Lisa e o Diabo (1972)

Lisa e o Diabo (Lisa e il diavolo, Itália, 1972) Direção: Mario Bava

Lisa é uma de nós, uma mulher que se sente perdida e enclausurada em meio à uma cidade magnífica (Roma) mas que, assim como qualquer outra, engole todos aqueles que não estão profundamente conectados com o meio. E tudo é assim, se o ser não está vinculado aquilo que vê, não está completo. E são nessas lacunas existenciais que o Diabo se aproveita para provocar a vertigem.

Lisa anda pela cidade, sua postura é tipica de uma turista. Tudo seria absurdamente normal – afinal, ser turista é dialogar com o alienígena que mora em si – se não fosse a devastação subliminar provocada pelo silêncio. Um medo intrínseco do homem e que o remete aos mais profundos pesadelos é a incomunicabilidade com os demais. O medo brota como uma semente no estômago, ele cresce e ganha formas, depois como em um golpe o pavor não se contenta em se manter escondido e foge. No entanto, a voz não sai, ninguém olha, definitivamente poucos se importam com o medo alheio ou, simplesmente, nada disso existe. Se não existe? Quem sou? Senão, uma pessoa que está sonhando?

Será que o Diabo se aproveita da vulnerabilidade do sonho? Pense bem, toda uma vida, com sua força, coragem e história, se desmancha e dorme. Acordado ou não, o que de fato importa é que Lisa representa justamente esse estágio inconsciente, onde o desespero trabalha em favor do mal, impedindo que o sujeito acorde.

Elke Sommer atua como se estivesse em um pesadelo perpétuo. Quanto a técnica, a partir de filmagens em ângulos baixos, Mario Bava ressalta a pequenice da protagonista em relação ao lugar onde está.

Essa representação do demônio carregando os mortos vai muito além da arte formal da época. Observem, a imagem de Satã expressa uma qualidade que reflete os mais profundos prazeres demoníacos”

Diversas religiões pregam que a vida cotidiana nada mais é do que um jogo de xadrez entre as forças divinas. Os seres são as peças e precisam percorrer o tabuleiro afim de, no final, escolherem um lado. O que mais causa desconforto nessa ideia, é justamente o fato de não termos capacidade de controlar as nossas vidas. Lisa e o Diabo (1972) é orquestrado pelo Mario Bava a partir dessa ideia e, convenhamos, se trata de um medo primordial do ser humano.

O Diabo aqui – representado pelo Leandro (Telly Savalas) – é o único que realmente tem o controle de tudo. Carrega manequins macabros que simbolizam justamente o ser imóvel, sem vida, petrificado.

Mario Bava conduz brilhantemente um filme desconfortável, é perceptível a aproximação do diretor com o tema e a climatização que constrói com perfeição. Se trata de uma obra repleta de sensações que, quando transmitidas, atingem a mútua compreensão de que o medo é verdadeiro e solitário.

A provocação acontece por sons suaves de harpas, enquadramentos abafadiços e estreitos e personagens atordoados inseridos nesse contexto perverso e onírico. É o horror no seu estado primitivo.

Uma das personagens orando, pressionada pelo enquadramento e sobre um chão que se assemelha a um tabuleiro de xadrez.

 Lisa e o Diabo (1972) é uma obra-prima que oprime e obriga uma atenção total por parte daqueles que o assistem. A mise en scène nunca esteve tão magnífica em um trabalho do Bava, aqui ele atinge o seu ápice e realiza algo enorme dentro do gênero de terror, provando uma sequência de ideias, principalmente no que tange a execução da atmosfera aterrorizante. Assistir esse clássico é como mergulhar em infinitas possibilidades artísticas e metafóricas, todas buscando os passos repetitivos e movimentos circulares. A protagonista anda, corre, se desespera, mas não sai do lugar. No final, “todas as peças do xadrez irão ser guardadas na mesma gaveta”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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As asas do anjo guiaram minha alma

Idiots and Angels, 2008 ( direção: Bill Plympton )

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Lembre-se da atmosfera mórbida dos livros do Charles Bukowski, misture com uma pitada das animações francesas, principalmente um chamado “A Pequena Loja de Suicídios”, depois despeje jazz e as músicas de Tom Waits em uma taça de vinho… e não se esqueça do humor negro; pronto, temos a alma da animação Idiots and Angels descrita apenas com boas referências.

