Heartstone (2016)

Heartstone (Hjartasteinn, Islândia, 2016) Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson

O cinema produzido na Islândia é brilhante. O pouco acesso que temos para assistir as obras do país não nos impede de perceber a regularidade das produções, principalmente em relação à sensibilidade. Se Friðrik Þór Friðriksson desenvolve temas relacionadas ao tempo em seus trabalhos, Benedikt Erlingsson recentemente nos presenteou com uma obra contempladora que une o ser humano e os cavalos, explorando o místico provocado pela natureza e verdade.

[Você pode ler outras críticas que escrevi sobre filmes da Islândia clicando aqui]

“Heartstone” (2016), dirigido pelo Guðmundur Arnar Guðmundsson – conhecido principalmente por um curta-metragem chamado “Hvalfjörður” (2013) – se assemelha bastante aos dois diretores citados. Por coincidência ou não, a juventude aqui é trabalhada com tamanho respeito que a associação com Friðrik Þór Friðriksson é imediata. Quem já assistiu “Bíódagar” (1994) sabe perfeitamente disso. Nessa obra,  Friðrik acompanha a vida de um garoto apaixonado por cinema que precisa se afastar e morar em uma casa no campo. Esse deslocamento causa um incomodo grande no garoto e as consequências desse fato são observados da forma mais visceral e sincera possível.

“Heartstone” (2016) possui a mesma habilidade em se utilizar do jovem para discutir temas importantes que abrangem a desestabilização familiar e descoberta da sexualidade. Dois garotos, Þór e Kristján, possuem uma forte amizade e entre a rotina de brincadeiras e passeios ambos parecem fugir da desestruturação familiar enquanto o sentimento de amizade é confundido com interesse amoroso. Eles passam a se ajudar e veem um no outro uma forma de fugir dos pesadelos da indiferença, ódio e preconceito.

A beleza do pequeno vilarejo da Islândia abriga amigos que se deliciam em meio à pureza mágica do ambiente. O azul do céu e da água envolve os garotos que, na primeira cena do filme, aguardam em silêncio enquanto pescam. A ação de um adulto, a pesca se trata de uma das atividades que mais necessitam de paciência o que, em um primeiro momento, todos os meninos têm. Mas o silêncio para uma criança é a própria morte, e logo a calma é quebrada pelo protagonista que permanece em primeiro plano enquanto um de seus amigos mexe (imagina?) nos pelos de sua axila e peito. Eles pegaram os peixes e, a partir desse momento, podem voltar correndo e contar a novidade para os pais.

O contra-plongée mostra uma visão de dentro da água para fora o que demonstra claramente uma intenção de duplicar a imagem dos personagens. Esse simbolismo se repetirá de outras formas ao longo, e a intenção sempre é a mesma: expor o fato de que Þór e Kristján dividem suas vidas entre a liberdade total, quando estão juntos, e a limitação e desconforto quando inseridos nos seus respectivos lares. Desse modo, é possível notar que diversas vezes a imagem deles, refletidas em algo, é borrada.

Þór volta para sua casa e deixa os peixes que pescou fora. Representando suas próprias emoções – cabe destacar que seu melhor amigo, Kristján, conseguiu apenas pegar um “peixe pedra” e é zombado pelos colegas por isso. No banheiro, através da imagem refletida no espelho vemos o protagonista brincando com o seu corpo, isso inclui a masturbação. Sua nudez é o refúgio de liberdade o que, rapidamente, se dissipa com as brincadeiras das suas irmãs adolescentes referentes ao seu corpo despido.

Outra simbologia visualmente importante no filme é o contraste existente nos enquadramentos dos personagens e como mudam quando externos ou internos. Quando os amigos estão passeando, nadando, acampando, enfim, vivendo, os planos são abertos e, além disso, não há objetos ou móveis “poluindo” o enquadramento. O que não acontece quando eles estão dentro das casas ou sendo vistos por alguém inserido no lar. Geralmente os personagens tem campos de espaços reduzidos, e pequenos ou grandes objetos são perceptíveis como forma de opressão visual.

O filme possui o clima convidativo de grandes filmes dos anos oitenta, mas com a profundidade do bom cinema contemplativo. A fotografia acerta em cheio nos tons azulados, exalando melancolia mesmo em meio à paisagem magnífica que envolve todos e, por muitos, é ignorada.

