Lisa e o Diabo (1972)

Lisa e o Diabo (Lisa e il diavolo, Itália, 1972) Direção: Mario Bava

Lisa é uma de nós, uma mulher que se sente perdida e enclausurada em meio à uma cidade magnífica (Roma) mas que, assim como qualquer outra, engole todos aqueles que não estão profundamente conectados com o meio. E tudo é assim, se o ser não está vinculado aquilo que vê, não está completo. E são nessas lacunas existenciais que o Diabo se aproveita para provocar a vertigem.

Lisa anda pela cidade, sua postura é tipica de uma turista. Tudo seria absurdamente normal – afinal, ser turista é dialogar com o alienígena que mora em si – se não fosse a devastação subliminar provocada pelo silêncio. Um medo intrínseco do homem e que o remete aos mais profundos pesadelos é a incomunicabilidade com os demais. O medo brota como uma semente no estômago, ele cresce e ganha formas, depois como em um golpe o pavor não se contenta em se manter escondido e foge. No entanto, a voz não sai, ninguém olha, definitivamente poucos se importam com o medo alheio ou, simplesmente, nada disso existe. Se não existe? Quem sou? Senão, uma pessoa que está sonhando?

Será que o Diabo se aproveita da vulnerabilidade do sonho? Pense bem, toda uma vida, com sua força, coragem e história, se desmancha e dorme. Acordado ou não, o que de fato importa é que Lisa representa justamente esse estágio inconsciente, onde o desespero trabalha em favor do mal, impedindo que o sujeito acorde.

Elke Sommer atua como se estivesse em um pesadelo perpétuo. Quanto a técnica, a partir de filmagens em ângulos baixos, Mario Bava ressalta a pequenice da protagonista em relação ao lugar onde está.

Essa representação do demônio carregando os mortos vai muito além da arte formal da época. Observem, a imagem de Satã expressa uma qualidade que reflete os mais profundos prazeres demoníacos”

Diversas religiões pregam que a vida cotidiana nada mais é do que um jogo de xadrez entre as forças divinas. Os seres são as peças e precisam percorrer o tabuleiro afim de, no final, escolherem um lado. O que mais causa desconforto nessa ideia, é justamente o fato de não termos capacidade de controlar as nossas vidas. Lisa e o Diabo (1972) é orquestrado pelo Mario Bava a partir dessa ideia e, convenhamos, se trata de um medo primordial do ser humano.

O Diabo aqui – representado pelo Leandro (Telly Savalas) – é o único que realmente tem o controle de tudo. Carrega manequins macabros que simbolizam justamente o ser imóvel, sem vida, petrificado.

Mario Bava conduz brilhantemente um filme desconfortável, é perceptível a aproximação do diretor com o tema e a climatização que constrói com perfeição. Se trata de uma obra repleta de sensações que, quando transmitidas, atingem a mútua compreensão de que o medo é verdadeiro e solitário.

A provocação acontece por sons suaves de harpas, enquadramentos abafadiços e estreitos e personagens atordoados inseridos nesse contexto perverso e onírico. É o horror no seu estado primitivo.

Uma das personagens orando, pressionada pelo enquadramento e sobre um chão que se assemelha a um tabuleiro de xadrez.

 Lisa e o Diabo (1972) é uma obra-prima que oprime e obriga uma atenção total por parte daqueles que o assistem. A mise en scène nunca esteve tão magnífica em um trabalho do Bava, aqui ele atinge o seu ápice e realiza algo enorme dentro do gênero de terror, provando uma sequência de ideias, principalmente no que tange a execução da atmosfera aterrorizante. Assistir esse clássico é como mergulhar em infinitas possibilidades artísticas e metafóricas, todas buscando os passos repetitivos e movimentos circulares. A protagonista anda, corre, se desespera, mas não sai do lugar. No final, “todas as peças do xadrez irão ser guardadas na mesma gaveta”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Máscara de Satã (1960)

A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio, Itália, 1960) Direção: Mario Bava

“Quando eu faço filmes de horror, meu objetivo é assustar as pessoas, mas ainda assim eu sou um covarde de coração fraco. Talvez por isso que meus trabalhos ficam tão bons em apavorar o público, pois eu me identifico com meus personagens… Seus medos também são os meus”.

Essa frase do mestre do terror italiano Mario Bava serve como um desabafo profundo, no mesmo tempo que funciona como uma ponte para compreender os seus filmes. A imersão do espectador nas suas obras é excelente, isso por conta da atmosfera bizarra e onírica que o diretor desenvolve em seus trabalhos.

Mario Bava é um dos maiores nomes do cinema de horror e teve um impacto muito grande na era de ouro – cujo período vai de 1957 até 1979. Os seus filmes alinham uma técnica impecável, tanto visual quanto sonora, com os roteiros geralmente a frente do seu tempo. Muitas das suas histórias chocavam o público conservador, isso em décadas onde a exposição no cinema ainda era debatida entre os intelectuais por conta da pluralização do audiovisual.

A Máscara de Satã (1960) começa com uma cena na Idade Média, onde uma bruxa está prestes a ser queimada na fogueira. Ela tem o seu rosto dilacerado por uma máscara cheia de lâminas, mas antes de morrer joga uma praga em todos os homens presentes. Dois séculos depois o local permanece amaldiçoado e muitas pessoas sofrerão as consequências.

