Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Édes Emma, drága Böbe, 1992

Édes Emma, drága Böbe (Queridas Amigas, Hungria, 1992) Direção: István Szabó

István Szabó é um dos diretores mais conhecidos do cinema Húngaro, isso se deve ao fato de ter sido vencedor do Oscar de filme estrangeiro com o maravilhoso “Mephisto” (1981), onde acompanha a história de um ator que se filia ao partido nazista com a intenção de crescer profissionalmente, porém a ideologia que prega traz uma série de dilemas para a sua vida. O personagem é preso entre o fascínio pelo sucesso conquistado e a tristeza pelo trajeto percorrido até chegar a tal ponto.

Dez anos depois o diretor realiza uma pequena obra chamada “Édes Emma, drága Böbe” que, em poucos minutos, exibe uma protagonista que divide sua vida entre dar aula em uma escola e conversar com sua amiga, a qual divide um quarto de hotel. A história é simples, existe profundidade nas questões abordadas – principalmente aqueles que se referem ao ensino – mas o desenvolvimento se perde em meio às críticas sociais e a amizade como representação da liberdade.

O filme começa com uma imagem aterrorizadora, o corpo de uma mulher, nua, escorrega em uma montanha de areias, sua vida segue em desordem a caminho da morte. A fotografia azulada, bem escura, traz uma sensação estranha, de fraqueza. Emma acorda assustada, no seu quarto, percebe que tudo foi um sonho. O espectador passa, a partir de então, a assistir esse mesmo corpo caindo, sem equilíbrio, objetivo ou autonomia.

Algo está constantemente em desordem, a protagonista levanta, se arruma brevemente para trabalhar e tenta acordar sua amiga, Böbe. Inclusive a filmagem é inteligente ao se distanciar do objeto, deixando em primeiro plano as paredes externas do pequeno quarto. Se não bastasse, o cômodo é extremamente bagunçado. Essa desorganização, visualmente bem trabalhada, transmite a ideia de que as amigas não seguem as regras, muito menos se preocupam em transparecer maturidade, mesmo que uma delas enfrente uma profissão que exija isso; mas também aproxima quem assiste, cria uma ponte para a identificação e, ainda por cima, exala a ideia de liberdade. O resto do mundo é uma montanha, prestes a engolir os corpos, mas o quarto é a superfície, segura e extremamente aconchegante.

O relacionamento de Emma e Böbe é curioso: no mesmo tempo que se entendem, é perceptível uma série de diferenças entre elas. Inclusive diferenças significativas que, em outro momento, afastariam uma da outra. Em uma cena Böbe reflete que “você se define pelo que têm” e se mostra, desde o começo, esperançosa para obter status em base a um relacionamento, por outro lado Emma é romântica, busca amar antes de qualquer questão financeira. Uma é inocente, sonhadora; a outra é realista e amargurada. Mas é válido ressaltar que as características das duas são entregues de forma sensata, há muito espeço para interpretarmos as suas atitudes ou opiniões.

Como forma de auxílio para o desenrolar da história, temos algumas inserções de letreiros no meio da obra, quase sempre as frases são irônicas, mas é visível a preocupação em parecer, por vezes, que se trata de um conto de fadas social.

Se a ideia principal é inteligente, a execução deixa a desejar. A começar pelo ritmo, quando um filme de uma hora e vinte entedia, é realmente preocupante. O terceiro ato fica aquém da construção inicial, principalmente por não finalizar os temas principais que vinham sendo discutidos, mesmo que timidamente, até então. Os caminhos não são bem definidos.

Outro ponto que incomoda é a atriz principal: Johanna Ter Steege é talentosa, muito lembrada por ter feito a obra-prima “O Silêncio do Lago (1990), mas ela é holandesa. Portanto, os seus diálogos tiveram que ser dublados em Húngaro, fato que, mesmo que tenha um propósito narrativo – ideia que teimo em recusar, inclusive – incomoda demais, tira a concentração e, por vezes, a seriedade dá lugar a um leve sorriso, tamanho trabalho mal feito.

