que, por sinal, em nenhum momento o impede de viver e entender as coisas ao redor – ou algum tipo de remorso ou insegurança.

A cena inicial temos a mãe, em um campo, solitária, ela começa a dançar, um contraste curioso em relação ao comportamento que será desenvolvido a seguir. Poderia ser apenas uma apresentação, porém serve como porta de entrada e representa um claro indício de que essa mulher é uma marionete de suas escolhas, que sua função é controlar um outro pois, na sua cabeça, a fragilidade está em todos os lugares, menos nela mesma. É um trabalho muito difícil interpretar a relação da mãe e do filho, extremamente ambíguo e obscuro.

A multiplicidade dessa relação é reforçada com a técnica cinematográfica de forma muito consciente, destaque para a fotografia, com tons azulados e cinzas, demonstra com perfeição o psicológico da mãe, estabelecendo desde o começo um interesse involuntário em descobrir mais sobre esse ser humano frio, sem amor próprio. No mesmo tempo que o fato de estar sempre chovendo, ajuda a criar um ambiente perfeito para se estabelecer o mistério.

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O figurino da mãe recorrentemente traz o vermelho ou vinho, remetendo-nos a ideia da paixão, sangue – que será derramado em dado momento de forma literal, mas existe sangues derramados durante quase todo o filme nas entrelinhas – e, se aprofundarmos um pouco mais, a excitação.

Tracei uma relação óbvia entre a relação mãe e filho – que assume diversas outras funções – com o complexo de Édipo. Essa dependência inconsciente do filho, movido, inicialmente, pelas suas próprias limitações, atingem um outro patamar a partir do momento que o garoto começa a ter atitudes impulsivas e grotescas por influência de um amigo. Ele começa a sentir o que é ser independente, no mesmo tempo que não é capaz para tal desprendimento.

Ele precisa de alguém para guiar; Não à toa, mesmo diante a iminente descoberta sexual, ele permanecia “inocente” até o seu amigo preencher sua mente com desejo por mulheres, despertando a necessidade humana de se relacionar com o sexo oposto. O que seria absurdamente normal, se a vida dele não fosse tão conturbada. Em uma provocação o amigo pergunta para ele se já dormiu com uma mulher, ele responde positivamente e, depois de algum mistério, fala: “eu dormi com a minha mãe“.

A relação percorre diversos degraus, pai e filho, filho e mãe e, entre eles, ainda há espaço para o homem e mulher. Ora, ambos personagens só possuem um ao outro, é um contato doentio, baseado em uma necessidade primordial. Existe apenas um personagem: a mãe. O filho é parte dela, os dois são os mesmos, nasceram de um mesmo ponto e caminharão juntos para um mesmo fim.

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Existe uma sombra, a personagem da mãe busca o seu sepulcro. A “busca pela verdade” da tradução permanece como um questionamento durante todo o longa. Que verdade seria essa? O conflito do assassinato, a resposta sobre o que realmente aconteceu parece muito simples diante a complexidade daquela relação provocante. Aliás, quando a mãe descobre quem matou a menina – mistério que move o filme até certo ponto, pois os fatos não são tão difíceis assim de assimilar mas, repito, causar a surpresa não é a preocupação principal do filme – ela permanece com mesma intenção e atitude que tinha no início, nada mudou além de compreender a verdade.

No final, fechando o ciclo que começa na apresentação onde a personagem dança em um campo, metaforicamente temos uma mulher perdida em meio a tantas outras, ela se torna ainda mais prisioneira da culpa e, ainda por cima, começa a entender que o seu destino é cobrir erros para sempre, assim podemos interpretar que a própria é um grande erro do universo e precisa, assim, se esconder constantemente.

O choro ao final, ao ver a conclusão da sua busca, faz-nos pensar que ela não se entristece apenas pelo seu filho, mas por todos os filhos do mundo.

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Homem Irracional, 2015

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★★★

Woody Allen é um querido diretor. Aprendi muita coisa com seus filmes, me identifiquei muito com sua personalidade extrema e conheci muito o cinema clássico, bem como jazz entre outras inúmeras referências.

