CdA [ímpar] #63 – Demon, 2015

Demon 2016

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso], voltamos ao formato [ímpar]. Emerson Teixeira comenta o filme “Demon”, uma co-produção israelense-polonesa dirigida por Marcin Wrona.

Crítica do Emerson Teixeira sobre o filme: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/06/17/demon-2016/

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Diário De Um Exorcista, 2016

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★★

Dois jovens diretores vão até a casa de um famoso exorcista, chamado padre Lucas Vidal, afim de fazer uma entrevista sobre a sua história e casos de exorcismos. Os garotos afirmam timidamente que “pretendem fazer um filme diferente“. Claro que, após essa afirmação, é possível entender os dois jovens cineastas como alter egos dos diretores Renato Siqueira e Ruben Espinoza. Um começo digno de suspense, pois a divulgação do filme é muito sustentada na ideia de que se trata de relatos verdadeiros, onde o Renato e Ruben, inclusive, chegaram a presenciar rituais de exorcismos.

O Brasil, apesar de ser um país extremamente religioso, nunca desenvolveu muitos filmes que abordam o sobrenatural, muito menos de exorcismos. Só me lembro do “Exorcismo Negro” de 1974 – que inclusive se aproveitou bastante da popularidade do “O Exorcista” – e, no que tange exorcismos, parou por ai. Claro, existem obras nacionais que incluem diversos elementos, incluindo a possessão, é o caso do curta-metragem “Amor só de Mãe”.

Fica evidente que a ousadia em se trabalhar o tema é deveras importante para o nosso cinema, é um trabalho independente que merece aplausos pela dedicação. Além do mais, toda a produção é muito bem feita, o maior problema é que a realização é maior do que o roteiro do filme.
Retomando a frase dos jovens diretores entrevistando o padre logo no início: se os realizadores levam a sério o seu trabalho, deveriam ter mais cuidado com o desenvolvimento da história. Principalmente decidindo, logo no início, entre o “terror” e o “terrir”. O terror deve ser pautado na realidade, não dá para confiar exclusivamente na frase “baseado em fatos reais”, nos créditos iniciais, como forma de provocar a empatia do espectador, é preciso lidar com a sugestão, revelar os “monstros” com calma, e aqui é feito o contrário, tem demônio possuindo alguém em espaços muito curtos de tempo. Isso acaba tirando a nossa concentração e, principalmente, a seriedade para com a experiência do filme.

“Diário De Um Exorcista” foi criado e aparentemente moldado para ser grande, e de fato é. O uso exagerado dos efeitos especiais, as diversas cenas de exorcismos, tudo poderia se encaixar em uma perfeita obra, mas isso não acontece pois os eventos não partem de uma estrutura coerente. O roteiro direciona o espectador à espera de algo novo, um desenvolvimento exclusivo no que diz respeito ao tema “exorcismos” e, em vinte minutos de filme, faz absolutamente a mesma coisa que todos os outros filmes de terror já fizeram, incluindo ângulos de câmeras, arcos dramáticos, eventos sobrenaturais etc. Então a pergunta é, novidade para quem?

Os efeitos especiais tiram a possibilidade do “acreditar”, talvez a maior função do terror. Apresenta coisas interessantes como o ritual cujo exorcista prega o possuído em uma cruz, mas em nenhum momento explora esse elemento. Aliás, nenhum elemento apresentado é explorado completamente. O suicídio do pai do protagonista, a possessão da irmã – como a irmã do padre Lucas pode estar possuída, todos saberem do fato, menos o irmão?; Como pode o padre Lucas desacreditar tanto, ao saber pela família que a sua irmã está possuída, se ele próprio foi convidado para ser um exorcista? Outra, como pode um dos maiores exorcistas de todos os tempos, pelo menos o filme trabalha com essa ideia, morrer após 10 segundo na frente do suposto “diabo”!?.

É tantos espaços soltos no roteiro que é impossível se orgulhar completamente pela ambição dos diretores, que se perdem em meio a própria tentativa de ser extremamente grandiosos. Talvez se tivessem construídos os personagens pautados na realidade, fosse bem mais atraente ao público. Os efeitos especiais, acabam irritando, nos lembrando que seria possível utilizar uma singela maquiagem, enfim, às vezes o melhor caminho é a simplicidade.