Se trata de uma obra regular, que apresenta algumas reflexões válidas. Por exemplo, em dado momento um grupo de amigas, incluindo as duas principais, ficam sabendo de uma seleção para a figuração em um filme. Elas vão fazer o teste, mesmo que a cena em questão seja em um banheiro, e elas precisem ficar nuas. Diversas mulheres aparecem despidas para o teste, mas as protagonistas não. É uma metalinguagem bem interessante, apesar de que a sua função no roteiro seja extremamente oculta, ainda assim é divertido.

A força principal fica mesmo por conta da sutil amizade, pois mesmo com as diferenças elas conseguem compreender suas dores, através da ausência de amor. Elas compartilham suas decepções amorosas e são apoiadas uma pela outra, através da consciência e mútuo respeito. A palavra “vácuo” é citada no final da obra, ainda é mencionado que essa palavra é a mesma em inglês e russo e o filme fala sobre isso: gestos, decisões e simplicidade que podem ser assimiladas em qualquer lugar, ultrapassando línguas e história. Mulheres tentando se encontrar.

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Djamilia – A força feminina como portal para o amadurecimento

Djamilia ( Dzhamilya, União Soviética, 1969 ) Direção: Irina Poplavskaya e Sergei Yutkevich

Quem é Dzhamilya? 

Quem é Dzhamilya? onde se encontra a distinção entre mulher e homem, senão, pela separação e dores da guerra? um lado existe a saudade e preocupação; do outro a saudade e o medo de não voltar. O trabalho no campo demonstra uma característica fundamental que isenta às mulher de pensar em seus maridos mergulhados na guerra: preencher suas mentes e esgotar o físico com o trabalho desenfreado. Nesse intervalo, uma doce camponesa consegue sorrir, despertando inveja e curiosidade nos demais por ser, bem, como dizem, livre.

Quem é Dzhamilya? metaforicamente, Dzhamilya é o espírito liberto e entregue à vida como se as horas fossem segundos; é a entidade que mora em cada mulher que se desprende e se rebela contra a sociedade que teima em traçar uma infeliz diferença entre o masculino e feminino, atribuindo ao primeiro a força absoluta no que diz respeito à estrutura de uma relação. Aqui, de forma poética, Dzhamilya e sua força são os perfeitos veículos para uma provocação generalizada, partindo da estranheza das demais mulheres, passando por uma ajuda inconsciente à uma criança a se entender como jovem e finalizando na paixão.

Um processo cru, visceral, poético e agridoce de uma jovem diante de si mesma e a possibilidade de desprendimento.

Essa é Dzhamilya, uma camponesa de cabelos compridos. Trabalha em meio à natureza, caminhando entre as suas irmãs, as flores. O seu marido está na guerra e o único laço afetivo da menina é o seu cunhado, um pequeno menino. Os dois se divertem em um mundo que estranha o sorriso; eles zombam do sacrifício; eles são o que são, compõe rimas com suas verdades e isso basta.

Dzhamilya sente falta do seu marido constantemente…

[…] mas sua força é extrema e o seu coração gigante ao ponto de lidar com todos os problemas de modo surpreendente: amando, compartilhando, brincando, o que a transforma em uma eterna criança sem, com isso, perder a identidade dominadora e inteligente de uma mulher.

Uma obra da União Soviética, baseado em uma novela homônima de Chingiz Aitmatov, a qual o grande escritor Louis Aragon creditou como sendo “a mais bela história de amor de todos os tempos”. E é assim, em uma primeira camada há somente o romance, mas trabalhado com lirismo. O campo, tomado por plantações de trigo, é a perfeita composição do quadro, que possui Dzhamilya como sua protagonista, aquela que traz cor ao preto e branco brilhantemente trabalhado de forma a representar as emoções tristes escondidas em todos na vila.

É irônico o longa começar com uma discussão entre dois adultos – pai e mãe – onde ele obriga Dzhamilya trabalhar e ela se mostra mais flexível. Duas mentalidades opostas, incentivando um artifício que será muito utilizado ao longo de todos os minutos. Diversos caminhos vão surgindo, restando aos personagens fazerem as escolhas dos seus destinos, bem como usar as experiências do passado. Não à toa a história é contada por meio de uma narração – do próprio escritor Chingiz Aitmatov – e simula o garoto no futuro onde, morando em uma cidade populosa, se tornou artista, inclusive todas as suas pinturas remetem as suas inesquecíveis experiências com Dzhamilya, como se ela realmente fosse a musa inspiradora tanto de liberdade quanto de inocência, despertando paixão naqueles que acreditam em suas atitudes.

