Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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