Entre a solidão e o suicídio

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Sala do Suicídio, 2011

A depressão é, hoje mais do que nunca, a maldição que rege, indiretamente, o homem. Sempre existiu o existencialismo, as dúvidas sobre o porquê das coisas e até mesmo o suicídio. Mas o mundo se transformou de tal maneira que é impossível, em algum momento da vida, não perceber a prisão invisível que construímos em nossa volta. Estamos enclausurados na expectativa, nas regras sociais, no conhecimento e sistema, isso sem contar a rotina.

Houve um tempo onde havia protestos e boa parte dessa rebeldia consistia em ser livre, estar por aí, caminhando pelas ruas e conhecendo o maior número de pessoas possíveis, doando-se e aprendendo. Atualmente o nosso meio de desabafo é algo ainda mais perigoso do que a realidade: a internet.

É louco pensar que existem milhares de pessoas nesse mundo que poderíamos nos identificar de forma monstruosa. Poderiam contribuir com o nosso crescimento ou morte mas, de todo modo, afetariam drasticamente a nossa existência. Porém isso não acontece por um motivo: distância.

Existe distância entre todos nós e, de certa forma, ao longo do tempo, ela sempre nos manteve seguros. Claro, com o advento da tecnologia essa barreira foi quebrada e bastou poucos anos para a Internet funcionar como uma grande família, onde todos têm voz e, principalmente, podem ser quem quiser. De fato, o mundo virtual se trata de uma grande máscara, onde as pessoas conseguem se livrar da sua própria imagem mentirosa do dia a dia e passa, com muita facilidade, a pertencer à um grupo.

Chegamos ao jovem que, em pleno desenvolvimento, se vê cercado de expectativas ou falta delas, seja por oportunidade ou força de vontade. Então é questão de tempo para enxergar na Internet uma possibilidade real de ser aceito ou até mesmo buscar exemplos que, por sua vez, conseguiram sucesso nesse outro mundo e parecem levar uma vida perfeita no Instagram.

A máscara que existe no mundo virtual é tão bonita e tentadora que poucos percebem esse problema invisível que temos hoje e que, infelizmente, a tendência é crescer.

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“Sala do Suicídio” ou “Sala Samobójców” é um filme polonês dirigido pelo jovem diretor Jan Komasa e, antes de mais nada, é preciso louvar a atitude do artista em realizar uma obra tão impactante e visceral sobre toda essa discussão dos impactos do mundo virtual no jovem. O diretor parece querer buscar a essência da dor e sentimentos mais obscuros do jovem quando traz temas atuais como o próprio cyberbullying e homossexualidade, esse segundo, inclusive, é abordado na obra de forma extremamente sútil.

Ainda mais, ele se preocupa em unir a parte estética – a fotografia, por exemplo, na maioria das vezes permanece em um tom azulado, demonstrando a frieza do protagonista com ele mesmo e para com o mundo que o cerca – com uma proposta imersiva, onde há uma mistura de jogos que permite ao espectador adentrar literalmente na cabeça do protagonista, visto que ele passa a pensar através de um monitor e com amigos virtuais.

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A história é sobre um garoto chamado Dominik que anda solitário na escola, porém esse detalhe não o afeta. Vive em um mundo próprio e não se intimida, inclusive, com o seu visual alternativo. As coisas começam a mudar quando, em uma festa da formatura, ele é desafiado pelos amigos a beijar um colega da sala dele, esse desafio é aceito em meio a muitos risos e diversão mas tudo isso está sendo filmado. Começa então nas redes sociais – após o vídeo ser publicado – uma série de gozações e discriminação que só se agravam quando, em uma aula de judô, Dominik se excita com o mesmo menino que beijará alguns dias antes.

A partir desse ponto o protagonista começa a refletir sobre sua vida e observar, também, os pais que lhe dão de tudo, menos atenção e carinho, ele resolve se refugiar no seu quarto em um jogo de simulação da realidade, onde participa de um grupo ou mundo conhecido como: sala do suicídio. Aparentemente composto por pessoas incompletas na realidade que se sentem completos modificando os seus avatares no mundo virtual.