“Diário De Um Exorcista” é uma verdeira decepção, e se esse sentimento existe é porque muitos esperavam uma obra diferenciada. Com duas atuações interessantes – Renato Siqueira dá naturalidade ao seu personagem, muito carinho e demonstra com perfeição a sua fragilidade e Fabio Tomasini explora, nas poucas oportunidades que têm, algumas expressões fortes, sendo inclusive o único personagem que se salva em meio à uma catástrofe – poucos detalhes se sobressaem, se tratando apenas de mais um filme de exorcismos que cairá no esquecimento dentro de alguns anos.

Obs: Renato Siqueira, diretor do filme, mandou uma mensagem via Facebook apontando uma observação: “[…] quem fez a pesquisa não foi o Ruben Espinoza e sim Beto Perocini e Luciano Milici […]”. / Agradeço a observação Renato. Estarei acompanhando os seus próximos trabalhos.

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Demon, 2016

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★★★★

O diretor Marcin Wrona foi encontrado morto em um quarto de hotel pela sua recém-esposa Olga Syzmanska. A causa da morte foi suicídio por enforcamento, o seu terceiro filme “Demon”, uma co-produção polonesa-israelense, era exibido em um festival de cinema. Os produtores do festival deixaram claro os seus sentimentos para toda a família e ainda pediram para o público não especular sobre as possíveis causas da morte, afinal, esse trágico fato despertou um mal estar muito grande, principalmente pelo tema do seu mais recente e, infelizmente, último filme.

O fim trágico do jovem diretor – ele tinha apenas 42 anos – se mistura com a trama do filme e, sem dúvida, desperta muita curiosidade em quem assiste. É inerente a sensação mórbida tanto pela obra em si, que teima constantemente em relacionar-se com uma atmosfera obscura, quanto com a fatalidade dos bastidores. Por diversas vezes me peguei chocado e pensando seriamente que a densidade e a forma que ela é trabalhada no filme, fez jus com o psicológico do diretor no momento em que dirigia.

Saindo do campo da especulação e analisando a obra, temos uma história curiosa: Um homem chamado Pyton volta da Inglaterra para se casar com a sua noiva Zaneta. Dias antes do casamento ele encontra, enterrado, diversos objetos que parecem ser amaldiçoados. Durante o casamento, finalmente, o noivo vai tendo alucinações e tendo mudanças drásticas de comportamento, ele começa a ser possuído por um espírito.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o filme segue preceitos judaicos, em específico uma lenda sobre “dybbuk” que seriam, a grosso modo, almas que fogem do inferno para possuir uma pessoa e, assim, finalizar alguma tarefa que ficou pendente em uma outra vida. Por se tratar de uma perspectiva diferente e uma outra cultura, já nos aproxima bastante da estranheza. A forma que a possessão é desenvolvida se distancia bastante das diversas produções populares que lidam com um demônio, ao mesmo tempo o terror no filme em questão é trabalhado de forma completamente diferente, pautando-se mais nas sensações e densidade do que no medo ou susto, conseguindo ser muito mais eficiente por sinal.

Logo nas primeiras cenas temos contato com a trilha sonora tétrica e ela se estende durante todo o filme, mesmo que apareça em momentos oportunos. Além disso a fotografia amarelada também ajuda a compor o ambiente de forma confusa e isso vai ser ainda mais perceptível durante a festa de casamento. É de se louvar o fato de que tanto a fotografia e trilha estão sempre à favor do seu protagonista, Pyton, interpretado de forma brilhante por Itay Tiran, o ator parece se explorar ao máximo para compor o seu personagem, transitando por entre várias personagens, até culminar em uma mudança total, o uso do corpo e expressões pontuais precisam ser observadas com carinho.

Na cena que ele desenterra alguns objetos na terra é possível perceber que a posição da câmera faz questão de ocultar o protagonista atrás de uma máquina, fotograficamente isso ajuda na ideia de que o personagem está enclausurado ou se afastando aos poucos. Logo em seguida, em uma ilusão, o personagem tem uma alucinação onde é engolido pela terra, demonstrando nesse momento o que viria a sentir durante a festa do casamento.

