O Rei dos Porcos, 2011

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★★★★

Kyung Min (um empresário) e Jong Suk (um escritor fracassado) relembram, em um jantar, os tempos da escola, quando sofriam com intimidações de um grupo de alunos.

“O Rei dos Porcos” é uma animação japonesa obscura, com uma linguagem abrupta e um desenho estranho, dois elementos que dialogam perfeitamente com o tema que a obra de Yeun Sang-Ho aborda: o bullying.

Apesar de ser um tema muito discutido na nossa sociedade ultimamente, vejo uma inversão nesse filme, parece que a pretensão é, realmente, nos aproximar da violência e ameaça na sua verdade, onde a fuga parece uma ideia utópica e a salvação, por sua vez, é somente o ódio.

Seria justo afirmar que se trata de um filme para adultos. Até porque a violência é explícita – com destaque à uma cena em que os jovens protagonistas dão facadas em um gato para provarem a sua força.

O gato, por sinal, volta em aparições e, constantemente, persegue um dos personagens como uma forma de culpa. Aliás, a animação nos provoca inúmeras vezes com a afirmação de que “se você não quiser ser um idiota, tem que se tornar um monstro” e ainda traça uma clara e dolorosa divisão entre os “cachorros” e “porcos”; uma alusão aos alunos da sala.

O desenvolvimento beira o onírico, a linguagem direta e cruel resgata o clima adulto e os traços dão um tom sujo e detalhista ao filme. É uma excelente obra cinematográfica, que exige muita atenção pois possui diversas camadas e sub-tramas relacionadas ao jovem, o medo e a vingança.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Frente Fria Que a Chuva Traz, 2016

Obs: Hoje, dia 31/07/2016, alteramos a imagem do cabeçalho aqui do Cronologia do Acaso e colocamos o desenho criado pela artista Julia de Andrade. A ideia é fazer uma referência ao filme “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson. Agradecemos a Julia, em especial, e recomendamos aos leitores que visitem o seu site para conhecerem o seu trabalho.

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★★★★

A beleza da Bruna Linzmeyer transcende o natural, sua aparência chama a atenção e o diretor Neville de Almeida usa isso à favor da sua mais recente obra. O diretor sempre soube trabalhar as relações de forma, no mínimo, curiosa, e agora, depois de tempos sem um trabalho de grande expressão, ele se mostra muito inteirado na vida dos jovens – interessante que o filme trabalha com a hipótese dos jovens terem se habituado a permanecer em um nível inferior, principalmente no que diz respeito ao objetivo.

O filme segue alguns jovens em um dia, onde no final da noite, eles farão uma festa em uma das favelas do Rio de Janeiro. Cercados de drogas, bebidas, funk e sexo, a obra levanta algumas reflexões sobre essa forma de vida, principalmente de menininhos e menininhas ricas, através de uma personagem complexa chamada: Amsterdã. Ela se prostitui para alimentar o seu vício em heroína e mantém uma amizade com esses jovens, completamente diferentes, apenas para conseguir bebidas, baseados e cigarros.

Há um preconceito gigante, hoje mais do que nunca, com os filmes nacionais. Na verdade isso não passa de uma ignorância pois o nosso cinema é maravilhoso, basta pesquisar um pouco e encontrar diretores fantásticos e artistas talentosíssimos. Infelizmente sempre estaremos cercados de visões conservadoras que, inclusive, relacionam o cinema nacional com a nudez e sexo.

O cinema Sueco foi considerado libertino nas décadas de 50/60/70 e ainda assim é um dos melhores do mundo. Trabalhar a sexualidade e o sexo não é um crime, e escrevo isso porque “A Frente Fria Que a Chuva Traz” traz, em seu vasto conteúdo, extensos diálogos e gestos que sugerem o ato sexual, mas todos eles compõem a intenção de desconstruir a vida dos jovens repleta de vazios e alegrias passageiras preenchidas ignorantemente pelo prazer, seja sexual ou as drogas.