A história gira em torno de um homem conhecido como Angel, arrogante, pretensioso, machista e que odeia o mundo à sua volta. O processo de acordar, para ele, é motivo de irritação e destempero. Sua vida se resume em sentar em uma boate e beber, enquanto aprecia a beleza e deseja uma garçonete. Ele é fruto do ódio, mal-humorado e sem propósito. Um dia, como outro qualquer, começa a nascer asas em suas costas, alterando o seu destino, como o fio de Ariadne, ele vai conhecendo o seu fim.

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Logo quando vemos o personagem acordando, já é perceptível a animação com traços estranhos, rápidos e precisos na concepção de um mundo caótico. O personagem têm expressões fortes, caracterizado como um lobo mal. Ele pega o seu carro e o trânsito também demonstra a uniformidade das aparências: os carros de todos são iguais, o movimento é constante – portanto, impenetrável – e os homens possuem a mesma fúria.

A atmosfera é composta, também, pela brilhante utilização das músicas, intercalando diversos jazz com a trama, todas elas possuem uma simetria com as mais diversas situações grotescas, reforçando até mesmo o humor negro, que é trabalhado em diversos momentos.

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As duas imagens acima sugerem a uniformidade analisada, reforçando a ideia de conceitos regulares e padronizados, transformando o mundo esperança em mundo desastre. 

A personalidade polêmica do protagonista é desenvolvida a passos lentos, traduzindo com suavidade a sua visão sobre o mundo, transformando-o, gradativamente, em monstro. A boate é um templo onde o álcool impera e transforma seres tristes em seres seguros. 

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Todos os personagens da boate possuem os lugares certos, como um relógio que repete os mesmos movimentos diariamente. É possível fazer uma leitura que transforma a boate na consciência do protagonista: o dono é o poder; a garçonete representa o desejo; e a mulher que fica sentada, solitária, no canto, é a exclusão social.

A filosofia existencial é envolta de muito cigarro e bebida, calculando o monótono e preservando a raiva como processo de catarse. Através da maldade, Angel, o herói, recebe as asas como uma criança que aprende a caminhar.

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As asas representam, nitidamente, a moral. Mas não se resumem à ela. Poderia interpretar como algo metafísico, um poder divino curando a maldade do homem com uma ferramenta mística. Mas prefiro a palavra moral que está relacionada diretamente com o processo de rever atitudes particularmente, sem a interferência de terceiros.

Não à toa, o médico se sente fraco e inveja as asas do seu paciente, como se elas fossem a representação do bem na terra, que hipnotiza os homens com a ideia de salvação.

A animação não têm falas, move-se com a imagem através da obscuridade humana. Trata de personagens imperfeitos, sentimentos pesados e maldosos. Sua maior ambição é abordar o tema de forma a mesclar com o onírico, nunca sendo óbvio, significados profundos sobre o caos da condição humana e conseguindo ser grandioso sem exageros.

Assim como o protagonista, o espectador é convidado para uma viagem experimental através do vazio da existência, as asas do anjo guia-nos pela insolência humana e provoca-nos com a dúvida: “existe alguma esperança?”.

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Curta-Metragem – Paura Dentro, 1997

"Paura dentro", Lorenzo Bianchini

“Paura dentro” é um curta-metragem de 12 minutos dirigido pelo Lorenzo Bianchini – o mesmo diretor de “Across the River”. É de se notar que ambos se passam em uma floresta e a utilização do som é muito importante para criar o clima de tensão.

“Paura dentro” começa com uma mulher desenhando uma moça em uma floresta, de forma quase automática ela começa a desenhar, também, uma sombra nesse desenho, como se fosse uma extensão ou um monstro. Depois a protagonista vai dormir e, da forma mais onírica e brilhante possível, percebemos que o seu sonho é o quadro que desenhou. O medo e clima obscuro é trabalhado de forma cautelosa, principalmente com a utilização do som que, por vezes, fica distorcido e estranho.

