A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Amélie – Refúgio em um Mundo Inventado

“Quando o dedo aponta o céu, o idiota olha para o dedo”…

amelie

Tarde chuvosa. Casal de jovens inebriados pela possibilidade da fuga. Depositando um no outro toda a confiança que lhes é cabível. Não conhecem os sentimentos, não conhecem o desejo, tampouco enxergam em seus próprios reflexos a ousadia da liberdade. Eles fazem amor pela primeira vez.

E do amor, todos nós surgimos. Diferentes orgasmos, diferentes momentos e iniciativas. Mas sempre começa com o olhar, parte para o encontro e permanece na entrega. Existem pessoas que já conhecemos e transmitem os mesmos sentimentos mas são, tão somente, distantes pelo tempo. Nós viemos de um mesmo começo e vamos nos libertando/desprendendo para o outro fim.

Quantas outras possibilidades existem, senão, imaginar? Quanta omissão quando se deveria apenas amar. “Amar-se” seria uma benção, mas o “amar-te” toma conta de nós. Quantos (re)encontros acontecem e quantas despedidas são necessárias. Quantas responsabilidades e quantas delas deveriam ser prioridades? Quantas vezes fizemos sorrir e quantas vezes nos deixaram chorar. Só quem amou conhece a dor que é sonhar.

Sonhar é ou deveria ser obrigação da existência. Desviamo-nos desse caminho para enfrentar uma realidade sem graça. Onde a busca se tornou vã, acomodando os não-sonhadores e transformando o “mesmo” em preciosidade ilusória.

Uma mosca capaz de bater as asas 14.670 vezes por minuto pousa em uma rua, no mesmo tempo que um senhor apaga o endereço do amigo que acaba de falecer. O endereço, que pode ser traduzido como o seu abrigo no mundo, já não é mais necessário. Portanto, devo perguntar-lhe: Porque o homem sente necessidade de se fixar? Fixar em um local, emprego, em um ou vários corações?

No mesmo instante que Eugéne Colére apaga a existência do amigo – mas consegue apagar do seu coração tão facilmente? – um super espermatozoide de Raphael Poulain conhece o óvulo da senhora Poulain. A existência é um ciclo, dá oportunidade para infinitos heróis fazerem a diferença em um mar transbordando de igualdade. Vem ao mundo uma menina chamada Amélie Poulain.

 Jean-Pierre Jeunet colecionou memórias desde 1974 para realizar “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” e nos créditos iniciais já deixa claro que a protagonista seria uma das maiores figuras da história do cinema mundial, quiça, da arte. Uma menina, com ar de inocência e segurança intimidadora, realiza inúmeras atividades que exploram e mostram com exaustão toda a sua criatividade. A paleta de cores, sempre vibrantes e com tendências ao verde e vermelho, dá um tom onírico a apresentação da personagem, que por sua vez é inundada pela vida. A vida que é necessária sonhar pois Amélie é uma criança que não recebe carinho.

“Amélie tem seis anos, como todas as meninas gostaria que o seu pai a abraçasse às vezes, mas eles só tem contato físico durante o exame clínico mensal. A menina, radiante por essa intimidade excepcional não pode impedir o coração de acelerar. O pai, assim, crê que ela é vítima de uma anomalia cardíaca…”. 

Que exame cardíaco é esse? Quão figurativo se torna os batimentos do coração da menina com a aproximação de seu pai? Por sua anomalia, oriunda da indiferença do pai em relação a solidão de sua filha, Amélie é obrigada a estudar em casa, ausentar-se do mundo e desconhecer o processo de crescimento. Nesse meio caótico, ela consegue percorrer o passar do tempo, mantem intacto sua ousadia e continua sonhando, mesmo que o crescimento transforme essa pequena-grande atitude em algo abominável.

Com uma câmera fotográfica Amélie brinca de criar. Transforma as nuvens, os momentos, até que alguém lhe diz que essa pequena atitude tem grande impacto na realidade e, por consequência, provoca desastres. A menina, inocentemente, credita a si mesmo a responsabilidade de todos os males do mundo, como se tudo e todos existissem em prol a ela. Engraçado como vamos adquirindo, com o tempo, a sabedoria de que nossa presença nem sempre é crucial para o andamento das coisas. Somos mais um, nem por isso comum.