Na vida há, sim, coisas maravilhosas, muitas das quais são consideradas proibidas e/ou tabus, mas a degradação humana está mais vinculada a forma como é feita a nossa transição do que propriamente os erros. Quase todas as personagens nesse filme são despreocupadas, mimadas e sem objetivos, só o fato de ter dinheiro as tiram da responsabilidade de viver, elas se arrastam atrás de pequenos momentos. Por outro lado, em um país de terceiro mundo, quem tem dinheiro são os que continuarão comandando e, sob essa perspectiva, nossa liderança não vai nada bem.

Logo nas cenas iniciais é possível perceber que na laje, onde acontecerá a festa, está repleta de bolinhas, daquelas que vemos em shoppings, todas coloridas, isso remete a infantilidade. Os que se acham “adultos”, não passam de crianças isolada em um mundo de faz de conta, onde a felicidade pode ser comprada. No mesmo tempo que o jovem domina, ele é constantemente dominado.

Outra coisa interessante é que o segurança ( um homem adulto ) que foi pago por um dos jovens ( criança ) é chamado duas vezes ao longo do filme de “ninguém”, enfatizando e generalizando os adultos como seres monstruosos e sem forma, sem riso e disposição para a boemia.

Mas é na analise humana que o filme se sai maravilhosamente bem, Bruna Linzmeyer dá a sua Amsterdã uma intensidade muito grande, utilizando a beleza exótica ao seu favor. A atriz emagreceu para viver a sua personagem e, se não bastasse, a maquiagem sempre borrada e o olhar perdido demonstram uma perfeita sintonia entre o desequilíbrio, loucura e o medo.

Linzmeyer se mostra um verdadeiro talento e, se no ano passado fez o terrível “O Amuleto”, agora consegue demonstrar que, além de diferenciada, é perfeita para papeis intensos. A sua personagem é aqueles “papeis brindes” que todo ator quer ganhar, é de se impressionar que ela o tenha conseguido tão jovem e, mais ainda, feito jus a complexidade do papel.

Qualquer chuva trás consigo uma mudança. “A Frente Fria Que a Chuva Traz” é uma discussão e reflexão de dois mundos, o da inconsequência e da realidade, elementos que serão representados da forma mais improvável em cenas de festas, beijos e sexo. Se o Harmony Korine fez algo parecido com “Spring Breakers”, podemos então colocar o filme do Neville de Almeida do mesmo nível e tão importante quanto.

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Copenhagen, 2014

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★★★★

Se existe um formato de filme que me conquista facilmente é, sem dúvida, os indies, principalmente se abordarem um relacionamento – seja de um casal, amigos ou uma catarse individual -, é a oportunidade ideal para se emocionar, sorrir e, claro, se divertir.

É o caso de “Copenhagen”, filme dirigido pelo Mark Raso de 2014, que consegue sustentar uma profundidade dramática mas, no mesmo tempo, está muito mais interessado nos seus personagens e na relação que se estabelece entre eles.

A história é centrada no William, de 28 anos, que viaja até Copenhagen com uns amigos e, dentre atividades como: baladas, mulheres e bebidas, ele ainda tem um desejo de encontrar o seu avô ou descobrir um pouco mais sobre ele. No meio do caminho ele encontra a adorável Effy, uma menina com personalidade forte e independente que, apesar de demonstrar muita maturidade e consciência sobre as suas atitudes, só tem 14 anos. Então o filme passa a se desenvolver nesse limite entre amizade, paixão e limitação por conta da diferença da idade, tudo isso enquanto ambos personagens andam de bicicleta pelas ruas maravilhosas e alegres de Copenhagen.

 A história é pautada em diversos clichês que vão desde a surpresa da paixão – afinal, William é do tipo que sai com várias mulheres mas começa a se encantar por apenas uma -, passando pelo problema da diferença de idade entre os dois até chegar no processo de evolução dos personagens através da caminhada pelas ruas afim de chegar ao objetivo, nesse caso, podemos resumir que é um típico road movie.

Mas o que difere esse filme de outros com a mesma temática é, sem dúvida, a super atenção que o diretor dá aos seus personagens, transformando-os em verdadeiros monumentos que, só de aparecer juntos em tela, cria uma sensação de bem estar no espectador- aquele súbito sorrisinho de canto. O relacionamento é desenvolvido com tanta sinceridade e ternura que, por algum momento, esquecemos que se trata de uma diferença de idade de 14 anos, esquecemos também de uma possível polêmica sobre pedofilia que poderia ser ainda mais trabalhada, mas, no final, é fácil perceber que William não vai fazer nada além de se apaixonar platonicamente, com muito respeito e carinho pela menina de 14 anos que o ajudou a crescer.

