Little Forest: Summer/Autumn (2014) de Junichi Mori

Little Forest: Summer/Autumn (Ritoru Foresuto Natsu Hen-Aki Hen, Japão, 2014) Direção: Junichi Mori

Algumas pessoas conseguem manter o hábito de levantar pela manhã e caminhar escutando uma boa música. Talvez ainda consigam andar por entre um lugar bonito, repleto de árvores, ou na calçada beirando o mar. Essa é a sensação que tive ao assistir “Little Forest: Summer/Autumn” (2014), uma profunda paz ao acompanhar a Ichiko (Ai Hashimoto) que volta ao campo para viver da simplicidade, fazendo experiências culinárias, principalmente com alimentos que ela própria planta.

Baseado em um mangá de Daisuke Igarashi, esse filme é no mínimo curioso e pode afastar algumas pessoas por não ter uma história bem definida e normal, basicamente acompanhamos a protagonista através das receitas que ela faz. É um passo a passo culinário com uma abordagem e fotografia delicada, onde os pratos e as realizações se confundem com o passado da personagem e as próprias estações do ano.

No dia 31/12/2016 me tornei vegetariano, uma ideia que há tempos refletia e que cuja decisão fora feita de forma brusca e irreversível. A partir do momento que pensei sobre o porquê, não existiu dificuldade na readaptação alimentar, o que só me trouxe benefícios. Meu “espírito” ficou mais leve, mas cito o carinho por cozinhar como uma das coisas que mais ficaram evidentes na minha vida. Descobrir receitas, misturar as cores da salada, enfim, apesar da personagem do filme não ser vegetariana, o seu carinho com o alimento é extremamente envolvente e encantador.

“Cozinhar é um espelho que reflete sua mente”

“Little Forest: Summer/Autumn” (2014) é uma obra acolhedora, que proporciona uma experiência romântica pela culinária natural. Como história, deixa a desejar, ainda que seja possível estabelecer uma evidente ligação entre a postura da protagonista e o seu passado com a mãe, mas essa não é a preocupação aqui. A atmosfera e cumplicidade do ser humano com o meio ambiente são energias transmitidas através da simplicidade, seja visual ou do texto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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When Marnie Was There (2014)

Studio Ghibli é sinônimo de pureza, dedicação e sensibilidade. Eu poderia criar uma lista interminável de adjetivos, mas seria inútil, pois me sinto um ignorante em relação à grandiosidade desse estúdio. Nunca fui um especialista em animações japonesas ou animes, mas certamente sou um grande curioso, pois a cultura do Japão vê no desenho – seja animes, filmes ou manga – a sua alma. Studio Ghibli representa algo extremamente poderoso, uma entrega quase que absoluta à arte, é impossível não se emocionar, pois as histórias estão diretamente relacionadas com o nosso lado criança, desbravando um mundo mágico. E, nesse mundo mágico, acontecem coisas que se aproximam do exagero, porém é exatamente isso que torna os filmes cativantes e únicos. Poderia afirmar que a Pixar, há alguns anos atrás, era fruto dessa magia, uma pena que agora anda errando bastante, mas é basicamente a mesma coisa, se sustenta em grandes criadores e, principalmente, humanos extraordinários que têm muito amor e simplicidade em seus respectivos corações. Se a Pixar tem John Lasseter, o Studio Ghibli tem Hayao Miyazaki e Isao Takahata dois gênios que ensinaram os mais jovens a fazer filmes como, por exemplo, Hiromasa Yonebayashi que assina a direção desse último filme do estúdio chamado “When Marnie Was There”.

Hiromasa Yonebayashi fez “O Mundo dos Pequeninos” que, igualmente ao mais recente, nos brinda com um mundo fantástico e mistérios, levados as últimas consequências nesse último, aliás, ouso dizer que temos ai um grande nome para suceder o grande Hayao Miyazaki, poderia estar cometendo uma injustiça, mas vejo nesse jovem diretor de 40 anos um potencial enorme.

When Marnie Was There ao contrário de “O Mundo dos Pequeninos” é inteiramente adulto, não só pelos temas que descreverei a seguir, como também pela profundidade. Não lembro de um filme sequer desse estúdio querido, que não possua temas interessantes, mas são desenvolvidos sobre um olhar infantil, quase doce, não que isso não aconteça aqui, mas há uma dose de confusão, quase um misticismo envolto de lembranças, algo que comove muito mais os adultos. Conta-nos a história de Anna, uma garota solitária e tristonha, que por motivos de saúde vai passar um tempo no campo, para se manter bem tanto fisicamente quanto emocionalmente, ela se vê diante de uma vida monótona, até que encontra uma mansão misteriosa. Essa mansão traz algum tipo de lembrança para a menina, mesmo que a própria e nós, espectadores, não saibamos. Há boatos na pequena cidade de que não mora ninguém na mansão, mas surpreendentemente Anna enxerga sempre uma menina loira através da janela, isso a intriga ao ponto de transformar esse mistério em obsessão. Conhecendo um pouco mais dessa menina, além de fazer uma belíssima amizade com a mesma, Anna descobre que ela está cercada de mistérios.

