Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

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Tom na Fazenda, 2012

5

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobreEu Matei Minha Mãe”, “Amores Imagináriose “Laurence Anyways”.

Voltamos ao Xavier Dolan, que maravilha. Mesmo que os seus dois filmes anteriores tenham sido medianos, existe um fascínio em descobrir mais o trabalho desse jovem diretor. Parece que estamos diante a alguém com milhares de coisas guardadas no coração e, a cada nova obra, diversas palavras são ditas de forma desorganizada, como se fosse um desafio, restando-nos tentar juntar as peças e criar uma só mensagem.

Antes de começar a análise, dei-me licença para um pequeno devaneio: algo que, na narrativa, me encanta no Xavier Dolan é essa atitude minimalista dele de levar o “universo gay” à qualquer tema que aborde. Antes que me julguem, acho isso lindo e importantíssimo, esse universo citado é em relação à angústias, dilemas, preocupações, enfim, mesmo que de forma implícita, sempre há temas como preconceito para com os homossexuais ou, até mesmo, a divulgação do amor. E o amor, por ser tão grandioso e inexplicável, não se resume em homem ou mulher, hétero ou homossexual, isso é perca de tempo. Então o “universo gay” é o “universo humano”, todos somos uma única coisa, iguais, e o diretor possibilita essa reflexão diversas vezes nos seus trabalhos.

“Tom na Fazenda” é o quarto filme do Xavier Dolan e acompanha a história de um jovem chamado Tom que vive o luto do seu namorado. Após perdê-lo, ele vai para uma fazenda, ao encontro da mãe do seu amor mas, ao chegar lá, percebe que a senhora não sabia sobre a opção sexual do filho. Ele ficará nessa fazenda até o funeral do namorado/amigo e viverá a prisão da perda e preconceito.

É importante destacar que o Xavier Dolan abandona alguns exageros – como o slow motion constante, muita utilização da música etc – e desenvolve a sua história de forma muito mais madura. Algo comum, pois se trata de um filme de suspense e, mesmo que traga algumas das suas principais características, o abuso exagerado de outras tiraria o foco dos personagens.

A fotografia que pende para o amarelo traz consigo o desconforto, o protagonista, ao chegar na fazenda, entra na casa como se conhecesse a família do namorado há muito tempo, algo que será contrariado depois. Portanto, existe uma atmosfera deslocada, nebulosa que faz alusão ao sentimento de luto de Tom, incluindo a própria fotografia, é como se a fazenda representasse o passado e ele não consegue sair dali e, muito menos, impor os seus desejos – prova disso é que ele não faz o discurso no funeral, ou seja, se recusa a acreditar que o namorado está morto pois é confortável viver no passado.

O namorado de Tom tem um irmão que é homofóbico e machista, pressiona todos e lidera a bestialidade, é o verdadeiro contraste de Tom que, ajudado por uma atuação contida do próprio Xavier Dolan, se revela muito delicado e frágil. Podemos relacionar todos os personagens com estágios da consciência: Tom é o jovem querendo se assumir para o mundo; Francis ( irmão do namorado de Tom ) é a sociedade que repreende o jovem; a mãe é a visão arcaica sobre a sexualidade, união e amor.

“Hoje foi como se uma parte de mim tivesse morrido, pois não consigo chorar. Eu esqueci os sinônimos da palavra “tristeza”. Agora, só o que posso fazer é substituí-lo”.

A frase acima abre o filme e, ainda, é o discurso que Tom faria no funeral. Esse texto é escrito pelo protagonista em um papel higiênico e resume bastante o que virá a seguir. A “substituição” no final da frase é direta, sem rodeios e, em um primeiro momento, assusta, mas de fato todos precisamos aceitar que substituímos pessoas constantemente. Outro ponto é que o longa percorre uma verdadeira injustiça, com Francis não aceitando de nenhuma maneira as escolhas e opção sexual do irmão que falecera, fica uma sensação amarga no espectador de entender que isso é muito comum na nossa sociedade preconceituosa.