A fotografia de “Copenhagen” é muito oportuna, envolve os personagens em paisagens românticas, cheio de cores e alegria. Como o trajeto deles é quase sempre feito com bicicleta, conseguimos, ao assistir o filme, nos sentir imersos naquela cidade, como se fossemos os turistas. Aliás, o fato do protagonista ser um turista já é muito identificável, pois contextualiza-o no encantamento pela novidade, desprendendo-o da rotina e demais amarras da sociedade.

Os pontos mais importantes para a estrutura do filme são as atuações da Frederikke Dahl Hansen e do Gethin Anthony. Ambos possuem uma beleza singular, e o carisma deles se transforma em algo crucial para a aceitação da obra que, mesmo com toda a sua simplicidade, consegue encantar até os mais exigentes.

Obs: O filme se encontra atualmente em catálogo na Netflix

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O Estranho Que Nós Amamos, 1971

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★★★★★

Don Siegel fez grandes filmes ao longo de sua carreira, dando uma atenção especial para o desenvolvimento dos personagens que, inseridos no contexto da ação, apresentavam bem mais do que fugas, tiros e atos heroicos.

Já gravamos podcast sobre um filme dele: O Último Pistoleiro ( Clique aqui )

Afirmo sem receio algum que o maior deles e o fiel representante da qualidade do diretor é “O Estranho Que Nós Amamos”, de 1971, uma verdadeira preciosidade esquecida pelo tempo e que conquista diversos fãs pelo mundo por unir e desenvolver temas como obsessão, mulher, opressão e, principalmente, desejo.

O filme se passa no final da Guerra de Secessão, onde claramente os Estados Unidos se dividiam em interesses e eles, por sua vez, ditariam a sequência da história no país. Portanto, todas as pessoas viviam em um conflito de decisões por simplesmente estarem vivendo um momento onde a escravidão seria repensada, a postura econômica, enfim, diversos elementos que levariam o país à diversas mudanças.

Nesse conflito John McBurney ( Clint Eastwood ) se fere e alunas de uma escola para mulheres o acolhem afim de tratar seus ferimentos e, posteriormente, entregá-lo as autoridades – John McBurney defende o Norte enquanto as mulheres são do Sul, ou seja, inimigos e contrários nos ideais – o que acontece é que a figura masculina de John mexe com diversas meninas na escola, inclusive a professora e diretora. Essa opressão faz com que o conflito da guerra civil se estenda para a escola, as próprias alunas e o homem desconhecido passam a agir como seres irracionais, movidos apenas por sentimentos mais insanos como desejo e vingança.

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O filme começa com uns desenhos referente à guerra civil americana e, em seguida, temos uma aluna – a menor delas – caminhando por entre um bosque, ela se depara então com McBurney. A referência parece ser inevitável, a inocência sendo apresentada e, como consequência, quebrada após ver um homem a beira da morte, algo simbólico, como chapeuzinho vermelho encontrando o lobo mau. Existe o sentido de proteção sendo despertado na menina, no mesmo tempo que a sensualidade começa a ser desenvolvida, pois minutos depois os dois se beijam – uma cena altamente polêmica, inclusive, mas que simbolicamente afasta os personagens de suas respectivas classificações: passa a não existir mais criança, diretora, soldado, professora ou alunas e sim “homem” e “mulheres”.

Importante ressaltar a fotografia belíssima que engrandece a obra de uma forma crucial, assim como as atuações de Clint Eastwood e da diva Geraldine Page. O primeiro estava no seu auge físico e profissional, sendo confundido por diversas vezes com o seu famoso pistoleiro sem nome, o ator era sinônimo de homem forte e duro, sendo imprescindível aqui como um sujeito que atrai diversas mulheres pela sua “força” e mistério. No mesmo tempo, Clint transita perfeitamente pelo conquistador e desesperado diante as situações grotescas que é obrigado a passar.