O filme começa e Anna está sentada em uma praça, qualquer atividade é atrapalhada por aflições da personagem sobre a sua pessoa, ela visivelmente passa por problemas de auto-estima, sempre meio deslocada, a própria começa afirmando com propriedade: “[…] nesse mundo há um círculo mágico invisível[…]”, ela olha para outras garotas e continua “[…]ou você está dentro ou fora dele.”, curiosamente no mesmo tempo que ela sintetiza o filme, ainda coloca sua figura, o que representa, fora desse círculo mágico, que podemos traduzir como a vida. Ela não faz parte de nada, pelo menos o sentimento é esse, isso só se agrava ainda mais por ela ser adotada, distanciando-a, psicologicamente, da normalidade, por mais que sua mãe teime em dizer que está tudo normal. O coração de Anna sente que algo está errado e, mais além, sente que precisa passar por algo para compreender sua real situação, aquele famoso soco no estômago da vida, para aceitação da sua própria imagem, tão deturpada por si própria.

Ela segue rumo à cidadezinha, no interior, onde a natureza se faz ainda mais presente e influenciável, soando como o paraíso das crianças. Ela, pelo contrário, fica no quarto, escreve cartas, enfim, com seu jeito tímido e delicado, quase que constante.  Quando a solidão não é mais cabível e a iniciativa para fazer amizade é nula, surge a possibilidade de enfrentar o desconhecido – representado brilhantemente pelo barco, do qual ela deve remar -, com a mansão e seus mistérios, que acabam impulsionando uma nova e rápida amizade. Tão veloz que soa artificial, no mesmo tempo que é estável, quase que natural, o mistério está jogado ao espectador, soluções clichês começam a aparecer, mas o filme em nenhum momento se torna fraco por isso, pelo contrário, esse enigma é surpreendente, talvez não inédito, mas envolto de, igualmente, muita magia e emoção.

Essa amizade/história pode ser tudo amigo imaginário, fantasma, ela mesma, enfim, tudo que é possível caber nesse mundo invisível, citado no começo do filme, pode ter uma dose de religião, como uma reencarnação, o que me parece uma grande viagem, mas é esse o real legado, pensar e solucionar algo que está muito claro, ela simplesmente precisa se sentir parte de algo, bem como transformar esse algo no seu templo, afim de seguir à diante.

Esse amor que nasce é tão poderoso, que não se explica em nenhum momento, nem dá espaço para entendermos, é um tanto romântico às vezes, no mesmo tempo confuso, pois os fatos são conflitantes, mas acima de tudo são de extrema sinceridade. A explicação começa a dar lugar às lágrimas, não por saber, mas simplesmente por estar acontecendo.

Adaptado de um livro com o mesmo nome – o qual eu fiquei curioso para ler – “When Marnie Was There” faz jus ao anterior do estúdio “Princesa Kaguya” e nos transporta para um mundo incrivelmente maravilhoso, deixando de lado nossas interpretações para, tão somente, sentir.

“Eu te amo mais do que qualquer outra garota que já conheci.”

Obs: Crítica originalmente publicada no dia 4 de abril de 2015.

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A Harpa da Birmânia, 1956

A Harpa da Birmânia (Biruma no Tategoto, Japão, 1956) Direção: Kon Ichikawa

A mesma guerra que transforma indivíduos em heróis, ganha contornos épicos e salienta os interesses do poder, transforma vidas cabíveis dos mais diversos sentimentos em corpos podres jogados no chão. É a personificação da brutalidade do homem, inerente às suas raízes, vai de encontro ao fim, provando sua força e coragem, sob o respaldo de uma intenção dos gigantes que, confortáveis, repousam nas suas salas de estar.

Ninguém pensa no soldado que, em meio ao desespero, desiste de ser herói. Aquele que, ao ver o seu amigo despedaçado por um tiro de canhão, clama por perdão, principalmente por estar em meio à uma peça de xadrez, onde os intelectuais movimentam seus peões e os sacrificam. A guerra transforma o ser humano em um amante do vazio, reduzindo o seu intelecto à uma programação segmentada; faminto, refém e permanentemente envolvido com a morte.

A Harpa da Birmânia vai de desencontro do famoso cinema popular de guerra, e concentra a sua atenção nas consequências dela no psicológico de um indivíduo, bem como a união de um grupo que, mesmo em meio ao caos, ainda tem forças para cantar. De imediato, percebemos uma proposta de reflexão do filme em questionar a situação que percorre, sem fazer propagandas, exaltação de feitos heroicos ou apontar vilões. É muito comum filme do gênero estabelecer imediatamente o inimigo, como forma de engrandecer um dos lados. Na verdade, isso se trata de uma ilusão, pois estando na guerra qualquer grande feito é criação de muitas mortes e dores, não existe inimigo e mocinho quando ambos defendem aquilo que acreditam.

