Strange Circus, 2005

Strange Circus ( Kimyô na Sâkasu, Japão, 2005 ) Direção: Sion Sono

★★★★

Sion Sono é um dos diretores mais corajosos da atualidade. Primeiro porque não se acostuma com o seu próprio ritmo, intercalando filmes trashs com os subversivos e profundos dramaticamente. E, segundo, pela própria ambição e inerência à fuga do óbvio: mesmo que se utilize da estranheza para compor a sua arte, sempre busca formas de surpreender, não contenta-se apenas com a ideia e faz questão de investigá-la sob diversos pontos de vista.

Filmes como “Extensões Capilares” e “Não se Esqueça de Compartilhar” podem ser utilizados para exemplificar a flexibilidade do diretor. Representam diretamente a facilidade que ele possui em conversar de diversas formas com o público, mesmo que sempre utilize um elemento incomum como essência para o desenvolvimento do roteiro.

Mais uma prova desse talento único é o “Kimyô na Sâkasu“, um dos filmes mais doentios e sublimes da sua carreira. A história é repleta de camadas, mas a principal é sobre Mitsuko, uma garotinha que vê o seus pais fazendo sexo e, depois disso, é forçada pelo pai à despertar a sua sexualidade. Ele a obriga assistir a sua relação sexual escondida e depois a abusa. A mãe, por sua vez, vê a filha e sente que ela está “tomando o seu lugar” e se sente traída, com ciúmes. Essa base será abordada de forma onírica, com uma série de referências visuais e símbolos, o trajeto perfeito de uma família corrompida pelos desejos mais obscuros da carne; monstros privando uma vida inocente de ser criança.

A atmosfera é surrealista, o brilho é ofuscado por uma sensação de sujeira e nebulosidade, as personagens são ambíguas, pronunciam cada palavra com um tom de artificialidade e arrogância. É difícil contextualizar a obra, seja em uma época ou sociedade, pois parece o inferno, uma caricatura das sombras, almas rastejando em busca da corrupção total.

O filme começa em uma boate onde uma drag queen interrompe o show para perguntar à platéia se há alguém interessado em ser decapitado em uma guilhotina. O show é a morte, a morte é presente e o sangue é comum. O quão pequeno é morrer em comparação com o sofrimento?

Como resposta a toda uma história e sentimento, alguém na platéia estende as mãos e indica que se dispõe a ter sua cabeça cortada no palco, com uma filmagem que se aproxima da subjetividade, somos transportados, a partir desse momento, para os sofrimentos de Mitsuko, a própria afirma que “sua vida é repleta de guilhotinas“.

O palco que exibe é o mesmo que transita por entre os corredores da sua casa. Onde o pai e a mãe fazem sexo por prazer e, no mesmo tempo, sua filha caminha em um corredor vermelho. O sangue das paredes é o mesmo que simboliza a evolução de criança para jovem; é o mesmo que corre dentro dela e, por consequência, do pai; é o mesmo que sujará a guilhotina; e, nesse caso, é o mesmo que toma o lugar do leite materno.

O pai indica à sua filha o voyeurismo, a obrigando ficar quieta escondida dentro de uma capa de violoncelo – ou seria a arte? – e assistir a sua performance sexual, impondo o prazer visual, carnal e crescimento. Esse abuso acarreta não só em uma maldição enraizada no âmago da Mitsuko, como também cria infinitas relações doentias e ódio.

O complexo de Electra é analisado sobre prismas polêmicos, o pai, após o sexo com a mãe, inverte as posições e abusa da filha. Caminho e criação; prazer e medo; mãe se transformando na filha e vice-versa – algo que será demonstrado visualmente, visto que nas cenas de abuso, como uma forma de simbolismo e respeito, o diretor opta por trocar a atriz, a filha literalmente se torna a mãe.

“…a diferença entre mim e mamãe era que ela parecia feliz.”

