CdA #72 – Novela (1992) e Giselle (1980)

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Nesse episódio Emerson Teixeira recebe o grande Malforea, vocalista da banda Distintivo Blues para, juntos, indicarem dois filmes. Voltamos ao formato de recomendações em grande estilo, com duas obras nacionais: o polêmico Giselle (1980) e o curta-metragem Novela (1992). Ambos filmes completamente diferentes, o papo envolveu assuntos interessantes como as novelas do nosso país e a comodidade de muitos em relação à cultura.

Filmes citados:

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

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A crônica do crescimento em “Amores Urbanos”

Amores Urbanos ( Amores Urbanos, Brasil, 2016 ) Direção: Vera Egito

Amores Urbanos

★★★★★

Viver seria algo absolutamente simples, senão fosse o homem adulto e as suas infinitas regras. A sociedade impõe uma vida padronizada, cujo futuro precisa remeter à clássica felicidade, onde a família, planejamento, sonhos e responsabilidade são, juntos, o cerne da existência e do crescimento.

“Amores Urbanos”, dirigido pela Vera Egito, discute esse tema com perfeição, através de três adultos-jovens na faixa dos trinta anos que, morando no mesmo prédio, dividem momentos de risos e preocupações; no fundo os três procuram um lugar no mundo e a aceitação das pessoas.

Júlia ( Maria Laura Nogueira), Micaela ( Renata Gaspar ) e Diego ( Thiago Pethit ) têm problemas individuais, seja familiar, profissional ou amoroso, o fato é que eles representam a alma perdida, sem propósito, senão, viver e enfrentar as consequências. Essa forma de vida, por sinal, deveria ser muito comum, mas é banida por conta dos julgamentos, no final a sociedade precisa mentir que existe um plano por trás de cada escolha ou movimento.

O filme começa com Júlia descobrindo que o seu namorado é noivo de uma outra mulher, de forma bem interessante e natural, passamos a conhecer as angústias profundas da personagem e, mais do isso, a dinâmica alegre e despretensiosa que existe entre ela e os seus amigos Micaela e Diego, ambos e homossexuais.

O fato é que Julia se isola do mundo e dos amigos. Durante todo o filme fica evidente a sua incapacidade de dizer o que sente e pedir ajuda. Isso é mostrado através de alguns artifícios técnicos como a fotografia que, por diversas vezes, registra a personagem de forma diferente dos demais, seja por causa da iluminação ou posicionamento da tela – é perceptível que diversas vezes a diretora opta por separá-la dos demais personagens com uma parede ou um algum móvel, isso acontece bastante no seu emprego e durante um jantar, com os seus pais. Outro ponto que demonstra a separação da protagonista é bem simples: Diego e Micaela moram no mesmo apartamento; já a Julia, apesar de ser vizinha e estar sempre na casa dos amigos, mora sozinha. Mas por quê? Simples, ela tenta provar constantemente que está com a sua vida perfeita, que o resultado até aquele momento é a perfeita personificação do que sempre planejou, quase como uma resposta direta as expectativas dos seus pais.

O figurino das personagens são joviais, calça rasgada, jaqueta, enfim, traz um contraste àqueles adultos. Violando as normas, também, com as próprias posturas em frente aos problemas, desde os mais simples até os mais complexos.

Diego é um personagem que acaba chamando bastante a atenção justamente pelo contraste citado acima. Ele faz piadas, ri, bebe e se diverte constantemente, porém a sua desconstrução serve como direção à todos os outros, as suas atitudes irreverentes são reflexos de alguém que não tem forças para contar como chegou até aquele ponto. O cantor/ator Thiago Pethit, nesse sentido, se destaca. Lidando com expressões frias até certo ponto, transita por entre a rebeldia e doçura, ambas com a mesma dedicação e talento.

“Amores Urbano” trabalha com personagens que nasceram na década de 80, essa geração cresceu de forma bem diferente da anterior ( escrevi sobre isso em um texto sobre Kurt Cobain ) e o filme faz jus a uma série de consequências dessa diferença. Mesmo que seja sincero em não generalizar, os realizadores parecem não terem medo de trabalhar com personagens que erram, muito pelo contrário, fazem refletir justamente com esse fato.

Júlia, no seu trabalho, é cobrada constantemente. A sua chefe pede que ela coloque mais cores em um anúncio e, apesar de soar fácil, ela não consegue captar a ideia até ser demitida. Irônico e inteligente – na mesma proporção – é observar que, minutos depois, a protagonista está em uma festa com os seus dois amigos e atrás, podemos ver bandeiras coloridas, como uma forma de grito, de alívio e desespero: ela não se adapta ao padrão imposto em um cenário formal, no entanto esse mesmo padrão se transforma em alegria enquanto junto dos amigos. Aliás, não somos todos assim? Esse é o dilema de crescer e ser aborrecido com uma infinidade de regras idealizadas pelos adultos rabugentos.