A história do filme acontece no final da Segunda Grande Guerra em 1945, e se inicia com a apresentação de uma tropa japonesa que é, por ventura, liderada por um capitão apaixonado por música e que demonstra grande confiança por um dos soldados, o harpista do título, Mizushima – interpretado pelo Shôji Yasui, que fez poucos trabalhos mas imortais na história do cinema japonês. Na fronteira da Tailândia, essa tropa fica sabendo da rendição do Japão e entrega suas armas para os ingleses. Enquanto isso, o harpista é encarregado de levar a notícia para outra tropa que estava prestes a enfrentar os inimigos. No entanto, eles se recusam a perder suas dignidades através de uma rendição e morrem em batalha. Mizushima sobrevive e, ao invés de voltar para os seus amigos e esperar o dia de retornar para o seu país e ajudar na sua reconstrução, ele rouba as roupas de um monge e caminha por entre os destroços da guerra, rezando e enterrando os seus parceiros, meditando em silêncio e se desprendendo do passado.

Se trata de um dos filmes mais anti-bélicos que existem, pois mesmo que se contextualize em um ambiente assolado pelas sombras, se atém aos homens iluminados nessa jornada de purificação. A sobrevivência aqui é tratada como uma benção e maldição, em nenhum momento a tropa é vista como bondosa, apenas nos é lembrado constantemente da sua humanidade, que inclusive está diretamente ligada com a música que os envolve em momentos de tortura, seja física ou psicológica.

O vasto deserto que serve como pano de fundo para letreiros informativos no começo, é uma feliz ilustração do que está por vir. O protagonista caminhará por esse plano vazio e solitário, como se cada passo expurgasse os seus conflitos internos e traumas, fazendo com que esse ser não seja merecedor dos milagres da existência e estivesse, por consequência, fadado à andar sem propósito. O diretor Kon Ichikawa – um dos mais importantes diretores japoneses da história, tendo feito grandes clássicos como Kokoro (1955), Ten Dark Women (1961) e As Irmãs Makioka (1983) – consegue criar um filme épico e melancólico, sem querer chamar toda a atenção para si, mas sendo altamente técnico e inteligente na direção, não à toa a simetria e coerência visual que está presente desde o primeiro quadro até o último. As imagens acima ilustram um singelo corte que alinha os soldados posicionados com perfeição em meio à mata e logo em seguida os seus pés caminhando nas areias, buscando um destino. Esses cortes, imagens sobrepostas e, principalmente, posicionamento dos soldados no quadro, irão se repetir diversas vezes.

A obra é altamente metafórica quando deposita todas as suas atenções em soldados que, em diversos momentos, cantam e reconhecem de longe o som da harpa do amigo Mizushima. Como se sua harmonia soasse parecida com uma luz dos anjos, um caminho doce a ser enfrentado e, por que não, a própria esperança. A catástrofe amansia esses homens, de modo que todos interajam perfeitamente com a versão mais pueril de si, despidos de camadas sociais pois, nesse momento, são sobreviventes, são livres. Levam consigo o terror das mortes, óbvio, assim como são frutos de interesses – e isso fica nítido visualmente, pois sempre há soldados pressionados entre outros personagens, cercas etc – mas estão em plena recuperação, pois tiveram a arte funcionando como um Fio de Ariadne, que os conectava com resquícios de diversos sentimentos, como a empatia.

Visão dos soldados que encontram Mizushima transformado, solitário e vagante. Ele está ao lado de uma criança que carrega uma harpa (esperança), se encontra livre.

Já os soldados que retornarão para casa, estão apertados ao lado do outro e atrás da cerca. Juntos, sim, mas fadados à enfrentarem as consequências dos seus atos, bem como carregar as mágoas do contexto caótico para o resto de suas vidas.

Na Birmânia ou Myanmar era comum a prática do budismo de Theravada, o qual tenta resgatar perfeitamente os ensinamentos de Buda. Mizushima desde sua primeira aparição é trabalhado como o símbolo da subversão, traz a amenidade e faz emocionar somente com o movimento comum, mas grandioso, de jogar a arma para o lado e carregar a harpa. Como um escudo, como um mantra. A sua harmonia conduz os pecadores ao caminho da nova chance. Não é só os soldados, mas também o garotinho que pede esmolas.

Como não se emocionar com cenas maravilhosas como o monge caminhando na praia e avistando uma pilha de corpos no chão, no mesmo tempo que tampa os olhos e atravessa o local correndo. Como uma criança repleta de medo e que não teme demonstrá-los a quem quer que seja. Como pode um homem valente reduzir-se (agigantar-se) a tal ponto? A trilha sonora dá ênfase à profundidade dramática desses silêncios, como se conversasse com a alma. Aos pacifistas e amantes da música, é um milagre acompanhar essa jornada de um homem só, se entendendo como nada, buscando o nirvana e respeitando aqueles que se foram ao ponto de rastejar pelos seus restos como forma de manter viva as suas honras. Ele aprende a respirar diferente, pensar diferente e se comunicar, só a possibilidade de se manifestar verbalmente dói, portanto usa a sua música e um pássaro para criar mais um elo entre o estranhamento e o propósito. O ser invisível jamais voltará as suas terras, pois dela muitos partiram ao encontro do fim.