Já Geraldine Page, atriz ganhadora de Oscar, está maravilhosa outra vez, moldando uma personagem complexa, repleta de segredos e manipuladora ao extremo.

A mulher é tão presente nesse filme que é impossível não se encantar com a abordagens das moças que, vivendo uma vida cheia de proibições, enxergam no desconhecido uma forma de fugir das expectativas, quebrando a barreira do bom comportamento – aula que são submetidas com frequência -, parece que todas são prisioneiras do local e da diretora, assim como John se torna um também. Não a toa o simbolismo do corvo por entre as grades, preso e, no final, o mesmo corvo se encontra morto, como se representasse as sensações vividas pelos personagens, cujas expectativas vão se desmoronando conforme o desenrolar da história.

Até mesmo uma menina pequena, a mais nova das alunas e que abre o filme, se envolve emocionalmente com o homem desconhecido, no mesmo tempo que descobre a sexualidade de um jeito decepcionante. Existe uma proposta em se discutir psicologia e essa coragem em se desenvolver lentamente é absolutamente oportuna, pois leva o espectador ao limite da tensão, mesmo que as cenas sejam bem minimalistas.

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A direção de arte é sublime, a época é resgatada de forma crucial, assim como alguns detalhes como o quadro de Jesus na parede que, em dado momento, se confunde com o corpo de John, mas uma prova que todos os personagens são simplificações da discussão sobre o homem e mulher e o inevitável desejo que existe em ambos. Outro ponto para ressaltar a preocupação com os detalhes: depois que as alunas, professora e diretora coloca John na cama, o cobrem com um manto vermelho, cor que simboliza a paixão, proibido e sexualidade de forma geral.

A sutilidade do filme é tamanha que, de um drama com fragmentos eróticos – de forma subliminar – se transforma em um suspense, onde alguns sentimentos vão se transformando em necessidade de vingança e a obsessão se revela de forma curiosa. A conclusão é maravilhosa e faz jus a grandiosidade desse clássico que, com muita categoria, tem presença cativa na seleção dos melhores filmes da história.

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Amores Imaginários, 2010

Les Amours Imaginaires

★★★

Xavier Dolan, em seu segundo trabalho, esquece temporariamente a questão familiar e se preocupa em dissecar o interesse romântico e como se dá esse processo, principalmente na cabeça de um jovem – o que, de fato, não está atrelado exclusivamente a idade – e se estende para uma tentativa de mensurar a intensidade da entrega ou até mesmo esperança que temos em um outro alguém.

A vida é repleta de encontros, o homem, por consequência, é envolto de desejos, então é questão de segundos o processo de se apaixonar, no mesmo tempo que é fácil se enganar sobre tal sentimento, bem como a decepção é bem comum. Uma dúvida sempre permanece presente: será esse sentimento recíproco?

Onde se encontra o limite em enxergar no outro uma possibilidade de romance e estar completamente cego? O fato é que nunca chegaremos a uma resposta para isso, no entanto existe a certeza de que nossos primeiros contatos com essa questão se dá na adolescência e, como já mostrado no seu trabalho anterior, Dolan se revela especialista em desenvolver trabalhos completamente identificáveis. O fato de ser jovem, sem dúvida, faz com que essa necessidade de desabafo seja muito mais intenso; ele é um jovem, falando sobre jovens e para jovens.

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Era de se esperar que depois do estrondoso sucesso de “Eu Matei Minha Mãe”, o diretor adquirisse uma maturidade maior e isso acontece, seu segundo filme se trata de uma obra diferente, porém, traz consigo algumas coisas que prejudicam o resultado.

Partindo de uma premissa por si só envolvente, o longa nos mostra um jovem chamado Francis ( Dolan ) e sua amiga inseparável Marie ( Monia Chokri ) que conhecem Nicolas ( Niels Schneider ), um jovem bonito e espontâneo, e ambos se apaixonam por ele.