Aqui mesmo no Cronologia do Acaso, escrevi uma “carta para o Woody” e um especial, analisando com bastante detalhe o seu filme clássico “Manhattan“. Bem, Woody Allen continua fazendo um filme por ano, essa média é realmente muito incrível, principalmente para alguém com oitenta anos e que mantém, dentro do possível, a média de qualidade. No entanto, essa postura traz consigo muitas críticas, isso porque visivelmente não há tanto tratamento no roteiro e alguns outros detalhes técnicos, como a própria utilização da música. Mas vamos com calma.

Eu sou adorador do Woody Allen, como disse. Acho divertido a forma como os seus filmes são recepcionados pelo público, muitos não gostam, outros surgem sempre com o mesmo argumento “os filmes ruins dele são melhores do que muita coisa que sai no cinema atualmente”.  Bem, não acho que frases como essa justificam a grandiosidade do seu trabalho, pelo contrário, ele certamente não está nem um pouco interessado em fazer algo comum.

“Homem Irracional” faz jus aos filmes anteriores do diretor que falam sobre a banalidade da morte, o diretor se sai bem quando trabalha, levemente, com o suspense. A história é de um professor de filosofia Abe Lucas – interpretado por ninguém menos que Joaquin Phoenix – que chega para lecionar em uma universidade mesmo em meio à uma crise existencial. Ele começa uma relação de amizade com uma aluna ( Emma Stone ) que, diante a sua infelicidade, fica encantada pelo professor charmoso. Algo perigoso faz Abe reencontrar a felicidade e a ânsia de viver novamente.

É evidente que todo filme o Woody Allen influência os seus atores e eles começam a agir como o próprio diretor, refletindo suas manias no desenvolvimento dos papeis. Phoenix, apesar de encaixar muito bem no protagonista típico de Allen – escritor ou professor que não consegue escrever livros ou artigo – destoa bastante da sua leveza. Cria um personagem extremamente denso e sombrio, que está emocionalmente quebrado e isso fica claro na sua composição, o olhar perdido, confunde por vezes com a crueldade. É interessante como o professor Abe, mesmo estando fora de forma, ainda apresenta um charme fora do normal.

Se por um lado temos o melhor ator da atualidade – vide “O Mestre”, “Ela” e “Vício Inerente” do outro Emma Stone desempenha maravilhosamente o seu papel, com uma naturalidade típica da atriz. Não a toa é o seu segundo trabalho com o diretor, consecutivo. E sabemos como o Woody Allen é seletivo com suas escolhas.

A falta de conexão do protagonista com a escrita pode ser traduzido como o seu encontro com a verdade: nesse caso, ele reflete constantemente que a filosofia não pode ser resumida apenas em livro, é preciso sentir na prática. Algo como uma desculpa, ou uma forma de controlar sua tristeza, afinal, está praticando filosofia ao ser existencialista; Sendo um livro, um artigo científico.

“eu não posso escrever porque eu não posso respirar”

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A complexidade do protagonista é o ponto forte do filme, ainda mais com a relação que se estabelece de fascínio pela tristeza, no mesmo tempo que há uma intromissão masoquista por parte da aluna.

Depois que Abe encontra um sentido para a sua vida, que está diretamente ligado ao fato de se distanciar do intelecto – o título do filme demonstra um desejo – há alguns artifícios interessantes para ressaltar a sua mudança de comportamento. A principal e mais clara delas é a iluminação. O personagem fica, em diversos momentos, envolta de luzes, como se se sentisse brilhante, um artista, como se as luzes estivessem seguindo os seus passos.

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Enfim, “Homem Irracional” é interessante no seu desenvolvimento, mas deixa bastante a desejar na sua conclusão. Transformando bons minutos de atuações impecáveis e profundidade filosófica em algo irrelevante.