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Mãe Só Há Uma, 2016

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★★★★

Leia a crítica sobre “Que Horas ela Volta?” clicando aqui.

Mesmo que a sensação, após terminar de assistir “Mãe Só Há Uma”, novo filme da excelente diretora Anna Muylaert, seja um pouco vazia, principalmente se analisarmos a capacidade da diretora e a qualidade de suas outras obras, é questão de tempo para percebermos que o ritmo lento, a narrativa, por vezes, desconectada, é uma simulação das emoções de um jovem que, se não bastasse ter descoberto que a sua mãe o roubara na maternidade, ainda têm que lidar com a transexualidade. A partir dessa releitura sobre o próprio processo, fica evidente o poder da história que a diretora desenvolve, seja pela reflexão sobre o que é ser mãe ou o vazio do jovem diante à um mundo cercado de regras.

Ora, pois o conceito de família é muito simples, não é mesmo? Família é aquela que está junto, o amor é cultivado com o tempo, não parte de uma condição intrínseca. Uma mãe não estabelece uma relação afetuosa com o seu filho apenas por emprestar o seu DNA; existe o mistério de parir e o milagre de criar.

O título nos revela que só há uma mãe, qual delas, me pergunto. E é polêmico, imaginem só se, por acaso, a verdadeira mãe é aquela que roubou o seu filho? Então a sua condição provém de um pecado mortal: tirar a possibilidade de uma mulher de amar a sua criação.

Não à toa, a primeira cena que mostra uma mãe – independente de qual seja – é através dos seus movimentos pela casa. Em planos detalhes direcionados à pequenos objetos, conhecemos a ação antes da imagem. Pois, compreenderemos a seguir, que a imagem é uma mentira, a verdade mora apenas no coração do protagonista Pierre.

Pierre, com as suas unhas perfeitamente pintadas, é um observador. Naomi Nero compõe o seu personagem com uma naturalidade assustadora, que, por vezes, transcende a própria atuação. Sempre cabisbaixo, falando arrastado, quase sussurrando, fazendo jus aos diálogos sempre diretos. A intenção é exibir-se como uma marionete da vida, sendo empurrado de todos os lados enquanto ele próprio não têm a oportunidade de dizer o que quer, claro, porque o mundo dos adultos é burocrático.

A fuga de Pierre é ser mulher, colocar vestidos, mudar de personalidade. Essa atitude pode soar repentina e desconectada de toda a trama, porém me vem a cabeça que o próprio personagem é. Como a diretora poderia desenvolver essa sub-trama se ela é pessoal, íntima, de um jovem cuja emoções são ignoradas pelos próprios personagens? Portanto, os espectadores acompanham distantemente essa opção do Pierre, é uma decisão artística consciente e oportuna.

A direção de arte é muito boa, o espaço das casas que Pierre percorre ajuda-nos a compreender a sua opinião. Por exemplo, umas das casas é mais apertada e bagunçada, a outra mãe, aparentemente, tem mais condições e mora em uma casa espaçosa. Pierre, ao entrar no seu novo quarto, não arruma imediatamente as suas coisas, como uma subversão do próprio local, colocando a característica que ele está habituado: uma pequena desordem. O figurino também é muito importante, com usos maravilhosos do vermelho e o posicionamento do protagonista nas cenas sempre é incômodo, apertado ou displicente.

A cena final isenta o Pierre de preocupações. No mesmo tempo que estabelece uma singela conexão com o seu novo irmão, como se fosse uma compreensão mútua. Pois, novamente, as crianças não entendem o porquê de tamanha preocupação. A praticidade toma conta das atitudes. A conclusão é de arrepiar, tamanha profundidade; Anna Muylaert volta aos seus temas recorrentes, mas de forma diferente e, por isso, merece toda a atenção do mundo.

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Diário De Um Exorcista, 2016

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★★

Dois jovens diretores vão até a casa de um famoso exorcista, chamado padre Lucas Vidal, afim de fazer uma entrevista sobre a sua história e casos de exorcismos. Os garotos afirmam timidamente que “pretendem fazer um filme diferente“. Claro que, após essa afirmação, é possível entender os dois jovens cineastas como alter egos dos diretores Renato Siqueira e Ruben Espinoza. Um começo digno de suspense, pois a divulgação do filme é muito sustentada na ideia de que se trata de relatos verdadeiros, onde o Renato e Ruben, inclusive, chegaram a presenciar rituais de exorcismos.