A frase acima é poesia pura, exala amor até o ponto final, mas é visto, ignorantemente, como algo abominável. No entanto, se fosse escrito em base a uma relação heterossexual seria considerado normal e maravilhoso. Que difícil viver nesse mundo onde o amor é descartado, as palavras são excluídas e só existem as interrogações “para quem foi feito?” e “quem você ama?”. Pouco importa! respondo, senão amar, conhecer e sentir, independente de “com quem”, “como” e “porque”. Dúvidas ignorantes sanadas por respostas egoístas.

“Tom na Fazenda” não é maravilhoso como o primeiro trabalho de Xavier Dolan “Eu Matei Minha Mãe”, mas ainda assim é um grande avanço na sua carreira pela construção narrativa de uma história trágica.

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Entre a solidão e o suicídio

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Sala do Suicídio, 2011

A depressão é, hoje mais do que nunca, a maldição que rege, indiretamente, o homem. Sempre existiu o existencialismo, as dúvidas sobre o porquê das coisas e até mesmo o suicídio. Mas o mundo se transformou de tal maneira que é impossível, em algum momento da vida, não perceber a prisão invisível que construímos em nossa volta. Estamos enclausurados na expectativa, nas regras sociais, no conhecimento e sistema, isso sem contar a rotina.

Houve um tempo onde havia protestos e boa parte dessa rebeldia consistia em ser livre, estar por aí, caminhando pelas ruas e conhecendo o maior número de pessoas possíveis, doando-se e aprendendo. Atualmente o nosso meio de desabafo é algo ainda mais perigoso do que a realidade: a internet.

É louco pensar que existem milhares de pessoas nesse mundo que poderíamos nos identificar de forma monstruosa. Poderiam contribuir com o nosso crescimento ou morte mas, de todo modo, afetariam drasticamente a nossa existência. Porém isso não acontece por um motivo: distância.

Existe distância entre todos nós e, de certa forma, ao longo do tempo, ela sempre nos manteve seguros. Claro, com o advento da tecnologia essa barreira foi quebrada e bastou poucos anos para a Internet funcionar como uma grande família, onde todos têm voz e, principalmente, podem ser quem quiser. De fato, o mundo virtual se trata de uma grande máscara, onde as pessoas conseguem se livrar da sua própria imagem mentirosa do dia a dia e passa, com muita facilidade, a pertencer à um grupo.

Chegamos ao jovem que, em pleno desenvolvimento, se vê cercado de expectativas ou falta delas, seja por oportunidade ou força de vontade. Então é questão de tempo para enxergar na Internet uma possibilidade real de ser aceito ou até mesmo buscar exemplos que, por sua vez, conseguiram sucesso nesse outro mundo e parecem levar uma vida perfeita no Instagram.

A máscara que existe no mundo virtual é tão bonita e tentadora que poucos percebem esse problema invisível que temos hoje e que, infelizmente, a tendência é crescer.

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“Sala do Suicídio” ou “Sala Samobójców” é um filme polonês dirigido pelo jovem diretor Jan Komasa e, antes de mais nada, é preciso louvar a atitude do artista em realizar uma obra tão impactante e visceral sobre toda essa discussão dos impactos do mundo virtual no jovem. O diretor parece querer buscar a essência da dor e sentimentos mais obscuros do jovem quando traz temas atuais como o próprio cyberbullying e homossexualidade, esse segundo, inclusive, é abordado na obra de forma extremamente sútil.

Ainda mais, ele se preocupa em unir a parte estética – a fotografia, por exemplo, na maioria das vezes permanece em um tom azulado, demonstrando a frieza do protagonista com ele mesmo e para com o mundo que o cerca – com uma proposta imersiva, onde há uma mistura de jogos que permite ao espectador adentrar literalmente na cabeça do protagonista, visto que ele passa a pensar através de um monitor e com amigos virtuais.