Os aparecimentos da sombra, ou monstro, são sempre sutis e, apesar de caricato, o impacto é sempre poderoso, visto que estamos diante a um verdadeiro pesadelo e a forma como o diretor trabalha esse tema é realmente muito bom para um curta metragem feito de forma visivelmente simples.

Ver online:

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Eu Sou um Cyborg, e Daí?, 2006

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★★★★

Quem conhece o trabalho do diretor Park Chan-wook sabe o quão prazeroso é acompanhar o seu olhar sobre a obscuridade humana. Mais do que a tensão, o diretor consegue, dentro de cada detalhe, desenvolver uma série de significados que se estendem para toda uma compreensão do homem, que vão desde a insanidade até chegar a monstruosidade.

Eu Sou um Cyborg, e Daí?” é uma obra que na sua narrativa, direção de arte, fotografia, montagem… se difere bastante de toda a atmosfera apresentada nos filmes mais populares do Park Chan-wook – como é o caso de “Oldboy” e “Segredos de Sangue” -, porém, a proposta filosófica é extremamente parecida e, ainda por cima, cria um elo, de forma indireta, entre alguns temas trabalhados pelo diretor anteriormente.

A história é de uma simplicidade e surrealismo sem tamanho, mas existe um toque de realidade e drama em cada cena estranha. Demora poucos minutos para percebemos que essa sensação é movida por uma verdade oculta: Nada poderia ser tão real, perturbador e identificável quanto a loucura de não saber quem é.

Esse e outros dilemas são desenvolvidos através de uma personagem central, Cha Young-goon, que é internada em um hospital psiquiátrico por acreditar que é um ciborgue. A garota rejeita todo tipo de comida e recarrega sua energia com pilhas, trazendo graves consequências à sua saúde. No entanto, um garoto anti-social chamado Park Il-Soon ajudará a protagonista a encontrar um caminho, estabelecendo uma conexão entre a loucura e sobrevivência nesse mundo “normal” que vivemos.

É válido ressaltar que essa ajuda acontece por meio da inocência, totalmente desprendido da razão e entregue a insanidade. Uma relação bem distante do clichê de inúmeros filmes românticos. Ainda mais, em nenhum momento há preocupação em explicar quem são os doentes mentais, até porque os médicos são tão problemáticos quanto, o filme vai muito além e situa o espectador na mente dos personagens – que, por sinal, permanece bem distante da “ordem” e, portanto, em 107 minutos somos transportados para um mundo onírico que se torna ainda mais exuberante com a linda direção de arte e fotografia.

São diversas informações transmitidas através de metáforas e rimas visuais. Elementos como objetivo, dúvida e amor ficam escondidos nos corações de personagens complexos por sua postura livre – destaque para a atuação da Lim Su-Jeong que percorre diversas expressões e utiliza, de forma sábia, o corpo e olhar para compor sua personagem.

O homem moderno oculta muitas coisas para continuar em perfeito ritmo com o sistema; O homem moderno oculta até mesmo sua insanidade. Parece que vivemos em perfeito estado de aceitação e as coisas simplesmente não são assim. Como as coisas são? O que somos? Aquilo que nos foi imposto ou o que acreditamos ser?

Lindo, profundo e poético é a cena em que o casal está lado a lado para testar o “megatron de arroz” e, após ter sido bem sucedido, Park Il-Soon se curva e fica diante ao coração da Cha Young-goon, enxergando, junto com quem assiste a obra, as engrenagens da protagonista, percebendo como tudo está funcionando perfeitamente – apesar das inúmeras imperfeições.

Como seria perfeito um mundo em que nossos problemas pudessem ser resolvidos com doses de inocências. Sorte que existem, espalhados pelo mundo, técnicos especialistas em megatron de arroz, prontos para ajudar a ultrapassar as dificuldades da vida, com garantia para a vida toda e atendimento à domicílio.

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