O Espelho, 2014

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★★★★

Você pode ler as outras críticas sobre os filmes do diretor Mike Flanagan clicando aqui.

Depois de experimentar três trabalhos do diretor, era a hora de reassistir o seu mais conhecido, “O Espelho”, de 2014. No ano do seu lançamento, lembro-me desse filme figurar em muitas listas dos melhores do gênero terror, o que me espantou, pois acreditava se tratar de apenas mais um genérico, com todos os clichês incluindo crianças, cachorro e casa assombrada; mas o fato de haver um “espelho” me chamou a atenção, por se tratar de algo indefinido e repleto de simbolismo, desde muito tempo e em muitas culturas diferentes. 

Como já era de se esperar, o diretor Mike Flanagan sempre se preocupa em trabalhar com elementos incomuns para acrescentar no clima estranho de suas obras, aqui ele aborda dois irmãos que presenciam, na infância, a morte de seus pais, de forma extremamente perturbadora. Eles relacionam os eventos terríveis à um espelho amaldiçoado, e prometem um para o outro que, quando crescerem, destruirão o objeto misterioso para ninguém se machucar novamente e, também, como uma forma de vingança.

A sinopse já revela um ponto interessante da obra: ambos irmãos já têm conhecimento da paranormalidade, restando ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça ao longo do primeiro ato para compreender o porquê eles possuem tanto interesse em um espelho velho. É um pequeno detalhe, mas para filmes assim funcionar é preciso algumas alterações, como é o caso dessa inversão. Geralmente temos uma apresentação conjunta, tanto o espectador quanto os personagens vão entendendo e acreditando nos eventos paranormais, aqui ele já está muito bem estabelecido, é como se largasse na frente de forma inteligente e direta.

Quando Tim sai do hospital psiquiátrico – que o força, durante anos, a acreditar que os eventos do passado não têm nenhuma ligação com o sobrenatural – e encontra a sua irmã Kaylie, ela já possui uma série de ferramentas para usar contra o suposto perigo, embora possa cair por vezes na imaturidade de apresentá-los quase como um filme de ação – ela, por vezes, parece ser uma espécie de espiã – o interessante é que essas ferramentas são, na sua maioria, tecnológicas, é como se existisse nela o interesse desenfreado de registrar o oculto através de equipamentos mundanos e suscetível ao erro.

O núcleo é apoiado na relação entre os dois irmãos, como se eles fossem os únicos a compreender as verdades do mundo e incapazes de provarem a sua sanidade e no registro através de filmadoras, quase como um experimento amador. No entanto, o desenrolar só ganha proporções maiores com o trabalho dedicado do diretor em mesclar os eventos do presente com fragmentos do passado, parece que o próprio passado é o demônio que transtorna os irmãos, e a relação que se estabelece entre Tim e  Kaylie ainda crianças e Tim e Kaylie adultos, é extremamente eficaz. Em diversas vezes essa opção confunde, propositalmente, essas duas linhas do tempo acabam se tornando uma só. Aliás, essa mesma estratégia foi usada posteriormente, pelo Mike Flanagan, em Sono da Morte, só que nesse caso era o mundo dos sonhos, que por sinal também tinha relação com o passado.

Quanto aos atores, destaco a Annalise Basso que chama tanto a atenção com a sua qualidade, que a Kaylie Russell criança se torna até mais impactante do que adulta, se mostrando sempre forte e preparada, apesar de transmitir muito medo. A atriz Annalise Basso já havia demonstrado um certo talento em um filme bem divertido chamado “Ilha da Aventura” e, além de fazer parceria com o Mike Flanagan, anda fazendo alguns trabalhos alternativos. Outro destaque é a atriz Katee Sackhoff que faz uma mãe que desmorona após perceber as mudanças psicológicas do marido, sua expressão sempre perdida e apreensiva chama a responsabilidade e até ofusca o Rory Cochrane que, sem dúvida, é o único que não faz jus ao seu papel.

“O Espelho” é mais uma prova que o cinema de terror pode inovar, apesar de ser extremamente complicado, basta pequenas novas ideias e talento, algo que já podemos esperar do jovem Mike Flanagan, sempre nos entregando obras, no mínimo, interessantes.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Sono da Morte, 2016

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★★★

Em “O Sono da Morte” o diretor Mike Flanagan se limita a fazer algo popular e que dificilmente não será aceito pelas pessoas. Isso porque ele conduz a história de forma delicada, sempre mesclando com algumas questões familiares que acabam criando, inevitavelmente, um elo com quem assiste por conta da identificação para com elementos como carinho, proteção e perda.

A história é sobre um casal chamado Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) que, após perder um filho, adotam uma criança, Cody, da mesma idade. O filho adotivo se adapta à nova família rapidamente, por conta da atenção e dedicação dos pais, porém o menino guarda um segredo que afeta a vida de todos ao seu redor.