“Para a terra não basta cobrir um morto[…] Adeus aos amigos que retornam à Pátria”.

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Strange Circus, 2005

Strange Circus ( Kimyô na Sâkasu, Japão, 2005 ) Direção: Sion Sono

★★★★

Sion Sono é um dos diretores mais corajosos da atualidade. Primeiro porque não se acostuma com o seu próprio ritmo, intercalando filmes trashs com os subversivos e profundos dramaticamente. E, segundo, pela própria ambição e inerência à fuga do óbvio: mesmo que se utilize da estranheza para compor a sua arte, sempre busca formas de surpreender, não contenta-se apenas com a ideia e faz questão de investigá-la sob diversos pontos de vista.

Filmes como “Extensões Capilares” e “Não se Esqueça de Compartilhar” podem ser utilizados para exemplificar a flexibilidade do diretor. Representam diretamente a facilidade que ele possui em conversar de diversas formas com o público, mesmo que sempre utilize um elemento incomum como essência para o desenvolvimento do roteiro.

Mais uma prova desse talento único é o “Kimyô na Sâkasu“, um dos filmes mais doentios e sublimes da sua carreira. A história é repleta de camadas, mas a principal é sobre Mitsuko, uma garotinha que vê o seus pais fazendo sexo e, depois disso, é forçada pelo pai à despertar a sua sexualidade. Ele a obriga assistir a sua relação sexual escondida e depois a abusa. A mãe, por sua vez, vê a filha e sente que ela está “tomando o seu lugar” e se sente traída, com ciúmes. Essa base será abordada de forma onírica, com uma série de referências visuais e símbolos, o trajeto perfeito de uma família corrompida pelos desejos mais obscuros da carne; monstros privando uma vida inocente de ser criança.

A atmosfera é surrealista, o brilho é ofuscado por uma sensação de sujeira e nebulosidade, as personagens são ambíguas, pronunciam cada palavra com um tom de artificialidade e arrogância. É difícil contextualizar a obra, seja em uma época ou sociedade, pois parece o inferno, uma caricatura das sombras, almas rastejando em busca da corrupção total.

O filme começa em uma boate onde uma drag queen interrompe o show para perguntar à platéia se há alguém interessado em ser decapitado em uma guilhotina. O show é a morte, a morte é presente e o sangue é comum. O quão pequeno é morrer em comparação com o sofrimento?

Como resposta a toda uma história e sentimento, alguém na platéia estende as mãos e indica que se dispõe a ter sua cabeça cortada no palco, com uma filmagem que se aproxima da subjetividade, somos transportados, a partir desse momento, para os sofrimentos de Mitsuko, a própria afirma que “sua vida é repleta de guilhotinas“.

O palco que exibe é o mesmo que transita por entre os corredores da sua casa. Onde o pai e a mãe fazem sexo por prazer e, no mesmo tempo, sua filha caminha em um corredor vermelho. O sangue das paredes é o mesmo que simboliza a evolução de criança para jovem; é o mesmo que corre dentro dela e, por consequência, do pai; é o mesmo que sujará a guilhotina; e, nesse caso, é o mesmo que toma o lugar do leite materno.

O pai indica à sua filha o voyeurismo, a obrigando ficar quieta escondida dentro de uma capa de violoncelo – ou seria a arte? – e assistir a sua performance sexual, impondo o prazer visual, carnal e crescimento. Esse abuso acarreta não só em uma maldição enraizada no âmago da Mitsuko, como também cria infinitas relações doentias e ódio.

O complexo de Electra é analisado sobre prismas polêmicos, o pai, após o sexo com a mãe, inverte as posições e abusa da filha. Caminho e criação; prazer e medo; mãe se transformando na filha e vice-versa – algo que será demonstrado visualmente, visto que nas cenas de abuso, como uma forma de simbolismo e respeito, o diretor opta por trocar a atriz, a filha literalmente se torna a mãe.

“…a diferença entre mim e mamãe era que ela parecia feliz.”

As camadas dramáticas vão sendo trabalhadas e expostas de forma pouco gentil, agredindo visualmente e filosoficamente pela tentativa de estabelecer o mistério como protagonista de uma experiência doentia. Os primeiros quarenta minutos são aterrorizadores e, sabiamente, o diretor opta, ao ultrapassá-los, em usar uma narrativa diferente, como se tudo não passasse de um sonho ou criação. Outros personagens aparecem, em especial um assexual que, tendo como base a sua opção sexual, é possível fazer uma ligação direta com o início onde a ideia primordial que conecta o sexo com o prazer é desmoronada. Outra personagem é a escritora que, mesmo possuindo a capacidade de andar, prefere ficar na cadeiras de rodas como um protesto por todo um abuso psicológico que resultou em uma paralisia dos seus movimentos.