O Brasil, apesar de ser um país extremamente religioso, nunca desenvolveu muitos filmes que abordam o sobrenatural, muito menos de exorcismos. Só me lembro do “Exorcismo Negro” de 1974 – que inclusive se aproveitou bastante da popularidade do “O Exorcista” – e, no que tange exorcismos, parou por ai. Claro, existem obras nacionais que incluem diversos elementos, incluindo a possessão, é o caso do curta-metragem “Amor só de Mãe”.

Fica evidente que a ousadia em se trabalhar o tema é deveras importante para o nosso cinema, é um trabalho independente que merece aplausos pela dedicação. Além do mais, toda a produção é muito bem feita, o maior problema é que a realização é maior do que o roteiro do filme.
Retomando a frase dos jovens diretores entrevistando o padre logo no início: se os realizadores levam a sério o seu trabalho, deveriam ter mais cuidado com o desenvolvimento da história. Principalmente decidindo, logo no início, entre o “terror” e o “terrir”. O terror deve ser pautado na realidade, não dá para confiar exclusivamente na frase “baseado em fatos reais”, nos créditos iniciais, como forma de provocar a empatia do espectador, é preciso lidar com a sugestão, revelar os “monstros” com calma, e aqui é feito o contrário, tem demônio possuindo alguém em espaços muito curtos de tempo. Isso acaba tirando a nossa concentração e, principalmente, a seriedade para com a experiência do filme.

“Diário De Um Exorcista” foi criado e aparentemente moldado para ser grande, e de fato é. O uso exagerado dos efeitos especiais, as diversas cenas de exorcismos, tudo poderia se encaixar em uma perfeita obra, mas isso não acontece pois os eventos não partem de uma estrutura coerente. O roteiro direciona o espectador à espera de algo novo, um desenvolvimento exclusivo no que diz respeito ao tema “exorcismos” e, em vinte minutos de filme, faz absolutamente a mesma coisa que todos os outros filmes de terror já fizeram, incluindo ângulos de câmeras, arcos dramáticos, eventos sobrenaturais etc. Então a pergunta é, novidade para quem?

Os efeitos especiais tiram a possibilidade do “acreditar”, talvez a maior função do terror. Apresenta coisas interessantes como o ritual cujo exorcista prega o possuído em uma cruz, mas em nenhum momento explora esse elemento. Aliás, nenhum elemento apresentado é explorado completamente. O suicídio do pai do protagonista, a possessão da irmã – como a irmã do padre Lucas pode estar possuída, todos saberem do fato, menos o irmão?; Como pode o padre Lucas desacreditar tanto, ao saber pela família que a sua irmã está possuída, se ele próprio foi convidado para ser um exorcista? Outra, como pode um dos maiores exorcistas de todos os tempos, pelo menos o filme trabalha com essa ideia, morrer após 10 segundo na frente do suposto “diabo”!?.

É tantos espaços soltos no roteiro que é impossível se orgulhar completamente pela ambição dos diretores, que se perdem em meio a própria tentativa de ser extremamente grandiosos. Talvez se tivessem construídos os personagens pautados na realidade, fosse bem mais atraente ao público. Os efeitos especiais, acabam irritando, nos lembrando que seria possível utilizar uma singela maquiagem, enfim, às vezes o melhor caminho é a simplicidade.

“Diário De Um Exorcista” é uma verdeira decepção, e se esse sentimento existe é porque muitos esperavam uma obra diferenciada. Com duas atuações interessantes – Renato Siqueira dá naturalidade ao seu personagem, muito carinho e demonstra com perfeição a sua fragilidade e Fabio Tomasini explora, nas poucas oportunidades que têm, algumas expressões fortes, sendo inclusive o único personagem que se salva em meio à uma catástrofe – poucos detalhes se sobressaem, se tratando apenas de mais um filme de exorcismos que cairá no esquecimento dentro de alguns anos.

Obs: Renato Siqueira, diretor do filme, mandou uma mensagem via Facebook apontando uma observação: “[…] quem fez a pesquisa não foi o Ruben Espinoza e sim Beto Perocini e Luciano Milici […]”. / Agradeço a observação Renato. Estarei acompanhando os seus próximos trabalhos.

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Elena – Entre o âmago da arte e a ternura de uma busca vã

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Quem é Elena?

Parte I – O âmago da arte

O homem procura a eternidade até mesmo no último suspiro. Direciona suas crenças para mundos diferentes, melhores ou piores que o nosso, mas, sempre, diferente. Como se o “aqui” não refletisse, totalmente, as suas necessidades, como se o “agora” não bastasse para aliviar o coração.