A fotografia colorida e comum do presente, na cidade, dá lugar ao preto e branco do passado, no campo. Penetrante, assim como as inserções das pinturas do narrador durante os 83 minutos, de forma a contextualizar-nos no olhar do menino e como os eventos impactaram e serviram como uma ponte entre ele e o seu amadurecimento.

Desde os primeiros momentos que a protagonista é apresentada, as suas atitudes, todas vinculadas ao desprendimento, ficam claras: um homem a agarra dizendo “onde eu coloco os meus pés é o meu caminho; e a mulher que eu agarro é minha” e ela prontamente o empurra, afastando qualquer opressão e estilo de vida conservador, ela fora criada para aceitar mas se transformou em uma inconformada, rebelde e indomável.

“É difícil explicar o que houve com Dzhamilya. E como ela desejava sua alma. Eu corria atrás dela, a olhava. E assim, eu também me livrava da tristeza. Então eu não sabia que, na minha mente surgia o quadro, que depois eu chamaria de “a mulher que corre pela campina”

A trilha sonora pauta bem o clima convidativo. A sensação é de empatia imediata pela certeza da protagonista, sua maneira espontânea de enfrentar uma situação caótica. É de uma esperança e choque, ao mesmo tempo, como se alguém nos desse um soco no estômago de modo a reconhecermos que, no pior momento das nossas vidas, sempre haverá a possibilidade de dar pulinhos sobre os problemas e rir, se encantar, apaixonar-se e fugir… para depois começar tudo de novo.

Quando Dzhamilya ri, obtém como retorno uma indagação: “por que você ri? traz boas notícias?”, a heroína sabiamente responde: “simplesmente sou feliz”.

Quando um outro personagem aparece, Daniar, um amor surge. Ele, tímido, a observa e absorve mesmo que distante a sua energia, enquanto a menina/mulher o irrita de diversos modos, culminando em uma cena em que troca o saco de cereais por um mais pesado, obrigando Daniar a carregar cem quilos nas costas enquanto sobe uma escada. A brincadeira passa dos limites e a culpa se faz presente, principalmente pelo fato de Dzhamilya saber que o Daniar ficou com problemas nas pernas após retornar da guerra. O sofrimento do homem calado, carregando a sua maldição, é demonstrado como um sinônimo visual da coragem: a filmagem chega a inverter, de modo que toda a normalidade se perca.

Brilhantemente dirigido – a força extraída de todos personagens e figurantes é sublime, além da composição das cenas externas – e atuado por Natalya Arinbasarova que, com toda a sua beleza, dá a sua personagem uma doçura enorme, que certamente funciona muito bem para o rápido encanto de quem assiste.
A cena final apresenta um cavalheiro, cavalgando sobre um cavalo branco, como um príncipe. Ele persegue um cavalo negro, indomável, assim como Dzhamilya. A mensagem é pura, ousada e atemporal, uma vida sem medos, incertezas e arrependimentos, sendo transmitida da forma mais inteligente possível. Como conclusão, é um dos “maiores filmes de amor de todos os tempos”.

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O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

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A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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Mulheres da Noite, 1948

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★★★★

Qualquer pessoa com o mínimo de interesse em pesquisar o cinema japonês já ouviu falar, mesmo que brevemente, de Kenji Mizoguchi. Um verdadeiro mestre do drama e lembrado, principalmente, por ser um dos artistas que mais apoiou as mulheres na sua luta por igualdade.

Falar sobre feminismo, dificuldades e preconceitos sobre as mulheres hoje em dia é muito comum, aliás, isso é ótimo. Eu acredito que a única forma de se alcançar a evolução é através do caos, mesmo que ele parta da discussão ou debate. Mas o fato é que discutir o papel e valor da mulher na nossa sociedade, hoje em dia, é muito mais fácil do que na década de 40, com o mundo em plena guerra.

“Mulheres da Noite” é tão ousado como imortal, no que diz respeito ao poder do registro. Funcionando como uma síntese de todo um trabalho de um ícone do cinema japonês, foi lançado em 1948 e aborda as consequências da guerra, sob a perspectiva das mulheres que, perdendo os seus maridos e filhos na guerra, se veem sem saída, e com a iminente desestruturação da família, precisam encontrar abrigo nas ruas, como prostitutas.