As camadas dramáticas vão sendo trabalhadas e expostas de forma pouco gentil, agredindo visualmente e filosoficamente pela tentativa de estabelecer o mistério como protagonista de uma experiência doentia. Os primeiros quarenta minutos são aterrorizadores e, sabiamente, o diretor opta, ao ultrapassá-los, em usar uma narrativa diferente, como se tudo não passasse de um sonho ou criação. Outros personagens aparecem, em especial um assexual que, tendo como base a sua opção sexual, é possível fazer uma ligação direta com o início onde a ideia primordial que conecta o sexo com o prazer é desmoronada. Outra personagem é a escritora que, mesmo possuindo a capacidade de andar, prefere ficar na cadeiras de rodas como um protesto por todo um abuso psicológico que resultou em uma paralisia dos seus movimentos.

Sem dúvida se trata de uma obra imperdível, verdadeiramente poético dentro da sua complexidade e obscuridade. Não é fácil se entregar para uma obra com tamanha densidade, no mesmo tempo que o resultado é brilhante. Além de possuir uma história extremamente complexa e relevante, o diretor é suficientemente inteligente para contá-la de forma que não fique cansativa. Em base às interpretações e direção de arte, o passado, criação e presente se confundem, todos se tornam uma só maldição.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Voltando para Casa, 2014

Voltando para Casa ( Gui Lai, China, 2014 ) Direção: Zhang Yimou

Zhang Yimou é um artista completo. O uso das cores sempre muito inteligentes, unido com uma sensibilidade enorme, fazem dele o maior nome do cinema chinês. Depois de assistir, por acaso, “O Caminho para Casa” (1999) me encantei ainda mais com a profundidade e importância do professor na sociedade, principalmente quando relacionamos com a individualidade. Através de uma mensagem carinhosa do diretor, passei a ter certeza da profissão que seguiria a seguir.

Mas não é em apenas um filme que Zhang Yimou aborda a relação entre professor e aluno, seja representado por dois ou mais indivíduos ou algo pessoal, é constante a aprendizagem como objetivo principal dos seus roteiros. Em “Voltando para Casa” (2014) ele retorna à uma abordagem delicada, repleta de emoções e lida novamente com a aprendizagem, dessa vez ela acontece de uma forma forçada pois um personagem – curiosamente, um professor – precisa se reeducar afim de encontrar maneiras de se aproximar da sua esposa, após ser preso por oposição ao governo chinês em plena revolução cultural, se não bastasse, ele descobre, ao retornar, que ela perdera a memória no tempo em que esteve ausente.

A trama principal pode parecer comum mas é desenvolvida com muito esmero. A começar pela parte visual que, tencionando representar uma história de distância e esquecimentos, além da própria readaptação, se baseia em uma paleta de cores frias; os figurinos também seguem a ideia e, ainda por cima, são perfeitamente alinhados, fechados até onde é possível e em diversas vezes apresenta inúmeras camadas: blusa, cachecol, enfim, transparecendo insegurança diante das transformações sociais e evidenciando um amor fragilizado. Se o figurino e fotografia estão em harmonia, é interessante ressaltar que a palidez só é quebrada quando a filha do casal, uma bailarina, veste cores vermelhas, fortes, de modo a representar os seus sonhos artísticos que, por motivos políticos, precisam ser podados. O sangue das suas lágrimas – jamais exploradas com artifícios fáceis – também são vermelhos. A cor está presente em todos os trabalhos de Zhang Yimou e, aqui, parece ser uma prisioneira, personificando ideais artísticos, opondo-se à opressões criativas e sociais.

As primeiras cenas apresentam os tempos nebulosos que as personagens se encontram, a ausência do marido é sentida em cada expressão da talentosíssima Gong Li – parceira fiel do diretor – e os detalhes vão sendo entregues em doses homeopáticas. Como, por exemplo, o ensaio que a filha do casal principal está fazendo, cujo talento não basta para a escolha do papel principal, visto que o protagonismo passa por uma análise política, que inclui também os seus pais e antepassados. Irônico, também, é perceber que em diversos movimentos da coreografia, as bailarinas se utilizam de uma arma como composição essencial.