Amélie cresce e foge. Ela se ausenta da necessidade do comodismo e busca nos pequenos detalhes uma resposta. Ela olha com um binóculo pela janela o homem de vidro, um senhor com problemas nos ossos/coração que, por motivos pessoais/medo, se proíbe de sentir a vida e se limita/imita a desenhar os seus sentimentos. Um deles, por sinal, se trata de menina, diferente de todas as outras, que segura um copo de água na mão. Ela está presente, rodeada de pessoas, mas parece saltar da tela, como se gritasse por ajuda, implorando por atenção. Ela representa um lado trágico da felicidade, o outro lado de todas as coisas, o sonho dentro do caos e a esperança em plena guerra. Ela representa Amélie.

Homem de vidro: Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.
Amelie: Pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.
Homem de vidro: E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?

O homem de vidro, sábio e ignorante na mesma proporção, busca compreender sua criação no mesmo tempo que, assim como o pai de Amélie, não dá atenção aos detalhes. Ele não percebe que Amélie segura um copo de água no exato momento que ele tenta entender a “menina diferente do quadro que segura um copo”, ele nem ao menos percebe que se trata do diretor do filme. Como uma metalinguagem, podemos traduzir o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” como uma obra prima, um quadro que o homem de vidro guarda em sua parede. O vidro do homem é o diretor Jeunet e todos artistas que criam seus personagens e doam pedaços deles mesmos para suas criações.

O homem de vidro é, ao mesmo tempo, o sábio e o aprendiz, afinal, ele é a Amélie sem a iniciativa de fazer aquilo que quer. Amélie não é apenas uma única mulher, ela é um conceito. Existe em muitos de nós.

Além de todos os personagens do filme terem um destaque e importância gigantesca para a compreensão da obra, muitos deles representam um espaço ou ausência da protagonista. Amélie pensa tanto nos outros que esquece dela mesma, portanto, temos uma personagem secundária que é hipocondríaca. Ela pensa e prevê uma série de infecções, mas se entrega facilmente ao “vírus do amor”. Seria isso um erro? O erro encontra-se justamente na previsão, pois tudo é tão incoerente que se torna impossível aferir.

Sempre estamos fazendo os mesmos movimentos, seguindo os mesmos passos e acordando nos mesmos horários. O tempo se dá permissão de ser depressa e, quando percebemos, nem ao menos nos damos conta do porquê. Como Dominique Bretodeau: ele teve uma vida, brincou, se divertiu e sorriu. Escondeu todo um momento em uma caixa e somente ela restou do passado. No passado, aqui imagino, se sentiu invencível, inconfundível, exclusivo e imortal, contraste com o que se tornou. Amélie revive em um desconhecido o prazer de se conhecer novamente. Ela transforma o mundo e faz os cegos enxergarem exatamente o que vê, mesmo que a própria luz de realidade queime os seus olhos diante a sua fraqueza.

A força e fraqueza de Amélie parte exatamente da mesma coisa, assim como o ser nasce do amor. Amélie é diferente de todos os outros e tão igual ao processo de amar. Se torna enigmática, abstrusa, irrefutável e tão… incerta. Não há certezas no amor.

Cabe a você e eu questionar: Amélie opera a favor do outro ou dela mesma? Não seria a sua ingerência um pouco gananciosa? Amélie é uma caixa vazia, preenchendo-se com as experiências que enfrenta, um mundo surreal que traduz exatamente a sua personalidade.

Amélie Poulain é a moça com o como de água nas mãos, em meio a crise se destaca como uma agente da modificação. Contornando as dificuldades e a realidade com muita cor, muito vermelho, muita arte. Teima, mesmo que como um processo de contradição, demonstrar sua força através do registro. Transformando o inimaginável em amigo íntimo, aliás, tudo se torna tão íntimo.

Como os melhores e maiores impressionistas, Jean-Pierre Jeunet descreve minha vida e de muitos, faz-me sentir feliz somente pela oportunidade de sentir o vento. Me sinto distante de tudo e tão próximo, tão rico e pobre, relembro todas as coisas que vivi e que poderia ter vivido. A loucura é um bom dia para se experimentar. Um dia, dentre vários, que se perderão, como um grão de areia que se sente invisível e pouco valorizado por ser só mais um.

Nesse momento penso em tudo, no porquê escrevo, no porquê vim, estou e para onde vou. Não consigo parar de imaginar o amor e o quanto por ele já sofri, sem nem ao menos entendê-lo. O amor não se sente feliz em ter o seu nome pronunciado em vão. O amor deve ser uma criança triste olhando pela janela de casa a rua que, tomada pela água da chuva que cai, proíbe todas as outras crianças de brincarem na rua.