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A história é sobre um garoto chamado Dominik que anda solitário na escola, porém esse detalhe não o afeta. Vive em um mundo próprio e não se intimida, inclusive, com o seu visual alternativo. As coisas começam a mudar quando, em uma festa da formatura, ele é desafiado pelos amigos a beijar um colega da sala dele, esse desafio é aceito em meio a muitos risos e diversão mas tudo isso está sendo filmado. Começa então nas redes sociais – após o vídeo ser publicado – uma série de gozações e discriminação que só se agravam quando, em uma aula de judô, Dominik se excita com o mesmo menino que beijará alguns dias antes.

A partir desse ponto o protagonista começa a refletir sobre sua vida e observar, também, os pais que lhe dão de tudo, menos atenção e carinho, ele resolve se refugiar no seu quarto em um jogo de simulação da realidade, onde participa de um grupo ou mundo conhecido como: sala do suicídio. Aparentemente composto por pessoas incompletas na realidade que se sentem completos modificando os seus avatares no mundo virtual.

Existe diversas inserções desse jogo ao longo do filme que, nas maioria das vezes, serve como uma boa ferramenta para compreender o protagonista que, do segundo ao terceiro ato, se desenvolve através de conflitos internos, ou seja, é difícil o acesso que o espectador tem com eles no mesmo tempo que essa barreira faz jus ao sentimento de incapacidade que os pais de Dominik sentem em não conseguir ajudar o filho e perceberem a sua carência muito tarde.

A cor quente só aparece no filme no começo, quando Dominik visita o trabalho da mãe – ironicamente o garoto não consegue conversar com ela pois está ocupada, ou seja, como se a cor representasse um outro universo cujo protagonista é apenas um intruso. Nessa mesma cena ele se conforta assistindo vídeos de auto-mutilação.

“Mundo fechado, feridas abertas”

Dominik por diversas vezes pede silêncio, seja no carro do seu pai ou até mesmo em um ônibus, como se qualquer som produzido por aqueles que existem o incomodasse. O personagem se arrasta com uma corrente amarrada nos pés, um escravo do seu tempo. E os seus pais são sempre apresentados de forma rápida e superficial, como se estivessem atarefados constantemente e, uma prova dessa diferença do filho, é o figurino, eles estão sempre muito elegantes, independente da situação, a mãe na maioria das vezes está com um cachecol enorme, como se estivesse sufocada com aquele casamento ou com o fato de ser mãe.

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“Sala Samobójców” começa leve e vai se tornando cada vez mais desgastante, isso porque o sentimento do protagonista invade a história, como um vírus. A densidade e sensações são tamanhas que, sem dúvida, pode ser um perigo para quem passou ou passa por depressão, até mesmo o suicídio aqui é tratado de forma muito crua e realista.

Impossível não elogiar o trabalho do ator Jakub Gierszal que se esforça muito para transmitir todo tipo de dor da personagem e, para isso, trabalha de forma impactante com todo o corpo. O choro muitas vezes confunde, o olhar sob o brilho da tela do notebook, enfim, é uma linda organização dos detalhes e a entrega do jovem ator só aumenta o drama. Sem contar a beleza de Jakub que, nesse filme, funciona como uma outra demonstração da quebra do personagem que, ao final, se mostra extremamente debilitado fisicamente.

Outra personagem que chama muito atenção é a Sylwia, com seu cabelo rosa e uma máscara – representando visualmente a Internet e sua “função social” – ela é o “outro lado do mundo”, o ser humano que só pode ser encontrado por causa da Internet, ela impulsiona Dominik para o fim, no mesmo tempo que o ajuda a encontrar uma explicação, tudo isso de forma indireta pois Sylwia é tão vazia quanto o protagonista. Ambos vivendo em seus quartos, suas prisões, sendo monstros de sua própria existência.