A protagonista, Fusako Owada, interpretada por uma das melhores atrizes de todos os tempos, Kinuyo Tanaka – ela, inclusive, trabalhou ao lado de diversos mestres do cinema nipônico – é a perfeita representação da mulher em um momento de total desespero. Não à toa o filme começa acompanhando os personagens em uma cidade destruída e, assim, a destruição adentra cada vez mais, ao longo, na particularidade das personagens, que se desconstroem cada vez mais, se perdem cada vez mais.

A abordagem crível de Kenji Mizoguchi faz jus a grandiosidade do seu nome, de forma elegante e sem exageros, compõe uma rede de observações frias e verdadeiras, primeiramente imparciais até, consecutivamente, gritar para o mundo o seu apoio às mulheres e a falta de atenção da sociedade para com elas. Ele abraça a causa sem em nenhum momento julgar ou se achar superior, pregando a igualdade, é um comunicado simples, real e doloroso de que a humanidade precisa ter mais carinho e atenção com a situação das mulheres, principalmente referente a desigualdade.

O filme começa com uma música densa, demonstrando que o drama será tão pautado na realidade, que ultrapassa o limite para o terror. O cartaz na rua, que será importante para a compreensão da obra como um todo, traz a mensagem: “as mulheres que saírem à noite serão presas”. Contudo, se as primeiras cenas são cruéis, no final atinge o ápice, como se o próprio Japão castigasse as suas habitantes só pelo fato de serem mulheres, isolando-as e exaltando os jovens que perderam a vida na guerra. O cartaz, novamente, aparece e o letreiro é muito mais direto e horrível: “casa da luz: aberto para todas as mulheres desgraçadas”.

Quando é sugerido a prostituição como uma forma de sobrevivência à protagonista, é dito que ela precisaria “enfeitiçar” para conseguir dinheiro. É espantoso que um filme de 1948 tenha tamanha audácia em confundir palavras como forma de explicar uma ideia. Todas as mulheres do longa parecem não possuir uma alma, um rosto, tornando-se um objeto de feitiço, como se fossem as reais vítimas de toda uma transformação social causada, principalmente, por erros superiores.

A sequência final é de uma força inabalável; – mulheres, por favor, assistam esse filme e o use como arma de união, como veículo de grito e hino para a revolução, lembrando que a revolução não começa com a massa e sim com o indivíduo – a protagonista, no terceiro ato, quer se desprender, caminhar diante a liberdade, mas precisa sofrer as consequências, ter uma atitude em um mundo direcionado é como enfrentar o fácil, depois que ela apanha por sua força, é possível ver a sua silhueta através de um vidro, como uma sombra – sua imagem se modifica, se ausenta – é então que o diretor, inteligentemente, foca na imagem de Maria com Jesus em seus braços, como símbolo de bondade e força mas, acima de tudo, mulher, representando não só um ideal como mais uma jornada inteira modificada para se alcançar uma mensagem conservadora e uniforme.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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[ Republicação ] – Oshin, 2013

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Há! Como é grande o meu amor pelo cinema. Como é grande o meu amor pela vida, por histórias, como sou feliz por encontrar obras de artes perdidas como “Oshin”, filme japonês – olha, quem diria que iria voltar ao país tão cedo – de 2013, dirigido pelo Shin Togashi e que tem, em seu elenco, uma das atrizes mais bonitas, ao meu ver, Ueto Aya fazendo a mãe da personagem título, interpretada pela adorável e talentosa… pausa, peguem o caderno… pausa… Kokone Hamada! Você caro amigo(a), anote esse nome, estamos falando da menininha que se tornará, em breve, uma das maiores atrizes do Japão. Por que o que ela faz nesse filme é uma das coisas mais profundas que eu já vi, no que diz respeito a atuação de crianças, olha que, como pesquisador do tema que eu sou, já vi muitas atrizes boas, principalmente vindo da Suécia, mas essa menina é de deixar boquiaberto, mesmo com certos exageros costumeiros do cinema Japonês ela realiza algo inacreditável, eu ouso creditar como classificar como a maior performance mirim que eu já vi na história do cinema.

