Édes Emma, drága Böbe, 1992

Édes Emma, drága Böbe (Queridas Amigas, Hungria, 1992) Direção: István Szabó

István Szabó é um dos diretores mais conhecidos do cinema Húngaro, isso se deve ao fato de ter sido vencedor do Oscar de filme estrangeiro com o maravilhoso “Mephisto” (1981), onde acompanha a história de um ator que se filia ao partido nazista com a intenção de crescer profissionalmente, porém a ideologia que prega traz uma série de dilemas para a sua vida. O personagem é preso entre o fascínio pelo sucesso conquistado e a tristeza pelo trajeto percorrido até chegar a tal ponto.

Dez anos depois o diretor realiza uma pequena obra chamada “Édes Emma, drága Böbe” que, em poucos minutos, exibe uma protagonista que divide sua vida entre dar aula em uma escola e conversar com sua amiga, a qual divide um quarto de hotel. A história é simples, existe profundidade nas questões abordadas – principalmente aqueles que se referem ao ensino – mas o desenvolvimento se perde em meio às críticas sociais e a amizade como representação da liberdade.

O filme começa com uma imagem aterrorizadora, o corpo de uma mulher, nua, escorrega em uma montanha de areias, sua vida segue em desordem a caminho da morte. A fotografia azulada, bem escura, traz uma sensação estranha, de fraqueza. Emma acorda assustada, no seu quarto, percebe que tudo foi um sonho. O espectador passa, a partir de então, a assistir esse mesmo corpo caindo, sem equilíbrio, objetivo ou autonomia.

Algo está constantemente em desordem, a protagonista levanta, se arruma brevemente para trabalhar e tenta acordar sua amiga, Böbe. Inclusive a filmagem é inteligente ao se distanciar do objeto, deixando em primeiro plano as paredes externas do pequeno quarto. Se não bastasse, o cômodo é extremamente bagunçado. Essa desorganização, visualmente bem trabalhada, transmite a ideia de que as amigas não seguem as regras, muito menos se preocupam em transparecer maturidade, mesmo que uma delas enfrente uma profissão que exija isso; mas também aproxima quem assiste, cria uma ponte para a identificação e, ainda por cima, exala a ideia de liberdade. O resto do mundo é uma montanha, prestes a engolir os corpos, mas o quarto é a superfície, segura e extremamente aconchegante.

O relacionamento de Emma e Böbe é curioso: no mesmo tempo que se entendem, é perceptível uma série de diferenças entre elas. Inclusive diferenças significativas que, em outro momento, afastariam uma da outra. Em uma cena Böbe reflete que “você se define pelo que têm” e se mostra, desde o começo, esperançosa para obter status em base a um relacionamento, por outro lado Emma é romântica, busca amar antes de qualquer questão financeira. Uma é inocente, sonhadora; a outra é realista e amargurada. Mas é válido ressaltar que as características das duas são entregues de forma sensata, há muito espeço para interpretarmos as suas atitudes ou opiniões.

Como forma de auxílio para o desenrolar da história, temos algumas inserções de letreiros no meio da obra, quase sempre as frases são irônicas, mas é visível a preocupação em parecer, por vezes, que se trata de um conto de fadas social.

Se a ideia principal é inteligente, a execução deixa a desejar. A começar pelo ritmo, quando um filme de uma hora e vinte entedia, é realmente preocupante. O terceiro ato fica aquém da construção inicial, principalmente por não finalizar os temas principais que vinham sendo discutidos, mesmo que timidamente, até então. Os caminhos não são bem definidos.

Outro ponto que incomoda é a atriz principal: Johanna Ter Steege é talentosa, muito lembrada por ter feito a obra-prima “O Silêncio do Lago (1990), mas ela é holandesa. Portanto, os seus diálogos tiveram que ser dublados em Húngaro, fato que, mesmo que tenha um propósito narrativo – ideia que teimo em recusar, inclusive – incomoda demais, tira a concentração e, por vezes, a seriedade dá lugar a um leve sorriso, tamanho trabalho mal feito.

Se trata de uma obra regular, que apresenta algumas reflexões válidas. Por exemplo, em dado momento um grupo de amigas, incluindo as duas principais, ficam sabendo de uma seleção para a figuração em um filme. Elas vão fazer o teste, mesmo que a cena em questão seja em um banheiro, e elas precisem ficar nuas. Diversas mulheres aparecem despidas para o teste, mas as protagonistas não. É uma metalinguagem bem interessante, apesar de que a sua função no roteiro seja extremamente oculta, ainda assim é divertido.

A força principal fica mesmo por conta da sutil amizade, pois mesmo com as diferenças elas conseguem compreender suas dores, através da ausência de amor. Elas compartilham suas decepções amorosas e são apoiadas uma pela outra, através da consciência e mútuo respeito. A palavra “vácuo” é citada no final da obra, ainda é mencionado que essa palavra é a mesma em inglês e russo e o filme fala sobre isso: gestos, decisões e simplicidade que podem ser assimiladas em qualquer lugar, ultrapassando línguas e história. Mulheres tentando se encontrar.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #71 – Capitão Fantástico

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No último episódio do podcast Cronologia do Acaso do ano, Emerson Teixeira e Tiago Messias se reúnem para uma conversa sobre consumismo, paternidade, influência e liberdade, através da obra “Capitão Fantástico”, dirigido por Matt Ross.

Devemos agradecer a todos por nos acompanharem nesse ano e desejamos boas festas, com muita paz e sorrisos. Nos vemos em breve!

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