Musarañas, 2014

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★★★★

Dirigido por Esteban Roel e Juanfer Andrés “Ninho de Musaranho” é o típico filme que agrada bastante, mesmo com toda sua densidade, é altamente envolvente e tentador. Musaranho ou Soricidae é o nome de pequenos mamíferos roedores que são conhecidos pela sua ferocidade, mesmo sendo bem pequenos. Com essa analogia clara, temos a história de duas irmãs: Montse e Hermana. A primeira é a mais velha e sofre de uma doença chamada agorafobia, ou seja, ela tem um medo avassalador de sair de casa ou tudo que vai além dos limites do seu território. Já Hermana possui uma ânsia de viver, tem namorado, enfim, uma vida altamente normal se não fosse alvo de cuidados extremos por parte da irmã. A vida de ambas começa a se transformar com o aparecimento do vizinho Carlos.

Hermana é vivida por Nadia de Santiago, dona de uma beleza angelical e que utiliza isso à favor da sua personagem. No entanto, sempre existe um quê de estranheza nos seus trejeitos e, principalmente, na aceitação quase impensável sobre as atitudes da irmã mais velha. Fica evidente que existe algum tipo de obsessão ou passado sombrio entre elas. Já a irmã mais velha, Montse, é interpretada incrivelmente bem pela Macarena Gómez, atriz que doa o impossível para construir uma personagem além dos limites da insanidade. Ela não é muito conhecida do grande público, mas já trabalhou com Álex de la Iglesia – que assina a produção desse filme – em “As Bruxas de Zugarramurdi”.

O filme se passa em 1950 e é importante a pequena ambientação exterior para aumentar a nossa distância para com alguns conceitos, principalmente em relação à liberdade. No mesmo tempo que as vestes e o comportamento religioso obsessivo dá ao filme um ar clássico de terror psicológico; isso desde o começo do filme, a ambientação sombria funciona e causa muitas estranhezas no espectador, típico de filmes de terror ou suspense espanhóis.

Alguns elementos ficam bem claros já no começo do filme, como o papel da mãe na trama e os cuidados extremos, além de que o apartamento onde as irmãs vivem, assume uma importância gigantesca para provocar quem assiste, se tornando uma espécie de personagem principal. As paredes sufocam e, nas primeiras cenas onde vemos a limitação da Montse que a impede de colocar o braço na parte externa da casa, a suposta estranheza dá lugar a compreensão de que realmente há coisas que deveriam ser temidas no mundo e que sua fobia é mais a representação da proteção do que qualquer outra coisa.

Há ainda brincadeiras clássicas – aqui muito bem utilizadas – como a iluminação, que em diversas cenas são diferentes nas duas irmãs, ressaltando o contraste entre inocência e maldade.

O filme atinge um nível mais alto com o aparecimento de Carlos, o roteiro joga o espectador para todos os lados e sacode com tamanhas curvas na narrativa, que em determinados momentos nos impulsiona para o entendimento da protagonista, ora nos faz ter raiva pela sua atitude e, de uma hora para outra, pena pelo seu desequilíbrio. É o típico filme que é preciso recomendar mas sem contar absolutamente nada, pois pode afetar diretamente na experiência de quem assiste.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #58 – Lolita: Entre o amor doentio e a obsessão

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“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O livro “Lolita” escrito por Vladimir Nabokov é um dos mais polêmicos da história. Aborda um relacionamento proibido e doente entre um professor e uma menina de 12 anos. Contudo, apesar do tema, existem milhares de pessoas que ainda enxergam a história como uma linda obra de amor. Nesse episódio do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e Tiago Messias conversam sobre as duas adaptações cinematográficas de “Lolita” e tentam entender as qualidades e erros desse amor pedófilo e incestuoso.

Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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O Estranho Que Nós Amamos, 1971

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★★★★★

Don Siegel fez grandes filmes ao longo de sua carreira, dando uma atenção especial para o desenvolvimento dos personagens que, inseridos no contexto da ação, apresentavam bem mais do que fugas, tiros e atos heroicos.

Já gravamos podcast sobre um filme dele: O Último Pistoleiro ( Clique aqui )

Afirmo sem receio algum que o maior deles e o fiel representante da qualidade do diretor é “O Estranho Que Nós Amamos”, de 1971, uma verdadeira preciosidade esquecida pelo tempo e que conquista diversos fãs pelo mundo por unir e desenvolver temas como obsessão, mulher, opressão e, principalmente, desejo.

O filme se passa no final da Guerra de Secessão, onde claramente os Estados Unidos se dividiam em interesses e eles, por sua vez, ditariam a sequência da história no país. Portanto, todas as pessoas viviam em um conflito de decisões por simplesmente estarem vivendo um momento onde a escravidão seria repensada, a postura econômica, enfim, diversos elementos que levariam o país à diversas mudanças.