Existe diversas inserções desse jogo ao longo do filme que, nas maioria das vezes, serve como uma boa ferramenta para compreender o protagonista que, do segundo ao terceiro ato, se desenvolve através de conflitos internos, ou seja, é difícil o acesso que o espectador tem com eles no mesmo tempo que essa barreira faz jus ao sentimento de incapacidade que os pais de Dominik sentem em não conseguir ajudar o filho e perceberem a sua carência muito tarde.

A cor quente só aparece no filme no começo, quando Dominik visita o trabalho da mãe – ironicamente o garoto não consegue conversar com ela pois está ocupada, ou seja, como se a cor representasse um outro universo cujo protagonista é apenas um intruso. Nessa mesma cena ele se conforta assistindo vídeos de auto-mutilação.

“Mundo fechado, feridas abertas”

Dominik por diversas vezes pede silêncio, seja no carro do seu pai ou até mesmo em um ônibus, como se qualquer som produzido por aqueles que existem o incomodasse. O personagem se arrasta com uma corrente amarrada nos pés, um escravo do seu tempo. E os seus pais são sempre apresentados de forma rápida e superficial, como se estivessem atarefados constantemente e, uma prova dessa diferença do filho, é o figurino, eles estão sempre muito elegantes, independente da situação, a mãe na maioria das vezes está com um cachecol enorme, como se estivesse sufocada com aquele casamento ou com o fato de ser mãe.

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“Sala Samobójców” começa leve e vai se tornando cada vez mais desgastante, isso porque o sentimento do protagonista invade a história, como um vírus. A densidade e sensações são tamanhas que, sem dúvida, pode ser um perigo para quem passou ou passa por depressão, até mesmo o suicídio aqui é tratado de forma muito crua e realista.

Impossível não elogiar o trabalho do ator Jakub Gierszal que se esforça muito para transmitir todo tipo de dor da personagem e, para isso, trabalha de forma impactante com todo o corpo. O choro muitas vezes confunde, o olhar sob o brilho da tela do notebook, enfim, é uma linda organização dos detalhes e a entrega do jovem ator só aumenta o drama. Sem contar a beleza de Jakub que, nesse filme, funciona como uma outra demonstração da quebra do personagem que, ao final, se mostra extremamente debilitado fisicamente.

Outra personagem que chama muito atenção é a Sylwia, com seu cabelo rosa e uma máscara – representando visualmente a Internet e sua “função social” – ela é o “outro lado do mundo”, o ser humano que só pode ser encontrado por causa da Internet, ela impulsiona Dominik para o fim, no mesmo tempo que o ajuda a encontrar uma explicação, tudo isso de forma indireta pois Sylwia é tão vazia quanto o protagonista. Ambos vivendo em seus quartos, suas prisões, sendo monstros de sua própria existência.

As cenas finais é de arrepiar, a conclusão do jovem e suas infinitas ilusões, a vida adulta que parece confusa e interminável, o amor desperdiçado, enfim, viver é realmente muito complicado, principalmente para os mais sensíveis.

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“-Por que você usa uma máscara?
– Me protege de pessoas perigosas, de substâncias.”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #46 – Teus Olhos Meus

teus olhos meus

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No episódio #46 do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, André Albertim e Cliff Rodrigo se reuniram para discutir o filme nacional “Teus Olhos Meus”. Uma obra que contempla o jovem, propõe uma abordagem interessante sobre o sentimento de solidão e o ser humano perdido.
No podcast, comentamos brevemente sobre a rebeldia retratada no filme, relação homossexual e muito mais. No fim, a resposta que nos rondou é: Seria “Teus Olhos Meus” um hino?

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Teus Olhos Meus, 2011

teus olhos meus

★★★★

“Respira Emerson…. respira Emerson… calma.” – Meu pensamento durante todo o filme.

Um dia cheguei em casa revoltado, no meio de uma discussão falei “eu vou embora, vou morar na rua”, minha irmã na época com uns 8 anos, começa a chorar. Algum tempo depois, conversando sobre esse dia, eu pergunto o motivo do seu desespero, ela me responde “porque eu sabia que era verdade”.