O amor esta em meu coração, esperando pelo inesperado de dizer coisas sérias brincando, dormir no abraço mais gostoso e seguro do mundo e dizer tudo aquilo que preciso. Pena que o mundo não é mais um bom lugar para os sonhadores. Contudo, eu não sou feito completamente de vidro e aguento os baques da vida.

No mesmo tempo que um ser caminha só pela rua e pensa em por um fim nos seus problemas, uma menina nasce do outro lado do mundo. O seu primeiro choro soa como sinfonia nos ouvidos do seu pai que, sendo desprezado pela sua família, jura a si mesmo que será o maior pai de todos.

Na mesma noite, um menino intrinsecamente romântico tenta fingir não ter sentimentos. Mal sabe ele que no próximo dia encontrará uma menina que lhe amará tanto, ao ponto de se esquecer dela mesma.

E, na madrugada, enquanto todos dormem, Emerson Teixeira escreve ao som de “Comptine d’Un Autre Été” tudo o que precisava sobre “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Minutos antes ele caminhou até a janela e sentiu uma leve brisa em seu rosto, enquanto observava com atenção o silêncio e ficou feliz por estarem todos bem. 

“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

CdA #54 – Mc Melody, funk e o futuro das nossas crianças

funk

Download

Nesse episódio do formato ímpar, Emerson Teixeira faz uma reflexão sobre a situação atual de muitas crianças que são expostas muito cedo a sua sexualidade. Além dos perigos da internet e o caso da Mc Melody, que representa bem toda essa manipulação que estamos vivendo.

Leia a transcrição: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/01/25/mc-melody-funk-e-o-futuro-das-nossas-criancas/

Cover da música “Piloto Automático” feito pela Mariana Nolasco e tocada no final do episódio: https://www.youtube.com/watch?v=xf-XTmg0Vsg

  • E-mail: contato@cronologiadoacaso.com.br
  • Twitter: @cronodoacaso
  • Assine nosso feed: http://feeds.feedburner.com/cronoacasopod
  • Itunes: https://itunes.apple.com/br/podcast/cronologia-do-acaso/id1076216544

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Mc Melody, funk e o futuro das nossas crianças

92094-mc-melody-e-seu-falsete-geram-memes-600x315-2

Parte 1 – Procura por explicações

Onde está os adultos no funk? Ou melhor, onde está os adultos no mundo? O que será que andamos fazendo em? Mexendo no whattsapp enquanto nossas crianças… mexem no whattsapp no outro cômodo da casa?

Incrível pensar que estamos vivendo uma era onde a distância está mais presente do que nunca, o homem vive no seu casulo e cuidar de um filho se tornou muito fácil: pois há, hoje, diversas formas de hipnotizá-lo.

Já pensei ou me questionei por diversas vezes se eu seria um bom pai, até por ser abandonado pelo meu, a gente sempre acaba tendo um pouco de medo. Mas o fato é que, hoje, fico com mais medo do mundo do que da minha possível incapacidade em criar.

Tem uma palavra chamada cultura, é essencial que a família assuma esse papel inicial de transmitir o conhecimento. É óbvio que cada uma está inserida em um contexto e o saber nunca será o mesmo em todas as crianças, porém é preciso fazer o mínimo de esforço para que “fugas” como a internet sejam menos impactante na vida do ser em formação do que atualmente é. O Brasil vive uma carência de informação, tudo é muito caro, o entretenimento é luxo, existe muita preguiça em procurar coisas novas. A pena é que esse último fator é o que mais separa o brasileiro do conhecimento, o comodismo é um perigo.

Eu não estou falando exclusivamente das escolas, até porque todos sabem que a educação no Brasil é outra discussão complicada – e falo isso como professor de crianças e jovens de escolas públicas – existe um conhecimento crucial durante a formação que se chama experiência. Não sou daqueles que vivem dizendo aos ventos que o “meu tempo era melhor”, mas sem dúvida posso me lamentar que no meu tempo éramos mais livres.

A violência proíbe a criança de brincar na rua, existe uma onda grande de estupro, a mulher é tratada cada vez mais como objeto, enfim, está realmente difícil a situação do ser que, milagrosamente, continua respirando um ar repleto de vírus.