As cenas finais é de arrepiar, a conclusão do jovem e suas infinitas ilusões, a vida adulta que parece confusa e interminável, o amor desperdiçado, enfim, viver é realmente muito complicado, principalmente para os mais sensíveis.

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“-Por que você usa uma máscara?
– Me protege de pessoas perigosas, de substâncias.”

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Não se Esqueça de Compartilhar, 2009

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★★★★

Sion Sono, esse é sem dúvida um diretor a se descobrir cada vez mais. Ironicamente, esse filme que analiso hoje percorre uma direção oposta da descrição que eu fiz do seu trabalho quando escrevi sobre “Extensões Capilares“. Lá, coloquei que “o diretor é ótimo em lidar com a obscuridade[…] um provocador do horror. Engraçado é, hoje, reafirmar essa colocação tendo, inclusive, um maior embasamento. Afirmo que, antes de mais nada, Sion Sono é um provocador da vida. Deveria estar claro para mim que, mesmo no meio de tantos elementos trash que existe em Extensões Capilares, ainda há espaço para o drama familiar.

“Não se Esqueça de Compartilhar”, um drama de 2009, nos revela um Sion Sono preocupado com alguma coisa, essa preocupação parte de uma vontade inquietante de gritar para o mundo o quanto o outro é importante. Porém, quando o espectador, já emocionado, lê a frase “esse filme é dedicado ao meu pai” nos créditos finais, tudo fica extremamente claro: se trata de uma obra particular, talvez uma autocrítica feita pelo diretor sobre a sua própria postura para com o pai ou o contrário. Faz-nos pensar que possa ter existido na relação deles uma ausência de diálogo.

No mesmo tempo que se ater aos motivos para se criar determinada obra é ruim, se mostra nesse caso uma necessidade. Passamos então a refletir sobre a nossa própria vida e, no meu caso, cheguei a conclusão que nunca compartilharemos o suficiente.

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O filme conta a história de um jovem, Shiro, e sua luta em se manter bem mesmo diante ao seu pai com câncer. Se manter bem é quase uma obrigação, visto que Shiro passa boa parte do tempo do lado do pai, no hospital, então precisa estar sorrindo para, assim, confortar o seu mestre. No entanto, em meio a algumas situações que despertam essa reflexão, o jovem começa a se questionar o quanto é importante compartilhar e, ainda mais, repensa as suas próprias atitudes. Tudo isso diante a uma iminente morte.

Tudo parece acontecer com uma perfeita sincronia, Tetsuji Kita, o pai, foi professor de futebol a vida inteira, tendo, inclusive, dado aula ao próprio filho. Era rígido, a relação de ambos sempre traz a ideia da distância, do medo. Mas mesmo assim é evidente a admiração do filho que, constantemente, parece enxergar o seu pai como uma entidade, envolta de muita confiança e força. Aliás, quando essa imagem vai se desmanchando por conta da doença, temos uma aproximação entre ambos, como se a fragilidade unisse as pessoas.

“Meu pai durão desabou”

Seria um erro analisar o filme tecnicamente, por sinal o filme erra em algumas decisões, mas a proposta é tão sincera e carinhosa que é impossível não abraçar a experiência e se sensibilizar com a trajetória desse ser em busca de entender a si mesmo como uma obra que precisa ser compartilhada, merece não, precisa.

A identificação foi tanta, foi tão profunda. Eu tenho uma irmã de 11 anos, sou o professor dela na escola. Quando entramos de férias, estávamos sentados na mesa e, de repente, ela devaneia: “estou com saudade do professor Emerson“. Essa frase me fez pensar em inúmeras coisas ao mesmo tempo, o quanto somos capazes de nos dividirmos em vários fragmentos, várias versões de nós para preencher as necessidades de determinada pessoa/lugar/profissão etc.