O filme parece ganhar proporções maiores quando a mãe tenta reviver o seu amor e se posiciona entre o marido e a filha. A força da mulher, bem como suas escolhas, ficam evidentes e, sem demonstrar muito, entendemos o seu passado e a mensagem poderosa da sua difícil decisão. A tentativa do reencontro com o seu marido, após anos preso, falha e uma passagem brusca de tempo acontece – uma das fragilidades do roteiro, inclusive. A partir desse momento a obra deposita suas atenções na liberdade e retorno de Lu Yanshi e a sua coragem em enfrentar o tempo.

Aceitar a finitude da vida é fácil, perto da visualização e presença diante da morte causada pelo esquecimento. Ir embora ainda perto; morrer existindo. Toda história se perde e a presença fica. Esse tema demonstra vazios da existência que jamais serão superados. A compreensão da finitude é um motivador para a intensidade da vida dentro da rotina; a perca da memória é somente um aviso da natureza sobre a nossa pequenice.

Nesse ponto, o ator Chen Daoming brilha ao compor, em seus olhos e movimentos, exatamente essa aflição. O querer abraçar e não poder, simplesmente porque tudo aquilo que acredita nunca existiu, senão, na sua própria cabeça. Por outro lado, Feng Wanyu ainda se lembra do jovem marido, que prometera há anos que retornará. Com frequência ela o espera e cabe ao Lu Yanshi, simplesmente, estar ao lado; esperando a si mesmo, enfrentando suas memórias e ignorando o presente.

A poesia visual vai de lágrimas caindo em uma antiga fotografia, como símbolo da transição do tempo, passando por luzes em meio a um abraço e grades separando dois amores. É mais uma obra-prima de Zhang Yimou, estruturada principalmente na força dos seus atores principais como veículo para uma perfeita alegoria sobre a distância.

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Katatsumori, 1994

Caracol ( Katatsumori, Japão, 1994 ) Direção: Naomi Kawase

Naomi Kawase troca o termo documentário por memórias. O início da sua carreira, após fazer um curso e dar aulas de fotografia, é toda voltada para os registros viscerais de sua vida. Uma câmera na mão e muito coração dentro do peito. O abandono do pai e opção da mãe por entregá-la à adoção estão sempre presentes nos seus filmes, bem como a força da natureza que aprendera com sua “vovó” – assim chamava a sua mãe adotiva.

Em “Caracol” Naomi se dedica a filmar sua avó com uma simplicidade monstruosa. É possível ouvir até os ruídos da sua filmadora, algo bem amador e pessoal, como um diário audiovisual procurando refúgios em imagens super próximas do objeto principal, de forma a aproximá-lo da autora, tornando-o eterno.

Seguimos a vovó e seus cuidados atenciosos com a terra, enquanto divaga sobre questões cotidianas como passado, preocupações e relação com sua filha. O close-up no seu rosto é constante, trazendo até mesmo um leve desconforto para ela que, prontamente, aceita a condição de ser estudo da Naomi, existe uma compreensão e fé nos talentos da, até então, jovem diretora de 24 anos.

Existe magia em cada lar, sentimentos incompreensíveis de afeto em cada família e isso é trabalhado aqui. Logo no início vovó fala com felicidade dos seus oitenta e cinco anos, no mesmo tempo que salienta em dado momento que viverá até os cem para ver as realizações de sua filha. Faz uma lista de possíveis coisas – sempre haverá a inclusão de filhos, como o ideal perfeito da continuidade da história – e, logo em seguida, pede para Naomi filmar a si mesma. Me pego pensando o quão simbólico é isso pois é justamente através da filmagem que a diretora se imortalizou na história do cinema.

As lembranças são todas as riquezas que temos, que bom poder viajar no tempo e viver um momento conforme a sua imagem. “Caracol” se trata de uma obra tão particular, que chega a incomodar em certo ponto, como se fosse uma intromissão. A sensação é de estarmos invadindo uma casa aleatória e roubando uma pequena, mas especial, caixinha de lembranças.

Vovó trata a terra com a mesma dedicação que têm com Naomi, planta de modo a criar vida e se questiona indiretamente. Ela se preocupa com as filmagens, por registrá-la sem maquiagem e perto demais do seu rosto. Chega a dizer: “…essa cara velha e enrugada, sem maquiagem” e é justamente nesse momento que pega a filmadora e registra sua filha, a diretora, ainda bem nova e cheia de esperanças. Ainda sobre sua imagem envelhecida, caminhar fragilizado… quando ela questiona a falta de maquiagem, o espectador inconscientemente responde: é justamente a sua naturalidade que a torna a senhora mais linda de todas.

É de se notar que a comunicação entre as duas, apesar de partir da pureza e do mútuo respeito, percorre alguns momentos de timidez, como uma pergunta da vovó onde ela questiona se sua filha a ama. A resposta, em forma de poesia visual, acontece em uma filmagem em off através da janela, distante; os dedos da diretora fazem carinho na vovó através do vidro, como se estivesse sempre cuidando dela, apesar de não ter forças o suficiente para demonstrar em todos os momentos.

O sussurro no final, com a frase “boa noite”, é de partir o coração. Um momento de realidade se intromete no processo de contemplação da beleza. Todas histórias, com seus amores e decepções, dependem de uma boa noite de sono para se tornarem grandiosas. Naomi reflete isso e o faz de forma sublime, respeitando as suas imagens e sua musa, mas sem esquecer que tudo vai embora, até mesmo a jovem diretora, com toda a sua inocência e insegurança.

Existe, apesar de algum amadorismo, – qual verdade não é, afinal – um planejamento visual feliz. Mas o documentário se destaca pela força metafísica do seu objetivo: imortalizar uma pessoa, diálogos, expressões e carinho. Naomi guarda sua vovó e cabe ao espectador tentar fazer o mesmo.

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A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

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CdA #58 – Lolita: Entre o amor doentio e a obsessão

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“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O livro “Lolita” escrito por Vladimir Nabokov é um dos mais polêmicos da história. Aborda um relacionamento proibido e doente entre um professor e uma menina de 12 anos. Contudo, apesar do tema, existem milhares de pessoas que ainda enxergam a história como uma linda obra de amor. Nesse episódio do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e Tiago Messias conversam sobre as duas adaptações cinematográficas de “Lolita” e tentam entender as qualidades e erros desse amor pedófilo e incestuoso.

Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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Pássaro Branco na Nevasca, 2015

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★★★★

Gregg Araki é um diretor que surgiu nos anos 90, ele é, ao lado de Wes Anderson, Tarantino etc, mais um bom representante do grupo de artistas independentes que reformularam o cinema norte-americano. Sua proposta é muito interessante: falar sobre o jovem e o mundo que o cerca; O diretor, homossexual assumido, também trabalha com frequência o tema, de forma bem sincera e, por vezes, provocante.

“Pássaro Branco na Nevasca” poderia ser apenas mais um filme mediano do diretor – principalmente se analisarmos exclusivamente o roteiro que se torna muito pretensioso no terceiro ato – mas, por alguns motivos que descreverei a seguir, ele mexe com o nosso coração de forma quase imperceptível, despertando uma empatia, seja pelo jovem e sua ânsia de viver ou a mulher de meia-idade repleta de arrependimentos e angústias.

O filme acompanha a vida da jovem Katrina que é filha única de uma família extremamente dentro dos padrões norte-americanos. Ela se vê em meio a um terrível clima de falta de carinho e respeito dos seus pais, que parecem apenas viver dia após dia para manter suas máscaras e gritar para a sociedade que está tudo bem. Então certo dia, sem nenhum tipo de explicação,  Eve Connors ( mãe ) abandona a sua família e nunca mais retorna. A partir desse fato veremos quais as consequências desse fato na vida da Katrina e, ainda mais, procuraremos juntos com ela uma resposta para a atitude da mãe.

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O filme se constrói em vários flashbacks, inclusive eles aparecem de forma abrupta às vezes, como se quisesse simular as angústias tanto da mãe quanto da filha. Essa vida bagunçada e cheio de conflitos invisíveis, parece transcender à realização, transformando o filme em, praticamente, um recorte de momentos. Causa um certo desconforto inicial, mas esse sentimento de confusão vai nos aproximando, cada vez mais, da curiosidade, a vida daquela família comum se torna enigmática e grandiosa.

Se existe uma incomunicabilidade no que diz respeito ao didatismo do roteiro, não podemos dizer o mesmo da inteligência do diretor em usar a fotografia ao seu favor: sempre muito bonita e clara, demonstrando tranquilidade no presente, serve como um verdadeiro contraste nas cenas de flashback onde temos umas misturas mais gritantes, principalmente o uso do amarelo. Em dado momento, quando é mostrado a mãe e o pai formando suas vidas/ comprando a casa, a fotografia é amarela, demonstrando o calor e energias daquela relação, fruto da expectativa. Consecutivamente, com o declínio dessa empolgação inicial, a fotografia vai se tornando cada vez mais fria e sem cor ou com uma iluminação superexposta.

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Não posso escrever sobre esse filme e não citar, com um certo aprofundamento, as excelentes performances da Shailene Woodley e Eva Green. Começamos pela primeira: Shailene pertence a esse novo grupo de grandes atores com menos de 25 anos, é uma verdadeira aposta desde “Os Descendentes” e, a cada dia, vem mostrando a sua perspicácia e versatilidade transitando por entre os filmes populares e alternativos. De todos esses novos nomes de Hollywood, incluindo a própria Jennifer Lawrence, Shailene Woodley me parece ser a mais talentosa.
Sua personagem, Katrina, esteve desde criança em contato com a sexualidade, então ela cresce com essa mentalidade livre, com um certo desprendimento. A atriz resgata esse lado muito bem, até o momento nunca visto na sua carreira, que sempre pendeu para o lado da pureza e inocência.

Do outro lado temos a mãe, Eva Green. Que o talento da Eva é absurdo, todos sabem. A sua qualidade mora na obrigação em exigir de si mesma a cada detalhe, reação e olhar; Todos esses elementos são imprescindíveis para as composições de seus personagens, sempre abusando muito da sensualidade que lhe é inerente – afinal, trata-se de uma das atrizes mais lindas do mundo. Nesse filme sua personagem está afundada em arrependimentos e monotonia, cansada da vida de dona de casa, ela sempre se mostra abatida. A sensualidade da atriz, como descrita acima, consegue ser essencial pois se encontra escondida em expressões de desespero. Isso, inclusive, me faz pensar que o “pássaro” do título faz referência direta a mãe, presa em uma gaiola boa parte do filme.

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Se a construção da história é excelente, muito se deve a discussão filosófica e a pitada da crítica social, principalmente aquela voltada ao “american way of life“, nesse ponto o filme nos lembra bastante o “Beleza Americana”. Por outro lado, na discussão filosófica a obra encontra a sua maior força.

Existe uma mensagem implícita sobre o sentimento de urgência da mãe em viver, não apenas existir. A sua casa, aparentemente perfeita, se torna um ruído em sua vida. A filha, de aspecto jovial e perfeito, se torna aos poucos sua inimiga. A questão da imagem têm uma importância gigantesca na trama, movendo as duas personagens principais para um encontro místico, como se as duas fossem uma só.

Katrina se relaciona com alguém mais velho, enquanto a mãe aparentemente seduz um jovem rapaz – namorado da filha. Então existe um conflito de posições e/ou aceitação da condição, isso é extremamente relevante para a compreensão da obra e os seus significados. Se existe uma maturidade enorme na criação e desenvolvimento dos fatos, o mesmo não se pode dizer da conclusão. Concentrando-se na surpresa, o diretor parece se tornar extremamente pretensioso e preguiçoso nos minutos finais, transformando toda a possível surpresa em uma ferramenta de tragédia, manchando um pouco a atenção minuciosa das cenas anteriores.

Baseado no livro “White Bird in a Blizzard”, da escritora Laura Kasischke, o filme ainda consegue sobressair as más decisões do final e se mantém como um bom estudo de personagens, principalmente referente à mulher e o jovem, bem como a relação de amor/inveja entre mãe e filha.

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