Esse é um dos primeiros filmes do diretor e sem dúvida mais uma grande prova da sua transgressão. Se não bastasse algumas cenas fortes, tecnicamente o filme é impecável. Desde a edição de som – que por vezes cria ruídos afim de acrescentar tensão ao clima soturno – até a magnífica fotografia monocromática, todos os segmentos andam lado a lado para a construção de um universo gótico e ameaçador. Ainda sobre o visual, é importante ressaltar as decisões de enquadramento do diretor que filma os seus personagens, principalmente os vulneráveis, através de pequenos espaços, algo que traz uma sensação de desconforto, como se estivessem sendo seguidos e observados constantemente. O uso excelente das sombras também é importante, acrescenta toques macabros em uma obra que prima pela sua ambientação aterradora, seja em exteriores com as névoas e floresta macabra típica ou as internas em uma mansão com detalhes mal assombrados, a provocação do horror é puramente fruto de uma orquestra.

Após a introdução na Idade Média, o filme introduz dois personagens centrais que chegam ao local amaldiçoado duzentos anos depois. Essa apresentação é feita de maneira direta e inteligente, sintetizando o que teremos a partir de então. Um personagem entende alguns conceitos da bruxaria, enquanto o outro se mostra ávido por informações. Essa divisão facilita o roteiro que se desenvolve em base ao imediatismo de informações sem, contudo, esquecer a ordem e equilíbrio, a proposta é mesmo a imersão no horror através de algumas cenas pesadas para a época e outras inevitavelmente engraçadas.

No entanto, esse é um dos trabalhos mais brilhantes do mestre Bava. Uma perfeita demonstração de alguns dos principais conceitos que perseguiram o seu trabalho, principalmente no que tange o perfeccionismo técnico. Há de ser mencionado também a atuação da Barbara Steele – que diversas vezes lembra muito o Michael Jackson – que provoca o pavor somente com os olhos. Sua expressão gélida é totalmente sincronizada com a energia da obra. 

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A Corrupção, 1963

A Corrupção ( La corruzione, Itália, 1963 ) Direção: Mauro Bolognini

Dois lados. “A Corrupção” conversa sobre os conflitos de dois lados, extremos em suas necessidades, mas distantes no que diz respeito à manipulação. Dirigido pelo excelente Mauro Bolognini, conta a história de um jovem chamado Stefano Mattoli que, depois de terminar a escola, se vê desesperado porque terá que ocupar um lugar de destaque na empresa do seu pai. Em contraste com essa infeliz realidade, ele deseja virar padre. O seu pai não aceita e o convida para uma viagem em um barco, chama também a linda Adriana (Rosanna Schiaffino) para seduzir o seu filho, de modo a colocá-lo contra suas próprias convicções.

O longa começa na sala de aula, um local que exerce grande influência sobre a vida de qualquer jovem. O professor afirma, sem pestanejar, que só existem dois lados no mundo adulto, o dos capitalistas e marxistas e ainda acrescenta aos alunos que, dada as suas condições financeiras, todos já sabem a qual lado pertencem. É de uma mediocridade esse comentário, que fica evidente inclusive no estilo de filmagem, algo frontal, cadeiras alinhadas e direcionadas.

É tanta ordem que o protagonista, Stefano Mattoli – interpretado pelo ótimo Jacques Perrin – decide ser padre. Recusando o dinheiro que lhe é comum e também a política, acusa o seu pai de arrogância, mas não os ricos. O filme é interessante pois em nenhum momento expande as questões para outras histórias, o problema aqui é Stefano, portanto existe um respeito no que diz respeito a analise crua sobre um menino tendo que lidar com o seu seguro futuro e todas as limitações que essa vida traz.

Algumas decisões sutis do diretor são tão charmosas que deixam o ambiente mais aprazível, encurtando os caminhos e sendo direto nas propostas filosóficas ao, por exemplo, filmar uma missa sob os olhares de Stefano e, mais ousado ainda, é fazê-lo em plongée – ou seja, é como se estivesse jogando com o futuro, desesperado tentando encontrar uma maneira de fugir de um destino cansativo. Não à toa as pessoas na igreja vestem preto ou branco, quase como um jogo de xadrez.

Tudo aqui será trabalhado entre dois caminhos. O pai é antagonista e egoísta, privando o sonho do seu filho. No mesmo tempo que, em um primeiro momento, sua preocupação e insegurança são altamente compreendidas. O pai ainda sente que é necessário passar todas as mensagens em pequenos avisos sobre a vida para o seu filho de modo que relacione com a sua própria experiência profissional, por isso frases como “nessa vida uns mandam e outros obedecem” são importantes para demonstrar a visão rudimentar do personagem.

A aparição de Adriana na trama funciona como uma quebra dessa dança entre opostos. Ela se apresenta no meio de dois extremos. Rosanna Schiaffino é excelente na interpretação forte que dificilmente passa despercebida tamanho carisma, simpatia e beleza. É a personagem que também reflete o desejo e indecisão do jovem protagonista, de modo a jogá-lo contra sua própria fé e esperança. Inclusive é citado algo sobre o pecado original, bem oportuno.