Nesse conflito John McBurney ( Clint Eastwood ) se fere e alunas de uma escola para mulheres o acolhem afim de tratar seus ferimentos e, posteriormente, entregá-lo as autoridades – John McBurney defende o Norte enquanto as mulheres são do Sul, ou seja, inimigos e contrários nos ideais – o que acontece é que a figura masculina de John mexe com diversas meninas na escola, inclusive a professora e diretora. Essa opressão faz com que o conflito da guerra civil se estenda para a escola, as próprias alunas e o homem desconhecido passam a agir como seres irracionais, movidos apenas por sentimentos mais insanos como desejo e vingança.

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O filme começa com uns desenhos referente à guerra civil americana e, em seguida, temos uma aluna – a menor delas – caminhando por entre um bosque, ela se depara então com McBurney. A referência parece ser inevitável, a inocência sendo apresentada e, como consequência, quebrada após ver um homem a beira da morte, algo simbólico, como chapeuzinho vermelho encontrando o lobo mau. Existe o sentido de proteção sendo despertado na menina, no mesmo tempo que a sensualidade começa a ser desenvolvida, pois minutos depois os dois se beijam – uma cena altamente polêmica, inclusive, mas que simbolicamente afasta os personagens de suas respectivas classificações: passa a não existir mais criança, diretora, soldado, professora ou alunas e sim “homem” e “mulheres”.

Importante ressaltar a fotografia belíssima que engrandece a obra de uma forma crucial, assim como as atuações de Clint Eastwood e da diva Geraldine Page. O primeiro estava no seu auge físico e profissional, sendo confundido por diversas vezes com o seu famoso pistoleiro sem nome, o ator era sinônimo de homem forte e duro, sendo imprescindível aqui como um sujeito que atrai diversas mulheres pela sua “força” e mistério. No mesmo tempo, Clint transita perfeitamente pelo conquistador e desesperado diante as situações grotescas que é obrigado a passar.

Já Geraldine Page, atriz ganhadora de Oscar, está maravilhosa outra vez, moldando uma personagem complexa, repleta de segredos e manipuladora ao extremo.

A mulher é tão presente nesse filme que é impossível não se encantar com a abordagens das moças que, vivendo uma vida cheia de proibições, enxergam no desconhecido uma forma de fugir das expectativas, quebrando a barreira do bom comportamento – aula que são submetidas com frequência -, parece que todas são prisioneiras do local e da diretora, assim como John se torna um também. Não a toa o simbolismo do corvo por entre as grades, preso e, no final, o mesmo corvo se encontra morto, como se representasse as sensações vividas pelos personagens, cujas expectativas vão se desmoronando conforme o desenrolar da história.

Até mesmo uma menina pequena, a mais nova das alunas e que abre o filme, se envolve emocionalmente com o homem desconhecido, no mesmo tempo que descobre a sexualidade de um jeito decepcionante. Existe uma proposta em se discutir psicologia e essa coragem em se desenvolver lentamente é absolutamente oportuna, pois leva o espectador ao limite da tensão, mesmo que as cenas sejam bem minimalistas.

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A direção de arte é sublime, a época é resgatada de forma crucial, assim como alguns detalhes como o quadro de Jesus na parede que, em dado momento, se confunde com o corpo de John, mas uma prova que todos os personagens são simplificações da discussão sobre o homem e mulher e o inevitável desejo que existe em ambos. Outro ponto para ressaltar a preocupação com os detalhes: depois que as alunas, professora e diretora coloca John na cama, o cobrem com um manto vermelho, cor que simboliza a paixão, proibido e sexualidade de forma geral.

A sutilidade do filme é tamanha que, de um drama com fragmentos eróticos – de forma subliminar – se transforma em um suspense, onde alguns sentimentos vão se transformando em necessidade de vingança e a obsessão se revela de forma curiosa. A conclusão é maravilhosa e faz jus a grandiosidade desse clássico que, com muita categoria, tem presença cativa na seleção dos melhores filmes da história.

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Mother – A Busca pela Verdade, 2009

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★★★★

Joon-ho Bong é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores sul coreano em atividade. O realismo que os seus personagens são apresentados, dialogam de forma bem direta com o onírico, repleto de absurdos e de falhas. A sua facilidade em subverter o gênero policial é outra virtude, como visto nesse seu trabalho lançado em 2009, onde uma mãe assume a função de pessoa que procura desvendar os fatos, afim de procurar o(s) culpados de um assassinato, e, consecutivamente, livrar o próprio filho – doente mental, inclusive – da cadeia.