O casamento, geralmente, representa a transição. É o ritual de união e que simboliza a felicidade, portanto acompanhar o comportamento do noivo é extremamente constrangedor. O espectador tem consciência que algo muito errado está acontecendo e o filme sabe disso e provoca da maneira mais inusitada: com o humor. Através do humor negro, adentramos dois mundos, um é da alegria e organização da festa, a outra é a desordem psicológica do protagonista. É engraçado perceber que o fio condutor dessa ideia passa a ser a noiva que, primeiramente está do lado da felicidade e, quando começa a tomar consciência dos fatos, embarca junto com quem assiste na obscuridade. Além disso, o fato de haver pouco ceticismo no filme proíbe de imaginarmos que se trata de um problema psicológico, mesmo que a própria obra ainda tente colocar a questão sugerindo, também, que o noivo pode ter ficado diferente por alguma droga.

“Demon” se mantém fiel a possessão e trabalha com maturidade, concluindo com perfeição aquilo que planejou desde o início. O terceiro ato perde um pouco de força no que diz respeito à atmosfera, mas isso de forma alguma apaga o seu brilhantismo. O que faz com que lamentemos ainda mais a morte do jovem diretor Marcin Wrona, que prometia bastante. Resta-nos assistir esse filme e agradecer pela ótima obra que ele nos deixou como testamento.

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Invocação do Mal, 2013

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★★★★

Colocar o diretor James Wan como um dos grandes nomes do gênero terror atual é recorrente. Ele parece ter entrado para o cinema com uma fonte inesgotável de ideias, reuniu diversos clichês e seguiu uma linha de trabalho onde consegue abusar de todos os elementos já vistos no cinema, mas ainda assim consegue extrair algo novo, de fato ele é um verdadeiro oportunista, conseguiu construir uma fórmula para provocar o medo e o faz com tamanha naturalidade que nem ao menos parece um truque.

A sua maior força está na maturidade e direcionamento, Wan sabe lidar maravilhosamente bem com a sugestão. Em um das principais cenas de “Invocação do Mal”, uma das irmãs olha assustada para a porta do seu quarto, no escuro, a menina afirma que tem alguém olhando para ela, mas o espectador, assim como uma personagem que está no quarto, não vê absolutamente nada. Existe, nessa cena, o ápice da sugestão, o diretor parece sorrir e gozar do seu artifício e a forma que utiliza com maestria. Isso não é inédito no cinema, mas por incrível que pareça o gênero terror parece que se esqueceu, com o tempo, que mostrar os monstros toda hora nem sempre é a melhor maneira de provocar a tensão.

É só pensar em filmes como “O Bebê de Rosemary”, dirigido por Roman Polanski e “O Exorcista” do William Friedkin, os realizadores tem em comum a inteligência em mostrar pouco e, quando o faz, é em doses extremamente inteligentes. Existe um equilíbrio, pois o ser humano precisa disso. Em um quarto escuro pode existir qualquer coisa, até que se acenda a luz.

“Invocação do Mal” foi baseado em uma das histórias do casal Ed e Lorraine Warren que são investigadores de casos paranormais. Nessa história, em específico, um casal (Ron Livinston e Lili Taylor) se muda para uma casa antiga e grande com as suas cinco filhas. Pequenos eventos vão acontecendo, até que chega um momento onde todos definitivamente acreditam que algo sobrenatural está acontecendo, eles então recorrem à ajuda dos Warren.

Logo no início do filme somos apresentados à Ed e Lorraine Warren, eles estão dando uma palestra que inclui uma história sobre a boneca Annabelle – mais um evento verdadeiro e que, através do filme, atingiu um patamar muito grande de popularidade, tendo sido feito, inclusive, um filme somente sobre ela – e com a ajuda da trilha sonora, é um excelente convite ao espectador.

A partir daí temos a apresentação comum da casa antiga e enorme, um casal feliz com a mudança e crianças brincando e pulando sobre as mudanças. O incrível é a forma que é conduzido, os eventos acontecem rápido, mas são bem orquestrados, é mostrado o suficiente para provocar o medo mas não o bastante para enjoar. Existe um poder grande de utilizar algumas atitudes cotidianas, por exemplo as brincadeiras das meninas, como forma de demonstrar o quão fragilizados se encontram os personagens, assim como o fato de ter muitas meninas também soa interessante, pois quando começa a acontecer os eventos sobrenaturais cada uma sente de uma forma diferente, uma é sonâmbula, a outra é puxada pelo pé constantemente, a menor brinca com uma caixinha cujo espelho reflete um espírito, enfim, é uma forma eficaz de exigir uma atenção maior em quem assiste.