Um ser instruído a viver e não pensar. Alguém que conquistou tudo assim que nasceu mas se sente incomodado com tamanha facilidade e com vergonha pela corrupção que envolve essa conquista. O pai é feito de fatos e o filho é feito de reflexões existenciais, duas dimensões diferentes e que, por ironia, dependem uma da outra.

“A ciência matará a poesia”.

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Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

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Across The River, 2014

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★★★★

A história de “Across The River” é muito simples: Gira em torno de um etólogo que trabalha capturando e implantando câmeras nos animais em uma floresta. As gravações acabam o levando para uma aldeia abandonada no centro da floresta. Ele fica preso nessa aldeia por conta de uma forte chuva, e ao longo do filme é explicado que esse lugar é amaldiçoado.

Maravilhoso é continuar percebendo o quão poderoso é o gênero terror e o quanto ele pode mexer com o psicológico do espectador, atraindo a atenção, curiosidade e provocando o medo, empatia ou pavor.

“Across The River” é um pequeno filme Italiano, o tamanho refere-se ao quanto é conhecido, pois a grandiosidade dele é tamanha que pode figurar, sem dúvida, em muitas listas de melhores filmes do recente cinema de terror italiano. O diretor Lorenzo Bianchini – que sabe desenvolver boas histórias em florestas assombradas, vide o curta “Paura dentro” de 1997 – é maravilhoso na criação da tensão, através de elementos naturais como o ambiente, animais, ruídos/silêncios, enfim, diversos outros detalhes.

A inteligência em trabalhar com apenas um personagem durante toda a obra é sublime, ainda é interessante notar que mesmo que a floresta consuma o protagonista, a expressão segura e corajosa que o ator Renzo Gariup imprime em seu personagem conforta o espectador. No mesmo tempo, a mesma coragem que suaviza a tensão provocada pelo silêncio, no início da obra, funciona como uma espécie de barreira, pois quando o protagonista começa a temer e ter expressões de medo, o espectador automaticamente já se sente muito apavorado.

Como não há diálogos, o filme é quase todo construído com pequenos movimentos – seja da câmera ou do personagem – e expressões, auxiliados pela densa trilha e efeitos pontuais. A fotografia prioriza e dá um grande destaque para a paisagem, como se ela fosse um palco de eventos paranormais e que os animais conhecem muito bem. O fato do protagonista ser um caçador é curioso, visto que ele desde o começo enxerga a floresta “através dos olhos dos animais” e, no final do filme, a câmera subjetiva dá o sentido de inversão, como se ele tivesse se transformado no animal, o caçador vira a caça.

A arma também está sempre presente, todas as vezes que o personagem está intrigado com algum barulho ele persegue os ruídos com uma arma, cautelosamente. A única vez que ele a perde, no final do filme, é também a primeira vez que ele corre, a mensagem de fragilidade é clara.

Para quem está acostumado com provocações fáceis de pequenos e inúteis sustos, através de efeitos sonoros, pode estranhar muito “Across The River”. O filme nos convida a ter uma experiência catártica, nos entregaremos por completo e o serviço será feito. Uma história simples e muito bem explorada, todos os elementos e truques voltados para o mesmo objetivo e com pouco, muito pouco, Lorenzo Bianchini consegue fazer um milagre. Ele acredita e confia na sua obra e em como está sendo desenvolvido. Resta-nos contemplar e agradecer uma obra de arte tão consciente e obscura.

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Indicação de filmes – O olhar das crianças sobre o mundo que as cercam

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We are the world, we are the children/ Nós somos o mundo, nós somos as crianças

Quem são as crianças? Os adultos crescem e, erroneamente, aceitam o fato de que se tornam mais distantes da imaginação. O ser humano é o único animal capaz de sorrir e talvez o mais genuíno sorriso seja o da criança.

No cinema, diversos temas já foram trabalhados sob a perspectiva das crianças e, quando bem explorado, é sempre muito interessante acompanhar essas histórias. É possível transformar coisas simples em mágicas, simplesmente por ser possível utilizar a inocência como forma de desenvolver determinada história, mesmo que seja repleta de medos e dores.

As crianças estão no cinema desde o seu início, quem não se lembra, por exemplo, do menininho do filme “O Garoto”, do Charles Chaplin? Esse é um ótimo exemplo pois se trata de uma transição, Chaplin passou a construir histórias pautadas na drama e comédia e a sua ousadia atingiu o limite, passou a dizer coisas horríveis sorrindo, de forma a amenizar os sofrimentos do mundo e, ainda assim, alertar à todos.

Essa é a primeira parte de uma postagem, onde irei recomendar alguns filmes que são desenvolvidos sob a perspectiva de uma criança. Ela pode ser protagonista ou não, mas certamente terá um papel crucial na história. Dei um maior destaque para obras pouco conhecidas, pois esse é o perfil do Cronologia do Acaso. Obs: As obras não estão em ordem de preferência, isso certamente seria um erro, pois todos atingem uma qualidade incrível.

1- Hugo och Josefin ( 1967 ), Suécia

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A Suécia é o segundo cinema, ao meu ver, que melhor trabalhou/trabalha com as crianças. O primeiro é certamente o cinema iraniano. Mas, enfim, o primeiro filme dessa lista se chama “Hugo och Josefin” que, basicamente, conta a história de Hugo e Josefin, duas crianças solitárias, que decidem virar amigos e andam pelas ruas da vida se divertindo e se conhecendo, de forma muito minimalista somos apresentados há alguns dramas pessoais deles, mas tudo isso é em segundo plano. O que realmente importa é o amor que existe ali.