A amizade aqui representa a condição de amparo e necessidade. É agradável assistir uma obra que não precisa explicar muito o que é óbvio, a importância das relações são nítidas e incomunicáveis, senão, pelas performances. Nesse sentido, Baldur Einarsson é verdadeiramente um achado, extremamente talentoso, dá densidade ao seu papel, fazendo com que Þór receba todas as atenções, transitando entre o carinho, insegurança e raiva de maneira singular.

Com a sensibilidade apurada, Guðmundur Arnar Guðmundsson transforma uma história comum em algo extraordinário. É triste saber que em muitas histórias de infância há o abandono como elemento principal, dificultando o processo de adolescer e experimentar. O jovem que respira diferente, necessita de cuidado e atenção, da repetição das palavras de conforto, pois crescer é se sentir um monstro. No final, o peixe pedra precisa voltar para o mar e partir em busca de uma nova chance.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Desajustados, 2016

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Os trabalhos do Dagur Kári são sempre impressionantes. Lembro-me de tê-lo conhecido através do filme “O Bom Coração”, imediatamente me encantei com a narrativa orgânica, com os silêncios e reflexões – sempre muito oportunos – e com as atuações, principalmente do Brian Cox e Paul Dano, o segundo apresentando uma das suas melhores performances.

O diretor costuma ter uma abordagem visceral sobre o lado mais íntimo dos seus homens, lidando com a solidão como forma de motivá-los ou destruí-los. Se em “O Bom Coração” havia uma metáfora linda com o coração e confiança, no seu mais recente filme, há a mesma sutileza na abordagem de um tema complicadíssimo, e envolto de muito preconceito, chamado depressão.

A depressão pode, facilmente, ser alvo de desconfiança, isso porque se confunde com uma infinidade de sentimentos facilmente controláveis. Só quem já encarou essa doença sabe o quanto ela se apoia no desequilíbrio e no abandono. O diretor realiza, então, um dos seus trabalhos mais corajosos, baseando-se nesse isolamento e construindo uma série de mensagens através de um silêncio terrível, que machuca, mas sempre tentando desertar a reflexão no espectador e, principalmente, empatia.

A história é sobre um homem de meia-idade chamado Fúsi. Ele vive com a sua mãe, têm adoração por brinquedos colecionáveis e vive solitariamente, seja no trabalho ou em casa. Parece que não tem malícias, se comporta com constante naturalidade, mesmo que sempre demonstre, através de expressões, completa timidez do mundo. Fúsi tem depressão, mesmo que essa palavra, no início, não seja pronunciada. Mas quem assiste sabe desde o começo que ele não está bem. Contudo, com a possibilidade de fazer aulas de dança, acaba conhecendo uma mulher que o guiará através de um caminho de esperança e felicidade, mesmo que esse trajeto seja incompreensível para o protagonista.

A palavra depressão é dita apenas uma vez, por um personagem secundário que afirma que “a depressão é uma mistura de auto-piedade com preguiça”, parece-me ousado a postura do diretor em se utilizar de uma série de artifícios para refutar essa ideia egoísta. A fotografia e o posicionamento de câmera, por exemplo, sugerem o distanciamento do protagonista para com o mundo que o cerca, os objetos de cena sempre estão em primeiro plano, como se Fúsi estivesse oprimido constantemente, mesmo que pelas paredes.

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Aos poucos, no entanto, essa opressão vai se afastando e o personagem, apesar de jamais apresentar indícios de mudanças de personalidade – ora, esse nunca foi o problema – se vê próximo da sociedade como um todo, mesmo que as pessoas teimem em ser desrespeitosas com as suas decisões. Ele é extremamente frágil e inocente, mas no mesmo momento é tomado por uma segurança sem tamanho, extremamente cauteloso e ciente da maldade ao seu redor. Quando questionado pelo seu chefe, por exemplo, sobre as provocações que recebe dos colegas de profissão, ele diz que “não é nada demais, pois relacionamento entre homens são assim”, demonstrando mais uma vez a sua aversão as atitudes consideradas “naturais” pelo senso comum.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

A atenção que o protagonista dá aos seus brinquedos são sempre ressaltados com planos detalhes, onde os seus olhos seguem com extrema atenção cada detalhe dos soldados, carros, enfim, todos os objetos pertencentes à sua coleção. Ainda mais, o personagem simula uma batalha da segunda mundial, em uma maquete, a referência e clara e faz jus a ideia popular de que “cada dia da nossa vida é uma batalha a ser vivida”. Visivelmente Fúsi não têm interesse nenhum em participar dessa batalha destinada aos adultos e decide permanecer criança, até por isso faz amizade com uma menina, sua vizinha. O filme ainda sugere uma possível desconfiança por parte dos vizinhos sobre a sexualidade do protagonista, tamanho envolvimento inocente com as crianças. É a representação de um mundo sujo, onde não se pode confiar em ninguém.