Continuando com suas manias já características de câmeras lentas e acompanhamento dos personagens de costas, o diretor tenta desenvolver esse arco de forma excepcional e diferenciada, porém esse esforço se torna frágil por diversas vezes dentre tantos exageros.  Por exemplo, em seu primeiro filme, o já citado “Eu Matei Minha Mãe”, o uso da câmera lenta é sutil e muito apropriada as circunstâncias, já no segundo chega um momento que se torna simplesmente cansativo. Outro ponto e, sem dúvida, o mais prejudicial: no primeiro existem inserções de confissões, onde o próprio protagonista desenvolvia um monólogo interessantíssimo, aqui no seu segundo filme Dolan parece querer ampliar isso e traz outras pessoas devaneando sobre relacionamentos, o problema é que acontecem em momentos chaves, onde o ápice dos acontecimentos ainda estão sendo calculados pelo espectador quando, subitamente, Dolan corta abruptamente esse processo com as inserções. Ou seja, ele sabota a sua própria obra.

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Tirando esses fatores que acabam ofuscando a qualidade do filme, Xavier Dolan ainda continua fazendo jus ao seu incrível trabalho com detalhes. Nessa obra temos uma preocupação quase frenética com o figurino, os dois amigos que estão interessados em um objeto – pessoa – em comum, vivem uma confusão de sentimentos e por esse motivo precisam de deslocar do senso comum. O figurino assume uma importância gigantesca em destacar cada momento e o estado psicológico dos personagens. A utilização do azul e vermelho é evidente, porém, Marie é a única que se mantém constantemente próxima ao vermelho, os demais personagens ficam mesclando azul e vermelho, de modo a contemplar com mais afinco não só o interesse romântico como a barreira existente entre os dois em relação a opção sexual, afinal, durante toda a projeção o espetador – e personagens – nunca sabe ao certo qual é a opção sexual do Nicolas que parece tentar seduzir tanto Marie quanto Francis.

Marie é sem dúvida uma personagem pouco carismática, usa constantemente o vermelho – saltos altos, batom, blusa, saia etc – porém o significado forte que essa cor exala como paixão e sensualidade fica muito mais no campo da pretensão do que realidade. Existe uma barreira na moça que a impede de tomar uma iniciativa maior, talvez seja a própria maturidade. Por outro lado, Francis se doa completamente ao seus sentimentos, contrastando também com sua vestimenta, afinal, ele usa bastante o azul.

É válido ressaltar ainda uma cena em que Francis se masturba cheirando uma camisa do Nicolas, essa camisa é vermelha, como se fosse uma masturbação em prol a uma personalidade que se perderá em meio a um desespero em estar só.

No primeiro filme do diretor, a casa da mãe era um exemplo perfeito de como o cenário é importante para contar uma história. Em “Amores Imaginários” ele abusa das cenas exteriores, fazendo da rua o seu aconchego. Citações ou imagens de Audrey Hepburn e James Dean – símbolos do desprendimento – também se tornam extremamente relevante em ambos filmes.

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O cover da música Bang Bang que aparece bastante, principalmente nas cenas em que Francis e Marie estão se produzindo afim de alcançar a sua presa, é bem interessante. A música exala uma atmosfera brega e grandiosa e a letra ainda apresenta coisas importantes:

Bang bang,
Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão
Bang bang, aquele som terrível
Bang bang, meu querido me atingiu

Todo triângulo amoroso é, de certa forma, uma brincadeira, uma violação das regras e dos padrões impostos pelas sociedades. Essa música demonstra que, muito mais do que uma brincadeira, se trata de uma guerra, onde a produção, brincadeiras e os momentos particulares os aproximaram de seu alvo, no mesmo tempo que só haverá espaço para dois. Esse é o tiro da conquista e tanto Francis quanto Marie foram atingidos pela bala da paixão.

Quer forma mais intensa, infantil, crua de traduzir um triângulo amoroso sendo desenvolvido por um menino de vinte anos?

Ainda há oportunidades para cenas onde o trecho “Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão” seja desenvolvido literalmente, em uma cena onde Francis e Nicolas estão brincando na floresta.

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“Amores Imaginários” é um filme esteticamente perfeito, fotografia delicada e ângulos cuidadosos, características do Xavier Dolan. Ele realiza mais um bom trabalho, apesar das fragilidades se comparado ao seu primeiro trabalho. No entanto, se trata de uma exímia investigação sobre a busca do seu humano pela sua maravilha, traduzida aqui como o Nicolas. Não a toa, logo no início do filme, temos uma referência clara a “Alice no País das Maravilhas”, quando Francis está tentando pegar um coelho, esse animal o levará ao país das maravilhas, onde as emoções assumem o coração, deixando o individuo completamente cego em relação a falta de reciprocidade do amor platônico.