Sem dúvida é um dos filmes mais carinhosos que eu já vi, me peguei chorando por diversas vezes, principalmente quando eles encontram um adulto e ele, extremamente inocente, ensina para os pequenos amigos alguns valores. Esse filme tem uma das risadas mais lindas da história do cinema, a protagonista dessa cena é Marie Öhman. O diretor captou um momento verdadeiro, onde a menina está comendo e se diverte – de verdade – pois não consegue engolir um ovo. O diretor teve tanta sensibilidade, que continuou filmando e registrou o momento onde todos os atores, incluindo a Marie, dão muitas risadas com a reação da menina. Um verdadeiro momento inesquecível da história do cinema.

2- Oshin ( 2013 ), Japão

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“Oshin”, dirigido pelo Shin Togashi, é um dos filmes que eu mais chorei na minha vida. E ele foi feito para mexer com o psicológico da humanidade. A protagonista, Oshin, é enviada para trabalhar em outra família, pois a sua está passando por sérios problemas financeiros.

O que mais encanta nesse filme é a protagonista, dona de uma maturidade sem fim, ela aceita a sua condição, mas sofre silenciosamente. E só demonstra ser criança em cenas bem singelas, é de uma força esse filme que beira o inacreditável. Recomendado para todas as mulheres, pois é uma verdadeira homenagem à elas, triste é pensar que essa é uma história que foi vivida por inúmeras crianças.

Kokone Hamada é a atriz protagonista e ela é um absurdo. Quando eu escrevi sobre o filme a coloquei como uma das maiores promessas do cinema mundial, tomara que eu esteja certo e apareça outras oportunidades, porque o que ela faz é impressionante.

3 – Corpo Celeste ( 2012 ), Itália

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Dirigido pela queridíssima Alice Rohrwacher, esse filme foi selecionado para a quinzena dos realizadores no festival de Cannes em 2011. A história concentra-se em uma menina chamada Marta, de 13 anos, que se vê sufocada pela religião e passa a questionar a sua liberdade.

Esse é o típico filme poderoso, pois aborda tanto a liberdade da mulher, como também um desprendimento religioso, imposto pela família. Em uma cena crucial, Marta está fazendo crisma e tem os seus olhos vedados, representando a sua situação, cega diante a uma infinidade de possibilidades. Interessante é que depois que ela corta o cabelo, a sua postura muda completamente. Ela passa a se enxergar como uma mulher livre e vai de encontro com um amadurecimento provindo do incomodo e ousadia para livrar-se do comum.

4 – Garoto-Estilingue ( 1960 ), Tchecoslováquia

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Esse é dirigido por um dos melhores diretores tchecos de todos os tempos, chamado Karel Kachyna. “Garoto-Estilingue” é um dos seus primeiros longas, anos depois viria a fazer outra preciosidade chamada “The High Wall”. Inclusive escrevi uma crítica sobre esse filme e é uma das que eu mais me orgulho de ter feito, você pode conferir clicando aqui.

Garoto-Estilingue” conta a história de um garoto que é salvo de um campo de concentração e levado pelo exército tcheco. Lá ele se torna uma espécie de mascote, todos o tratam com muito carinho, e o garoto começa a se sentir como parte de uma grande família. No mesmo tempo tenta mostrar a sua força e se diz pronto para entrar na guerra com os amigos. O garoto-estilingue da tradução ou prace no original faz referência aos garotos tchecos que lutavam com estilingues na guerra.

Esse é super esquecido e é um dos melhores que eu já assisti na minha vida. É difícil encontrar bons filmes sobre a guerra e esse sem dúvida é um dos melhores. O menino protagonista é muito carismático e o espectador sente todos os seus dramas. Outro ponto interessante é acompanhar o exército que, mesmo em meio a guerra, encontra no menino uma fuga para a inocência, eles o tratam como filho, como se fosse uma possibilidade real de voltar para a casa.

5 – Doro no Kawa ( 1981 ), Japão

Mais um filme japonês, esse é o primeiro do diretor Kôhei Oguri. É um filme super sensível sobre a amizade de dois garotos pós-guerra.

É mais um que usa bem a guerra para contextualizar os dramas dos seus personagens, com destaque para todo o elenco infantil que interpretam com o coração, doam tudo o que sabem e constroem algo lindo e emocionante de se ver.

Alguns temas como abandono e dificuldades financeiras são trabalhados de forma muito minimalista, chega a doer tamanho carinho e dedicação. Esse é um outro tesouro perdido que, sem dúvida, emocionará muitos com a sua profundidade e simplicidade.

6 – Uma Vida Nova em Folha ( 2009 ), Coréia do Sul

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Particularmente eu tenho um carinho muito grande com esse filme. Foi o primeiro do cinema sul coreano que eu assisti na vida. Lembro-me que era apenas um adolescente e conheci esse cinema maravilhoso, repleto de sensibilidade. A diretora Ounie Lecomte simplesmente marcou a minha vida, eu assisti esse filme há muito tempo e ainda me lembro de todas as cenas como se tivesse assistido ontem.