Sem dúvida se trata de uma obra imperdível, verdadeiramente poético dentro da sua complexidade e obscuridade. Não é fácil se entregar para uma obra com tamanha densidade, no mesmo tempo que o resultado é brilhante. Além de possuir uma história extremamente complexa e relevante, o diretor é suficientemente inteligente para contá-la de forma que não fique cansativa. Em base às interpretações e direção de arte, o passado, criação e presente se confundem, todos se tornam uma só maldição.

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Creepy, 2016

Creepy (Kurîpî: Itsuwari no rinjin, Japão, 2016) Direção: Kiyoshi Kurosawa

O cinema japonês é sempre lembrado quando falamos sobre bons filmes de suspense. Comumente lidando com personagens dimensionais, com valores ambíguos e passado sombrio. Podemos agregar ainda mais camadas quando citado o trabalho do diretor Kiyoshi Kurosawa que, trazendo todas as características típicas mencionadas acima, ainda se preocupa em trabalhar com elementos contemporâneos nos seus mistérios, algo que pode ser visto em “Kairo” (2001) – o qual explora a internet e o sentimento de novidade em relação à nova ferramenta para dar sustentação à sensação de medo.

É de se lamentar, portanto, que o último filme do diretor, “Creepy” (2016), seja um filme ruim. A novidade, outrora primordial nos filmes do realizador, dá lugar ao comum aqui, o que temos é um filme de mistério que percorre absurdamente os mesmos caminhos de muitos outros e, no que tenta se diferenciar, acaba caindo em uma armadilha, pois as decisões provocam somente um leve cansaço e constrangimento.

A história gira em torno de um jovem policial que se aposenta por causa de um grave acidente e vira professor de psicologia criminal. Ele e sua esposa vão morar em um bairro tranquilo no subúrbio mas, por desconfiança sobre algumas atitudes de um suspeito vizinho e com o convite de um amigo da policia, o protagonista ajuda a policia em mais uma investigação.

O primeiro e começo do segundo ato entregam a promessa de bons eventos e descobertas, personagens complexos vão aparecendo timidamente, momentos em sala de aula onde o protagonista fala sobre serial killers e os classifica de três formas “organizados, desorganizados e mistos” dão a sensação – e deveriam – de que assumiriam uma importância no desenvolvimento, mas isso é plenamente descartado ao longo dos minutos.

Os vizinhos do casal são estranhos, não aceitam os presentes e contrastam com a simpatia dos novos moradores. No entanto essa relação de pouca comunicação também se estende para o próprio casal principal, cuja interação é nula e alguns acontecimentos poderiam ser facilmente superados se houvessem diálogos entre os dois.

A conclusão caminha para o óbvio, o roteiro deixa claro quais serão os desdobramentos mas ainda se vê preocupado em acrescentar, no final, uma série de cenas grotescas e que se perdem em seu sentido dramático. No entanto, há de se destacar a atuação do grande Teruyuki Kagawa que emprega características assustadoras ao seu antagonista e o posicionamento de câmeras dentro das casas de todos os personagens, pois geralmente deixam o objeto na diagonal, representando brilhantemente a confusão e insegurança, sentimentos pelos quais eles estão passando.

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Discurso de um Proprietário, 1947

Discurso de um Proprietário ( Nagaya shinshiroku, Japão, 1947 ) Direção: Yasujiro Ozu

Yasujiro Ozu é um dos maiores nomes do cinema japonês. Sua influência é imensa até hoje e tem como maior mérito a sensibilidade. Os temas dos seus longas geralmente incluíam a família, principalmente a figura materna, mas sempre conseguia explorar mensagens novas e igualmente fortes, principalmente dado o contexto histórico durante as realizações das suas obras. Um Japão doente, quebrado, com medo e sofrendo as consequências de uma guerra e infinitas limitações.

Nesse contexto, certamente falar sobre a guerra era algo movido por uma coragem e segurança inabalável, um dos maiores exemplos é “Discurso de um Proprietário”, onde os impactos sociais e, principalmente, emocionais, são observados a partir de um elemento estranho sendo obrigado a adentrar em um núcleo familiar e como todos reagirão a essa nova presença.

Na história Tashiro (Chishû Ryû) encontra um garoto perdido e leva para sua casa, na intenção de que algum dos seus vizinhos o adote. Com muita relutância a senhora Otane (Chôko Iida) fica com o garoto e, no começo, a relação é pouco saudável e muito arrogante. Ela lida com o garoto como se fosse um bicho, “um perdido” como é citado ao longo. Mas aos poucos a convivência vai se tornando agradável até alcançar a função de um portal de segurança e afeto ao garoto e amor incondicional por parte da Otane.

O diretor é conhecido como “o mais japonês dentre os cineastas japoneses”. O seu trabalho é permeado pela ambição de transformar quem assiste em japonês, inserindo-o na cultura de forma visceral, a execução é inteligentíssima para isso, a começar pelas histórias simples e personagens comuns, sua narrativa é tão natural que dialoga muito com os documentários.