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Cybernatural: terror no Skype, nova geração e a internet no cinema

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“Cybernatural” ou “Unfriended” despertou a curiosidade de todos, principalmente por se tratar de uma inovação, pelo menos assim o considero: um filme que seria basicamente a tela de um computador, onde amigos estão em conferência no Skype, e são seguidos por um “hacker” – começando no universo online – mas, aos poucos, vamos entendendo que essa pessoa tem relação com uma garota, amiga deles, que foi alvo de bullying e cyberbullying e, por esse motivo, cometeu suicídio.

Volto a afirmar, o filme é passado inteiramente via internet. É a gravação desse pânico, entre os garotos, filmados através de suas respectivas webcams, por isso teremos momentos em que trava o vídeo, atrasos, enfim, tudo para passar a maior veracidade possível e, já adianto, nesse ponto eles são perfeitos.

Primeiramente, desde que soube da existência desse estranho filme, eu sabia que ou a ideia era revolucionária ou um bom pontapé para um desastre total. (in)Felizmente o resultado fica no meio termo, com um pé a mais no desastre.

Mesclar a internet com o cinema é uma proposta muito interessante, há alguns filmes que abordam o mundo virtual ou mesmo o usam de forma mais profunda como em “Confiar” de 2011, mas como é feito nesse recente representante, eu nunca tinha visto. E que simplicidade não é mesmo? Se em 1980 tínhamos “Holocausto Canibal”, hoje temos isso. Dá até uma tristeza no coração.

Se tem uma coisa que me encantava nos filmes de terror clássicos dos anos 80 e 90 era aquele grupo de amigos, que enfrentavam o seus medos juntos, seja um monstro, um vampiro, enfim, um verdadeiro clube do terror. Esse nome, inclusive, me faz lembrar da série “Are You Afraid of the Dark?”, quem não se lembra dos garotos contando histórias de terror em torno da fogueira? Hoje em dia, se você botar um jovem sentado em torno da fogueira ele se queima, morre afogado no tédio, fica jogando no celular até acabar a bateria e depois reclama porque acabou a bateria. Engraçado, onde está a magia? Onde está o terror?

Será que o gênero terror está falhando bastante por causa disso, o medo está sendo esquecido, por conta das diversas informações que recebemos constantemente? Onde entra a internet nisso tudo? Será que ela beneficia o cinema, prejudica, o terror se torna mais difundido ou não? Mas será que realmente o que vale mesmo é o sucesso e ele tem que passar por cima até da qualidade?

“Cybernatural” é brilhante em levar a internet para o cinema, tudo é muito bem bolado, desde as abas abertas que a personagem deixa, como o Tumblr, música do Johnny Cash, Gmail, o Facebook, enfim, nós, espectadores, vemos somente a tela de uma personagem, então é por essas dicas, repito, ainda voltado para a Internet, que vamos descobrindo um pouco mais sobre a personalidade dela, pois o filme não tem esse propósito – infelizmente – é uma história com muito pouco desenvolvimento.

Quando começa a acontecer coisas estranhas, rapidamente pensei que é inválido, narrativamente, os personagens manterem os seus computadores ligados mesmo diante a iminente ameaça, porém minha própria mente me respondeu que o jovem de hoje – pelo menos os mostrados no filme – é curioso e acomodado ao máximo, ao ponto de não desgrudar a bunda da cadeira nem para pedir ajuda ou simplesmente sair na rua e reunir a galera para conversar sobre as coisas estranhas que estão acontecendo, essa geração não tem tempo para ter medo de fantasma, não por estarem ocupados, mas nem espíritos malignos podem atrapalhar as suas lindas e admiráveis vagabundagens.

Enfim, o filme não acrescenta muito, é divertidinho, passa o tempo, porém só serve mesmo como contraponto a lembrança nostálgica de amigos passando medo de forma compartilhada, isso sim era, de fato, uma revolução.

Obs: Terá sequências amiguinhos. Aproveitem, pois eu paro no primeiro.

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