A história é sobre uma menina chamada Jin-hee, de 9 anos, que é levada pelo pai à um orfanato, então passamos a acompanhar a menina e a sua dificuldade em aceitar a nova vida, talvez a palavra “aceitação” é a mais trabalhada durante toda a obra.

Destaque para a atuação da Sae-ron Kim que, hoje, tem quinze anos e é muito popular na Coréia do Sul. Ela é um verdadeiro talento e merece todas as coisas boas nesse mundo, a acompanho desde novinha e é sempre um prazer perceber o quanto é talentosa.

Destaque para uma cena onde a protagonista, cansada da sua “nova vida”, cava um buraco e joga terra por cima. Como se estivesse gritando para o mundo que não quer mais pertencer a ele. O filme é extremamente silencioso mas, através do silêncio, machuca muito.

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Bem, essa é a primeira parte, eu vou retomar a lista na semana que vem. Espero que tenham gostado e convido à todos a deixarem nos comentários as suas recomendações. Abraço amigos!

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Juventude, 2015

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★★★★★

Paolo Sorrentino é, impressionantemente, um jovem de 45 anos. Utilizo essa expressão pois sua capacidade de estudar o tempo e a velhice é sublime e envolta de muita sensibilidade/maturidade. No seu mais recente trabalho, “Youth“, o diretor brinca com uma linguagem desprendida, repleta de referências e informações – imediatamente lembrei-me do “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain“, pois ao assistir o filme francês o sorriso no canto da boca também permanece constantemente – e mistura alguns elementos melancólicos que podem ser vistos em dois trabalhos específicos da diretora polonesa chamada Dorota Kedzierzawska: “Koniec Swiata” (1988) e “Pora umierac” (2007). Ambos exemplos refletem sobre a passagem do tempo, perda e aceitação.

O cinema é uma ponte para catarse. Existem poucos filmes hoje em dia que se destacam por serem tão carinhosos. Essa ponte nos leva para vários lugares, várias idades e encontros, mas muitas vezes nos proíbe de imaginar o futuro. O cinema popular cria exaustivamente um mundo futurístico, com pessoas imortais ou dotadas de muitas facilidades. Mas seria mesmo o fim a insipidez da existência? Talvez a monotonia se forma e ganha forças através da nossa indiferença com o idoso e com os ganhos que o tempo nos dá.

Focalizamos o arrependimento e esquecemos que o fim não representa, necessariamente, o encerramento do espetáculo. O fim não é, nunca foi e nunca acontecerá de forma súbita. O fim é um processo, uma estrada, e cabe ao ser, de forma individual, escolher entre isolar-se ou doar-se.

Juventude” conta a história de um maestro aposentado chamado Fred – interpretado maravilhosamente bem por Michael Caine – e o seu amigo cineasta Mick ( Harvey Keitel ), eles estão passando as férias em um hotel luxuoso enquanto refletem sobre o passado, futuro, amores, enfim, a vida. Mick tem o desejo de realizar um último filme, que teima em classificá-lo como o seu testamento.

Mick, explicando a sua ideia para a realização do novo filme – vale ressaltar que ele teve uma carreira brilhante no passado, porém com o tempo a qualidade dos seus filmes foi diminuindo – diz que se chamará “O Último Dia da Vida”. O que escrevi sobre o “fim” acima, é a representação dessa obra que ele sonha realizar. Além de que esse filme é uma metalinguagem, pois se trata do próprio “Juventude” que, por sua vez, é repleto de referências – como comprovação, na última cena do filme, temos Mick fazendo um enquadramento para o próprio espectador, sugerindo também uma inversão de papeis, ora, por segundos o espectador se torna o “capturado” e, assim, parte do testamento.

As referências não param por ai – e seria impossível dissertar sobre todas – vejam por exemplo o personagem do querido Paul Dano, Jimmy Tree. Ele é um ator frustado pois mesmo fazendo diversos filmes alternativos só é lembrado por um filme popular de robôs. Paul Dano, por outro lado, se destaca também por filmes alternativos, apesar de serem conhecidos sempre exigem do ator uma mudança, mesmo que sutil.

A relação entre os dois amigos é tão natural e delicada, que é incrivelmente fácil adentrar naquele universo. Vivenciamos aquela paisagem maravilhosa, a trilha sempre oportuna, a fotografia que demonstra com perfeição a psicologia dos personagens, entregues aquela vida equilibrada, com poucas aventuras ou responsabilidades. A aventura, de fato, são os diálogos. Sempre pontuais, interessantes e, por vezes, engraçados.

A filha de Fred, Lena – interpretada pela lindíssima e talentosa Rachel Weisz – está presente no filme como um contraponto a tranquilidade já citada. Ela está em meio a uma separação e possui diversos ressentimentos em relação ao pai. E é através da sua visão que vamos conhecendo as falhas do maestro, afinal, pouco sabemos sobre sua história.

Tanto o cinema, como a música – que aqui representam a arte como um todo – aproximam e distanciam Fred e Mick do mundo. Lena diz em certo momento que o seu pai trabalhava constantemente e as palavras que mais dizia para ela era “silêncio Lena“. Não é contraditório um musico almejar silêncio? Seria o verdadeiro artista o maestro que se distancia de todos para trabalhar ou o homem simples que aprecia ouvir a família, o outro?