Fotograficamente o filme é muito poderoso, ambienta-nos no estranho e com a ajuda da trilha sonora agressiva, nos conduz ainda mais em direção ao medo. Se a sugestão até a metade do filme foi trabalhado exaustivamente, do segundo para o terceiro ato não se pode dizer o mesmo. Visivelmente a inserção de piadas e os aparelhos eletrônicos para a captação de fantasmas tiram um pouco o foco do realismo, o clima sombrio passa a ser colorido e perde temporariamente a força, – apesar que é normal, pois seria impossível sustentar uma hora e cinquenta minutos de sustos – recuperando somente nos minutos finais.

“Invocação do Mal” chegou aos cinemas para assustar e, apesar de não figurar na lista dos “melhores filmes de terror de todos os tempos” – algo que nunca pretendeu, inclusive – consegue se sair muito bem e faz jus a sua proposta. Agora é esperar pelas continuações para vermos quais outras aventuras Ed e Lorraine Warren se meteram na vida.

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Possessão demoníaca no cinema

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O cinema de terror nos anos 60

Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais importantes para a história do cinema de terror, isso porque antes era produzido muitos filmes onde o medo era traduzido em forma de monstros. Filmes da Universal e Hammer eram feitos aos montes, e nomes como Frankenstein, Drácula, O Fantasma da Ópera etc, eram os grandes chamariz.

É então na década de 60 que começamos a ter, efetivamente, diretores trabalhando o sobrenatural mas, claro, sem deixar nossos queridos monstros de lado. O sobrenatural atingia níveis que refletiam a própria situação da sociedade – leia-se espíritos, fantasmas, possessões, terror psicológico e os famosos filmes de exorcismos ou que envolviam, de modo mais literal e cotidiano, o demônio.

O grande clássico Psicose ( 1960 ) dirigido pelo mestre Alfred Hitchcock, trazia consigo uma série de inovações. Como a “introdução do terror psicológico”, inversão do papel da protagonista, tratamento interessante do vilão etc.

Não que anos antes não existisse filmes diferentes ou que os já citados filmes da Universal e Hammer fossem ruins e vazios, muito pelo contrário. Todos sabem – ou deveriam saber – que diversas criaturas partiram do medo real do homem com as bombas nucleares, por exemplo. O que quero dizer é que a sociedade precisava de uma abordagem diferente no gênero terror, esse que é o gênero que mais extrai características da realidade e, por consequência, atinge uma dificuldade inacreditável para se trabalhar, afinal, despertar o medo não é algo fácil de se fazer.

A produção cinematográfica no mundo inteiro estava em plena transformação, pessoalmente, acredito que os anos 60 e 70 foram os melhores para os filmes de terror por conta da diversidade de temas e relevância dos trabalhos para a arte do cinema. Inglaterra, Japão, México, Itália, enfim, todos esses países produziram obras na década de 60 que destacam muito bem toda essa reflexão como Onibaba ( 1964 ), Kwaidan ( 1964 ), Yabu no naka no kuroneko ( 1968 ) e Jigoku ( 1960 ) no Japão, Hasta el Viento Tiene Miedo ( 1968 ) no México etc.

Possessão demoníaca no cinema

Como um fragmento dos diversos temas que seriam trabalhados com maior propriedade nos anos 60, tem um em específico que perdura até a atualidade – de forma trágica na maioria das vezes, é verdade – que é os filmes de possessão demoníaca ou de exorcismos.

Exorcismo é uma prática feita para expulsar entidades malignas de alguém ou algo, na verdade esse ritual é muito antigo e quase todas religiões tem uma ligação com essa palavra, de formas diferentes e necessidades diferentes, o fato é que o exorcismo está muito presente, mesmo que oculto, nas mais diversas crenças.

O primeiro filme que aborda a questão, de forma literal, é um polonês chamado “Madre Joana dos Anjos” de 1961, inclusive tem uma crítica aqui no site sobre ele ( clique aqui ). Dirigido pelo Jerzy Kawalerowicz, esse filme tem uma atmosfera incrivelmente obscura, aborda a possessão de forma psicológica e muito, mas muito filosófica. Deixa qualquer fã de Begman maluco!

Outros filmes que posso citar aqui é “The Devils” ( 1971 ) dirigido pelo Ken Russell e que se baseia no mesmo fato real de “Madre Joana dos Anjos” – uma onda de possessões em diversas freiras em uma cidade pequena – porém é muito mais gráfico, transgressor, subversivo e, para alguns, doentio. Se trata de uma obra imprescindível para quem gosta de cinema.