Eu tenho uma relação intima com a rua e eu tinha uma relação complicada com o lar. Talvez exista uma ânsia dentro de cada um, a minha era uma sem respostas, nada me satisfazia. Hoje me sinto mais um animal enjaulado do que uma pessoa que superou suas necessidades. Hoje, com vinte anos, aprendi que o equilíbrio é muito importante e que existem outras formas de fazer as coisas.

Tenho vinte anos. Curiosamente, Gil tem 20 anos. Curiosamente, Gil é órfão, eu não. Mas inexplicavelmente me sentia assim. Curiosamente, Gil vai para as ruas e percebe que isso não é exatamente o que esperava. Até o seu violão é roubado, o que mais podemos esperar do mundo então? Esse lugar hostil, repleto de enigmas. Espera, será possível que o mesmo mundo que me apunhalou pelas costas, pode um dia desses, eventualmente, apresentar o meu amor? Será possível que no mesmo instante que estou brigando com a minha família em casa, haja crianças sorrindo na rua? Onde mora, onde se encontra as respostas?

 Eu tive a experiência de assistir “Teus Olhos Meus” sem saber nada sobre, sem ter lido nada. Me deparei com algo muito pessoal, muito intimo da minha personalidade, coisas que vivi, sentimentos presos na garganta. Se não fosse o suficiente, o diretor Caio Sóh trabalha a música, que tanto amo e, mesmo sem ser músico, tanto me fez companhia em momentos que estava perdido, sozinho.

“Se eu pudesse fazer um aviãozinho de papel com a minha vida e tudo que vivi até aqui e jogar para longe”

“Teus Olhos Meus”, essa frase representa a mais elevada possibilidade de encontro. Há uma fusão, um mundaréu de pensamentos que nos fazem questionar a importância de procurar direito. Por quanto tempo eu andei pelas calçadas, pensando, tentando encontrar motivos nos lugares errados, agindo da forma errada? Olha onde parei. No lugar mais improvável.

Não sabia, sinceramente, que o filme se tratava de uma relação homossexual e, eu que tanto trabalho essa questão, fiquei surpreso e feliz, pois no mesmo tempo que agride os mais conservadores, leva ao extremo a ideia de que você pode e deve se encontrar e, por muitas vezes, isso só acontecerá nos lugares menos óbvios possíveis.

Talvez a vida seja feita de uma simbiose com um outro, talvez a solidão só esteja presente até o momento que o seu coração esteja confortável. Talvez o confortável não seja apenas o cômodo. Talvez seja preciso perder tudo para, enfim, aproveitar o todo.

Talvez o homem seja preconceituoso demais, talvez o homem tenha crenças demais ou, simplesmente, ele aja conforme seus impulsos mais primitivos: se proteger. Afinal, o mundo – leia-se homem – não está aberto a outras formas de amor, não recebe bem a mudança, confunde isso com desvalorização, com baixaria. Será o homem cabível de julgamento?

“Teus Olhos Meus” não é um primor técnico – nem deveria -, não é um filme muito conhecido, mas faz parte daquelas raridades que primam pelo amor. Independente da forma.

É tanta reflexão, tanta verdade, que nos confunde ao tentar mensurar a grandiosidade dos seus ensinamentos. As atuações leves, naturais e, inacreditavelmente, densas dos protagonistas Gil e Otávio – interpretados por Emilio Dantas e Remo Rocha respectivamente – dão ao longa uma propriedade tamanha no que diz respeito a palavra. As frases filosóficas, existenciais ganham uma nova forma quando dito de forma tão singular.

“Vou fazer uma coisa que eu deveria fazer todos os dias[…] Tô com medo de voltar a ser quem eu sou”

Gil e Otávio trocam bastante, como forma de elogio, a palavra “especial”. Principalmente o Gil que faz isso na inocência, sem saber, de fato, a importância dela para uma pessoa com o emocional abalado como Otávio. No mesmo tempo que quando Otávio diz “seja genuíno”, parece prever o que está se passando com o seu mais recente amigo.

Gil é capaz de “engolir a parte mais triste da vida”, ele consome o meio, ele traduz a intensidade do jovem, ele, por fim, acaba representando a opção. Não havendo limite na sexualidade, pois ela é frágil perante o sentimento.