A premissa pode soar clichê, mas não é. Inclusive o ponto mais alto do filme é justamente o seu conceito, sendo incrível na concepção e inteligente no desenvolvimento. Infelizmente essa inteligência é, como disse anteriormente, movida por uma necessidade de ser entendida, fica evidente a preocupação de se explicar constantemente e isso sem dúvida irrita por diversas vezes.

Contudo, Mike Flanagan continua provando ser um dos diretores mais promissores da atualidade – principalmente no que diz respeito ao terror, fantástico, suspense etc – e se utiliza de uma série de técnicas para compôr a atmosfera da sua obra, principalmente elementos que contribuem para exaltar o onírico. A cor azul é muito importante em diversas cenas, bem como a borboleta, essa segunda representando a transformação pela qual o pequeno Cody precisa passar.

Cody, interpretado pelo pequeno Jacob Tremblay, é o ponto maravilhoso das atuações, o carisma do ator mirim é muito grande e aqui funciona muito bem para a narrativa.

Certamente, “O Sono da Morte” não é dos melhores do Mike Flanagan, mas ainda assim é interessante, brinca com o visual e se estende, aos poucos, para algumas reflexões sobre a criação, imaginação humana e o mundo dos sonhos; também consegue atrair a atenção através do mistério e o leve suspense, que impulsiona a sensação de surpresa após uma conclusão inesperada.

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Absentia, 2011

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★★★★★

Depois de assistir “Hush- A Morte Ouve” e “O Espelho” me interessei bastante pelo trabalho do jovem diretor Mike Flanagan. Em uma gravação de podcast, a querida Angélica Hellish do Masmorracast recomendou aos participantes o longa “Absentia”, de 2011, primeiro longa do Mike. Então eu não poderia começar essa crítica de outra forma que não seja agradecendo minha amiga pela experiência cinematográfica que ela me proporcionou através da sua indicação. Muito obrigado Angel!

Se discutia bastante, há algum tempo, sobre a qualidade dos filmes de terror e a mesmice do processo criativo para criar a atmosfera do medo. No entanto, parece que alguns festivais de cinema apostaram suas fichas no terror e, alguns casos específicos, se tornaram de fácil acesso do grande público. Mesmo que muitos não tenham compreendido a proposta, como é o caso famoso de “A Bruxa“, é impossível negar que andou aparecendo coisas no cinema que ultrapassaram alguns limites impostos pelo gênero e até mesmo utilizaram o clichê ao seu favor.

Um nome, ainda desconhecido, que vêm demonstrando um talento extraordinário é o Mike FlanaganCom apenas 37 anos, ele parece ser uma grande aposta para o futuro, pois consegue transformar algo simples em verdadeiras preciosidades, muito por conta da sua ousadia em lidar com alguns elementos técnicos ao seu favor, como o som. Escrevi na crítica de “Hush- A Morte Ouve” sobre a importância do som no filme, então me senti bem mais familiarizado quando me deparei com o seu primeiro longa, “Absentia” que abusa das ausências e distorções para compor uma atmosfera, no mínimo, claustrofóbica.

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“Absentia” começa nos apresentando uma personagem chamada Tricia, ela está colando diversos avisos nos postes do bairro e, no desenrolar, sabemos que se trata do seu marido, que está desaparecido há sete anos. Essa personagem esta vulnerável emocionalmente por causa desse desaparecimento, é visível desde os primeiros vinte minutos. Isso sem contar a gravidez, que a mantém ainda mais isolada do mundo e a centraliza nos problemas e preocupações. Mesmo o filme sendo de baixo orçamento, é possível perceber muita atenção com os detalhes e, principalmente, no uso do som para acrescentar veracidade à esses dilemas e medos que a personagem está vivendo. É tão desmesurado essa atmosfera fúnebre, que o filme poderia parar nesses problemas do desaparecimento, da vida solitária, etc, que já seria uma excelente obra; mas ele expande e caminha por outras direções.

“Absentia” atinge um nível ainda mais alto com a Callie, irmã da Tricia, que aparece na casa da irmã para ajudá-la com a gravidez e lhe fazer companhia. Essa irmã teve problemas com drogas e será a motivadora de algumas mudanças cruciais no filme.

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O terror começa a acontecer desde os primeiros minutos. Mas não se sabe ao certo o motivo. Após algumas explicações, a Tricia começa a ter algumas visões do seu marido dentro de casa. Mas o brilhantismo é a forma visceral, natural e até mesmo sutil, que essas aparições vão acontecendo. É tão incerto, que todos os objetos da casa parecem que assume formas assombrosas e prende a atenção do espectador, como se ele soubesse que algo terrível pode acontecer, mas não tem absolutamente nada gráfico! São sensações e uma angústia desconfortável que vão exigindo de quem assiste um alto grau de atenção, como se, aos poucos, fosse se sentindo desprotegido, assim como as duas irmãs.

Depois de assistir ao famoso “Corrente do Mal“, fica bem óbvio o quanto o som e músicas são importantes para criar a tensão. Em “Absentia” acontece o mesmo – lembrando que o filme é de 2011, ou seja, quatro anos antes – e, por incrível que pareça, a experiência é muito parecida. Os sons distorcidos, a brincadeira com sons diegéticos e não diegéticos – principalmente com Callie e seu fone de ouvido – contextualiza quem assiste na realidade sombria da cidade onde há desaparecimentos misteriosos.