“Ele sempre foi um professor para mim. Tanto na escola como em casa”

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Somos feitos de pequenos momentos e pequenos fragmentos daquilo que vivemos ou temos. Nossas lembranças das ruas e lugares que vivíamos, como quando Shiro visita a escola que estudou e fica vislumbrado, com os olhos alegres e assustados ao mesmo tempo, como se quisesse dizer “isso aqui era tão grande na época!”. (in)Felizmente os lugares vão diminuindo ou somos nós mesmos que vamos crescendo tanto que não nos permitimos nos manter igual ao que passou. Algo como a Alice que cresce e encolhe na mesma velocidade, comendo aquilo que desconhece ou bebendo aquilo que não quer.

A pesca em “Não se Esqueça de Compartilhar” representa o elo. No final do filme, algo que pareceria exagerado em outra oportunidade – no entanto, típico em todo trabalho do diretor – soa como algo extremamente natural e metafórico. Um processo que todos nós deveríamos fazer ao menos uma vez: lutar para manter eternamente.

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No fim, somos um pouco de tudo aquilo que mantemos por perto, nem sempre as coisas são para eternas, mas, se nós quisermos e pensarmos que podemos, o para sempre existe e mora logo ao lado. Basta compartilhar, afinal, até as cigarras compartilham, quem somos nós para não tentar fazer o mesmo?

“Você ainda continuaria comigo se eu estivesse morrendo de câncer assim como o meu pai?”

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Elena – Entre o âmago da arte e a ternura de uma busca vã

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Quem é Elena?

Parte I – O âmago da arte

O homem procura a eternidade até mesmo no último suspiro. Direciona suas crenças para mundos diferentes, melhores ou piores que o nosso, mas, sempre, diferente. Como se o “aqui” não refletisse, totalmente, as suas necessidades, como se o “agora” não bastasse para aliviar o coração.

O que seria o normal? Chegar ao entendimento do que é arte é tão ambíguo quanto compreender o significado da vida. Há diversos espaços, há diversas oportunidades, há diversas ações e histórias, sempre percorrendo a arte ou acrescentando fragmentos de informações à ela. Um ser vivo é parte de um todo e esse todo é parte de um mistério; Simples como desvendar a morte, incrível como acreditar no impossível.

Eu percorri diversos pensamentos sobre a minha pessoa, me consumi na obrigação de me encontrar, acreditei estar sozinho e quanto mais prestava atenção, mais afundava. Acreditar nos meus limites era quase uma imposição do mundo, superar esse obstáculo e me enxergar como um ousado era um trabalho para uma outra vida, um outro encontro e uma outra causa. Até que repensei a arte como um veículo, como um cavalo levando seu cavalheiro à encontro dele mesmo. Eu, que me apresentava como o senhor ninguém, cuja imagem sempre era transmitida de forma borrada, assumia a posição de criador mas, acima de tudo, admitindo, sem nenhum problema, que só conseguia o ser pois um dia eu fora criatura.

A arte é o encontro, entre todas as criaturas e sentimentos que existem dentro de apenas um ser humano, é o movimento das águas, o vento que balança uma árvore, é a sincronia e aceitação do ciclo, da mudança, do tempo. A arte está em tudo e no mesmo tempo não existe, assim como o fim, é uma criação do próprio homem para dar sentido à coisas inexplicáveis.

Quem é Elena? Uma excelente representação, de um centro do mundo. De uma existência única que, para mim e para você, permanece desconhecida, senão, pela arte, pelo olhar. Nunca conheceremos Elena, conhecemos, após assistir o documentário da Petra Costa, o olhar que a diretora tinha (tem) sobre sua irmã. Quando a arte atinge uma simbiose, uma sincronia, uma visceralidade no que diz respeito a fusão de histórias, interesses, sentimentos, dores e ausências. Petra Costa é sua irmã, Elena. A mãe assume, por vezes, a vida de Petra, outra de Elena. Elena é lembrada e, por isso, continua viva. A intenção e necessidade dessas três protagonistas de uma história orgânica, ultrapassa os limites do cinema e atinge o coração de cada espectador que, por algum motivo, em algum momento, conflitou com a melancolia.