Na postagem anterior, sobre “Paixão Juvenil” eu falei um pouco sobre a visão que a mulher tinha no Japão, bem, claro que o filme que comento hoje é recente, porém ele se passa em um período muito conturbado onde, consecutivamente, a mulher era alvo de muito sofrimento. Em pleno período Meiji, repleto de mudanças políticas, econômicas, assim como o próprio trabalho, o povo buscava encontrar uma forma de viver, em meio as mudanças e, sim, era comum o trabalho de criança, desde muito novos. Até chegar nas mulheres, que serviam a casa de todas formas possíveis. Tá, até ai não tem muita novidade, o fato é que teremos todas essas questões sendo tratada de forma extremamente sutil através de uma garotinha de 7/8 anos. O que, diante a inúmeros eventos catastróficos, digo, tristes, ela vai amadurecendo, até chegar ao ponto de ver sua mãe se prostituindo e, com as sábias palavras da sua patroa, busca o equilíbrio com a verdade de que, a mulher, está fadada a nunca trabalhar para si própria, mas para os filhos, maridos etc. Por fim, em um diálogo esplêndido, a senhora ainda fala para a menina “ame-a – sua mãe – com todas as suas forças” pois ela sofre por estar fazendo o que faz, assim como a menina sofre com a vida que lhe fora imposta.

Um filme extremamente triste, sim, real, é impossível não chorar, mas mesmo com os recorrentes exageros, em nenhum momento senti a obra pedinte, os acontecimentos vão desabrochando naturalmente, de forma que a emoção também seja muito natural, mesmo que quase durante todo o filme. A menina é um poço de coragem e atitude, servindo como exemplo, eu diria, para essa nova geração que tem tudo nas mãos, sim, eu também estou me incluindo. Poxa, ela começa a trabalhar aos sete anos, não conseguimos mais imaginar algo assim, ainda mais surgindo com tamanha naturalidade para a família essa questão, o pai soa como um explorador, mas não deixa de ser igualmente explorado, então estamos limitados a fazer um contexto mesmo, em prol a entrega, sem ficar com tanta raiva das injustiças, o que é bem difícil. Importante a reflexão/experiência adquirida ao assistir “Oshin”, tem como protagonista uma personagem muito madura e fofinha, cujo nome significa confiança, a qual, aliás, aprenderá a adquirir, por mais que seu direito de opinião seja praticamente inexistente, mas, no fundo, ela consegue ler e, sendo assim, é diferente, há muita esperança em seu sorriso simpático.

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Eu, Olga Hepnarová, 2016

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Eu, Olga Hepnarová ( Já, Olga Hepnarová, República tcheca, 2016.  ) Direção: Petr Kazda e Tomás Weinreb.

★★★★

O preto e branco do filme é a primeira coisa que desperta a atenção. Sua qualidade se mantém em perfeita sincronia com os enquadramentos e com a iluminação mas, principalmente, com o psicológico da protagonista.

Olga Hepnarová foi a última mulher sentenciada a morte na Tchecoslováquia. Em 10 de julho de 1973 ela atropelou, intencionalmente, vinte e cinco pessoas. O seu caso ainda é muito estudado no país, principalmente por causa de uma carta que a moça deixou como “testamento” das suas experiências como vítima de bullying e, consecutivamente, provando total consciência do seu ato e transformando-o em um grito de desabafo.

O filme se desenvolve lentamente, como um documentário, acompanhando o trajeto da protagonista e a sua insatisfação constante. Nesse aspecto, a atriz Michalina Olszanska realiza um trabalho primoroso, através de expressões que refletem a sua fúria. Com uma aparência delicada, suas vestes são o contraste: sempre largas, tiram a forma do seu corpo, ressaltando a sua independência e desprendimento com o padrão.

Além disso, Olga possui sempre o desejo de ser vista – uma cena que resume essa intenção é em uma festa, onde a personagem mostra os seus seios, aparentemente sem proposta alguma – mas, inteligentemente, o filme nos direciona à contestação de que ela não sabe o que fazer com a atenção que clama em silêncio. Demonstrando ser uma  mulher forte, e de fato é, existe uma série de lacunas que possibilitam ao espectador preencher com a fraqueza, desespero e depressão, isso não quebra a figura intocável da personagem, apenas a faz mais humana.