E, claro, o maior e mais conhecido filme de exorcismos de todos os tempos: “O Exorcista” ( 1973 ). Apesar do clássico dirigido pelo William Friedkin ser extremamente poderoso visualmente, os artifícios mecânicos, bem como a atmosfera traz o cinema de terror à um patamar inédito. O incrível é constatar que mesmo se tratando de um filme que aborda o sobrenatural, ainda há lacunas para a dúvida. Seria esse mundo desconhecido realmente real ou tudo não é somente problemas psicológicos?

Se você, caro leitor, fica incomodado com os diversos filmes de exorcismos atuais e se incomoda com o fato de que muitos copiam descaradamente o clássico de 1973, saiba que o mesmo também copiou muito os já citados “The Devils”, “Madre Joana dos Anjos“, “Il Demonio” e, eu citaria também, um filme chamado “Incubus” 1966.

No caso do filme Italiano “Il Demonio” (1963 ), dirigido pelo Brunello Rondi, dizem que a Warner até chegou a vetar a exibição do filme em terras norte americanas por conta de temer a notícia de que o clássico se “inspirou” para realizar algumas cenas. Por exemplo, você sabia que aquela cena em que Regan desce as escadas invertida, parecendo uma aranha, foi retirada desse filme italiano? Não? Então compare:

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“Il Demonio”, mais do que um filme de exorcismo, é uma obra que analisa de forma minuciosa o papel feminino, envolta de muita opressão por parte da igreja, ignorância e o próprio homem. Recomendo a leitura da minha crítica ( clique aqui para ler )

Além da já citada cena que o clássico de 73 copiou, há ainda alguns pontos semelhantes como enquadramentos, um momento específico onde acontece a primeira “manifestação demoníaca”, algumas mensagens sexuais e a ousadia em trabalha-las direta ou indiretamente e, dentre outras coisas, a personagem feminina. Afinal, vocês já repararam que a grande maioria de filmes de possessão é uma mulher que recebe a entidade e não um homem?

Agora, voltando bem rápido ao “O Exorcista”, se você gosta de conferir coisas novas e interessantes, bem como engraçadas, sugiro duas versões que surgiram no ano seguinte que copiaram na cara dura o filme. Uma é italiana: “L’Anticristo” ( 1974 ) e o outro pertence ao movimento blaxploitation, norte americano mesmo, chamado “Abby” ( 1974 ). Claro, esse segundo é para amantes de filmes B e querem dar uma boa risada.

Bem, seguindo os anos, chegando aos atuais, poucos que trabalham o tema da possessão demoníaca me atraem. Muitos ignoram o fato de que é preciso trabalhar a dúvida, criar expectativa, ter respeito pelo tema e simplesmente utilizam os exorcismos como ferramentas para chamar a atenção e criar um medo embalado como “produto para reunião de amigos no cinema”.

Destaco obras como “O Exorcismo de Emily Rose” ( 2005 ) – que se desenvolve como um filme de tribunal, isso é muito interessante, assim como o caso real que foi inspirado. Eu já escrevi sobre ele ( clique aqui para ler ) – “Invocação do Mal” ( 2013 ) esse é um bom exemplo de filme que cria a expectativa e transforma a entidade maligna em uma força onipresente, antes mesmo do momento da possessão.

Enfim, poderia citar outros, mas minha proposta nesse artigo é apresentar os clássicos para quem não conhece. Espero que gostem e que procurem os citados, qualquer coisa é só me chamar. Aliás, deixem nos comentários outros bons filmes de exorcismo, recentes ou não. Abraço e tenham medo!

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Il Demonio, 1963

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★★★★

Uma declaração do diretor Brunello Rondi – famoso por escrever roteiros com Federico Fellini – exemplifica bastante as qualidades principais do clássico esquecido “Il Demonio”: “Minhas personagens femininas expressam suas neuroses através do corpo”. Por essa frase, que demonstra uma preocupação com a figura feminina – e isso é maravilhoso – podemos entender melhor a atuação inesquecível da talentosa e lindíssima Daliah Lavi que permanece constantemente entregue a sua personagem que, por sua vez, está entregue a insanidade e opressão. Se trata, sem dúvida, de um trabalho inesquecível da atriz que, em 1963, também trabalhou com um gênio do cinema Italiano chamado Mario Bava no filme “O Chicote e o Corpo”.

