The Babadook, 2014

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★★★★★

O medo é a sensação mais desgastante que existe. Eu me sentia muito amedrontado quando criança, bastava minutos para minha imaginação ir além do que meu senso de indiferença aguentasse. Um escuro, um barulho, uma história, parece que tudo era motivo para criar sobre a escuridão de não entender. Morando no interior então, nem se calcula as diversas lendas, histórias em torno da fogueira etc. Parece que eu fui programado para desafiar o medo.

Crescendo, me tornando jovem, me debrucei em livros ocultistas, filmes de terror, exorcismos, procurando desvendar essa natureza poderosa e real, mesmo que não exista. Foi justamente nesse período, inclusive, depois de tanto exigir do meu cérebro, que acabei tento as mais diversas experiências sobrenaturais, aquele pavor que te cala a boca, mesmo diante a uma tentativa desesperada de gritar pedindo ajuda.

Nem todo mundo acredita no sobrenatural, aliás, não há nada de errado com isso, eu mesmo não acredito totalmente. Mas devemos acreditar no medo. Aliás, quanto mais o procuramos, mais ele se torna reluzente. Existe o medo do sobrenatural, existe o medo de enfrentar o próximo passo assim como existe o medo do passado, mas vamos nos ater no primeiro e terceiro exemplo.

O terror é um dos meus gêneros favoritos, difícil falar isso quando se ama cinema, mas eu colocaria o terror como a minha fuga, paro de buscar algo sério, decifrar o homem e me preocupo exclusivamente com a experiência, pessoal, no caso. Isso porque acredito que para o  terror ser bem feito é preciso envolver, criar uma simbologia e, a partir dela, desenvolver algo que convide o leitor ou espectador.

“The Babadook” acerta em todos os aspectos e o fato de ser feito em meio a diversas catástrofes do gênero de terror, só o torna ainda mais especial. Há uma brincadeira com a tensão, inclusive ele é criado com muita paciência, para não perder o interesse do espectador e, ainda por cima, prevalecer a discussão filosófica que existe.

Uma mãe e um filho. Amelia ( Essie Davis ) e Samuel ( Noah Wiseman ) moram sozinhos, pois o pai do garoto faleceu em um acidente no dia que o mesmo nasceu. A mãe se sente perdida constamente, parece haver uma distância grande entre os dois, mesmo diante a aproximação em diversas cenas.

O filho, Samuel, se prepara, literalmente, para um duelo contra um monstro que ele afirma com propriedade que existe. A mãe, como normalmente aconteceria, não leva a sério a sua angústia.

Nos filmes de terror geralmente existe uma família se mudando para uma casa e, após isso, se depara com eventos sobrenaturais. Em “Babadook”, como era de se esperar, esse clichê e outros são superados, a casa existe, a família já mora lá, essa história será contada a partir da rotina e não da novidade, o que fortalece o sentido de fragilidade que todos nós podemos passar.

É mais complicado se identificar com “uma mudança para a casa assombrada” do que com um tormento no seu próprio lar, aquele que você já está acostumado. Samuel, ao contrário da sua mãe, está ciente do que está acontecendo, nas suas brincadeiras se mostra valente, uma atitude de quem quer proteger. Mas quando acontece qualquer coisa, ele volta a ser criança, como se quisesse dizer que por mais que tente, ele jamais poderá resolver esse problema, pois está vinculado ao passado. A mãe é a chave para a história, bem como o destaque do longa. Desde a atuação da Essie Davis, que compõe uma personagem extenuada, existe uma artificialidade nela, um olhar vago, estado que vai se agravando com o passar do tempo, vivendo naquela casa, fechada, só dá entender que a mesma se encontra em um mundo diferente dos demais seres humanos. Quando o sol bate em seu rosto, é possível enxergar um desconforto, como se ela fosse um vampiro mesmo, se incomodando com o dia, a luz.

O horror se faz presente em cada cena, a mãe se sente solitária, olha os casais se beijando e até esse detalhe causa um estranhamento, como se ela quisesse sugar um pouco daquela iniciativa, fosse um espírito -­ quem, de fato, é o monstro? É ameaçador ela viver só com uma criança, nenhum dos dois se mostram em plena saúde mental, eles são ventríloquos sem ninguém para controlar e mora ali um perigo, quanto mais vulnerável, mais as sensações entram para sugar e, nesse caso, o medo se apresentou cordialmente.