Em “Discurso de um Proprietário”  a famosa câmera baixa do diretor, contextualizando o olhar assim como os japoneses ao fazer as refeições, também está presente desde a primeira cena. É delicado como o espectador conhece a família principal através de diálogos diretos, íntimos, como se fossemos um outro integrante da família. Não existe rodeios para a contextualização dos eventos, no primeiro minuto o garoto chega na casa, sua postura – geralmente com as mãos nos bolsos, já são assimiladas e, a partir de então, só temos tempo para apreciar o simples em forma de obra-prima.

A pobreza e a situação catastrófica social é nebulosa, sendo mantida como pano de fundo de uma família em sintonia. Uma cena onde diversos amigos cantam na mesa de refeição é a prova disso, inclusive a canção é sobre um amor em plena guerra, algo que simboliza justamente o quanto, no íntimo, pode existir esperança nas coisas mais terríveis.

Há ainda espaço para filmagens externas belíssimas, todas com a intenção de engrandece o local e aproximar a senhora Otome do garoto. A jornada de conhecimento, principalmente de assimilação das emoções e afeto entre os dois, é poderosa. O caminho até surgir a frase “pode chamar isso de amor materno” é dura e, por vezes, fria, mas a conclusão é de uma poesia encantadora.

É de se notar que o choro, no final, é pelas coisas terem dado certo. É extremamente difícil, no cinema, encontrarmos um personagem que se emociona e chora por algo que não é movido ao individualismo e interesses próprios. A senhora Otome, mesmo sendo obrigada a se distanciar, ignora a sua dor e fica feliz pelas coisas terminarem bem. Essa sensibilidade é consequência de uma dor coletiva, ausência total de esperança por dias melhores e amor incondicional que só uma mãe poderia ter. Uma verdadeira obra-prima do cinema japonês e mundial.

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Vivendo com a Minha Mãe, 2015

Vivendo com a Minha Mãe Haha to kuraseba, Japão, 2015 ) Direção: Yôji Yamada

A história gira em torno de uma mulher, Nobuko, que perdeu a sua família na guerra. Após a Segunda Guerra Mundial, ela parte em rumo a uma nova vida e, inesperadamente, recebe o fantasma do seu filho, morto na explosão da bomba atômica em Nagasaki.

Trazendo algumas reflexões interessantes sobre a guerra e os impactos causados por ela – mas nunca sendo completamente eficaz nessa proposta – esse filme é mais uma prova da grande sensibilidade do diretor Yôji Yamada. Sustentando sua história na excelente atuação da Sayuri Yoshinaga, acompanhamos a dor da mãe de forma leve e visceral, até por que a própria personagem nunca demonstra tristeza, se revelando extremamente forte, mesmo que esteja solitária no mundo.

A aparição do espírito do filho acontece de forma abrupta, mas jamais cai na artificialidade, soando como um conforto para a mãe, como se estivesse sendo guiada para o conforto – algo que, na conclusão, será provado de forma bonita e suave.

O filho, que falecerá ainda jovem, cheio de sonhos e vivendo um grande amor, precisa aceitar a sua condição e desprender-se do mundo, enquanto a mãe funciona como uma intercessora dessa necessidade.

O filme tem uma narrativa delicada que, infelizmente, se perde na metade, caindo em um ritmo lento e desnecessário, além das repetições de ideias. Porém a montagem que contém inserções do passado e pensamentos da uma fluidez ao roteiro que, em geral, não apresenta uma história nova mas encanta com a sua simplicidade.

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Katatsumori, 1994

Caracol ( Katatsumori, Japão, 1994 ) Direção: Naomi Kawase

Naomi Kawase troca o termo documentário por memórias. O início da sua carreira, após fazer um curso e dar aulas de fotografia, é toda voltada para os registros viscerais de sua vida. Uma câmera na mão e muito coração dentro do peito. O abandono do pai e opção da mãe por entregá-la à adoção estão sempre presentes nos seus filmes, bem como a força da natureza que aprendera com sua “vovó” – assim chamava a sua mãe adotiva.

Em “Caracol” Naomi se dedica a filmar sua avó com uma simplicidade monstruosa. É possível ouvir até os ruídos da sua filmadora, algo bem amador e pessoal, como um diário audiovisual procurando refúgios em imagens super próximas do objeto principal, de forma a aproximá-lo da autora, tornando-o eterno.

Seguimos a vovó e seus cuidados atenciosos com a terra, enquanto divaga sobre questões cotidianas como passado, preocupações e relação com sua filha. O close-up no seu rosto é constante, trazendo até mesmo um leve desconforto para ela que, prontamente, aceita a condição de ser estudo da Naomi, existe uma compreensão e fé nos talentos da, até então, jovem diretora de 24 anos.

Existe magia em cada lar, sentimentos incompreensíveis de afeto em cada família e isso é trabalhado aqui. Logo no início vovó fala com felicidade dos seus oitenta e cinco anos, no mesmo tempo que salienta em dado momento que viverá até os cem para ver as realizações de sua filha. Faz uma lista de possíveis coisas – sempre haverá a inclusão de filhos, como o ideal perfeito da continuidade da história – e, logo em seguida, pede para Naomi filmar a si mesma. Me pego pensando o quão simbólico é isso pois é justamente através da filmagem que a diretora se imortalizou na história do cinema.