A priori toda arte deveria ser consequência do despimento, rompimento, caos e tenuidade. Transformando assim os seus personagens ou objetivo, seja no cinema, música, escultura, desenho etc, em ruídos. Aquela confusão criada a partir de um não entendimento, aquela sensação provinda de um movimento minucioso, aquela provocação por sentir a harmonia partindo de uma busca sem resposta.

Quem é Elena? Elena é um ruído, uma imagem embaçada que se torna crível tanto pelo seu elo com a arte, como pela desmistificação que sua irmã faz através de uma série de narrações em off, dialogando perfeitamente com as imagens de arquivo, ora sem sentido como um balançar de mãos, ora uma dança, mas gritando nas entrelinhas, constantemente, que apenas a dor da ausência é que faz sentido.

Parte II: ternura de uma busca vã

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A busca vã é a falta de capacidade de se esconder diante a verdade. As pessoas tem dificuldade em aceitar a morte e lidar com o luto quando, na verdade, deveríamos todos ter força para utilizar isso como catarse, transformar o desespero em soluções, eternizar a angústia, de forma a trabalhá-la constantemente.

Infelizmente não temos essa capacidade, a ideia de finitude nos consome, existe um mergulho profundo na obscuridade do tempo. Ele, de repente, em um dia chuvoso, sussurra nos nossos ouvidos que falta-nos pouco para concretizar aquilo que realmente queremos. Mas em nenhum momento podemos deixar de viver de forma mecânica para seguir nossos reais interesses, seja por conta da sociedade, necessidade ou status.

Elena encontrou no tempo uma oportunidade. Queria ser atriz e procurou se especializar aos olhos da sociedade – até porque “ser atriz” é intrínseco a ela – a bebê que dançava de forma desengonçada dá lugar a uma atriz entregue de corpo e alma, do tipo que não se contenta ser apenas uma, mas todas as suas personagens.

Em 1990, quando Elena se suicidou, o governo havia acabado de interromper a produção de cinema no país. Ela era já muito conhecida nos palcos, mas queria cinema e, portanto, procura refúgio em Nova York, quase como um exílio que também pode ser traduzido como uma espera por algo grande. O fracasso, mesmo em meio a empolgação, traz consigo a perigosa tristeza. A arte entra em conflito com a obsessão da incapacidade, o caos e o ruído não dialogam tão perfeitamente como antes e, assim, a linha tênue entre o suicídio e o equilíbrio, tão presente na vida de um artista, é desfeita.

Elena ingere aspirina com cachaça e morre. Suicídio. Quem é Elena? Um ser humano que buscava o que não se encontra, um segredo, um vácuo que jamais poderia ser preenchido. Uma decisão desperdiçada. Em sua autópsia consta a informação de que o seu coração pesa 300 gramas, mas, metaforicamente, o espectador sabe que pesa muito, muito mais do que isso. Afinal, não existe espaço para estatísticas em obras de arte, elas são imensuráveis.

“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota”

Parte III: O documentário

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A diretora, Petra Costa, afirmou em algumas entrevistas que começou a desenvolver o conceito do documentário após se deparar com o diário de sua irmã. Em um devaneio Petra percebeu que tinha a mesma idade de Elena e, por um instante, parecia que o que estava lendo foi escrito por ela própria. A angústia misturada com a empolgação e o vazio, aos poucos, iam se tornando mais identificáveis.

Petra pode se classificar como afortunada, pois encontrou diversos registros – em áudio e vídeo – da irmã na garagem de sua casa. Através dessas imagens o documentário se desenvolve mesclando as perspectivas, Petra e a sua mãe falam sobre Elena com total conhecimento e, no mesmo tempo, desconhecimento.

