[Republicação] Nuberu Bagu e o filme Paixão Juvenil (1956)

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As mudanças políticas, assim como as guerras, causaram um impacto muito grande na arte como um todo e, depois, ainda temos essa arte transformada impactando na vida dos jovens. Anos 50 e 60 são a base do rock, por exemplo, não só pensando em gênero musical como também em todas as influências que o rock trouxe no estilo de vida das pessoas, principalmente adolescentes, eu vejo o rock e, eventualmente, respondo aos curiosos, que rock é atitude. Claro, muitas vezes confundida com imaturidade, ou ódio, enfim, o problema é que a minha atitude pode ser diferente da sua atitude, então eu aprendi a usar o rock em prol ao meu crescimento pessoal, não mais a me destruir. Estou escrevendo isso, pois acho de suma importância a Nouvelle Vague como uma das maiores atitudes que tivemos, em meios cinematográficos, eu comparo muito essa necessidade de ser cru, com a entrega dos jovens nessas décadas, uma mistura de rebeldia com coragem de enfrentar um sistema corrompido. Uma alma sexo, drogas e rock ‘n roll e uma proposta de subversão que beira o adorável. O que hoje é clássico para nós, digo, realizações da Nouvelle Vague, na época eram grandes pedaços de mal caminho.

Hoje estarei comentando um filme da nouvelle vague japonesa, ou Nuberu Bagu, que, como descrevi acima, também era sustentada para coragem de enfrentar a exposição. Muitas vezes usando os jovens como exemplos de uma tentativa de escapar de uma vida direcionada a mesmice ou ao autoritarismo. A importância no Nuberu Bagu era momentos, pequenas crises, que seriam desenvolvidas ao longo, porém não cabiam a eles dar uma resposta, como disse, é o registro de uma intensidade, própria dessa geração que buscava transformações, isso começa mais ou menos na década de 50 e tem um grande ápice, ao meu ver, na década de 60, com a grande fase do Nagisa Ōshima realizando obras como “Juventude Desenfreada” e “Noite e Neblina no Japão”, ambos de 1960.

Sabemos que o Japão é um país super conservador, agora, meu amigo, pense nessa época, pós-guerra, o medo e cautela espalhado em todos os cantos, enfim, o negócio não deveria ser muito agradável aos jovens que, como todos, tinham seus próprios problemas para resolver, os mesmos já nasciam em berços da autoridade. Se pegarmos um mestre como o Nagisa Oshima, ele nasceu em 1932, então o cara viu todas as transformações possíveis do seus país e, em seguida, realizaria trabalhos extremamente provocantes, bem é realmente um diretor a se conhecer.

“Paixão Juvenil” ou “Kurutta Kajitsu” é de 1956, dirigido por um outro mestre chamado, o filme conta a história de dois irmãos que, após conhecer uma garota em uma estação, ambos se apaixonam pela mesma e vão competir um com ou outro por momentos com a menina. Descobrimos ao longo que ela é casada e não está interessada em envolvimentos sérios, constrói-se então um triângulo amoroso onde, de fato, a personagem feminina se revela a grande “vilã”. Isso entre aspas, pois não temos uma estrutura narrativa que seleciona quem é o vilão ou quem é o herói, todos são bem desinteressados e/ou bobos e arrogantes. O papel da mulher nesse filme é uma revolução, eu diria, pois se mostra oposta a figura feminina que o Japão criava em seus filmes, aquelas mulheres indefesas e frágeis. Aqui temos uma mulher que possui em seus ombros uma liberdade fora do comum, chegando ao ponto de usar os homens, devorá-los, utilizando como isca a sua carinha de boazinha/frágil e a sua beleza. Aliás, a pele é deveras explorado aqui, digo, o corpo, o toque, há cenas incrivelmente eróticas para época. Permeia o tempo todo um grau interessante de erotismo e um clima noir. É uma dose completa de ótimo cinema. Assisti com minha irmã de 10 anos – talvez uma exploração infantil? – e até ela curtiu bastante.