O que seria o normal? Chegar ao entendimento do que é arte é tão ambíguo quanto compreender o significado da vida. Há diversos espaços, há diversas oportunidades, há diversas ações e histórias, sempre percorrendo a arte ou acrescentando fragmentos de informações à ela. Um ser vivo é parte de um todo e esse todo é parte de um mistério; Simples como desvendar a morte, incrível como acreditar no impossível.

Eu percorri diversos pensamentos sobre a minha pessoa, me consumi na obrigação de me encontrar, acreditei estar sozinho e quanto mais prestava atenção, mais afundava. Acreditar nos meus limites era quase uma imposição do mundo, superar esse obstáculo e me enxergar como um ousado era um trabalho para uma outra vida, um outro encontro e uma outra causa. Até que repensei a arte como um veículo, como um cavalo levando seu cavalheiro à encontro dele mesmo. Eu, que me apresentava como o senhor ninguém, cuja imagem sempre era transmitida de forma borrada, assumia a posição de criador mas, acima de tudo, admitindo, sem nenhum problema, que só conseguia o ser pois um dia eu fora criatura.

A arte é o encontro, entre todas as criaturas e sentimentos que existem dentro de apenas um ser humano, é o movimento das águas, o vento que balança uma árvore, é a sincronia e aceitação do ciclo, da mudança, do tempo. A arte está em tudo e no mesmo tempo não existe, assim como o fim, é uma criação do próprio homem para dar sentido à coisas inexplicáveis.

Quem é Elena? Uma excelente representação, de um centro do mundo. De uma existência única que, para mim e para você, permanece desconhecida, senão, pela arte, pelo olhar. Nunca conheceremos Elena, conhecemos, após assistir o documentário da Petra Costa, o olhar que a diretora tinha (tem) sobre sua irmã. Quando a arte atinge uma simbiose, uma sincronia, uma visceralidade no que diz respeito a fusão de histórias, interesses, sentimentos, dores e ausências. Petra Costa é sua irmã, Elena. A mãe assume, por vezes, a vida de Petra, outra de Elena. Elena é lembrada e, por isso, continua viva. A intenção e necessidade dessas três protagonistas de uma história orgânica, ultrapassa os limites do cinema e atinge o coração de cada espectador que, por algum motivo, em algum momento, conflitou com a melancolia.

A priori toda arte deveria ser consequência do despimento, rompimento, caos e tenuidade. Transformando assim os seus personagens ou objetivo, seja no cinema, música, escultura, desenho etc, em ruídos. Aquela confusão criada a partir de um não entendimento, aquela sensação provinda de um movimento minucioso, aquela provocação por sentir a harmonia partindo de uma busca sem resposta.

Quem é Elena? Elena é um ruído, uma imagem embaçada que se torna crível tanto pelo seu elo com a arte, como pela desmistificação que sua irmã faz através de uma série de narrações em off, dialogando perfeitamente com as imagens de arquivo, ora sem sentido como um balançar de mãos, ora uma dança, mas gritando nas entrelinhas, constantemente, que apenas a dor da ausência é que faz sentido.

Parte II: ternura de uma busca vã

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A busca vã é a falta de capacidade de se esconder diante a verdade. As pessoas tem dificuldade em aceitar a morte e lidar com o luto quando, na verdade, deveríamos todos ter força para utilizar isso como catarse, transformar o desespero em soluções, eternizar a angústia, de forma a trabalhá-la constantemente.

Infelizmente não temos essa capacidade, a ideia de finitude nos consome, existe um mergulho profundo na obscuridade do tempo. Ele, de repente, em um dia chuvoso, sussurra nos nossos ouvidos que falta-nos pouco para concretizar aquilo que realmente queremos. Mas em nenhum momento podemos deixar de viver de forma mecânica para seguir nossos reais interesses, seja por conta da sociedade, necessidade ou status.

Elena encontrou no tempo uma oportunidade. Queria ser atriz e procurou se especializar aos olhos da sociedade – até porque “ser atriz” é intrínseco a ela – a bebê que dançava de forma desengonçada dá lugar a uma atriz entregue de corpo e alma, do tipo que não se contenta ser apenas uma, mas todas as suas personagens.

Em 1990, quando Elena se suicidou, o governo havia acabado de interromper a produção de cinema no país. Ela era já muito conhecida nos palcos, mas queria cinema e, portanto, procura refúgio em Nova York, quase como um exílio que também pode ser traduzido como uma espera por algo grande. O fracasso, mesmo em meio a empolgação, traz consigo a perigosa tristeza. A arte entra em conflito com a obsessão da incapacidade, o caos e o ruído não dialogam tão perfeitamente como antes e, assim, a linha tênue entre o suicídio e o equilíbrio, tão presente na vida de um artista, é desfeita.

