Ao Cair da Noite (2017)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults

O mundo desiste e os humanos enfrentam a devastação, o silêncio, o antes. O perigo sempre está um passo a frente em It Comes at Night (2017), os personagens são comprimidos em todos os sentidos, visualmente envoltos de sombras, ambientes estreitos, ainda que as luzes representem a fuga espiritual e psicológica, mas a consciência da iminente finitude desperta as condições mais primitivas do ser, a proteção familiar e vinculação afetiva assumem o mandato e a esfera trabalhada é a política, onde a teia familiar passa a representar um Estado, regendo sua continuidade em base à desconfiança, e é justamente essa posição filosófica no sentido metafórico e frágil enquanto realidade, que se origina o terror nesse longa: a negação intensa das circunstâncias do mundo em prol à prolongação da vida, é justamente o motivo da desestruturação desse Estado criado pela mãe, pai e filho (Carmen Ejogo, Joel Edgerton e Kelvin Harrison Jr., respectivamente).

Nesse sentido, é interessante perceber que o inimigo aqui é a própria sensação de perigo, como um vazio rastejante do externo; quando uma segunda família é apresentada, imediatamente o espectador percebe que a desconfiança mútua é consequência da realidade e que de nenhum personagem é mau, mas todos são frutos da condição selvagem que a sobrevivência exige. Retomando ao princípio, o escuro aqui trabalhado é o mesmo da pré-história, o limite físico e mental fica ainda mais intenso a partir do momento que não há o deslocamento.

As paredes da casa aprisionam todos e, por esse motivo, não existe expectativa de fuga. O designer de som é tão extremo que parece eterno, a narrativa cautelosa reforça a verdadeira intenção de investigar a família no seu âmago e disfuncionalidade.  Um pai é historiador e o outro é ligado com trabalhos braçais, a diferença é atenuada e a exploração mental é a mesma, ainda que o primeiro esteja em forte (des)vantagem por estar vinculado a um lar. Em dado momento, os dois compartilham uma bebida e a garrafa em cima da mesa é visualmente o que os separam. Dois lados quebrados pela perda da consciência.

Seis personagens desconhecem o que temem, mas são íntimos do incômodo. Não à toa a praga assola, primeiramente, os filhos e é a partir deles que surge o conflito físico entre os pais. Quando o futuro supostamente é violado, os poderes não se importam mais em manter escondida a sua guerra.

Ao Cair da Noite (2017) é um filme de drama sob clássicas características do subgênero pós-apocalíptico, mas sua força maior diz respeito ao talento de encontrar, em tais circunstâncias, o terror e relacioná-lo com eventos que ainda não aconteceram. O espectador desconhece os fatos, tampouco os personagens; ao passo que a direção do Trey Edward Shults merece menção por nunca deixar que essas lacunas façam com que o roteiro perca o ritmo. Pelo contrário, os poucos personagens se agigantam em momentos variados e a fotografia de Drew Daniels – que já havia trabalhado com o diretor no ótimo Krisha (2015) – repleta de simbolismos acrescenta ainda mais na experiência catástica que esse filme proporciona. O medo que emana do interno do homem é, sem dúvida, o mais assombroso que existe.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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