“- Como é que eu faço para te achar? 
– Isso é uma coisa que eu também tô querendo saber”

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Eu e Você, 2012

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★★★★★

Bernardo Bertolucci dava indícios de que não voltaria a dirigir novamente, depois de um estrondoso sucesso, filmes como “O Último Imperador” e “Último Tango em Paris” parecem ser os mais aceitos pelo grande público. Por ora destaco a capacidade única do diretor em brincar com a sexualidade do homem, em prol a uma análise profunda sobre o seu desenvolvimento, enquanto inserido em uma sociedade.

Em “Os Sonhadores”, de 2003, ele provocava com o sexo, belezas puras e estonteantes de atores como Michael Pitt e Eva Green, mas usava esse delicioso artifício para compor todo um pensamento que ia de encontro com uma crítica social, unindo com diversos outros elementos, como por exemplo a metalinguagem, ao resgatar com propriedade o próprio cinema para estruturar as personalidades de suas personagens.

“Eu e Você”, que é o mais recente trabalho do diretor, baseado no romance homônimo de Niccolo Ammaniti, também é eficaz enquanto obra provocante. Bem mais singelo do que o destacado acima, ele se torna especial exatamente por esse motivo. As metáforas visuais são bem mais contidas, indo em direção ao que os personagens estão passando naquele momento. Se em “Os Sonhadores” a nudez era uma metáfora, aqui o amor e família são pontos chaves a serem desconstruídos.

Lorenzo ( Jacopo Olmi Antinori ) tem 14 anos, prestes a fazer uma viagem com a escola, ele decide no último momento em não entregar o dinheiro para a professora e fazer compras. Compra comida o suficiente para sete dias, o seu objetivo é o seguinte: se trancar no porão do seu apartamento, viver ali isoladamente, enquanto mente para sua mãe que está na viagem com a escola. Esse plano dá certo até que sua meio-irmã aparece, usuária de drogas, ela está procurando um refúgio, ou seria uma companhia?

Eu sou uma pessoa existencialista, não entendo e nunca entendi muito bem o meu propósito. Até ai tudo bem, o problema é quando você faz dessa ausência de respostas um motivo para nunca estar completo. Nada proposital, eu garanto. Por muito tempo não sabia como lidar com a obrigação de me sentir perdido constantemente, por diversas vezes me encontrei querendo estar sozinho, seguindo caminhos diferentes daqueles que a rotina grita em nossos ouvidos, mentindo para pessoas que amo, enfim, tudo motivado exatamente pela frustração de não haver um objetivo concreto, ou pelo menos não conseguir senti-lo.

Observando sobre esse aspecto, eu senti que o filme era um retrato da minha vida. Mesmo que com algumas diferenças gritantes, a sensação de precisar estar trancado foi muito semelhante na minha vida.

Lorenzo mente para ficar só, pois sabe que se não fosse para a viagem, haveria discussões, no mesmo tempo que se decidisse ir, estaria solitário do mesmo jeito. Visto que desde o começo do filme o garoto aparenta estar extremamente desconectado com os demais colegas. Temos então um personagem aparentemente sem propósito, nem mesmo sua decisão é fruto de uma maturidade. É derivado da irresponsabilidade? Talvez. Apesar de considerar muito precitado um julgamento, pois a reação que ele teve é necessária para uma auto descoberta, onde o isolamento desabrochará como uma oportunidade para um feliz e enigmático reencontro, não com uma irmã, mas com um espelho.

Se no primeiro ato temos o personagem lidando com os seus conflitos, se ajustando a sua nova fase, mesmo que ela tenha um tempo limitado para existir, na segunda somos arrebatados para um drama ainda mais profundo, não desvalorizando a primeira, pois ambas caminham de mãos dadas, mas é inevitável a comparação. Quando a Olivia aparece, há um confronto entre a ilusão e realidade. Se o filme fala sobre a necessidade do ser de criar muros em volta de si mesmo, a partir de então temos uma personagem  voyeur, que espia com uma elegância impar em cima do muro do Lorenzo, que protege o seu coração com o máximo de dedicação possível.

