Califórnia, 2015

california

O ano é 1984. Estela vive a conturbada passagem pela adolescência. O sexo, os amores, as amizades; tudo parece muito complicado. Seu tio Carlos é seu maior herói, e a viagem à Califórnia para visitá-lo, seu grande sonho. Mas tudo desaba quando ele volta magro, fraco e doente. Entre crises e descobertas, Estela irá encarar uma realidade que mudará, definitivamente, sua forma de ver o mundo.

“Califórnia” é uma junção de diversas coisas deliciosas que estão relacionadas com um tempo específico mas que, nem por conta disso, são apenas lembranças. Mesmo que o filme se passe nos anos 80 e se utilize de algumas características como o ponto principal para a trama, seja no figurino ou as músicas que, por sua vez, impactam a personalidade dos personagens, o comportamento do jovem é um ciclo atemporal.

Marina Person é uma diretora que sempre esteve envolvida com a música e com a juventude, trabalhava na MTV; depois foi dirigir um documentário, “Person”, sobre a vida do diretor Luiz Sérgio Person. Em sua mais recente obra – e primeiro longa de ficção da sua carreira – ela imprime diversas experiências pessoais em suas personagens, utilizando-os como avatares não apenas de um tempo, como de si. Aventurando-se pela descoberta do próprio corpo e diante ao processo natural de se tornar adulto.

O filme começa com a protagonista Estela ( Clara Gallo ) menstruando. Nesse momento ela tem 15 anos e, assim como qualquer garota dessa idade, se sente um monstro, anormal.

Então acompanharemos esse caminho, repleto de singelas descobertas, comunicações frágeis e influência cultural. Ainda há espaços para temas importantes como a AIDS, novamente, inserida em um contexto, visto que nos anos 80 era impossível transar sem se preocupar com a terrível doença e a transformação física, no caso dos portadores, era muito mais evidente.

Caio Blat demonstra mais uma vez o seu talento e compõe um personagem doce, delicado e simpático, chama a atenção constantemente e simboliza o desprendimento da protagonista. A obra começa com a menstruação e termina com Estela perdendo a virgindade. Sugerindo que, a partir daquele momento, nasce uma mulher.

É um filme feliz na sua naturalidade, ideal para relembrarmos de algumas das maiores características culturais dos anos 80.  Ainda há espaço para curtir a inocente juventude com um sorriso sincero no rosto, algo muito comum em filmes como “Clube dos Cinco” que, a própria diretora afirma, serviu como inspiração para “Califórnia”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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Extremos do Prazer, 1983

Extremos do Prazer ( idem., Brasil, 1984 ) Direção: Carlos Reichenbach 

★★★★

 Carlos Reichenbach é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores e cinéfilos do nosso país, transitando por entre temas complexos, sociais, desenvolvidos sob uma perspectiva filosófica, regrado a humor, existencialismo e sexo. Em Extremos do Prazer, uma das suas histórias mais clássicas, acompanhamos a história de Luiz Antônio, um ex-professor de sociologia, que teve seus direitos de lecionar cassados durante a ditadura e, por esse motivo, teve que se exilar na Europa; se não bastasse, viu sua esposa Ruth ser morta, o que afetou drasticamente o seu psicológico, transformando-o em uma alma em busca de compreender o seu universo mental em base à ocorrências do redor.

Na volta ao Brasil, Luiz Antônio – interpretado pelo Luiz Carlos Braga – fica escondido na fazenda da sua jovem sobrinha Natércia que, eventualmente, leva alguns amigos para se divertir, beber e transar. As relações desses jovens, com direito a algumas personalidades contrastantes com os preceitos de Luiz Antônio, fazem com que ele relembre o passado, o amor e esteja cada vez mais inerte no existencialismo.

A premissa exala uma ideia profundamente triste e isso de fato se mantém durante o filme, com diversas camadas sociais, políticas e filosóficas como pano de fundo. As aparições de personagens jovens, com ideais extremos e vivacidade intacta, servem como contraponto à desesperança de Luiz, outro aspecto interessante são as suas observações sobre economia e política, sempre muito oportunas e ganham outra interpretação quando relacionado com o momento vivido pelo Brasil em 1983.

O isolamento é constante: o exílio na França, por exemplo, é discutido entre os amigos como uma forma de luxo, mas o espectador entende a situação como uma dor profunda; a fazenda é espaçosa e entretêm os visitantes, no entanto Luiz caminha pelo mesmo lugar com uma expressão amarga, como se o espaço fosse menor a cada segundo, sugando sua vida; o sexo para os outros é a prova da masculinidade e busca por prazer, enquanto para o protagonista o sexo parece ser um sofrimento ou evento de total despretensiosidade.