Elena ingere aspirina com cachaça e morre. Suicídio. Quem é Elena? Um ser humano que buscava o que não se encontra, um segredo, um vácuo que jamais poderia ser preenchido. Uma decisão desperdiçada. Em sua autópsia consta a informação de que o seu coração pesa 300 gramas, mas, metaforicamente, o espectador sabe que pesa muito, muito mais do que isso. Afinal, não existe espaço para estatísticas em obras de arte, elas são imensuráveis.

“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota”

Parte III: O documentário

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A diretora, Petra Costa, afirmou em algumas entrevistas que começou a desenvolver o conceito do documentário após se deparar com o diário de sua irmã. Em um devaneio Petra percebeu que tinha a mesma idade de Elena e, por um instante, parecia que o que estava lendo foi escrito por ela própria. A angústia misturada com a empolgação e o vazio, aos poucos, iam se tornando mais identificáveis.

Petra pode se classificar como afortunada, pois encontrou diversos registros – em áudio e vídeo – da irmã na garagem de sua casa. Através dessas imagens o documentário se desenvolve mesclando as perspectivas, Petra e a sua mãe falam sobre Elena com total conhecimento e, no mesmo tempo, desconhecimento.

Em uma verdadeira contemplação, importante ressaltar que em nenhum momento beira o superficial, uma das primeiras narrações de Petra faz jus a expectativa da família sobre a sua pessoa: “você pode ir para qualquer lugar do mundo, menos Nova York e escolher qualquer profissão, menos ser atriz”. Enfim, Petra vai para Nova York estudar teatro, quase como se quisesse desabafar a ânsia da contradição, como se visse em si a oportunidade de uma nova chance da irmã.

O filme pode ser considerado, por insensíveis, como algo muito particular, egocêntrico ou até mesmo egoísta, ledo engano, na minha opinião se trata de uma experiência universal. Fazendo jus ao sentimento de perda, em qualquer âmbito, de desencontro e de aceitação.

O jovem se afunda facilmente na melancolia, está diante a uma série de decisões que mudaram para sempre o seu destino. Esse momento é conhecido como “período potencialmente crítico”, sendo superado facilmente com o respaldo da família, porém, isso dificilmente acontece; Primeiro porque o próprio jovem se isola; Segundo porque a família muitas vezes trata com desdém os problemas de um “adolescente”.

Aliás, o ser humano é assim, trata de forma indiferente ou inferior os problemas pelo qual ele não está passando. O problema é que a tristeza que conhecemos é apenas a nossa, podemos até tentar nos colocar no lugar de alguém mas, no final, sempre chegaremos as nossas próprias ansiedades.

Petra Costa é corajosa em se expor, no mesmo tempo que o seu trabalho é envolto de uma intenção desmedida: alcançar a comunicação com alguém que já se fora. Curioso é certificar que isso se realiza, através da própria arte. O filme é um elo entre mundos.

Elena foi homenageada, foi resgatada para o agora. Trazida com carinho pela irmã e moldada através das imagens e registro. Elena não gostava da própria letra, por isso “escrevia” cartas com a voz, se certificando de compartilhar suas experiências e novidades. Petra, Elena e a mãe são a mesma pessoa; Ligadas pelo conflito, pelo desejo de morrer, pela tristeza. No mesmo tempo que Petra procura sua irmã, se depara com a verdade de que ela mora em todos os lugares, uma chuva se torna o seu choro, o vento se torna um movimento, os pássaros a sua risada.

Petra, hoje, está mais velha que a sua irmã. Mas como escrevi acima, na arte nada se calcula, não existe idade. Existe verdade. A verdade da Elena é que ela se “sente mais a vontade e natural em frente a uma câmera”. A verdade sobre Petra é que sua sensibilidade é monstruosa e apaixonante. A verdade sobre mim: sou mais um, mas, nem por isso, comum.

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CdA #46 – Teus Olhos Meus

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No episódio #46 do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, André Albertim e Cliff Rodrigo se reuniram para discutir o filme nacional “Teus Olhos Meus”. Uma obra que contempla o jovem, propõe uma abordagem interessante sobre o sentimento de solidão e o ser humano perdido.
No podcast, comentamos brevemente sobre a rebeldia retratada no filme, relação homossexual e muito mais. No fim, a resposta que nos rondou é: Seria “Teus Olhos Meus” um hino?

