Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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