Esses e outros fatores fazem com que cada vez mais crianças e adultos se desenvolvam em meio a uma série de repetições e desinteresses, estamos todos sufocados com a monotonia e rotina. O encontro se torna frívolo, restando aos bates papos virtuais preencherem as nossas necessidades de elogios e sorrisos o que, por sua vez, podem ser traduzidas por emoticons. E esses bichinhos falam exatamente aquilo que queríamos não é mesmo? O homem está se auto-privando de desabafar o que sente. E o sentir se tornou arma para fracos.

Parte 2 – Exposição na internet e funk

8encontrovirtual

Gente, o que vou falar aqui é muito sério, você que acompanha o Cronologia do Acaso, sabe que jamais divulgaríamos ou falaríamos algo a toa, por favor, usem esse episódio como alerta, você, criador de conteúdo na internet, que escreve textos reflexivos, ajude nesse aviso.

Como uma pesquisa para esse episódio, eu fui atrás de alguns cantores, casos e vídeos de funk. Na verdade, o que eu encontrei atualmente no gênero musical é 90% produzido por crianças. O pior e mais perigoso é que existem adultos por trás delas, guiando-as, ensinando o caminho da exposição, distribuindo-as como se fosse garotos e garotas de programa. E tem gente que consome, que fica silenciosamente esperando a próxima criança rebolando, pronunciando vulgaridades que não cabe em sua boca inocente.

Antes vamos voltar um pouco e falar sobre o funk:

O funk é um gênero musical que teve inicio, basicamente, nos anos 60. Teve inspirações de diversos outros gêneros e criou-se musicas dançantes, que exploravam um lado muito espirituoso de, principalmente, uma classe inferior diante as imposições da sociedade.

Eu costumo usar bastante jazz e blues nas edições do Cronologia, sou fã de nomes como Miles Davis, John Coltrane, Nina Simone, Tom Waits etc. Já fui ignorante o suficiente em afirmar que as músicas que eu gostava eram melhores do que os dos outros. Hoje me entendo como uma pessoa que navega por entre estilos, tenho as minhas preferências mas tento não ter preconceito com nada.

Inclusive, o Jazz exerceu grande influência no começo do Funk. Vindo para o Brasil, o funk sempre foi muito interessante musicalmente, pois se tratava de um gênero cujo padrão é realmente ser simples. Então dava destaque às composições e certamente se tornava uma grande oportunidade para pessoas pobres, algumas vezes moradores de favelas ou simplesmente pessoas com pouca oportunidade, fazerem suas músicas e criar a sua arte.

Com essa liberdade, é evidente que iríamos cair na problematização da sexualidade, musicas com apelo sexual, algumas surgindo como representações do coito, enfim, é o que acontece. O sexo está presente em diversas outras músicas e composições, nos mais variados gêneros musicais. Esse não é o problema.

O problema começa, ao meu ver, quando a mulher é exposta e tratada de forma inferior. Quando o funk começou a ser uma arma de exposição e vulgaridade, mulheres invadindo a Tv e mostrando suas lindas bundas para crianças de todo o país que, consecutivamente, tentavam imitá-las. Mas essa é uma questão pessoal, apesar de achar algumas moças bonitas ou, sendo literal, gostosas, o que elas representam no funk jamais faz jus a importância e caráter que, acredito, todas tem.

O tempo passou e certamente foi se agravando essa situação. Com o aumento das drogas, lavagem de dinheiro e inerência do homem perante a tecnologia que se espalhava rapidamente no começo dos anos 2000, ficou claro que as novas gerações já nascem inundadas em um mar de sexualidade exposta de forma precária, cultura banalizada, vulgaridade e, o pior, sabem que é possível se expor de forma semelhante na internet e ai começa o desastre total.

Nas minhas pesquisas para fazer esse texto, me deparei com coisas que me assustaram.

Então vamos lá, escute um trecho dessa música:

https://www.youtube.com/watch?v=X921KUZiR38

Beleza, eu poderia julgá-la como uma verdadeira porcaria, fazer descaso e nunca mais escutar nada desse “cantor”. O problema é que se trata de um menino, aproximadamente uns 6 anos e, enquanto canta essa música, em um clip, tem duas mulheres rebolando atrás dele. O que é isso? Existem centenas de pessoas discutindo o feminismo etc, apoiando a mulher e o seu desprendimento mas, se olharmos para os conteúdos que nossos filhos assistem no youtube, veremos que chegamos ao ponto de menininhos cantarem repetidamente para mulheres quicarem, sentarem, pepeca e outras infinidades de coisas escrotas. Então é muito complicado remar contra a maré – mesmo que seja correto tentar – existe um enorme descaso ao próprio corpo, e as mulheres que rebolam nesse vídeo? Será que elas não são mães? Será que não tem mães? Onde fica a sua moral, empatia pelo garoto que se expõe de forma imbecil, manipulado por adultos e seus infinitos interesses.
Esse vídeo tem mais de dois milhões de visualizações no Youtube.