Como o ser humano, enquanto um ser político e social, gosta de dividir a vida em dois lados, é curioso o fortalecimento de um personagem chamado Ricardo – interpretado pelo Roberto Miranda – pois ele faz questão de colocar constantemente a sua masculinidade em uma vitrine, servindo como um obstáculo ao pensamento pouco conservador do protagonista, algo que será ainda mais explorado com o aparecimento da filha de Ricardo e um amigo, dois hippies – que são chamados pelo Ricardo de comunistas, aliás, ele não acredita nas crenças da garota só por ela ser nova, no mesmo tempo que tenta uma relação sexual com ela apenas pelas suas palavras sobre amor livre, uma perfeita contradição.

Ricardo é um personagem que traz o impacto de opiniões para o longa, além de ter participações nos diálogos mais agressivos e ignorantes que, curiosamente, ajudam a trama a conquistar uma naturalidade devastadora. Ele considera a sensibilidade e devaneio do tio como algo de “viado”, depois passa a se sentir pressionado pela posição intelectual de todos na fazenda – incluindo a sua namorada que, após uma série de opressões, converte-se ao pensamento filosófico do “tio Luiz” e se sente atraída pela sua solidão e melancolia.

Em resumo, é possível destacar a força do roteiro em criar metáforas com as singelas relações que são criadas, mesmo que em base a distância e fascínio. A essência é o pensamento padronizado e conservador sendo destruído por ideais libertários, naturalistas e hippies, mas não só isso, caminha para outras direções e critica o machismo, homofobia etc.

A frase “a gente tem que tentar a utopia a partir das relações familiares e eróticas” é um alívio para a desesperança e desconfiança, a mensagem é de que grandes mudanças políticas começam pelo indivíduo, que por consequência aproxima o homem da vida utópica, criando vínculos intelectuais através das relações. Extremos do Prazer foi feito com poucos recursos técnicos, mas se sobressai com elegância através do roteiro magistral, explorando as nuances e subvertendo as regras sociais. Luiz mergulha em um mar de existencialismo e segue os passos de um passado horroroso de totalitarismo, prisão de conhecimento e morte, momentos que serão reinterpretados por ele através da sua subliminar observação dos jovens e as suas relações afetivas conturbadas.

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American Honey, 2016

Docinho da América ( American Honey, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Andrea Arnold

★★★★

Star – cujo nome é bem sugestivo – é uma garota que, após um convite, se sente tentada a sair viajando pelos Estados Unidos com um grupo de jovens em uma van, todos eles vendem revistas de casa em casa e, nas horas vagas, fazem sexo, bagunçam e usam drogas.

Esse é o típico filme que provoca o espectador desde o início, não se baseia em um formato comum, possui uma narrativa contemplativa e a longa duração é mais uma prova que a diretora Andrea Arnold não está afim de criar algo padronizado. Nem todos os minutos são bem utilizados, chega um momento que fica repetitivo, mas ainda assim é uma experiência singular acompanhar esse grupo de jovens, tão diferentes entre si mas que, dentro das suas esquisitices, se complementam ou se satisfazem.

Filmes como esse provam que a partir de um road movie é possível extrair uma extrema naturalidade, fazendo a sétima arte parecer simples e muito próxima. A cada olhar empolgado pelos vidros da van, um sorriso no rosto do espectador e indiferença ao mesmo tempo, abraçamos o entusiasmo e felicidade do grupo, no entanto algumas atitudes são tão subversivas e imaturas que somos obrigados a questionar. Mas essa com certeza era a intenção, provocar o senso de voyeurismo e fazer estar dentro do grupo e distante, em um vai e vem interminável, tentando encontrar a melhor forma de adaptação – assim como a protagonista que nunca parece se envolver totalmente com todos pois, como já era de se esperar, ela mora ao lado das estrelas, sua percepção é diferente dos demais.

A estreante Sasha Lane desempenha uma função primordial no desenvolvimento de sua personagem, atingindo expressões que beiram a doçura, indiferença e paixão; do outro lado temos o Shia LaBeouf que, desde que começou a levar sua carreira a sério, se entrega a todos os seus personagens, vivenciando cada diálogo como se fosse o último.