Os dois estão em busca de isolamento, para disfarçar uma fuga, e no caso dela é muito mais assimilável, pois está tentando sair das drogas para, enfim, viver uma vida ainda mais distante – a mesma afirma diversas vezes que deseja morar no campo. A droga, aqui, é uma metáfora, representa a vivência, o entender do meio. Enquanto o menino recusa suas oportunidades sem nem ao menos tentar, conhecendo assim pouco do mundo, Olivia é uma diplomada do vento, já viveu o suficiente para entender como as coisas são.

Percebam como a todo momento, ela age como se tentasse definir o seu irmão, é quase uma consulta. Isso ficará ainda mais ilustrado a seguir, quando ela revela que fazia trabalhos fotográficos, explica um dos ensaios e usa a seguinte explicação:

Eu sou um muro. Basicamente sou eu que me torno um muro. Eu entro no papel de parede dentro do gesso […] Praticamente eu queria me desmaterializar, você e eu se não tivéssemos mais um ponto de vista seriamos iguais, certo? Isto é, sem um ponto de vista deixaríamos de estar um contra o outro e aceitaríamos a realidade como ela é, sem julgá-la. […] Foi a droga que me deixou negativa, antes eu conseguia estar dentro dos muros.

Percebe-se, por esse diálogo, junto com a boa interpretação da atriz – há de ser destacado o trabalho da Tea Falco, bem como ressaltar a curiosidade de que ela, na vida real, também se interessa muito por fotografia – que a personagem é uma exímia observadora da vida, uma devoradora de existências, ela parece no início do filme extremamente vazia, mas era simplesmente influência da droga, quanto mais vai ficando limpa, mais percebemos a sua capacidade intelectual e, mais do que isso, sua sensibilidade. Aliado a isso, estranhamente, temos o fato de que mesmo com toda maturidade e personalidade, a mesma esteja perdida, dependendo de um outro alguém para analisar, como se precisasse do mundo para se inspirar e, assim, respirar por mais um dia.

É de uma importância tão grande, de um carinho confortável, que independente da qualidade da fotografia, que deixa a desejar em alguns momentos, nos prendemos aos pontos positivos, como metáforas visuais, ligando o personagem Lorenzo com as formigas ou até mesmo o tatu que, dentro de sua gaiola, anda em um movimento que se assemelha ao simbolo do infinito, no mesmo tempo o garoto também, em um momento de tédio, faz a mesma coisa. Ele está em um porão fechado, com somente uma janela, sozinho e sem nada para fazer, o movimento do infinito representa a interminável sensação do garoto de estar daquela maneira, mesmo que supostamente livre. O local “porão” é só um detalhe, pois tudo é um porão para ele.

O espaço sujo e apertado é, afinal, um reflexo dos dois, que são diferentes, mas exatamente iguais, se não fosse pelo ponto de vista, ou seja, experiência. Ele bebe calmante para aliviar a sensação de aprisionamento e ela para passar a dor. Os dois, de fato, são escravos da ausência de amor, crias do abandono.

Não poderia terminar de outra forma, que não destacando a cena mais importante – pessoalmente uma das mais bonitas que eu já vi a vida – onde Olivia começa a interpretar a música Ragazzo Solo, Ragazza Sola do David Bowie, olhando profundamente para o seu irmão e esse a aplaudindo, aliás, a música é tão linda e encaixa tão bem, que parece que a história foi desenvolvida a partir dela.

Minha mente decolou,
um pensamento
apenas um
Eu caminho enquanto a cidade dorme
Os olhos dela na noite
faróis brancos na noite
uma voz que fala comigo
quem será?
Diga, garoto solitário para onde vai?
por que tanta dor?
você perdeu, sem dúvida, um grande amor
mas de amores a cidade está lotada
não, garota solitária
desta vez você está errada
não perdi apenas um grande amor
ontem à noite eu perdi tudo com ela

Reparem que no exato momento que começa o trecho “Diga, garoto solitário para onde vai?”, ela puxa o seu irmão e o abraça, logo em seguida em “você perdeu, sem dúvida, um grande amor” ele, até então contido, abraça sua irmã com toda força possível. Como se quisesse dizer “sim, você entendeu tudo, mesmo que eu mesmo não entenda”.

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