Mais uma vez, “Desajustados” é muito poderoso, desde o roteiro, passando pelos diálogos sempre viscerais e a postura do ator Gunnar Jónsson. Por ser fisicamente grande e explorar o comportamento desajustado, o espectador passa a se incomodar/identificar com diversas situações onde ele se sente um ‘peixe fora  d’ água”, as expressões do ator são sempre muito cuidadosas, parece realmente que abraçou o personagem e o desenvolveu com muito amor. Unido a isso temos as transições das cores, como a nova casa do personagem, no final do filme, que é azul claro, remetendo-nos a serenidade e tranquilidade.

Com a condição de ser único na sua proposta, essa obra da Islândia é uma verdadeira preciosidade, apresentando um personagem multifacetado, que nem ao menos sabe o que é endorfina, pois qualquer coisa relacionada com a felicidade é algo muito estranho para ele. Mas com a coragem de trocar heavy metal pela Dolly Parton, somente para agradar um amor, Fúsi continua espalhando a sua graça sem graça, o sorriso no último segundo de filme entra para a galeria dos melhores do cinema e, sem dúvida, se traduz em um alívio para o espectador.

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O velho que carregava o seu tempo nos ombros

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Filhos da Natureza Börn náttúrunnar, Islândia, 1991. ) Direção: Friðrik Þór Friðriksson

★★★★

A Islândia é, hoje, um palco importante para o cinema. Seja com as suas produções – geralmente são exibidos em festivais alternativos pelo mundo – mas também pelo fato do custo de produção ser reduzido, portanto muitos filmes norte-americanos são rodados por lá, aproveitando-se da paisagem maravilhosa unido com a facilidade de filmagem.

O filme mais conhecido do país é, sem dúvida, um chamado “Hrafninn Flýgur” (1985 ), que aborda os Vikings. Mas o mundo cinematográfico só conheceu a Islândia  em 1992, isso por causa de uma indicação ao Oscar para o pequeno, mais profundo e importante, “Filhos da Natureza”.

O filme é dirigido pelo grande Friðrik Þór Friðriksson – um dos diretores mais cultuados no país e que ainda continua trabalhando – e lida com a velhice de forma singular, com o auxílio de excelentes atuações, paisagem devastadora e silêncio perturbador.

Um senhor chamado Thorgeir deixa a sua casa no campo e vai visitar a sua família na cidade. Ele se sente sufocado com a artificialidade, bem como percebe que a sua presença incomoda a todos. Ele se muda para um asilo e, mesmo com a companhia de alguns novos amigos, vive insatisfeito com a sua condição e foge com uma senhora chamada Stella a caminho de um lugar nenhum, redescobrindo silenciosamente o sentido da vida.

Interpretado por Gísli Halldórsson com uma carga emocional muito grande, a sensação de aprisionamento do protagonista é transmitida através dos passos lentos, envoltos de uma paisagem assustadoramente linda que, praticamente, esconde o personagem.

No início do filme temos planos médios, para ressaltar essa jornada solitária, o uso da trilha também se faz presente e dá um tom de grandiosidade para um movimento bem simples.

Chegando no apartamento dos filhos, percebemos que Gísli Halldórsson carrega uma série de objetos que o identificam de alguma forma, mas nenhuma delas é tão evidente quanto um relógio de parede enorme, como se representasse sua vida ou maldição, que carrega constantemente, como uma prova da sua humanidade.

O senhor se sente desconectado da realidade, perde-se em meio a sua família descaracterizada, – para reforçar isso, todos os personagens da casa são filmados de forma diferente do protagonista, como se não tivessem rostos ou relevância em tela – inclusive, ao ouvir um som alto, o protagonista corre até o rádio desligar, como se não aceitasse a modernidade ou estilo de vida da família e sua alienação.

Sempre senti essa aflição sobre o envelhecimento só, e a solidão, nesse caso, é mais uma prova da angústia de ver o tempo passar, as transformações sociais acontecerem, o jovem mudar e, na cabeça do idoso, ainda existir outros mundos do passado, então como adaptar as lembranças do ontem com a estranheza do hoje?

