Não Quero Ser Um Homem, 1918

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Essa é uma obra de comédia, muda, feita na Alemanha e lançado em 1918 e deve ser o primeiro filme feminista da história do cinema – isso levando em conta que quatro anos depois teríamos o ótimo “La Souriante Madame Beudet” que, em muitas listas, é creditado como o primeiro.

A ideia é bem básica e o humor está presente em cada minuto do filme. Gira em torno de uma menina rica que se sente incomodada com a sua vida e, através da rebeldia, expressa o seu desconforto. A menina fuma, bagunça, fala o que pensa, entre outras coisas, até que decide se vestir de homem e viver uma noite como tal.

O filme foi dirigido pelo Ernst Lubitsch, um importante diretor e roteirista dos primórdios do cinema alemão, e aqui ele ousa bastante, levanta algumas reflexões referentes a esteriótipos de gêneros e o faz em plena censura rigorosa. É de se destacar, com isso, a atuação da Ossi Oswalda que precisa, com todas as limitações técnicas da época, se reinventar e interpretar dois papeis, carregando todos os seus dilemas e preocupações.

Em um tom bem despreocupado, somos apresentados a protagonista da melhor forma possível: a menina está fumando, a governanta a repreende achando um absurdo uma mulher fumar e, depois, ela mesma fuma. Se não bastasse, há alguns momentos que existe clara mensagem de que a vida do homem é mais fácil, pois existe um encantamento e respeito muito maior.

Há diversas cenas que envelheceram na sua ideia, principalmente no que diz respeito ao cavalheirismo, mas como o cinema é um reflexo do seu tempo, isso jamais poderia se transformar em algo ruim, pelo contrário, só pontua as diferenças e semelhanças com o nosso tempo. Nesse caso, é triste perceber que existe muitas diferenças de tratamento com homem e mulher, seja no trabalho, faculdade etc, no entanto, é emocionante ver que há quase cem anos um diretor trabalhava o humor como forma de crítica social e para transmitir uma mensagem atemporal: não existe melhor, nem pior; fácil ou mais difícil – e, se existe mais dificuldade, é culpa do nosso egoísmo – somos todos seres humanos, independente se homens ou mulheres.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Estranho Que Nós Amamos, 1971

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★★★★★

Don Siegel fez grandes filmes ao longo de sua carreira, dando uma atenção especial para o desenvolvimento dos personagens que, inseridos no contexto da ação, apresentavam bem mais do que fugas, tiros e atos heroicos.

Já gravamos podcast sobre um filme dele: O Último Pistoleiro ( Clique aqui )

Afirmo sem receio algum que o maior deles e o fiel representante da qualidade do diretor é “O Estranho Que Nós Amamos”, de 1971, uma verdadeira preciosidade esquecida pelo tempo e que conquista diversos fãs pelo mundo por unir e desenvolver temas como obsessão, mulher, opressão e, principalmente, desejo.

O filme se passa no final da Guerra de Secessão, onde claramente os Estados Unidos se dividiam em interesses e eles, por sua vez, ditariam a sequência da história no país. Portanto, todas as pessoas viviam em um conflito de decisões por simplesmente estarem vivendo um momento onde a escravidão seria repensada, a postura econômica, enfim, diversos elementos que levariam o país à diversas mudanças.

Nesse conflito John McBurney ( Clint Eastwood ) se fere e alunas de uma escola para mulheres o acolhem afim de tratar seus ferimentos e, posteriormente, entregá-lo as autoridades – John McBurney defende o Norte enquanto as mulheres são do Sul, ou seja, inimigos e contrários nos ideais – o que acontece é que a figura masculina de John mexe com diversas meninas na escola, inclusive a professora e diretora. Essa opressão faz com que o conflito da guerra civil se estenda para a escola, as próprias alunas e o homem desconhecido passam a agir como seres irracionais, movidos apenas por sentimentos mais insanos como desejo e vingança.

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O filme começa com uns desenhos referente à guerra civil americana e, em seguida, temos uma aluna – a menor delas – caminhando por entre um bosque, ela se depara então com McBurney. A referência parece ser inevitável, a inocência sendo apresentada e, como consequência, quebrada após ver um homem a beira da morte, algo simbólico, como chapeuzinho vermelho encontrando o lobo mau. Existe o sentido de proteção sendo despertado na menina, no mesmo tempo que a sensualidade começa a ser desenvolvida, pois minutos depois os dois se beijam – uma cena altamente polêmica, inclusive, mas que simbolicamente afasta os personagens de suas respectivas classificações: passa a não existir mais criança, diretora, soldado, professora ou alunas e sim “homem” e “mulheres”.

Importante ressaltar a fotografia belíssima que engrandece a obra de uma forma crucial, assim como as atuações de Clint Eastwood e da diva Geraldine Page. O primeiro estava no seu auge físico e profissional, sendo confundido por diversas vezes com o seu famoso pistoleiro sem nome, o ator era sinônimo de homem forte e duro, sendo imprescindível aqui como um sujeito que atrai diversas mulheres pela sua “força” e mistério. No mesmo tempo, Clint transita perfeitamente pelo conquistador e desesperado diante as situações grotescas que é obrigado a passar.

Já Geraldine Page, atriz ganhadora de Oscar, está maravilhosa outra vez, moldando uma personagem complexa, repleta de segredos e manipuladora ao extremo.

A mulher é tão presente nesse filme que é impossível não se encantar com a abordagens das moças que, vivendo uma vida cheia de proibições, enxergam no desconhecido uma forma de fugir das expectativas, quebrando a barreira do bom comportamento – aula que são submetidas com frequência -, parece que todas são prisioneiras do local e da diretora, assim como John se torna um também. Não a toa o simbolismo do corvo por entre as grades, preso e, no final, o mesmo corvo se encontra morto, como se representasse as sensações vividas pelos personagens, cujas expectativas vão se desmoronando conforme o desenrolar da história.

Até mesmo uma menina pequena, a mais nova das alunas e que abre o filme, se envolve emocionalmente com o homem desconhecido, no mesmo tempo que descobre a sexualidade de um jeito decepcionante. Existe uma proposta em se discutir psicologia e essa coragem em se desenvolver lentamente é absolutamente oportuna, pois leva o espectador ao limite da tensão, mesmo que as cenas sejam bem minimalistas.

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A direção de arte é sublime, a época é resgatada de forma crucial, assim como alguns detalhes como o quadro de Jesus na parede que, em dado momento, se confunde com o corpo de John, mas uma prova que todos os personagens são simplificações da discussão sobre o homem e mulher e o inevitável desejo que existe em ambos. Outro ponto para ressaltar a preocupação com os detalhes: depois que as alunas, professora e diretora coloca John na cama, o cobrem com um manto vermelho, cor que simboliza a paixão, proibido e sexualidade de forma geral.

A sutilidade do filme é tamanha que, de um drama com fragmentos eróticos – de forma subliminar – se transforma em um suspense, onde alguns sentimentos vão se transformando em necessidade de vingança e a obsessão se revela de forma curiosa. A conclusão é maravilhosa e faz jus a grandiosidade desse clássico que, com muita categoria, tem presença cativa na seleção dos melhores filmes da história.

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