Outro ponto interessante é que o filme não força o susto em nenhum momento, por vezes há uma ausência total de som, mas não como um artifício de acumulo de atenção para, posteriormente, assustar com um barulho enorme como na maioria das vezes. A ausência de som existe para situar-nos, também, na mente da personagem. Por diversas vezes Tricia está meditando e não há som algum, como se a moça estivesse em um outro universo. Essa ausência de ruídos dissipa os olhares, ponderamos a aparição de qualquer coisa, pois o corpo da personagem está ali, mas sua mente não, portanto, demonstra com perfeição mais uma vez a fragilidade que existe, despertando o inerente desejo de proteção.

O jovem diretor ainda nos proporciona momentos interessantes, quando por exemplo acompanha o olhar assustado da protagonista diante a uma escuridão e, aos poucos, “adentra” ele. Como se essa sombra estivesse possuindo as pessoas e cidade, assim como o próprio túnel – lugar chave dos inúmeros desaparecimentos da cidade -, que surge e é trabalhado de forma extremamente assustadora, se tornando um elemento a parte que, só de olhar, provoca desespero.

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Nas primeiras imagens reforça a ideia da grandiosidade do túnel. Parece que “suga” Callie e a transforma em prisioneira. No entanto a luz em sua cabeça, parece ser um indício da sua inconformidade e força. O túnel poderia representar, literalmente, o mal. E diversos males do mundo, como o próprio desaparecimento ou o vício. Mas são pontos a ser discutidos, o fato é que “Absentia” é uma obra espetacular, que investe pesadamente no clima e usa todos os artifícios técnicos a favor de uma empatia e preocupação com os personagens.

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Hush – A Morte Ouve, 2016

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★★★★

O meu apreço por filmes de terror/suspense/thriller vai muito além do entretenimento. Desde criança me divirto com fantasmas, mundos destruídos, monstros, assombrações, mas acima de qualquer sensação penso que eu sempre tive uma curiosidade em compreender o medo. Sempre achei fascinante o nosso instinto de proteção ou até mesmo o horror do desconhecido, que vão desde situações novas até o próprio escuro.

Alguns filmes de terror conseguem transitar por entre o clichê e utilizar todos os artifícios já criados ao seu favor. É o caso do excelente “Corrente do Mal“, lançado ano passado. Isso mostra não só a força do gênero, como também a realidade: os filmes de terror possibilitam ao diretor, através do medo e apreensão, refletir sobre diversos aspectos da psicologia humana.

“Hush – A Morte Ouve” foi lançado pela Netflix – plataforma que vem surpreendendo bastante com os seus filmes – e, rapidamente, ganhou bastante estrelas no site. O filme conta a história de uma escritora Maddie que tem problemas de audição e vive em uma casa bem afastada da cidade. Em uma noite um assassino aparece e mata a sua amiga e, percebendo a indiferença de Maddie – pois ela não escuta o barulho nem percebe a presença do assassino – ele começa a fazer um jogo psicológico com a escritora até, de fato, matá-la.

Vale ressaltar que esse jogo psicológico, de certa forma, também existem em outros filmes, como exemplo cito o “A Invasora”, filme francês de 2007. Mas o diretor Mike Flanagan – que dirigiu outro bom filme chamado “O Espelho” – se preocupa com um detalhe que irá ser crucial para criar tensão: o som. A protagonista tem problemas de audição desde a infância, se comunica com a sua amiga por sinais e o espectador, desde o início, precisa se encaixar no estilo de vida silencioso da escritora. No entanto, os barulhos exteriores causado por ela – como pratos, celular etc – são ouvidos, ou seja, quem assiste o filme conhece os sons e a protagonista não. Quando ela está inserida em uma situação de sobrevivência, conseguimos antever as ações do assassino antes da protagonista, tão somente por causa dos barulhos. Além do mais, o pensamento imediato é que ela é inferior a ameaça, o que vai ser crucial para provocar o medo.

Nesse ponto, a edição de som é muito oportuna, por vezes fica distorcido, como se estivéssemos em plena viagem até nos transformarmos na isca, junto com Maddie.

Maddie é uma personagem tão forte que as suas limitações, no fim do segundo ato e terceiro, passam a ser um mero detalhe. A sua reação é de uma força inacreditável, nesse ponto o trabalho da lindíssima Kate Siegel é impecável, percorre momentos de medo mas sempre com uma segurança que conforta em momentos onde a tensão atinge níveis bem altos. O que era para ser um ataque fácil, vira uma guerra.

Kate Siegel assume, também, o roteiro. Bem realizado até o final, depois começamos a sentir uma pressa para terminar o filme e os acontecimentos se tornam bem artificiais. Felizmente a conclusão não apaga totalmente a brilhante construção da tensão e “Hush” é mais um bom representante do gênero thriller.

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