Há em em todos os cantos dessa belíssima obra, uma efervescência do jovem, se desprendendo de uma vida pacata em busca do seu próprio prazer, é recorrente nesse cinema de auto-nível os conflitos, pois, em meio a essas mudanças drásticas de comportamento, o amor, a paixão, servem como elementos secundários. O bom da vida e da arte é experimentar registros atemporais que, para serem realizados, dependeram de um tempo certo, cabendo a nós, espectadores, uma contextualização para que, assim, possamos desfrutar tanto a excelente ideia como, também, da audácia dessas obras.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Joelho de Claire, 1971

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★★★★★

Eric Rohmer é um dos maiores nomes do cinema, com um trabalho dedicado inteiramente a arte de se analisar comportamentos, ou seja, verdades, ele se destaca não só por sua coragem como também pelo claro amor ao cinema. Começando sua carreia como crítico, em um tempo que a crítica era feita por artistas ou por jovens amantes do cinema, jovens capazes de qualquer coisa para ver a sua maior paixão seguir por um caminho duro e inesgotável, o caminho do realismo. E eles fizeram muito, dentre eles Rohmer, começaram a fazer os seus próprios filmes, contribuindo para um movimento, talvez um dos principais deles, chamado nouvelle vague.

Começando as analises sobre os filmes desse gênio, posso ressaltar que é interessantíssimo pensar que ele serviu como inspiração para muitos diretores que conhecemos hoje, principalmente aqueles que se dedicam aos diálogos. Como é o caso do Linklater, grande diretor da trilogia do antes. Como visto na trilogia, começando por “Antes da Meia-Noite”, temos dois personagens, Jesse e Celine, ambos possuem muita maturidade para discutir sobre sentimentos e, juntos, vão encontrando soluções para diversas dúvidas que surgem ao longo, surge na vida de todos, na verdade.

“O Joelho de Claire”, de 1971 me chamou a atenção desde o pôster. Uma belíssima menina, em uma fotografia preto e branco, diferente de alguma maneira, unindo isso com o título, nada convencional, e com a qualidade do diretor, é de se duvidar que o joelho represente muito mais, que a figura da bela ninfeta seja imprescindível para a trama. Bem, posso dizer que fui feliz nessa rápida interpretação, me dei conta do quão importante é, para mim, descobrir filmes como esse, que se revelam como um pequeno livro, onde pequenos detalhes serão dissecados de forma que componha personagens complexos, apesar da simplicidade que as coisas se desenvolvem.

Conta-nos a história de Jerone, um homem de meia idade que está prestes a casar com uma mulher que se relaciona há seis anos. Ele, antes disso, passa suas últimas férias como um solteiro as margens do lago Annecy. Lá ele reencontra Aurora, uma escritora, que é sua melhor amiga, companheira de muitas discussões sobre relações ao longo do filme. A questão é que a dona da pousada que eles alugam tem duas filhas adolescentes, Laura e Claire, Laura desenvolve uma paixão estranha por Jerone, mas, após dado momento, ele percebe que está apaixonado mesmo é por Claire, além do mais, nutre por ela um fetiche estranho: É obcecado pelos seus joelhos.

Como é lindo, um filme desse em plena década de setenta poderia cair naquela máxima de um filme polêmico e somente isso, mas nunca se transforma nisso. Pelo contrário, as discussões que surgem são sempre destinadas ao sentimento, isolando qualquer intenção sexual que possa existir e, quando indiretamente acontece, temos o personagem principal narrando os fatos de uma maneira tão doce quanto as meninas/mulheres com quem ele se envolve.