Essa ideia é refletida através do silêncio de Gísli Halldórsson. O seu caminhar lento e desajeitado, suas expressões cansadas e, mesmo assim, doces, suas atitudes simples como sentar em um balanço, no parque, e admirar ( ou temer ) os prédios e a cidade. O conceito de lar é desconstruído, pois o idoso parece não pertencer à lugar nenhum, não ser filho de ninguém, senão, da natureza.

Quando a idade chega, parece que o homem se desamarra da sua inerência ao corpo e fica livre, como um filho abastado de conhecimento, ser ambulante da vida e observador dos erros; parece que se transforma em obra de arte do universo.

Lugar central não é onde a pessoa está?”

O parceiro de quarto do protagonista o recebe com a frase feliz e esperançosa: “saudações ao eterno jovem”, enquanto percebemos um quarto sem vida, escuro, que se resume, infelizmente, em um depósito de velho. Esse abandono é quebrado, outra vez, com as flores que esse senhor recebe da sua “família”, ele pede para o protagonista cheira-las e os dois vivenciam esse momento, essa esperança, juntos.

E assim todos os significados vão sendo passados através da sutileza, como o processo de envelhecer mesmo, existe uma sincronia entre o início do filme e o desenvolvimento, os passos lentos representam a própria experiência do espectador; a paisagem, muito bem utilizada, poderia ser a beleza de uma história não contada.

“Filhos da Natureza” é uma obra-prima esquecida pelo tempo, aclamada por alguns e feliz na sua abordagem realista sobre o processo inquietante do passar das horas. Através do road movie, temos a oportunidade de relembrar o quanto a existência é complexa e que, em determinados momentos, entra em comunhão com o vento, transformando-nos em parte do todo, guiando-nos à todos os lugares, para que possamos sentir todas as histórias e amar todos os amores.

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Cavalos e Homens, 2013

Hross-í-oss-Cavalos-e-Homens

★★★★

A julgar pelo pôster percebemos que “Cavalos e Homens” não é um filme normal. E foi justamente esse motivo que me despertou a curiosidade, dois cavalos cruzando e, inesperadamente, um homem em cima da égua. Olhando a imagem, simplesmente, passaram diversas coisas pela minha cabeça, diversas interpretações e cheguei a conclusão de que se o filme assumisse metade da ousadia do pôster, com todos os seus simbolismos, já valeria a pena assistir. Além do mais, é de imaginar que a cena da imagem em questão seja tão boa quanto.

Me parece curioso começar escrevendo sobre um filme pelo seu pôster, uma ferramenta muito útil para chamar a atenção. A primeira coisa que reparei é que o homem está em cima da égua, justamente a qual será penetrada. A vulnerabilidade dele, portanto, é ser, com o seu animal, a atração. Não estou aqui devaneando – aliás, esse texto será apenas uma série de reflexões, por vezes, desconectada – e colocando o macho como o manipulador, bem, pelo menos não literalmente, mas o homem está no meio do cruzamento, ele faz parte disso.

Explicando resumidamente a história, mas não fazendo disso uma necessidade, até porque a obra se preocupa muito pouco com explicações, iremos acompanhar a vida de um grupo de pessoas em um campo da Islândia através dos olhos dos cavalos que ali habitam. Na verdade essa questão não é explícita, há uma troca de valores, somente os cavalos aparecem como triunfais e belos, enquanto o ser humano é um ser vazio. Enfim, não esperem um filme normal, pois essa é uma palavra com uma relevância nula, em um projeto que evidentemente usa um simbólico animal como forma de crítica aos animais que teimam em se propagar donos do mundo.

Apesar de não cavalgar e não ter cavalo, esse belo animal, em especial, sempre me despertou muita paixão, desde criança. Poderia colocar aqui também que minha peça favorita no xadrez é justamente o cavalo. Eu até tentaria explicar com minhas próprias palavras o motivo de tanto fascínio, mas ai me pego ouvindo o disco “Cavalo” do Rodrigo Amarante e entendo tudo. Amarante, explicando o porquê do nome do disco, estrutura o pensamento de que para se ter uma cavalgada perfeita, é preciso existir uma harmonia, quase uma simbiose, entre o cavalo e o cavalheiro. No mesmo tempo que tem essa ideia da nobreza, o cavalo é um prisioneiro, aliás, no xadrez ele faz parte das peças nobres. É aquele que dá o movimento, que defronta e se supera, pula as outras peças.