Em uma verdadeira contemplação, importante ressaltar que em nenhum momento beira o superficial, uma das primeiras narrações de Petra faz jus a expectativa da família sobre a sua pessoa: “você pode ir para qualquer lugar do mundo, menos Nova York e escolher qualquer profissão, menos ser atriz”. Enfim, Petra vai para Nova York estudar teatro, quase como se quisesse desabafar a ânsia da contradição, como se visse em si a oportunidade de uma nova chance da irmã.

O filme pode ser considerado, por insensíveis, como algo muito particular, egocêntrico ou até mesmo egoísta, ledo engano, na minha opinião se trata de uma experiência universal. Fazendo jus ao sentimento de perda, em qualquer âmbito, de desencontro e de aceitação.

O jovem se afunda facilmente na melancolia, está diante a uma série de decisões que mudaram para sempre o seu destino. Esse momento é conhecido como “período potencialmente crítico”, sendo superado facilmente com o respaldo da família, porém, isso dificilmente acontece; Primeiro porque o próprio jovem se isola; Segundo porque a família muitas vezes trata com desdém os problemas de um “adolescente”.

Aliás, o ser humano é assim, trata de forma indiferente ou inferior os problemas pelo qual ele não está passando. O problema é que a tristeza que conhecemos é apenas a nossa, podemos até tentar nos colocar no lugar de alguém mas, no final, sempre chegaremos as nossas próprias ansiedades.

Petra Costa é corajosa em se expor, no mesmo tempo que o seu trabalho é envolto de uma intenção desmedida: alcançar a comunicação com alguém que já se fora. Curioso é certificar que isso se realiza, através da própria arte. O filme é um elo entre mundos.

Elena foi homenageada, foi resgatada para o agora. Trazida com carinho pela irmã e moldada através das imagens e registro. Elena não gostava da própria letra, por isso “escrevia” cartas com a voz, se certificando de compartilhar suas experiências e novidades. Petra, Elena e a mãe são a mesma pessoa; Ligadas pelo conflito, pelo desejo de morrer, pela tristeza. No mesmo tempo que Petra procura sua irmã, se depara com a verdade de que ela mora em todos os lugares, uma chuva se torna o seu choro, o vento se torna um movimento, os pássaros a sua risada.

Petra, hoje, está mais velha que a sua irmã. Mas como escrevi acima, na arte nada se calcula, não existe idade. Existe verdade. A verdade da Elena é que ela se “sente mais a vontade e natural em frente a uma câmera”. A verdade sobre Petra é que sua sensibilidade é monstruosa e apaixonante. A verdade sobre mim: sou mais um, mas, nem por isso, comum.

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CdA #44 – Battle Royale – Livro, filme e mangá

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Nesse episódio fizemos um especial sobre Battle Royale, o mangá, livro, filme, enfim, citamos tudo! Provocamos a discussão sobre a natureza selvagem do homem, igualdade entre os sexos, sobrevivência, violência entre outras coisas.

Um papo denso sobre essa obra espetacular em todas as mídias. Participam desse cast André Albertim, Emerson Teixeira, Rafa Tanaka e Sandro Macena.

Obs: No final eu, Emerson, tive problema com o Skype e não pude concluir os pensamentos, mas os amigos concluíram bem e aproveitem esse conteúdo! Até o próximo episódio!

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CdA #42 – Juventude, 1951

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No episódio 42 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, Tiago Messias, Marcus Rocha, André Albertim e Cliff Rodrigo conversam sobre um clássico do grande mestre Ingmar Bergman de 1951 chamado: “Sommarlek” ou “Juventude”. Falamos um pouco sobre a história do cinema sueco, abordamos brevemente o começo da carreira do diretor e, claro, conversamos bastante sobre esse lindo filme que mostra com perfeição as principais características do trabalho do Bergman, que muitos consideram como o “maior diretor de todos os tempos”.

Assista ao filme, escuta o podcast e comente as suas impressões!

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