A resposta para essas perguntas, no filme, assumem a forma de uma jovem massagista ( Luna Mijovic ). Em dado momento ela afirma que “é possível entender tudo com o toque“. Ou seja, algo que o protagonista nunca teve com sua filha, porém, “Juventude” é uma obra prima e transforma o testamento em redenção, por isso, Fred acaricia de leve o rosto de Lena a noite, ela acordada sente, mas finge estar dormindo. Mas, no fim, “os pais sabem quando os filhos estão fingindo dormir”.

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Eu e Você, 2012

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★★★★★

Bernardo Bertolucci dava indícios de que não voltaria a dirigir novamente, depois de um estrondoso sucesso, filmes como “O Último Imperador” e “Último Tango em Paris” parecem ser os mais aceitos pelo grande público. Por ora destaco a capacidade única do diretor em brincar com a sexualidade do homem, em prol a uma análise profunda sobre o seu desenvolvimento, enquanto inserido em uma sociedade.

Em “Os Sonhadores”, de 2003, ele provocava com o sexo, belezas puras e estonteantes de atores como Michael Pitt e Eva Green, mas usava esse delicioso artifício para compor todo um pensamento que ia de encontro com uma crítica social, unindo com diversos outros elementos, como por exemplo a metalinguagem, ao resgatar com propriedade o próprio cinema para estruturar as personalidades de suas personagens.

“Eu e Você”, que é o mais recente trabalho do diretor, baseado no romance homônimo de Niccolo Ammaniti, também é eficaz enquanto obra provocante. Bem mais singelo do que o destacado acima, ele se torna especial exatamente por esse motivo. As metáforas visuais são bem mais contidas, indo em direção ao que os personagens estão passando naquele momento. Se em “Os Sonhadores” a nudez era uma metáfora, aqui o amor e família são pontos chaves a serem desconstruídos.

Lorenzo ( Jacopo Olmi Antinori ) tem 14 anos, prestes a fazer uma viagem com a escola, ele decide no último momento em não entregar o dinheiro para a professora e fazer compras. Compra comida o suficiente para sete dias, o seu objetivo é o seguinte: se trancar no porão do seu apartamento, viver ali isoladamente, enquanto mente para sua mãe que está na viagem com a escola. Esse plano dá certo até que sua meio-irmã aparece, usuária de drogas, ela está procurando um refúgio, ou seria uma companhia?

Eu sou uma pessoa existencialista, não entendo e nunca entendi muito bem o meu propósito. Até ai tudo bem, o problema é quando você faz dessa ausência de respostas um motivo para nunca estar completo. Nada proposital, eu garanto. Por muito tempo não sabia como lidar com a obrigação de me sentir perdido constantemente, por diversas vezes me encontrei querendo estar sozinho, seguindo caminhos diferentes daqueles que a rotina grita em nossos ouvidos, mentindo para pessoas que amo, enfim, tudo motivado exatamente pela frustração de não haver um objetivo concreto, ou pelo menos não conseguir senti-lo.

Observando sobre esse aspecto, eu senti que o filme era um retrato da minha vida. Mesmo que com algumas diferenças gritantes, a sensação de precisar estar trancado foi muito semelhante na minha vida.

Lorenzo mente para ficar só, pois sabe que se não fosse para a viagem, haveria discussões, no mesmo tempo que se decidisse ir, estaria solitário do mesmo jeito. Visto que desde o começo do filme o garoto aparenta estar extremamente desconectado com os demais colegas. Temos então um personagem aparentemente sem propósito, nem mesmo sua decisão é fruto de uma maturidade. É derivado da irresponsabilidade? Talvez. Apesar de considerar muito precitado um julgamento, pois a reação que ele teve é necessária para uma auto descoberta, onde o isolamento desabrochará como uma oportunidade para um feliz e enigmático reencontro, não com uma irmã, mas com um espelho.

Se no primeiro ato temos o personagem lidando com os seus conflitos, se ajustando a sua nova fase, mesmo que ela tenha um tempo limitado para existir, na segunda somos arrebatados para um drama ainda mais profundo, não desvalorizando a primeira, pois ambas caminham de mãos dadas, mas é inevitável a comparação. Quando a Olivia aparece, há um confronto entre a ilusão e realidade. Se o filme fala sobre a necessidade do ser de criar muros em volta de si mesmo, a partir de então temos uma personagem  voyeur, que espia com uma elegância impar em cima do muro do Lorenzo, que protege o seu coração com o máximo de dedicação possível.

Os dois estão em busca de isolamento, para disfarçar uma fuga, e no caso dela é muito mais assimilável, pois está tentando sair das drogas para, enfim, viver uma vida ainda mais distante – a mesma afirma diversas vezes que deseja morar no campo. A droga, aqui, é uma metáfora, representa a vivência, o entender do meio. Enquanto o menino recusa suas oportunidades sem nem ao menos tentar, conhecendo assim pouco do mundo, Olivia é uma diplomada do vento, já viveu o suficiente para entender como as coisas são.

Percebam como a todo momento, ela age como se tentasse definir o seu irmão, é quase uma consulta. Isso ficará ainda mais ilustrado a seguir, quando ela revela que fazia trabalhos fotográficos, explica um dos ensaios e usa a seguinte explicação:

Eu sou um muro. Basicamente sou eu que me torno um muro. Eu entro no papel de parede dentro do gesso […] Praticamente eu queria me desmaterializar, você e eu se não tivéssemos mais um ponto de vista seriamos iguais, certo? Isto é, sem um ponto de vista deixaríamos de estar um contra o outro e aceitaríamos a realidade como ela é, sem julgá-la. […] Foi a droga que me deixou negativa, antes eu conseguia estar dentro dos muros.