A diferença do grupo se torna pequena perto do que todos possuem em comum: a ânsia por serem enxergues, por isso cada diálogo soa como uma tentativa desesperada de ser essência para alguma piada ou observação. É provável que aja muitos preconceitos por jovens assim, afim de curtir a vida sem freios, mas não seria o próprio jovem um desequilíbrio ambulante? – essa questão pode ser exemplificada em uma cena que Jake ( Shia LaBeouf ) e Star entram na primeira casa para vender revistas e a filha da moça que os atendera, menor de idade, dança e tenta conquistar Jake. A vida padronizada americana se desestrutura nesse momento, pois a moça manda os jovens saírem da sua casa e recebe em troca a frase “acho que o demônio tomou conta da sua filha“, ou seja, a perversão está escondida nas artificialidades de cada família.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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A crônica do crescimento em “Amores Urbanos”

Amores Urbanos ( Amores Urbanos, Brasil, 2016 ) Direção: Vera Egito

Amores Urbanos

★★★★★

Viver seria algo absolutamente simples, senão fosse o homem adulto e as suas infinitas regras. A sociedade impõe uma vida padronizada, cujo futuro precisa remeter à clássica felicidade, onde a família, planejamento, sonhos e responsabilidade são, juntos, o cerne da existência e do crescimento.

“Amores Urbanos”, dirigido pela Vera Egito, discute esse tema com perfeição, através de três adultos-jovens na faixa dos trinta anos que, morando no mesmo prédio, dividem momentos de risos e preocupações; no fundo os três procuram um lugar no mundo e a aceitação das pessoas.

Júlia ( Maria Laura Nogueira), Micaela ( Renata Gaspar ) e Diego ( Thiago Pethit ) têm problemas individuais, seja familiar, profissional ou amoroso, o fato é que eles representam a alma perdida, sem propósito, senão, viver e enfrentar as consequências. Essa forma de vida, por sinal, deveria ser muito comum, mas é banida por conta dos julgamentos, no final a sociedade precisa mentir que existe um plano por trás de cada escolha ou movimento.

O filme começa com Júlia descobrindo que o seu namorado é noivo de uma outra mulher, de forma bem interessante e natural, passamos a conhecer as angústias profundas da personagem e, mais do isso, a dinâmica alegre e despretensiosa que existe entre ela e os seus amigos Micaela e Diego, ambos e homossexuais.

O fato é que Julia se isola do mundo e dos amigos. Durante todo o filme fica evidente a sua incapacidade de dizer o que sente e pedir ajuda. Isso é mostrado através de alguns artifícios técnicos como a fotografia que, por diversas vezes, registra a personagem de forma diferente dos demais, seja por causa da iluminação ou posicionamento da tela – é perceptível que diversas vezes a diretora opta por separá-la dos demais personagens com uma parede ou um algum móvel, isso acontece bastante no seu emprego e durante um jantar, com os seus pais. Outro ponto que demonstra a separação da protagonista é bem simples: Diego e Micaela moram no mesmo apartamento; já a Julia, apesar de ser vizinha e estar sempre na casa dos amigos, mora sozinha. Mas por quê? Simples, ela tenta provar constantemente que está com a sua vida perfeita, que o resultado até aquele momento é a perfeita personificação do que sempre planejou, quase como uma resposta direta as expectativas dos seus pais.

O figurino das personagens são joviais, calça rasgada, jaqueta, enfim, traz um contraste àqueles adultos. Violando as normas, também, com as próprias posturas em frente aos problemas, desde os mais simples até os mais complexos.

Diego é um personagem que acaba chamando bastante a atenção justamente pelo contraste citado acima. Ele faz piadas, ri, bebe e se diverte constantemente, porém a sua desconstrução serve como direção à todos os outros, as suas atitudes irreverentes são reflexos de alguém que não tem forças para contar como chegou até aquele ponto. O cantor/ator Thiago Pethit, nesse sentido, se destaca. Lidando com expressões frias até certo ponto, transita por entre a rebeldia e doçura, ambas com a mesma dedicação e talento.

“Amores Urbano” trabalha com personagens que nasceram na década de 80, essa geração cresceu de forma bem diferente da anterior ( escrevi sobre isso em um texto sobre Kurt Cobain ) e o filme faz jus a uma série de consequências dessa diferença. Mesmo que seja sincero em não generalizar, os realizadores parecem não terem medo de trabalhar com personagens que erram, muito pelo contrário, fazem refletir justamente com esse fato.

Júlia, no seu trabalho, é cobrada constantemente. A sua chefe pede que ela coloque mais cores em um anúncio e, apesar de soar fácil, ela não consegue captar a ideia até ser demitida. Irônico e inteligente – na mesma proporção – é observar que, minutos depois, a protagonista está em uma festa com os seus dois amigos e atrás, podemos ver bandeiras coloridas, como uma forma de grito, de alívio e desespero: ela não se adapta ao padrão imposto em um cenário formal, no entanto esse mesmo padrão se transforma em alegria enquanto junto dos amigos. Aliás, não somos todos assim? Esse é o dilema de crescer e ser aborrecido com uma infinidade de regras idealizadas pelos adultos rabugentos.