As lembranças são todas as riquezas que temos, que bom poder viajar no tempo e viver um momento conforme a sua imagem. “Caracol” se trata de uma obra tão particular, que chega a incomodar em certo ponto, como se fosse uma intromissão. A sensação é de estarmos invadindo uma casa aleatória e roubando uma pequena, mas especial, caixinha de lembranças.

Vovó trata a terra com a mesma dedicação que têm com Naomi, planta de modo a criar vida e se questiona indiretamente. Ela se preocupa com as filmagens, por registrá-la sem maquiagem e perto demais do seu rosto. Chega a dizer: “…essa cara velha e enrugada, sem maquiagem” e é justamente nesse momento que pega a filmadora e registra sua filha, a diretora, ainda bem nova e cheia de esperanças. Ainda sobre sua imagem envelhecida, caminhar fragilizado… quando ela questiona a falta de maquiagem, o espectador inconscientemente responde: é justamente a sua naturalidade que a torna a senhora mais linda de todas.

É de se notar que a comunicação entre as duas, apesar de partir da pureza e do mútuo respeito, percorre alguns momentos de timidez, como uma pergunta da vovó onde ela questiona se sua filha a ama. A resposta, em forma de poesia visual, acontece em uma filmagem em off através da janela, distante; os dedos da diretora fazem carinho na vovó através do vidro, como se estivesse sempre cuidando dela, apesar de não ter forças o suficiente para demonstrar em todos os momentos.

O sussurro no final, com a frase “boa noite”, é de partir o coração. Um momento de realidade se intromete no processo de contemplação da beleza. Todas histórias, com seus amores e decepções, dependem de uma boa noite de sono para se tornarem grandiosas. Naomi reflete isso e o faz de forma sublime, respeitando as suas imagens e sua musa, mas sem esquecer que tudo vai embora, até mesmo a jovem diretora, com toda a sua inocência e insegurança.

Existe, apesar de algum amadorismo, – qual verdade não é, afinal – um planejamento visual feliz. Mas o documentário se destaca pela força metafísica do seu objetivo: imortalizar uma pessoa, diálogos, expressões e carinho. Naomi guarda sua vovó e cabe ao espectador tentar fazer o mesmo.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Mulheres da Noite, 1948

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★★★★

Qualquer pessoa com o mínimo de interesse em pesquisar o cinema japonês já ouviu falar, mesmo que brevemente, de Kenji Mizoguchi. Um verdadeiro mestre do drama e lembrado, principalmente, por ser um dos artistas que mais apoiou as mulheres na sua luta por igualdade.

Falar sobre feminismo, dificuldades e preconceitos sobre as mulheres hoje em dia é muito comum, aliás, isso é ótimo. Eu acredito que a única forma de se alcançar a evolução é através do caos, mesmo que ele parta da discussão ou debate. Mas o fato é que discutir o papel e valor da mulher na nossa sociedade, hoje em dia, é muito mais fácil do que na década de 40, com o mundo em plena guerra.

“Mulheres da Noite” é tão ousado como imortal, no que diz respeito ao poder do registro. Funcionando como uma síntese de todo um trabalho de um ícone do cinema japonês, foi lançado em 1948 e aborda as consequências da guerra, sob a perspectiva das mulheres que, perdendo os seus maridos e filhos na guerra, se veem sem saída, e com a iminente desestruturação da família, precisam encontrar abrigo nas ruas, como prostitutas.

A protagonista, Fusako Owada, interpretada por uma das melhores atrizes de todos os tempos, Kinuyo Tanaka – ela, inclusive, trabalhou ao lado de diversos mestres do cinema nipônico – é a perfeita representação da mulher em um momento de total desespero. Não à toa o filme começa acompanhando os personagens em uma cidade destruída e, assim, a destruição adentra cada vez mais, ao longo, na particularidade das personagens, que se desconstroem cada vez mais, se perdem cada vez mais.

A abordagem crível de Kenji Mizoguchi faz jus a grandiosidade do seu nome, de forma elegante e sem exageros, compõe uma rede de observações frias e verdadeiras, primeiramente imparciais até, consecutivamente, gritar para o mundo o seu apoio às mulheres e a falta de atenção da sociedade para com elas. Ele abraça a causa sem em nenhum momento julgar ou se achar superior, pregando a igualdade, é um comunicado simples, real e doloroso de que a humanidade precisa ter mais carinho e atenção com a situação das mulheres, principalmente referente a desigualdade.

O filme começa com uma música densa, demonstrando que o drama será tão pautado na realidade, que ultrapassa o limite para o terror. O cartaz na rua, que será importante para a compreensão da obra como um todo, traz a mensagem: “as mulheres que saírem à noite serão presas”. Contudo, se as primeiras cenas são cruéis, no final atinge o ápice, como se o próprio Japão castigasse as suas habitantes só pelo fato de serem mulheres, isolando-as e exaltando os jovens que perderam a vida na guerra. O cartaz, novamente, aparece e o letreiro é muito mais direto e horrível: “casa da luz: aberto para todas as mulheres desgraçadas”.