Se voltarmos ao questionamento sobre o pôster, veremos que entre dois cavalos, um preto e outro branco, existe um homem. Possesso de raiva por não ter o controle, por não domar. Mas será que ali existe uma conexão, compaixão e, acima de tudo, respeito? Os admiradores de cavalos possivelmente concordariam comigo que, em uma perfeita cavalgada, não existe manipulação, é mais uma questão de acompanhamento.

Dito isso, “Cavalos e Homens”, filme da Islândia dirigido pelo Benedikt Erlingsson que é mais conhecido pelos seus trabalhos como ator, é o melhor filme de cavalos que eu já vi e fatalmente estou incluindo a animação “Spirit: O Corcel Indomável” nessa seleta lista. O fato é que os realizadores conseguiram, com propriedade, inverter os papeis, o filme é tão estranho que o clima sugere a pergunta: “e se os cavalos trocassem de lugar com os humanos?”, o irracional que toma conta de todas as cenas, parte do ser humano, pois os cavalos soam sempre como observadores, vítimas de uma ignorância sem fim e/ou interesses. Ilustrando essa proposta relativamente ambiciosa, temos uma fotografia graciosa – porém muito beneficiada pela paisagem da Islândia, que é sublime – e um bom uso dos sons. Parece que estamos adentrando em um novo ser distante, nos tornando…cavalos(?) É uma ironia tão grande que desde o início me fez pensar o quanto estava certo em enxergar a figura do cavalo, pessoalmente, como algo que beira o místico.

Logo na cena inicial temos um detalhe de uma égua, branca, elegante ao extremo, através do seus olhos enxergamos o seu domador, ou o cavalheiro. Já fica claro o que virá a seguir, afinal, a próxima cena é justamente a tão aguardada por aqueles que, como eu, foram fisgados pelo pôster. O cavalheiro – aqui o chamarei assim – anda com a sua égua enquanto desperta curiosidade por onde passa, as pessoas até utilizam seus binóculos para acompanhar de perto o seu trajeto, claro, por causa do belíssimo animal branco. Em dado momento ele vai sair com ela e um cavalo, preto, igualmente formidável, que estava preso se solta e vai atrás da égua para cruzar. O cavalheiro permanece em cima, como se fosse ele que estivesse sendo penetrado, inclusive o simbolismo fica claro, pois o tempo todo temos a ideia de que tanto os animais quanto os homens são a mesma coisa. Os três estão ali, um triângulo amoroso, onde a graça da natureza se sobressai entre a tentativa desenfreada de manipulação e exibição.

Mantendo a tradição de em nenhum momento ser óbvio, destaco a cena em que um velhinho parte com seus dois cavalos e um arame acaba arrebentando e batendo nos seus olhos, restando-lhe ser guiado pelos cavalos, em um ato de devoção máxima, apesar da personagem jamais esboçar alguma reação.

A cavalgada perfeita é quando você encontra no animal o seu oposto, o seu. O homem tem mania de se considerar o centro de tudo, de fato o é, mas não com exclusividade. Aqui temos uma profunda reflexão filosófica e psicológica, pois não é nada fácil aceitar que o humano é um simples coadjuvante da vida, pelo menos os mais egocêntricos poderão se incomodar um pouco. O filme peca pelo mesmo motivo que é bom, o desenvolvimento. Se por um lado é ousado em nunca se explicar, em não ter uma linha cronológica e enredo aceitável, esse é o real motivo de cair, em muitos momentos, na monotonia. A mensagem consegue ser passada nos vinte minutos iniciais, depois é preenchido com espaços superficiais que repetem a mesma analogia. No entanto, a cena mais impactante se encontra no final, quando um personagem está sozinho no meio da neve com o seu cavalo e, para se aquecer, corta a barriga do animal e se abriga lá dentro, voltando à barriga de sua mãe ou até mesmo renunciando a obrigação de ser homem e se refugiando no seu espelho, no seu ídolo. O animal racional se torna irracional e, por vezes, o contrário.

Cabe ressaltar que antes dos créditos finais temos um aviso que nenhum animal foi ferido durante a gravação e que toda a produção são – assim como é de se imaginar – adoradores de cavalos. Só existe carinho nessa obra imperdível, claro, com pitadas sublimes de humor negro.

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