O enquadramento dá a sensação de desconforto, a protagonista dificilmente se encontra no centro da tela. Na maioria das vezes está no canto, envolvida de ar e pressionada pela rotina, bem como permanece rodeada de objetos – quadro, cadeira, mesa, garrafas vazias etc. – uma forma de tirar o foco dela, como se sua imagem ficasse borrada facilmente.

O filme é um verdadeiro estudo de personagem, através do seu silêncio, não faz julgamentos e isso é raro. Olga vive a beira de um suicídio, gosta de se sentir a dominadora da vida e das relações, algo que, inclusive, é sintetizado em uma frase no final em que é sugerido que a menina “não decide se é deus ou vítima”.

No entanto, se o cinema ensina algo, com certeza é o fato de todos sermos deuses de uma única história inacabada. Olga Hepnarová precisava ser vista e encontrou na dor alheia uma forma de provocar sensações em pessoas, ao olhar dela, anestesiadas e cegas. É sufocada pelo fato de viver e os diretores Petr Kazda e Tomáš Weinreb conseguem transmitir essa melancolia através de uma narrativa realista que, mesmo cansando na segunda metade, ainda consegue se reinventar com algumas decisões oportunas como os cortes que fluem por momentos, aparentemente, aleatórios e uma singela quebra da quarta parede.

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Ma Ma, 2015

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★★★

“Ma Ma” é o novo filme do diretor Julio Medem, cujo último trabalho de grande destaque havia sido o maravilhoso “Um Quarto em Roma”, e tem uma presença muito marcante e entregue da atriz Penélope Cruz que também assina a produção.

O filme conta a história de uma mulher, Magda, que descobre ter câncer de mama e, através do seu sorriso e simpatia, acompanhamos a sua luta e, principalmente, preocupação em manter uma relação estável com o seu filho.

Até a primeira metade é de se destacar a mensagem feminista que toma cada segundo de projeção, pautando-se na força de sua personagem, bem como no carisma da Penélope Cruz, Magda se revela incrivelmente forte e independente, despertando a atenção por onde passa e, como reflexo da sua irreverência, todos a tratam incrivelmente bem e, principalmente, sem interesses.

A fotografia tende a ser bem clara, principalmente quando o assunto “câncer” entra em voga, o branco é importante para a compreensão da trama – em dado momento, a protagonista entrega um envelope e traça um paralelo com a cor ( branca ) que é a mesma do time do coração de um outro personagem, no caso, o Real Madrid. No final do filme, após uma cena deveras emocionante, também há a inserção de uma imagem bem iluminada, como se despertasse àquilo que marca a personagem no mundo, representando a sua bondade, força e inocência.

Outro ponto importante é a narrativa flexível, diálogos diretos e inserções minimalistas como o coração – vale ressaltar uma cena em que Magda faz amor e em nenhum momento é mostrado o ato sexual, corajosamente somos “transportados” para dentro do corpo dela, onde, guiados pelo ritmo, vemos um coração pulsando, movido pelo prazer, essa cena representa a simplicidade do longa, no mesmo tempo que traça uma diferença gritante com os demais trabalhos do diretor Julio Medem, que sempre tiveram, em sua essência, o sexo como principal elemento de união. A narração, por vezes, lembra “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, mas não é a toa, nas suas devidas proporções, ambos têm como hino mulheres sonhadoras, a diferença é que uma se deixa levar para outro universo, enquanto a outra tem um filho.

O problema de “Ma Ma” se encontra no segundo ato, pois perde a direção e investe em personagens secundários que não estão à altura dos poucos que foram apresentados até então e a simpatia que a protagonista despertava nas pessoas, passa a ser quase um super poder que transforma qualquer um em “super protetor da Magda”, abdicando as suas vidas para cuidar dela. Então a força e independência, elementos cruciais para a identificação imediata, vão sendo diminuídas.

No final, apela para um desfecho poético e surpreende, mesmo com o deslize, é fácil navegar feliz por essa história. A atuação da Penélope Cruz dá um charme crucial, como sempre, e sustenta essa obra que, caso contrário, seria apenas mais uma.

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