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Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso )

★★★★★

A primeira cena do excelente “Que Horas Ela Volta?” já estabelece um dos temas principais que serão desenvolvidos ao longo: a distância. Val, interpretada com um dinamismo incrível pela Regina Casé, saiu de Pernambuco, deixando a filha pequena, para trabalhar em São Paulo na casa da Bárbara e Carlos. Ela cuida do filho deles, Fabinho, remetendo-nos a impressão de que ela necessita desesperadamente acompanhar a evolução de um filho.

Inclusive a primeira cena, citada acima, ela está conversando com a filha no celular, enquanto Fabinho pergunta onde está sua mãe, apressadamente Val responde “trabalhando“. Existe um distanciamento da Val com a casa, Val com a família, Val com a filha, Família com a própria família e, por fim, da Jessica com a família. Isso acontece porque Jessica, filha de Val, já crescida, vai prestar vestibular em uma grande universidade e ficará algum tempo com a sua mãe. Funciona na narrativa como uma quebra do convencional, é a personagem que destoa da rotina impregnada naquele lar. Ela representa a nova geração, bem como as infinitas oportunidades que existem, hoje, para buscar o melhor possível, visando uma igualdade e desprendimento.

Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso )

O distanciamento está representado nessa cena

A beleza desse filme está na naturalidade, é perceptível que tanto a Regina Casé, quanto a excelente Camila Márdila – ambas premiadas em Sundance – constroem suas personagens de forma muito orgânica, é impossível não se sentir comovido com tamanho domínio. As duas não são nordestinas, o que indica, inclusive, que a questão de lugar é simbólico, os temas explorados são universais, não à toa o filme está fazendo muito sucesso internacionalmente.

Na apresentação da personagem Val ela está de costas, o espectador fica acompanhando o olhar de Fabinho, como que quisesse a todo momento dizer: “olha para mim, eu estou precisando de você nesse momento“. A criança é muito mais influenciável pelos pais, talvez a ideia de posse – algo semelhante a escravidão – foi-lhe transmitido, como se a Val fosse sua no momento que quisesse. No entanto, é de se notar que, com a aproximação constante, os dois desenvolve uma relação íntima, maternal, causando um conflito natural com a mãe biológica que, mesmo tendo abdicado a responsabilidade de criar, se vê frustada diante ao resultado conforme o crescimento do filho que, evidentemente, não confia nela para nenhuma questão. Prova disso é quando, na mesa, ele compartilha com a Val uma desilusão amorosa que está vivendo.

 Ainda na apresentação, acompanhamos durante uns cinco minutos a rotina da protagonista, que chama a atenção para si, mesmo que o cenário seja tão alinhado e bonito como a mansão que vive. Ela faz da casa o seu palco, pega os objetos, observa, tem momentos cômicos, inclusive diversos se assemelham com gags do cinema mudo – isso acontece, basicamente, porque há uma interação muito grande com o cenário.

É importante destacar a personalidade caricata dos personagens. Isso pode causar uma certa irritação em alguns, por considerar a personagem Val uma ignorante. Porém, aqui ressalto que todos os personagens são caricatos dentro de suas respectivas realidades, apostaria que a diretora Anna Muylaert fez de cada personagem uma simbologia para o que acontece na própria realidade. Portanto, considero Val, mesmo com toda sua ignorância, extremamente inteligente, pois ela se mostra curiosa o tempo todo. Em uma cena, a sua filha, recém chegada na casa, é chamada de inteligente, nisso ela recusa o rótulo e afirma que é curiosa, Carlos, rapidamente, questiona  “e não é a mesma coisa?”.

Chegamos na inserção do maior conflito do filme: Jessica. Ela representa o pouco comum. Apática as normas que sua mãe fora treinada para seguir, ela se mantém determinada em provar para o mundo que é capaz. Seria então uma demonstração que as novas gerações tem tudo para mudar esse pensamento retrógrado? Pois se ela representa a exceção da classe inferior, Fabinho, por sua vez, é a diferença dentro da classe alta. Até porque ele foge dos esteriótipos, seu destino é passar na faculdade, tratar como lixo a sua empregada, não fumar maconha… enfim, nada disso acontece, não é mesmo? Tanto Fabinho quanto Jessica poderiam ser considerados pontos fora da curva.

Jessica é a interposição. A “dona Barbara” se sente ameaçada com a sua chegada, não só pelo ciúme como também pela constatação de sua exímia intelectualidade. Aliás, a própria menina afirma que o seu conhecimento parte de um professor de história que lhes ensinavam a pensar criticamente sobre várias coisas, pelo menos ela deixa isso subentendido.