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A insatisfação do “aqui” e o vazio do crescimento

Little Birds, 2011

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★★★★

Há anos venho afirmando o meu fascínio por filmes que abordam temas relacionados com o jovem. São inúmeros grandes exemplos, que certamente acrescentam muito nesse nobre e difícil objetivo, afinal, o jovem é movido por incertezas e impulsos aparentemente irresponsáveis, registrar de forma coerente essa instabilidade é para poucos.

“Little Birds” é mais um bom representante de filme indie, do tipo que se utiliza da delicadeza para desenvolver uma história pesada e, nesse caso em específico, trabalha com perfeição a instabilidade do jovem, citada acima. É de se espantar que seja dirigido por um “novato” chamado Elgin James.

A história é sobre duas amigas chamadas Lily e Alison que moram em Salton Sea, Califórnia. As duas têm quinze anos e, no auge da perfeita divisão entre a liberdade, conhecimento e responsabilidade, enfrentam problemas próprios da idade, como namoros, isolamento, relacionamento conturbado com a família etc. Principalmente Lily – vivida pela excelente Juno Temple – que se corta e parece sempre querer provar o quanto não pertence ao lugar que vive e, na primeira oportunidade, decide fugir na sua terra natal, convidando a sua melhor amiga a entrar nessa aventura cheia de riscos e incertezas.

Os filmes de road movies são conhecidos por sempre apresentarem evoluções nítidas nos personagens, talvez seja o maior representante dessa postura de observação, caminho e conclusão, sendo uma metáfora até mesmo para o próprio roteiro; nesse filme de 2011 não é diferente, enquanto filme de estrada não apresenta nada novo, mas quando o relacionamos com a importância em se discutir os sentimentos do jovem, ai ele atinge um nível muito elevado, fugindo do contexto da própria evolução e concentra-se em um “ensaio de erros”, onde a conclusão se transforma em algo pouco previsível.

A personagem Lily tem uma fragilidade absurda, no mesmo tempo que a sua impulsividade pode ser interpretada como ignorância, é nítido que ela é vítima de um sentimento muito grande de falta de propósito. A atriz Juno Temple – que escolhe muito bem os papeis que faz – se conecta perfeitamente com a trama pois fisicamente ela preenche muitas lacunas da personagem, no mesmo tempo consegue dar ainda mais qualidade com pequenos olhares e gestos que reforçam a inocência de Lily.

Como o outro lado da moeda, mesmo que ainda estejamos falando sobre jovem, temos a Alison, vivida pela Kay Panabaker, ela se mostra sempre muito madura, repleta de informações sobre coisas aparentemente banais para a sua idade. Parece que está muito satisfeita com a sua condição e destino.

A fotografia, por vezes pendendo para o amarelo, dá um tom confortante no começo, porém vai ficando mais obscura com o passar do tempo. Principalmente com as mudanças de cenários, como se ambas meninas estivessem passando por um ritual cujo objetivo é ilustrar como o mundo é malvado e podre. Essa transformação na fotografia/cenários é a perfeita demonstração do crescimento e conhecimento.

O fato de ser duas meninas é muito interessante pois remete diretamente ao clássico “Thelma & Louise”, inclusive tem uma referência clara a esse filme. Apesar da mudança drástica dos primeiros trinta minutos para o restante, tudo é feito de forma muito consciente, a densidade é revelada na medida certa e em nenhum momento o filme se torna cansativo.

O drama familiar é pouco desenvolvido, mas por outro lado seria um erro procurar explicações no vazio das sensações da protagonista, mesmo assim é importante os pequenos momentos onde fica claro o seu estado emocional desestruturado, como por exemplo o corte que a menina faz em sua própria perna.

Por fim, “Little Birds” é excelente e, assim como o seu título, transmite uma energia de liberdade muito grande, no mesmo tempo que alerta, tudo isso sem ser didático. É um verdadeiro ensaio de atitudes inexplicáveis, senão, pela própria vontade. Quando Alison questiona a sua amiga sobre o porquê da fuga, ela pergunta: “O que tem tão bom lá?“, enquanto Lily responde, simplesmente: “Não é aqui“. E isso, sem dúvida, responde tudo e nada ao mesmo tempo, assim como o processo de se tornar adulto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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