Parte 3 – Mc Melody

A internet está cansada de fazer piadas com a pobre Melody, não vou aqui tratá-la mal, muito menos chamá-la de idiota. Eu vejo e entendo a menina como vítima, ela tem uma clara expectativa de alcançar o sucesso, de certa forma está alcançando, mas está fazendo isso de um jeito terrível. O seu caso exemplifica toda essa questão das crianças, as transformações do mundo e o funk.

Mc Melody já falou em diversas entrevistas que estuda música com o seu pai, o cantor Mc Belinho. Quando eu ouvi isso, me partiu o coração. Sério. Dá para sentir a admiração que a menina tem para com o seu pai, para ela sem dúvida ele é o melhor musico do mundo – e, se focarmos apenas no seu olhar, ela tem razão – ela está certa em fazer isso, muitos teriam inveja de possuir uma figura masculina que representa todo esse orgulho na filha.

O porém é que Mc Belinho não é um bom musico e não está empresariando uma artista, mas sim uma bonequinha que vai morrer com a primeira luz de realidade. Ele manipula a sua filha – não sei se de forma intencional ou motivado, também, pela sua própria ignorância – e a motiva a fazer sucesso de forma ridícula e despreparada. As pessoas não dão risada com a Melody, dão risada dela.

Quais serão os impactos de toda essa exposição no seu futuro? O que se transformará esse orgulho do pai quando a maturidade atingir o seu cérebro e perceber tamanho interesse? Ou melhor, será que tudo isso realmente acontece ou a burrice no país cega o ser humano pela vida inteira?

A menina dá gritos, fala que é falsete e todos dão risadas disso, vira moda, vira música. Mais da metade dos que aplaudem ela, nem ao menos sabem o que é um falsete.

Vivemos em dias complicados para se entender, me sinto constantemente um peixe fora da água. Tento fazer a diferença dentro do que eu posso, mas como professor e estando inserido nessa realidade, percebo o quanto essa “cultura frágil” interfere na criação das crianças e, unido-se a isso, a internet é extremamente perigosa.

Guie as crianças, por favor. Você que é pai, mãe, irmão, tio, avô, se dediquem para fazer a diferença. Eu sou um adepto da ideia de John Locke e sua explicação da “tabula rasa”. Para mim todo ser humano é uma folha em branco, um vazio que será preenchido com suas experiências e cuidados exteriores, portanto a criança está sempre pronta para ser moldada, como uma linda obra de arte. Evite a exposição descontrolada, use e abuse da arte e, principalmente, dê muito amor às crianças. Elas só precisam ser escutadas e levadas a sérios, pequenos momentos de liberdade e desabafo total, onde nenhum compromisso ou tarefa seja mais importante que o seu sorriso.

Se, por algum motivo, eu não ter mais tempo para trabalhar tanto, estudar tanto, ler tanto, escrever tanto ou gravar podcast, pode ter certeza que eu vou estar ocupado demais tentando ser o melhor pai do mundo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Não se Esqueça de Compartilhar, 2009

Be.Sure.To.Share.2009.JAP.DVDRip.XviD-AXiNE.avi_snapshot_01.26.24_[2015.11.09_10.36.10]

★★★★

Sion Sono, esse é sem dúvida um diretor a se descobrir cada vez mais. Ironicamente, esse filme que analiso hoje percorre uma direção oposta da descrição que eu fiz do seu trabalho quando escrevi sobre “Extensões Capilares“. Lá, coloquei que “o diretor é ótimo em lidar com a obscuridade[…] um provocador do horror. Engraçado é, hoje, reafirmar essa colocação tendo, inclusive, um maior embasamento. Afirmo que, antes de mais nada, Sion Sono é um provocador da vida. Deveria estar claro para mim que, mesmo no meio de tantos elementos trash que existe em Extensões Capilares, ainda há espaço para o drama familiar.

“Não se Esqueça de Compartilhar”, um drama de 2009, nos revela um Sion Sono preocupado com alguma coisa, essa preocupação parte de uma vontade inquietante de gritar para o mundo o quanto o outro é importante. Porém, quando o espectador, já emocionado, lê a frase “esse filme é dedicado ao meu pai” nos créditos finais, tudo fica extremamente claro: se trata de uma obra particular, talvez uma autocrítica feita pelo diretor sobre a sua própria postura para com o pai ou o contrário. Faz-nos pensar que possa ter existido na relação deles uma ausência de diálogo.