Existe também, com a sua chegada, uma ameaça a Val. Ela percebe a sua atual realidade e, mesmo tentando confrontar sua filha diante as suas atitudes, vai, com elas, aprendendo a pensar criticamente sobre a sua própria condição. Lembra que escrevi acima que Val é incrivelmente curiosa? Então, ela passa a se moldar com o novo pensamento, onde a liberdade, igualdade e desprendimento são elementos cruciais.

Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso ) Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso )

Reparem que essas questões de ameaças, nova postura, repensar suas posições são representadas, brilhantemente, com os personagens perto ou olhando por uma janela. Todos aqueles que estão prestes a embarcar em uma reflexão, haverá uma janela, simbolizando o “novo dia” ou o questionamento: “como será o amanhã?”.

A própria diretora, em entrevistas, deixa claro que a sua intenção era criar um filme que pudesse ser visto e admirado por todos, é cabível destacar, inclusive, que essa intenção de forma alguma faz com que o filme se torne artificial, muito pelo contrário. Existem diversas camadas, basta se interessar e procurar entender, compreendendo o limite de compreensão que cada um tem.

Carlos, por exemplo, é um personagem extremamente complexo, fruto de uma clara frustração por não conseguir completar aquilo que sonhou. Se vê em meio a uma nova oportunidade de se reinventar, apesar de gritar isso de forma errada – agarrando, em dado momento, a filha da empregada – é perceptível que suas atitudes parte de um desespero inabalável. Inclusive a sua participação finaliza no momento que se ajoelha pedindo em casamento aquela que, novamente, o ameaçou. Pois ele se sente abalado com o entendimento da sua situação, Jessica o provoca, com toda sua vontade de vencer, planejamento e determinação.

Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso ) Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso )

Algumas escolhas de enquadramentos são perfeitos, ora focalizando nas atividades de Val, ora se mantendo fixo na porta da cozinha, como se quisesse transmitir essa sensação de que, nós, espectadores, observamos o mundo exterior através daquele pequeno espaço. Planos médios são constantes, fazendo com que a casa se torne um personagem também, indiscutivelmente importante para o entendimento dos limites de cada um. Os empregados tem um limite, Fabinho outro, Carlos tem a casinha cuja função é escapar da imposição, visto que ele a utiliza para fumar, algo proibido por Barbara.

Voltando aos elementos, várias vezes Val fala para a sua filha que ela vive em um mundo diferente. Chega, inclusive, a dizer que ela se sente como presidente do país. Esse novo mundo é o distante, o diferente, a ousadia, pode ser representado pela piscina. Em um momento crucial, no final do filme, atingimos o ápice de desabafo e isso acontece na piscina da família, inclusive ela não está cheia, como se existisse apenas para o confronto, não da empregada para com seus patrões, mas interiormente.

Inclusive nessa cena em questão Val está conversando com a filha no celular, é o fechamento de um ciclo que nos remete a cena inicial, porém, a última ela está feliz, de frente a câmera, sorrindo, desabafando, sendo sincera, sem amarras, sendo, simplesmente, quem ela sempre foi.

Que Horas Ela Volta ( Cronologia do Acaso )

A cena final nos mostra a liberdade de alguém que se atreveu, é complicado encontrar respostas para o que virá a seguir, quando Val está no carro, voltando para sua casa, uma voz no rádio fala “o que acontecerá no ano que vem?“. E ninguém sabe, não há um começo nem um fim, mas foi importante acompanhar essa transição, esse conhecimento. Como a própria diz, o “preto tem que ir no branco e o branco no preto“, talvez esse seja o real sentido da vida.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Teus Olhos Meus, 2011

teus olhos meus

★★★★

“Respira Emerson…. respira Emerson… calma.” – Meu pensamento durante todo o filme.

Um dia cheguei em casa revoltado, no meio de uma discussão falei “eu vou embora, vou morar na rua”, minha irmã na época com uns 8 anos, começa a chorar. Algum tempo depois, conversando sobre esse dia, eu pergunto o motivo do seu desespero, ela me responde “porque eu sabia que era verdade”.

Eu tenho uma relação intima com a rua e eu tinha uma relação complicada com o lar. Talvez exista uma ânsia dentro de cada um, a minha era uma sem respostas, nada me satisfazia. Hoje me sinto mais um animal enjaulado do que uma pessoa que superou suas necessidades. Hoje, com vinte anos, aprendi que o equilíbrio é muito importante e que existem outras formas de fazer as coisas.