Vale ressaltar que, em entrevistas, o diretor afirma que ele se inspirou na obra “Aurora”, de 1927, um dos maiores filmes do cinema. Aurora é também o nome da amiga dele, cuja função na trama é enorme. As controvérsias começam justamente com ela, pois, é de se notar tamanha amizade dos dois, que coisa mais linda de se ver, uma pureza muito grande transparece no olhar de ambos fazendo com que os abraços, carícias e brincadeiras em nenhum momento se torne alvo de dúvidas sobre aquela relação. É estranho de ver até, não há muito essa questão nos filmes, nossos olhos estão treinados a ver sempre o casal de amigos se apaixonando, aqui isso não acontece, pelo contrário, a amiga é a única que tem contato com as revelações dele sobre o quanto sente desejo por Claire. Logo no começo, os dois trocam ideias brilhantes sobre relacionamento, o que nos motiva a encontrar alguém já que, no caso, Aurora é solteira, pensa bastante e somente em escrever.

Tudo isso torna o filme extremamente elegante, passeando sobre diversos conflitos pessoais, nos distância da ideia de que estamos assistindo um filme e nos aproxima a algo próximo a um voyeur, já que a palavra, aqui, surge muito mais sexy do que se tivesse cenas de sexo e etc. É incrível como o sexo está presente constantemente, mesmo que seja um dos filmes mais inocentes que vi nos últimos tempos. Portanto se trata sim de um filme sobre pedofilia, mas através de um olhar jamais visto. Muito longe da oobsessão como visto em “Lolita”, por exemplo. O personagem principal tem plena consciência do que está fazendo, essa frase ilustra isso: “Ao me interessar por outra mulher, não sinto como se traísse Lucinde ( noiva dele ) mas como se fizesse algo inútil. Lucinde é tudo. Não se pode acrescentar nada ao tudo.

É de se notar, também, que a Claire e seus famosos joelhos só aparecem aos 45 minutos de filme. Servindo como uma separação ao mesmo, visto que o relacionamento do homem com a Laura é muito mais aberto, talvez por que o sentimento parta dela. Aliás, com a Laura o assunto flui muito mais naturalmente, o nervosismo não se faz presente e a garota se mostra extremamente madura, mesmo que na sua própria imaturidade. Ela acredita no amor, prioriza a paixão, como na cena em que ele tenta beijá-la e ela recusa, respondendo que quer alguém que a ame de verdade. Além do mais, ela não tem um pai. Talvez essa seja a principal diferença dela e sua meia irmã, Claire, ela procura o seu pai em qualquer homem que lhe apareça e, nesse caso, preferiu exteriorizar isso em forma de uma leve paixão. O que não é novidade, já que a própria personagem afirma isso em uma cena.

Finalizando, minha interpretação para com o joelho é que ele representa o detalhe. Temos hoje um amor ao corpo da mulher, amamos a bunda, os seios, a boca, enfim, o joelho se apresenta como uma parte do corpo indiferente. O que faz com que ele em nenhum momento ache que está fazendo algo errado em querer possuir aquela garota, pelo contrário, ele não quer possuir, quer exaltar os seus detalhes. Talvez a cena mais incrível para mim seja aquela em que o namorado da Claire põe a mão no seu joelho, de forma totalmente involuntária, Jerone olha para aquilo e, em outro momento, desabafa para a amiga: “O desejo que ela provoca em mim, me dá a sensação de direito sobre ela.” Como se o joelho a desprendesse de um ser para um objeto. Uma criação de sua mente. Que será deixada livre após concluir o que queria, quando massageia seus joelhos como forma de consolo, aliás, a descrição dessa atitude pelo próprio me soa extremamente delicado, repleto de poesia.

– Caso com Lucinde pela simples razão de que a conheço há 6 anos e não me cansei dela. Não vejo por que isso mudaria. Deve achar que nos falta paixão, não é?

– Sim. Gosto de sentir que amo alguém desde o primeiro dia, não depois de 6 anos. Não chamo isso de amor e sim de amizade.

– Acha que são tão diferentes? No fundo, amor e amizade são a mesma coisa. 

– Não. Não sou amiga de quem amo.

Se nos basearmos nesse diálogo acima, o único amor verdadeiro do nosso protagonista é nossa amada amiga Aurora. Que, ao final do filme, deixa em aberto se está em um relacionamento ou não. No qual eu questiono, talvez seja o mais sincero deles.

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