Quando é sugerido a prostituição como uma forma de sobrevivência à protagonista, é dito que ela precisaria “enfeitiçar” para conseguir dinheiro. É espantoso que um filme de 1948 tenha tamanha audácia em confundir palavras como forma de explicar uma ideia. Todas as mulheres do longa parecem não possuir uma alma, um rosto, tornando-se um objeto de feitiço, como se fossem as reais vítimas de toda uma transformação social causada, principalmente, por erros superiores.

A sequência final é de uma força inabalável; – mulheres, por favor, assistam esse filme e o use como arma de união, como veículo de grito e hino para a revolução, lembrando que a revolução não começa com a massa e sim com o indivíduo – a protagonista, no terceiro ato, quer se desprender, caminhar diante a liberdade, mas precisa sofrer as consequências, ter uma atitude em um mundo direcionado é como enfrentar o fácil, depois que ela apanha por sua força, é possível ver a sua silhueta através de um vidro, como uma sombra – sua imagem se modifica, se ausenta – é então que o diretor, inteligentemente, foca na imagem de Maria com Jesus em seus braços, como símbolo de bondade e força mas, acima de tudo, mulher, representando não só um ideal como mais uma jornada inteira modificada para se alcançar uma mensagem conservadora e uniforme.

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[ Republicação ] – Oshin, 2013

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Há! Como é grande o meu amor pelo cinema. Como é grande o meu amor pela vida, por histórias, como sou feliz por encontrar obras de artes perdidas como “Oshin”, filme japonês – olha, quem diria que iria voltar ao país tão cedo – de 2013, dirigido pelo Shin Togashi e que tem, em seu elenco, uma das atrizes mais bonitas, ao meu ver, Ueto Aya fazendo a mãe da personagem título, interpretada pela adorável e talentosa… pausa, peguem o caderno… pausa… Kokone Hamada! Você caro amigo(a), anote esse nome, estamos falando da menininha que se tornará, em breve, uma das maiores atrizes do Japão. Por que o que ela faz nesse filme é uma das coisas mais profundas que eu já vi, no que diz respeito a atuação de crianças, olha que, como pesquisador do tema que eu sou, já vi muitas atrizes boas, principalmente vindo da Suécia, mas essa menina é de deixar boquiaberto, mesmo com certos exageros costumeiros do cinema Japonês ela realiza algo inacreditável, eu ouso creditar como classificar como a maior performance mirim que eu já vi na história do cinema.

Na postagem anterior, sobre “Paixão Juvenil” eu falei um pouco sobre a visão que a mulher tinha no Japão, bem, claro que o filme que comento hoje é recente, porém ele se passa em um período muito conturbado onde, consecutivamente, a mulher era alvo de muito sofrimento. Em pleno período Meiji, repleto de mudanças políticas, econômicas, assim como o próprio trabalho, o povo buscava encontrar uma forma de viver, em meio as mudanças e, sim, era comum o trabalho de criança, desde muito novos. Até chegar nas mulheres, que serviam a casa de todas formas possíveis. Tá, até ai não tem muita novidade, o fato é que teremos todas essas questões sendo tratada de forma extremamente sutil através de uma garotinha de 7/8 anos. O que, diante a inúmeros eventos catastróficos, digo, tristes, ela vai amadurecendo, até chegar ao ponto de ver sua mãe se prostituindo e, com as sábias palavras da sua patroa, busca o equilíbrio com a verdade de que, a mulher, está fadada a nunca trabalhar para si própria, mas para os filhos, maridos etc. Por fim, em um diálogo esplêndido, a senhora ainda fala para a menina “ame-a – sua mãe – com todas as suas forças” pois ela sofre por estar fazendo o que faz, assim como a menina sofre com a vida que lhe fora imposta.

Um filme extremamente triste, sim, real, é impossível não chorar, mas mesmo com os recorrentes exageros, em nenhum momento senti a obra pedinte, os acontecimentos vão desabrochando naturalmente, de forma que a emoção também seja muito natural, mesmo que quase durante todo o filme. A menina é um poço de coragem e atitude, servindo como exemplo, eu diria, para essa nova geração que tem tudo nas mãos, sim, eu também estou me incluindo. Poxa, ela começa a trabalhar aos sete anos, não conseguimos mais imaginar algo assim, ainda mais surgindo com tamanha naturalidade para a família essa questão, o pai soa como um explorador, mas não deixa de ser igualmente explorado, então estamos limitados a fazer um contexto mesmo, em prol a entrega, sem ficar com tanta raiva das injustiças, o que é bem difícil. Importante a reflexão/experiência adquirida ao assistir “Oshin”, tem como protagonista uma personagem muito madura e fofinha, cujo nome significa confiança, a qual, aliás, aprenderá a adquirir, por mais que seu direito de opinião seja praticamente inexistente, mas, no fundo, ela consegue ler e, sendo assim, é diferente, há muita esperança em seu sorriso simpático.

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