Percebe-se, por esse diálogo, junto com a boa interpretação da atriz – há de ser destacado o trabalho da Tea Falco, bem como ressaltar a curiosidade de que ela, na vida real, também se interessa muito por fotografia – que a personagem é uma exímia observadora da vida, uma devoradora de existências, ela parece no início do filme extremamente vazia, mas era simplesmente influência da droga, quanto mais vai ficando limpa, mais percebemos a sua capacidade intelectual e, mais do que isso, sua sensibilidade. Aliado a isso, estranhamente, temos o fato de que mesmo com toda maturidade e personalidade, a mesma esteja perdida, dependendo de um outro alguém para analisar, como se precisasse do mundo para se inspirar e, assim, respirar por mais um dia.

É de uma importância tão grande, de um carinho confortável, que independente da qualidade da fotografia, que deixa a desejar em alguns momentos, nos prendemos aos pontos positivos, como metáforas visuais, ligando o personagem Lorenzo com as formigas ou até mesmo o tatu que, dentro de sua gaiola, anda em um movimento que se assemelha ao simbolo do infinito, no mesmo tempo o garoto também, em um momento de tédio, faz a mesma coisa. Ele está em um porão fechado, com somente uma janela, sozinho e sem nada para fazer, o movimento do infinito representa a interminável sensação do garoto de estar daquela maneira, mesmo que supostamente livre. O local “porão” é só um detalhe, pois tudo é um porão para ele.

O espaço sujo e apertado é, afinal, um reflexo dos dois, que são diferentes, mas exatamente iguais, se não fosse pelo ponto de vista, ou seja, experiência. Ele bebe calmante para aliviar a sensação de aprisionamento e ela para passar a dor. Os dois, de fato, são escravos da ausência de amor, crias do abandono.

Não poderia terminar de outra forma, que não destacando a cena mais importante – pessoalmente uma das mais bonitas que eu já vi a vida – onde Olivia começa a interpretar a música Ragazzo Solo, Ragazza Sola do David Bowie, olhando profundamente para o seu irmão e esse a aplaudindo, aliás, a música é tão linda e encaixa tão bem, que parece que a história foi desenvolvida a partir dela.

Minha mente decolou,
um pensamento
apenas um
Eu caminho enquanto a cidade dorme
Os olhos dela na noite
faróis brancos na noite
uma voz que fala comigo
quem será?
Diga, garoto solitário para onde vai?
por que tanta dor?
você perdeu, sem dúvida, um grande amor
mas de amores a cidade está lotada
não, garota solitária
desta vez você está errada
não perdi apenas um grande amor
ontem à noite eu perdi tudo com ela

Reparem que no exato momento que começa o trecho “Diga, garoto solitário para onde vai?”, ela puxa o seu irmão e o abraça, logo em seguida em “você perdeu, sem dúvida, um grande amor” ele, até então contido, abraça sua irmã com toda força possível. Como se quisesse dizer “sim, você entendeu tudo, mesmo que eu mesmo não entenda”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Filmes alternativos sobre a relação pai e filho

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Enfim, os dias dos pais. Pessoalmente eu invejo muito aqueles que fazem um belo almoço, dão presentes, abraçam e beijam os seus pais nesse dia ou em qualquer dia do ano. Essa presença tão importante permanece, há bastante tempo, inexistente na minha vida.

Mas essa postagem não é para lamentações, até porque não fico triste, pois, a vida nos recompensa de diversas formas, pai não é aquele que nos colocou no mundo, não é somente homem. Existem mães que batalham dia a dia para dar o melhor aos filhos, existem amigos que protegem em qualquer circunstância, existem pessoas que nem sabemos o nome, mas que estão aqui ou lá, presentes nos nossos corações.

Não existe um dia específico, uma data do ano é muito pouco para tamanha importância. Mas beije, abrace, diga um lindo e feliz “eu te amo” ao seu pai. Se você está lendo isso, dê uma pausa, procure se entregar mais, não hoje, nem amanhã, mas sempre.

Se o seu caso é como o meu, não se lamente, comente o quanto a vida é legal por deixar você enxergar o outro lado. Ame, independente de classificações.

Bem, vamos lá: essa postagem é para recomendar alguns filmes que possuam alguma relação com esse tema ou simplesmente tenham um personagem pai que por algum motivo chamou a minha atenção.

A Música Nunca Parou, 2011 

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Me emociona só de lembrar. Existe uma relação, inicialmente, do filho com a música o que acaba, por consequência, criando um conflito com o pai. É uma metáfora interessante, pois um gosta de Rock, aquele que mesclava – impulsionava – o movimento hippie e o outro aprecia um bom clássico.

Quando o filho começa a lidar com o esquecimento, a única coisa que liga os dois é exatamente a música, o pai faz da arte a sua respiração, o seu recomeço.