O fato é que a personagem é uma mãe, Mother em inglês, em nenhum momento revela o seu nome; É, portanto, unicamente uma mãe, nada mais. Já nas cenas iniciais fica evidente o cuidado especial e obsessivo que ela tem pelo seu filho, em singelos momentos essa ideia vai, aos poucos, sendo passada ao espectador. Ainda mais, e talvez mais perigoso, em alguns momentos é mostrado pequenas atitudes que demonstram que a mãe possui uma ansiedade em ocultar os erros. Principalmente do filho mas, no desenvolver da trama, percebemos que o tratamento dado é apenas um reflexo dos erros pessoais desse ser humano misterioso.

O próprio nome da mãe fora tirado dela. O único direito e necessidade que ela tem é cuidar do seu filho, a preocupação é nebulosa, não se sabe muito bem se é por algum tipo de medo, diante da clara doença mental do filho – o que, por sinal, em nenhum momento o impede de viver e entender as coisas ao redor – ou algum tipo de remorso ou insegurança.

A cena inicial temos a mãe, em um campo, solitária, ela começa a dançar, um contraste curioso em relação ao comportamento que será desenvolvido a seguir. Poderia ser apenas uma apresentação, porém serve como porta de entrada e representa um claro indício de que essa mulher é uma marionete de suas escolhas, que sua função é controlar um outro pois, na sua cabeça, a fragilidade está em todos os lugares, menos nela mesma. É um trabalho muito difícil interpretar a relação da mãe e do filho, extremamente ambíguo e obscuro.

A multiplicidade dessa relação é reforçada com a técnica cinematográfica de forma muito consciente, destaque para a fotografia, com tons azulados e cinzas, demonstra com perfeição o psicológico da mãe, estabelecendo desde o começo um interesse involuntário em descobrir mais sobre esse ser humano frio, sem amor próprio. No mesmo tempo que o fato de estar sempre chovendo, ajuda a criar um ambiente perfeito para se estabelecer o mistério.

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O figurino da mãe recorrentemente traz o vermelho ou vinho, remetendo-nos a ideia da paixão, sangue – que será derramado em dado momento de forma literal, mas existe sangues derramados durante quase todo o filme nas entrelinhas – e, se aprofundarmos um pouco mais, a excitação.

Tracei uma relação óbvia entre a relação mãe e filho – que assume diversas outras funções – com o complexo de Édipo. Essa dependência inconsciente do filho, movido, inicialmente, pelas suas próprias limitações, atingem um outro patamar a partir do momento que o garoto começa a ter atitudes impulsivas e grotescas por influência de um amigo. Ele começa a sentir o que é ser independente, no mesmo tempo que não é capaz para tal desprendimento.

Ele precisa de alguém para guiar; Não à toa, mesmo diante a iminente descoberta sexual, ele permanecia “inocente” até o seu amigo preencher sua mente com desejo por mulheres, despertando a necessidade humana de se relacionar com o sexo oposto. O que seria absurdamente normal, se a vida dele não fosse tão conturbada. Em uma provocação o amigo pergunta para ele se já dormiu com uma mulher, ele responde positivamente e, depois de algum mistério, fala: “eu dormi com a minha mãe“.

A relação percorre diversos degraus, pai e filho, filho e mãe e, entre eles, ainda há espaço para o homem e mulher. Ora, ambos personagens só possuem um ao outro, é um contato doentio, baseado em uma necessidade primordial. Existe apenas um personagem: a mãe. O filho é parte dela, os dois são os mesmos, nasceram de um mesmo ponto e caminharão juntos para um mesmo fim.

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Existe uma sombra, a personagem da mãe busca o seu sepulcro. A “busca pela verdade” da tradução permanece como um questionamento durante todo o longa. Que verdade seria essa? O conflito do assassinato, a resposta sobre o que realmente aconteceu parece muito simples diante a complexidade daquela relação provocante. Aliás, quando a mãe descobre quem matou a menina – mistério que move o filme até certo ponto, pois os fatos não são tão difíceis assim de assimilar mas, repito, causar a surpresa não é a preocupação principal do filme – ela permanece com mesma intenção e atitude que tinha no início, nada mudou além de compreender a verdade.

No final, fechando o ciclo que começa na apresentação onde a personagem dança em um campo, metaforicamente temos uma mulher perdida em meio a tantas outras, ela se torna ainda mais prisioneira da culpa e, ainda por cima, começa a entender que o seu destino é cobrir erros para sempre, assim podemos interpretar que a própria é um grande erro do universo e precisa, assim, se esconder constantemente.

O choro ao final, ao ver a conclusão da sua busca, faz-nos pensar que ela não se entristece apenas pelo seu filho, mas por todos os filhos do mundo.

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