Tenho vinte anos. Curiosamente, Gil tem 20 anos. Curiosamente, Gil é órfão, eu não. Mas inexplicavelmente me sentia assim. Curiosamente, Gil vai para as ruas e percebe que isso não é exatamente o que esperava. Até o seu violão é roubado, o que mais podemos esperar do mundo então? Esse lugar hostil, repleto de enigmas. Espera, será possível que o mesmo mundo que me apunhalou pelas costas, pode um dia desses, eventualmente, apresentar o meu amor? Será possível que no mesmo instante que estou brigando com a minha família em casa, haja crianças sorrindo na rua? Onde mora, onde se encontra as respostas?

 Eu tive a experiência de assistir “Teus Olhos Meus” sem saber nada sobre, sem ter lido nada. Me deparei com algo muito pessoal, muito intimo da minha personalidade, coisas que vivi, sentimentos presos na garganta. Se não fosse o suficiente, o diretor Caio Sóh trabalha a música, que tanto amo e, mesmo sem ser músico, tanto me fez companhia em momentos que estava perdido, sozinho.

“Se eu pudesse fazer um aviãozinho de papel com a minha vida e tudo que vivi até aqui e jogar para longe”

“Teus Olhos Meus”, essa frase representa a mais elevada possibilidade de encontro. Há uma fusão, um mundaréu de pensamentos que nos fazem questionar a importância de procurar direito. Por quanto tempo eu andei pelas calçadas, pensando, tentando encontrar motivos nos lugares errados, agindo da forma errada? Olha onde parei. No lugar mais improvável.

Não sabia, sinceramente, que o filme se tratava de uma relação homossexual e, eu que tanto trabalho essa questão, fiquei surpreso e feliz, pois no mesmo tempo que agride os mais conservadores, leva ao extremo a ideia de que você pode e deve se encontrar e, por muitas vezes, isso só acontecerá nos lugares menos óbvios possíveis.

Talvez a vida seja feita de uma simbiose com um outro, talvez a solidão só esteja presente até o momento que o seu coração esteja confortável. Talvez o confortável não seja apenas o cômodo. Talvez seja preciso perder tudo para, enfim, aproveitar o todo.

Talvez o homem seja preconceituoso demais, talvez o homem tenha crenças demais ou, simplesmente, ele aja conforme seus impulsos mais primitivos: se proteger. Afinal, o mundo – leia-se homem – não está aberto a outras formas de amor, não recebe bem a mudança, confunde isso com desvalorização, com baixaria. Será o homem cabível de julgamento?

“Teus Olhos Meus” não é um primor técnico – nem deveria -, não é um filme muito conhecido, mas faz parte daquelas raridades que primam pelo amor. Independente da forma.

É tanta reflexão, tanta verdade, que nos confunde ao tentar mensurar a grandiosidade dos seus ensinamentos. As atuações leves, naturais e, inacreditavelmente, densas dos protagonistas Gil e Otávio – interpretados por Emilio Dantas e Remo Rocha respectivamente – dão ao longa uma propriedade tamanha no que diz respeito a palavra. As frases filosóficas, existenciais ganham uma nova forma quando dito de forma tão singular.

“Vou fazer uma coisa que eu deveria fazer todos os dias[…] Tô com medo de voltar a ser quem eu sou”

Gil e Otávio trocam bastante, como forma de elogio, a palavra “especial”. Principalmente o Gil que faz isso na inocência, sem saber, de fato, a importância dela para uma pessoa com o emocional abalado como Otávio. No mesmo tempo que quando Otávio diz “seja genuíno”, parece prever o que está se passando com o seu mais recente amigo.

Gil é capaz de “engolir a parte mais triste da vida”, ele consome o meio, ele traduz a intensidade do jovem, ele, por fim, acaba representando a opção. Não havendo limite na sexualidade, pois ela é frágil perante o sentimento.

“- Como é que eu faço para te achar? 
– Isso é uma coisa que eu também tô querendo saber”

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( entrevista ) – João Paulo Miranda

cronologia-04-

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O Cronologia do Acaso entrevistou o diretor joão Paulo Miranda, que participou duas vezes em Cannes no ano passado com “Ida ao Diabo” e retornou em 2015 com “Command Action”.

Eu, Emerson Teixeira, confesso que após a gravação fiquei ainda mais contente por perceber o ser humano incrível que o João Paulo é, certamente uma grande inspiração para aqueles que apreciam ou estão inseridos no meio artístico. Convidei meu amigo Tiago Messias do maravilhoso blog Altverso (https://altverso.wordpress.com/) para, juntos, conversarmos sobre a produção de filmes no Brasil, o cinema independente, o uso do audiovisual nas escolas, a experiência de estar em Cannes, enfim, um papo que rendeu bastante. Temos ainda, ao final, uma aparição emocionada do Sandro Macena que se atrasou mas colocamos ele na chamada para desabafar um pouco.

Edição do podcast feita por Tiago Messias

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