“Il Demonio” se passa todo em uma pequena vila, onde as pessoas são movidas por uma fé extrema. Purí, a protagonista, é uma mulher apaixonada por um ex-amante que está prestes a se casar com uma outra mulher, no entanto Purí faz uma magia negra para ter o amado ao seu lado, passa a ser perseguida por um demônio até ser fatalmente possuída por ele. Aliando-se a isso, tem o fato de que a crença da população seja os olhos do espectador, ou seja, eles caçam a moça chamando-a de bruxa, no mesmo tempo que o sobrenatural dá espaço à temas como opressão a mulher, manipulação da igreja, abuso do homem e consequências da ignorância.

Uma coisa que difere bastante esses filmes antigos sobre possessões demoníacas com os recentes, é o desenvolvimento. Enquanto os antigos se preocupam com os espaços para as dúvidas, os recentes apelam exclusivamente para o sobrenatural. “Il Demonio” é uma obra sobre uma mulher devastada pelo seus próprios sentimentos e estuprada pela ignorância alheia.

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Antes de mais nada, na introdução, é dito que se trata de uma obra baseado em um fato real, depois a primeira cena é a protagonista fazendo a magia negra, pega o sangue do seu peito, representando o seu leite, alimentação para sua criação. Um amor que não existe, até mesmo a paixão é nebulosa aqui, se tratando apenas de uma obsessão. A própria moça não entende os seus desejos.

Na cena seguinte ela dá o seu sangue, misturado com vinho ao homem que ama afim de enfeitiça-lo. Interessante ressaltar que esse feitiço nunca acontece de forma literal, restando apenas metáforas, podemos, então, atingir a interpretação de que tudo se trata apenas de um desequilíbrio psicológico. A crença extrema na sua criação faz com que a menina tome medidas drásticas e que nem ao menos conhece, como a magia negra. Não a toa, a cidade é extremamente supersticiosa, o misticismo que os cerca acaba, por consequência, aprisionando aquelas pessoas e distanciando-os do conhecimento. Algo extremamente comum, principalmente na idade média.

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Purí é tratada de forma selvagem, o seu amado diversas vezes a empurra, arrasta pelos cabelos, até mesmo o seu pai a chicoteia em sua própria cama por ser “diferente”. Na primeira “manifestação demoníaca” ela reage de formas bem específicas como: puxa o seu cabelo de forma muito parecida com o que o seu amor faz, se machuca e toca em sua vagina – aliás, a sexualidade está muito presente nesse filme.

Ela ainda é estuprada por diversas vezes, de forma subliminar. Uma durante uma fuga, em que está ao lado de diversas ovelhas brancas – e ela de vestido preto, como se fosse uma ovelha negra – e a outra por um padre. A trilha fantástica que sempre ressalta tensão não traduz o sobrenatural que a protagonista teima estar vivendo, mas sim o quanto essa mulher é mal tratada por outros.

Um exemplo disso é uma cena onde ela está caminhando com outras pessoas com uma pedra na mão, em dado momento todos tem que gritar o seu pecado para se livrar dele. Uma senhora grita que roubou a galinha do vizinho, um senhor fala que teve desejos sexuais pela filha de 16 anos – algo abominável – mas as pessoas só ficam horrorizadas quando Purí afirma que o seu pecado é conversar com o demônio.

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No mesmo tempo que o filme levanta essas questões, graficamente ele apresenta o outro lado, expõe também algo mais sobrenatural. Como por diversas vezes ela parece ouvir vozes, encontra com Salvatore perto do lago, um garotinho que morreu tempos antes pedindo água para sua mãe, chegando até mesmo ao ponto onde, finalmente, teremos a famosa cena de exorcismo na igreja em que a moça vira de ponta cabeça como uma aranha. Algo que posteriormente, em 1973, foi copiado por “O Exorcista”.

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No mesmo tempo que temos essa aproximação com o sobrenatural, voltamos imediatamente à crítica a religião quando a câmera se torna subjetiva e o espectador olha a igreja de ponta cabeça, sob os olhares da Purí. Como se aquele lugar, aquelas crenças estivem sendo corrompidos, há uma subversidade na protagonista pois passa, inconscientemente, a pensar criticamente sobre a sua própria situação.

O resultado é chocante para a época, revelando-se como um filme extremamente ousado e inteligente, principalmente se tratando de uma década tão conservadora. É um grande clássico esquecido pelo tempo e que certamente inspirou diversos outros clássicos.

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