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CdA #46 – Teus Olhos Meus

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No episódio #46 do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, André Albertim e Cliff Rodrigo se reuniram para discutir o filme nacional “Teus Olhos Meus”. Uma obra que contempla o jovem, propõe uma abordagem interessante sobre o sentimento de solidão e o ser humano perdido.
No podcast, comentamos brevemente sobre a rebeldia retratada no filme, relação homossexual e muito mais. No fim, a resposta que nos rondou é: Seria “Teus Olhos Meus” um hino?

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A Professora do Jardim de Infância, 2014

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★★★★

Nadav Lapid, diretor do “O Policial” ( 2011 ), lida novamente com um tema extremamente complicado, mas a diferença crucial com o primeiro, talvez seja, o foco. Aqui temos um ensaio sobre a particularidade de uma professora que, ao perceber que um dos seus alunos escreve poema com uma facilidade incrível, resolve acompanha-lo, desenvolvendo uma paixão, proteção, a fim de instruí-lo a seguir por esse caminho espinhoso que é a arte. O detalhe mais importante é que o pequeno Yoav, com veia de artista, só tem cinco anos.

Estamos diante de um prodígio, que de uma hora para outra para de fazer tudo, anda de um lado para o outro e começa a declamar, é estrondoso a concepção desse milagre. O garoto é sempre muito calado, distante, brinca como as outras crianças, quando fala parece que não é capaz de escrever, ou melhor, criar, aqueles poemas, mas é ele mesmo. Em dado momento é citado, oportunamente, o Mozart que, mesmo muito novo, já mostrava um talento para com a música fora do comum, mas o que seria isso? Há alguns que acreditam que possa ser vidas passadas, outros, DNA, mas o fato é que nunca saberemos, aliás, tentar compreender o porquê de algumas crianças desenvolverem talentos tão cedo, é fugir da real beleza da vida. Algo que a professora faz constantemente no filme.

Quando ela começa a compreender o seu aluno, surge um fascínio muito grande, mas não maior que a curiosidade, essa derivado do seu próprio interesse por poemas. Ela frequenta algo como um “grupo de estudo”, onde todos analisam minuciosamente a composição dos sentimentos, como se fosse possível calcular as emoções. Então essa personagem se depara com um verdadeiro monstro, pois do outro lado existe alguém que tem a arte intrínseca, faz parte dele, mesmo que o próprio ainda seja muito novo para entender. Afinal, a arte é desenvolvida ou parte exclusivamente do natural?

“Acho triste uma criança de cinco anos escrever isso, deve estar precisando de ajuda” – Essa é a frase que o marido dela diz quando lê pela primeira vez o poema do Yoav, incrédulo não pela qualidade, mas experiência contida naquelas frases. Ironicamente ela responde “É só um poema”, como se quisesse ainda sustentar uma máscara, recusando a verdade de que sua inferioridade parte em tentar explicar os motivos do acaso.

Repleto de referências, utilizam-se disso com perfeição, até porque facilita a compreensão daquela situação inusitada ou até mesmo a relação forte e perigosa que se estabelece entre a professora e o aluno, por esse mesmo motivo, podemos observar diversos closes nos protagonistas.

A professora, até estendendo a sua obrigação de ensinar, mas evidentemente fazendo disso uma dependência terrível, parece querer inspira-lo e inserir nele uma visão artística a qualquer custo, pois ela mesma não teve a oportunidade de ter alguém lhe transmitindo cultura. Essa atitude, apesar de correta em parte, vai de encontro com a personalidade do pequeno poeta, bem como sua família, que despreza essa profissão “fracassada”.

Nira, interpretada com um certo incomodo pela Sarit Larry – transparecendo a mentalidade da personagem – imita o seu ídolo, até perceber que ele é só uma pessoa em formação e que apesar do iminente dom, pode se recusar a fazer aquilo em algum momento para, assim, ser uma pessoa normal. Há metáforas visuais que ilustram essa previsão, como uma cena em que o pequeno, na balança, observa sua professora de cabeça para baixo, como se a intelectualidade, da qual ela teima persistir, estivesse se ruindo.

Sem dúvida “Haganenet” é uma boa escolha para aqueles que trabalham com educação, escrevem ou até mesmo curiosos em relação a criação e desenvolvimento de um artista.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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