No mesmo tempo que se ater aos motivos para se criar determinada obra é ruim, se mostra nesse caso uma necessidade. Passamos então a refletir sobre a nossa própria vida e, no meu caso, cheguei a conclusão que nunca compartilharemos o suficiente.

Be.Sure.To.Share.2009.JAP.DVDRip.XviD-AXiNE.avi_snapshot_00.19.27_[2015.11.09_10.34.16] Be.Sure.To.Share.2009.JAP.DVDRip.XviD-AXiNE.avi_snapshot_00.22.13_[2015.11.09_10.34.33]

O filme conta a história de um jovem, Shiro, e sua luta em se manter bem mesmo diante ao seu pai com câncer. Se manter bem é quase uma obrigação, visto que Shiro passa boa parte do tempo do lado do pai, no hospital, então precisa estar sorrindo para, assim, confortar o seu mestre. No entanto, em meio a algumas situações que despertam essa reflexão, o jovem começa a se questionar o quanto é importante compartilhar e, ainda mais, repensa as suas próprias atitudes. Tudo isso diante a uma iminente morte.

Tudo parece acontecer com uma perfeita sincronia, Tetsuji Kita, o pai, foi professor de futebol a vida inteira, tendo, inclusive, dado aula ao próprio filho. Era rígido, a relação de ambos sempre traz a ideia da distância, do medo. Mas mesmo assim é evidente a admiração do filho que, constantemente, parece enxergar o seu pai como uma entidade, envolta de muita confiança e força. Aliás, quando essa imagem vai se desmanchando por conta da doença, temos uma aproximação entre ambos, como se a fragilidade unisse as pessoas.

“Meu pai durão desabou”

Seria um erro analisar o filme tecnicamente, por sinal o filme erra em algumas decisões, mas a proposta é tão sincera e carinhosa que é impossível não abraçar a experiência e se sensibilizar com a trajetória desse ser em busca de entender a si mesmo como uma obra que precisa ser compartilhada, merece não, precisa.

A identificação foi tanta, foi tão profunda. Eu tenho uma irmã de 11 anos, sou o professor dela na escola. Quando entramos de férias, estávamos sentados na mesa e, de repente, ela devaneia: “estou com saudade do professor Emerson“. Essa frase me fez pensar em inúmeras coisas ao mesmo tempo, o quanto somos capazes de nos dividirmos em vários fragmentos, várias versões de nós para preencher as necessidades de determinada pessoa/lugar/profissão etc.

“Ele sempre foi um professor para mim. Tanto na escola como em casa”

Be.Sure.To.Share.2009.JAP.DVDRip.XviD-AXiNE.avi_snapshot_00.47.29_[2015.11.09_10.35.23]

Somos feitos de pequenos momentos e pequenos fragmentos daquilo que vivemos ou temos. Nossas lembranças das ruas e lugares que vivíamos, como quando Shiro visita a escola que estudou e fica vislumbrado, com os olhos alegres e assustados ao mesmo tempo, como se quisesse dizer “isso aqui era tão grande na época!”. (in)Felizmente os lugares vão diminuindo ou somos nós mesmos que vamos crescendo tanto que não nos permitimos nos manter igual ao que passou. Algo como a Alice que cresce e encolhe na mesma velocidade, comendo aquilo que desconhece ou bebendo aquilo que não quer.

A pesca em “Não se Esqueça de Compartilhar” representa o elo. No final do filme, algo que pareceria exagerado em outra oportunidade – no entanto, típico em todo trabalho do diretor – soa como algo extremamente natural e metafórico. Um processo que todos nós deveríamos fazer ao menos uma vez: lutar para manter eternamente.

Be.Sure.To.Share.2009.JAP.DVDRip.XviD-AXiNE.avi_snapshot_00.45.34_[2015.11.09_10.35.07]

No fim, somos um pouco de tudo aquilo que mantemos por perto, nem sempre as coisas são para eternas, mas, se nós quisermos e pensarmos que podemos, o para sempre existe e mora logo ao lado. Basta compartilhar, afinal, até as cigarras compartilham, quem somos nós para não tentar fazer o mesmo?

“Você ainda continuaria comigo se eu estivesse morrendo de câncer assim como o meu pai?”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube