A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #61 – Adaptações cinematográficas de livros

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No episódio número #61 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira recebe Cliff Rodrigo Jucimara Pauda – do canal Livro sem frescura – para uma discussão sobre livros e suas respectivas adaptações cinematográficas. O que é necessário para realizar uma boa adaptação? Harry Potter mudou a forma que os jovens veem os livros? Tudo isso e muito mais nesse episódio especial.

O filme mais antigo, registrado como uma adaptação de um livro é o “Sherlock Holmes Baffled”. O curta foi feito em 1900 e descoberto em 1903. Em 1903 tem também a adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, super produzido para a época e resgata com perfeição a surrealidade proposta no livro por Lewis Carroll.

 

Lista de filmes/livros citados durante o podcast:

  • Lolita
  • Sherlock Holmes
  • Le voyage dans la Lune, 1902
  • Alice no País das Maravilhas
  • Harry Potter
  • As Vantagens de ser Invisível, 2012
  • Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, 1998
  • O Poderoso Chefão, 1972
  • Psicose, 1960
  • Neco z Alenky, 1988
  • Coraline, 2009
  • Caos Calmo, 2008
  • Sandman
  • Superman
  • Memórias Póstumas, 2001
  • 1984
  • Um Sonho de Liberdade, 1994
  • O Senhor dos Anéis
  • Sobre Meninos e Lobos
  • Onde Vivem os Monstros
  • Carrie – A Estranha
  • O Exorcista
  • Horror em Amityville
  • Vingador do Futuro
  • V de Vingança
  • Os Delírios de Consumo de Becky Bloom
  • Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
  • Ratos e Homens
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O Segredo de Eleonor, 2009

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★★★★

As animações francesas possuem, na sua maioria, um visual maravilhoso, geralmente contrastando a delicadeza e infantilidade com temas profundos e, em algumas oportunidades, densos.

O charme que já é característico do país também se torna muito presente nas animações, conquistando público de todas as idades, seja através da naturalidade que se desenvolve o roteiro, as belíssimas canções ou os personagens marcantes.

“O Segredo de Eleonor”, dirigido por Dominique Monfery, que trabalhou também no curta “Destino”é mais uma prova de que a França é um dos países com maior talento para encantar o mundo com seus longas animados, junto, é claro, do Japão, no entanto os dois se diferenciam muito. 

O filme conta a história de um garotinho Nathaniel que, desde o início é mostrado como o irmão mais novo que é obrigado a ouvir as provocações da irmã, a maioria das provocações fazem referência ao seu tamanho mas, uma em especial, o machuca muito: não saber ler.

Nathaniel, apesar de ser incrivelmente criativo, ainda não consegue ler, está passando por dificuldades na escola. No entanto, a sua aproximação com a leitura é muito íntima, visto que anos antes sua tia, Eleonor, lia muitos contos de fadas para ele. Nas férias, a família retorna a casa de campo e o menino revive algumas lembranças boas da sua tia que, infelizmente, faleceu momentos antes. Ela, porém, guarda alguns segredos, o maior deles é sobre livros.

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A primeira coisa que chama muito atenção é o uso das músicas, a cena inicial traz uma bem obscura, logo em seguida os personagens vão aparecendo e a cada minuto vai se tornando mais suave. Representando a confusão vivida pelo protagonista em um mundo onde a sua liberdade criativa não é o suficiente.

A leitura e a palavra estão muito presentes nesse filme, assim como a irrelevância dessas duas quando não há a imaginação e interpretação. Seria a leitura apenas uma decodificação de símbolos ou uma oportunidade real de criar sobre uma criação? Fica nítido, desde o início, que Nathaniel interpreta mais o mundo e as palavras do que sua irmã, a relevância desse conteúdo quase investigativo é enorme, podendo ser facilmente trabalhado em escolas, por exemplo, auxiliando a desmitificação da imposição da leitura no nosso dia a dia.

A leitura serve para nos fazer felizes, sem obrigações. E é exatamente esse tema central do filme, pois o garoto se torna uma espécie de guardião dos personagens dos contos de fada que sua tia lia para ele, a trama se desenvolve de forma muito parecida com “Toy Story 2”, o que se torna uma grande homenagem, pois as intenções são outras e tão grandiosas quanto.

Curioso notar que a personagem que mais encanta o menino – e que será a sua parceira na aventura – é Alice. Demonstrando mais uma vez a grandiosidade dessa personagem clássica, remete-nos ao seu desdém durante a leitura de um livro sem imagens, ainda por cima quem lia era sua irmã. Outro elo claro entre os dois é a capacidade quase compulsiva de sonhar e de se desprender.

“O Segredo de Eleonor” é excelente, tem doses de humor mas em nenhum momento anula a profundidade proposta desde o início. Se torna uma viagem mágica através do autodescobrimento e maturidade, tudo de forma bem orgânica e despretensiosa.

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CdA #021 – Assista esses filmes… de olhos fechados!

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Um bate papo gravado com o Sandro Macena há algum tempo, onde recomendamos alguns filmes que vimos. Estamos colocando novamente para esse conteúdo não se perder, os filmes que indicamos são muito bons e esperamos que os ajude a escolher algo para ver em algum final de semana.

Alguns filmes/livros citados: 

Qual é o Nome do Bebê?, ( Francês ) 2012
Noite de verão na Cidade, ( Francês ) 1990
O Som ao Redor, ( Nacional ) 2013
Mais ne Nous Délivrez pas du Mal, ( Francês ) 1971
Filhos do Paraíso ( Iraniano ) 1997
Prova de redenção ( Espanha/Itália ) 2012
Livro: O Mundo de Sofia
Livro: O Apanhador no Campo de Centeio
Livro: Ratos e Homens

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