A Lula e a Baleia, 2005

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Como a ideia é tentar resgatar da memória vários caminhos do mesmo tema, nesse longa dirigido pelo Noah Baumbach, temos o exemplo claro de um personagem ( pai ) fragilizado diante ao processo de mudança, no caso, da separação com a esposa. Interpretado maravilhosamente pelo Jeff Daniels, há ainda uma relação curiosa com o filho, que o segue e, inclusive, o imita. De forma a estabelecer algumas dicas em relação a psicologia daquele convívio familiar, onde o pai impõe os seus gostos e a sua cultura.

Sempre Estarei Contigo, 2012

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Temos aqui um pai, do tipo herói, já idoso ele pode se orgulhar de ter todos os filhos criados e, ainda mais, ter ajudado os netos a terem suas próprias terras. Um ser humano com a vida completa(?). Resta a esse senhor, perceber que precisa, finalmente, de mais tempo com a sua esposa, mas a sua vontade de sempre estar construindo algo o leva cada vez mais a pensar em outras possibilidades.

Tangerines, 2013

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Representante da Estônia no Oscar de melhor filme estrangeiro, acabou perdendo para “Ida”. Aqui temos a figura paterna da proteção, seja dos personagens que estão em guerra que aparece e o cuidado que existe ali ou a proteção de uma lembrança.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/01/tangerines-2013.html

A Busca, 2013

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Esse filme mexeu tanto comigo que escrevi sobre ele chorando. Uma perfeita simbologia ao ato de buscar aquilo que se perdeu, seja diante as próprias atitudes ou pelo tempo. As pessoas crescem, buscam liberdade, constroem suas próprias famílias, se vão, a busca se torna, consecutivamente, ir em frente.

Cítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/07/a-busca.html

É Tudo Tão Calmo, 2013

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Esse filme da Holanda, silencioso e contemplativo ao nível máximo, é bem particular. Bem como é restrito, é complicado digerir perfeitamente, é preciso calma, assim como a própria tradução sugere. Aqui temos o exemplo do “cuidado”, um filho cuidando do seu pai e lidando com a verdade de que a morte se aproxima, no mesmo tempo que ele é triste por isso, existe ainda o cansaço.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, 2007

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Esse é talvez o filme mais conhecido da lista. Ele mora no meu coração pois me encantou em diversos pontos, desde ser uma comédia romântica perfeita, passando pelas atuações gostosas do querido Steve Carell e a diva Juliette Binoche até chegar a profundidade.

Temos um viúvo, que tem problemas para reconstruir a sua vida, até por ser um pai muito dedicado. E, em uma confraternização em família, ele se apaixona pela namorada do irmão, mas, mais do que isso, aprende a valorizar os seus próprios interesses e percebe com perfeição que, para ser um bom pai, é preciso, também, estar completo e, para isso, precisa ter uma vida.

A Outra Família, 2011

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Esse filme mexicano me agradou bastante. Uma criança foi abandonada por uma usuária de crack e foi adotada temporariamente por um casal gay. Existe uma polêmica presa somente nessa sinopse, mas o filme não é um melodrama, pelo contrário, muito consciente e respeitoso. O que é, de fato, uma família?

Alamar, 2010

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Outro representante do México, esse beira um documentário. Uma criança é dividida entre dois mundo após a separação dos seus pais. A mãe é uma Italiana, vive no mundo da cidade grande, prédios e modernidade, enquanto o seu pai é de origem Maia, leva uma vida que beira a primitividade, cercado pela natureza, vive de pesca, mergulhos, liberdade.

Acompanhamos o filho na natureza, a admiração está o rodeando o tempo todo, mesmo que nenhuma palavra seja dita. O filho admira o seu pai, por esse saber conviver com naturalidade tamanha com a sua própria simplicidade.

A Criança, 2005

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O que mais me agrada na filmografia dos irmãos Dardenne é a capacidade que eles tem em retratar essa relação de pais e filhos de uma forma inexplicavelmente incomunicável. Existe uma parede entre o espectador e a realidade apresentada, uma distância cruel, um desejo de tentar compreender os personagens, por vezes, vazios.

 “A Criança” tem como protagonistas dois jovens delinquentes, que acabaram de ter um bebê. Eles não sabem o que vão fazer da vida e a criança sofre com essa imaturidade ou falta de objetivo. Uma existência sem significado, uma nova vida fadada ao abandono.

Jérémie Renier e Déborah François estão surpreendentes.

Tudo que Quiseres, 2010

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Filme Espanhol, que navega por entre uma relação de pai e filha, onde ambos acabam de perder a mãe/esposa. O pai então, para acalmar o coração da menina, começa a se vestir como a mulher.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/03/todo-lo-que-tu-quieras-2010.html

Caos Calmo, 2008

Está confirmado! Se eu tenho um pai no cinema, ele se chama: Nanni Moretti. Esse ator/diretor, esse filme, foi muito impactante para mim, em um momento que estava muito carente. Aliás, um outro filme do Moretti – que ele atua e dirige – chamado “O Quarto do Filho” de 2001 também poderia estar facilmente nessa lista.

A mãe/mulher também morre e o pai, vendo que sua filha está diferente, resolve sentar em uma praça, de frente a escola, todos os dias. Ou seja, ele leva a sua filha na escola e, depois, ao invés de ir trabalhar/viver, fica lá sentado até a menina sair.

É de um amor, é de uma sensibilidade que só assistindo. Para morrer de chorar e se encantar com tamanha beleza.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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