Babadook é o monstro, tão comentado pelo garoto e tão presente durante todo o filme, parte de um livro Pop Up, estéticamente macabro, que a mãe lê para o filho em uma das infindáveis noites. Enquanto é feito a leitura, acontece algum tipo de magia, um encantamento, que apesar de estarem diante de um conteúdo bizarro, queriam saber o que estava escrito na próxima página. A ideia é aterrorizante, mais ainda quando percebemos que o monstro em questão foi projetado para ser um “símbolo”. Desde o nome, Babadook, que soa bonitinho, é gostoso de pronunciar e, assim, interage perfeitamente com a infantilidade, assim como o seu visual, é um mérito o filme não necessitar de uma criatura horrorosa, cheia de efeitos para assustar. Aqui é extremamente básico, começa com o próprio desenho, depois vai estendendo para elementos de cena como um chapéu e blusa e, quando menos percebemos, Babadook está em todo o canto. Afinal, ele é os personagens, mais precisamente, a mãe.

Há muito tempo eu não sentia medo assistindo um filme, mas tenho que confessar que enquanto assistia olhava para os lados, procurando algo. Isso porque ele lida extraordinariamente bem com a função do terror: provocar. Não é o efeito sonoro alto que dá o susto, é a construção. Quando somos obrigados a pensar e, assim, convidados a uma provocação, tudo se torna bem mais natural. O medo aqui é consequência de um desenvolvimento de roteiro, fotografia, atuações, ou seja, independente do gênero, se existisse a discussão interessante sobre a luta contra o desprendimento do passado, ele seria eficaz. O terror ultrapassa, ou deveria, os limites do seu próprio gênero.

“The Babadook” é uma brilhante sensação de aprisionamento. Não há maneiras de fugir do que vivenciamos, é um ciclo que, se por acaso não existe equilíbrio, se desprende em direção a loucura. O livro fora escrito pela mãe, já que a própria afirma que era escritora de livros infantis, mas por algum motivo essa outra vida se torna nebulosa. Uma folha de papel e caneta são formas simples para se criar o medo, bem como existe um Babadook dentro de cada um de nós. Só esperemos que, quando ele sair, saibamos como domesticá-­lo.

Obs: Leia a crítica do curta metragem da mesma diretora, que serve como base para “The Babadook”: clicando aqui

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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[Curta-­Metragem ] Monster, 2005

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★★★★

Jennifer Kent é uma diretora que vem dando vozes as mulheres no que diz respeito a direção de filmes de terror. Ela é uma estudante do cinema, ajudou o diretor Lars von Trier, depois fez alguns trabalhos em séries de terror na Austrália e, por fim, chamou a atenção com um dos melhores filmes de 2014, “The Babadook”. É de se esperar ainda mais sucesso nos próximos anos, pois seus futuros projetos ainda são pautados na estranheza e profundidade, algo que corre em direção oposta dos filmes de terror atuais.

O que poucos sabem é que antes de “The Babadook” existiu uma semente chamada “Monster”, um curta metragem de aproximadamente dez minutos que utiliza quase a mesma ideia do longa mas, evidentemente, se desenvolve muito mais depressa por conta unicamente da duração, até porque mantém o mesmo nível de qualidade.

Começa o curta e somos apresentado a um menino, ele luta com sua espada contra um boneco macabro, depois joga algo em seu rosto para tampar, como se existisse um objetivo muito bem estruturado para essa atitude. É então que aparece um letreiro escrito “monstro”.

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Depois disso conhecemos a mãe, uma mulher com olhares vagos, sempre fazendo uma atividade doméstica, como se estivesse submersa em um devaneio sem fim. Podemos inclusive observar que ela permanece tão distante, que qualquer barulho a assusta, consecutivamente, o espectador fica atento.

O maior mérito do curta é o clima, a fotografia preto e branco, o som, bem como a estranheza dos personagens principais, gera uma apreensão em quem assiste, outro aspecto importante é o bom uso dos espaços. Como é de se imaginar, por se passar inteiramente em uma casa, mas necessariamente nos quartos e corredor, a sensação de claustrofobia aumenta gradativamente, conforme os protagonistas vão “encolhendo” nos seus próprios medos.

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O menino se prepara para um monstro, o mesmo afirma que “matará o monstro para a mãe”, não existe um medo grande por parte dele, mas uma aflição por proteger, o que é muito interessante.

Mesmo com o pouco tempo, conseguimos sentir uma leve profundidade em algumas questões que serão melhor trabalhados no longa metragem e, aos mesmo tempo, sentir um leve medo durante o processo de desconhecer o que os atormenta. Depois que o monstro aparece ­ destaco a cena da escada, que assusta qualquer um ­ e mais, depois que a mãe consegue “domar” ele, a atmosfera criada até então vai embora e o curta caminha em direção a um drama psicológico. Uma proposta excelente que comete um pequeno deslize em se revelar demais. Mas ainda assim, foi um feliz convite ao mundo para embarcar na cabeça da Jennifer Kent, motivando­-a para o desenvolvimento da sua obra prima: The Babadook.

emersontlima

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