Wend Kuuni, 1983

Wend Kuuni (Idem, Burkina Faso, 1983) Direção: Gaston Kaboré

Burkina Faso é um país altamente pobre do continente Africano. A pequena população passa fome, as crianças, na sua maioria, são desnutridas, ao ponto de terem que se alimentar de lagartas das árvores de karité para sobreviver. Mas uma curiosidade que chama muito a atenção é que o pequeno país produz uma quantidade enorme de filmes, inclusive sedia o maior festival de cinema do Continente Africano: o Fespaco.

Inclusive um filme da Burkina Faso já ganhou a Palma de Ouro em Cannes, se trata do maravilhoso “Tilaï”, ou “Questão de Honra” (1990). Essa obra traz consigo um registro visceral do povo, com uma narrativa que se desdobra, dentre outras coisas, em uma relação proibida.

Wend Kuuni foi lançado sete anos antes, dirigido pelo Gaston Kaboré – cujos filmes são raros, mas de extrema relevância quando tratamos sobre o cinema Africano – e que tem em sua essência a linguagem documental. A relevância da obra é justamente acompanhar um povo e a sua rotina, principalmente os seus trabalhos, através dos olhos de um pequeno menino que se perde e é adotado por uma nova família.

Quem interpreta o protagonista, Wend Kuuni, é o Serge Yanogo. Um trabalho impressionante pois determina exatamente a energia do filme, a sua performance é pautada na naturalidade, no entanto a força da sua expressão faz com que a história ganhe novas proporções. É de se notar que todos os eventos partirão da sua, a princípio, incomunicabilidade – o menino, após o trauma de se perder, não tem forças para falar e isso é altamente metafórico -, passando pela adaptação com o novo povoado. Os passos do protagonista representam não só as dores das suas tristes experiências, como também sinalizam o caminho que o espectador percorrerá. A partir dele, vários temas subliminares aparecem, o mais expressivo deles, sem dúvida, é a condição da mulher e o seu aprisionamento dentro do próprio sistema de vida. Isso pode ser ilustrado em dois momentos: um é quando acontece uma briga entre um casal no povoado, onde a mulher se revolta com o seu marido, o qual grita que a castigará fisicamente. O segundo momento é uma pequena garotinha – que passa a ser a irmã do Wend Kuuni – imaginando ser homem, chega inclusive a mencionar uma história de “espíritos que transformam mulher em homem”.

Mas os temas, motivados pela simplicidade do filme, afinal, é perceptível o orçamento quase inexistente, aparecem de forma tímida, sempre enraizadas com a cultura. A proposta é mesmo ser extremamente visceral e tanto o estilo de vida do povoado, quando a paisagem seca, ajudam nessa intenção.

A trilha sonora é constante, a música delicada pontua um cotidiano comum e regrado de trabalho, principalmente o artesanato. Importante ressaltar que o protagonista, na sua outra vida, era um caçador. Portanto precisa se adaptar, também, a um estilo de vida equilibrado, mesmo diante a fome e pobreza.

Mesmo que Wend Kuuni nunca atinja um ápice dramático, se trata de um filme altamente importante do país, principalmente por se tratar de uma arte altamente real. Existe muita beleza na simplicidade das cenas, das atuações e da própria história. O cinema parece ser feito disso, oportunidades únicas e ideias que captam a realidade de determinado grupo social, indivíduo sem lugar e adaptações com o diferente. O potencial dramático de um garoto calado, sofrendo suas dores sozinho, é grande, principalmente quando ele representa a história e condição de um país inteiro.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

CdA #18 – A Vida Sobre a Terra

10342916_10205005422799460_5151943242282271346_n

Download

Emerson Teixeira Sandro Macena conversam sobre “A Vida Sobre a Terra” ( 1998 ), filme do Mali que retrata a pobreza do país através do olhar de um cineasta, que regressa ao seu lugar após um tempo na França.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube