Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

O cinema iraniano, e acredito que já escrevi isso aqui outras vezes, é um dos – ou o maior – cinema que me encanta. Há diversas obras que usam como base a sensibilidade e realismo, incluindo alguns filmes nacionais, porém, o cinema iraniano ainda mescla mais um elemento importantíssimo e que, pessoalmente, eu amo: a criança. Bem, é lógico que nem todos os filmes tem uma criança como protagonista, é o caso do grande “Close-up” dirigido pelo Abbas Kiarostami, cuja trama se desenvolve, ainda assim, em cima de uma ação que beira a infantilidade, uma mentira, cuja importância lá é mostrada com tamanha importância que, aqui, comparo com a arte. Ou seja, Abbas une o realismo, sensibilidade para nos provar que a mentira pode e, muitas vezes é, de fato, uma forma de se fazer arte.
Outro cinema que traz a criança como centro de um universo aliado com um hiper senso de realismo é a Suécia, porém ainda vejo em alguns filmes isso como um elemento da narrativa. Um truque. Assim como o silêncio. Existem muitos filmes silenciosos, porém alguns chegam a dar sono, causando um tédio, eu sou um apreciador das poucas palavras no cinema – assim como longos diálogos – e confesso que, quando o silêncio me causa u cansaço, eu já analiso que é um artifício. Algo que nunca me aconteceu com o cinema Iraniano, nunca me cansei pela naturalidade, pelo contrário, a mesma me emociona, pelo simples fato de estar acontecendo, sendo o ápice do coração no cinema.
“Onde Fica a Casa do Meu Amigo”, de 1987, veio antes de “Close-Up”, citado acima, e já demonstra a capacidade, quase assustadora, de Abbas para trabalhar em cima do olhar da criança, para com o mundo que o cerca e, por diversas vezes, vemos o mesmo sendo transformado. Ora, não a toa geralmente temos, a partir do tema principal, o surgimento de várias pessoas que dividem com os outros personagens e nós espectadores, um pouco do que acreditam. Ou sua história. Como se estivéssemos sentados em uma praça, ouvindo história de pessoas que não conhecemos, enquanto nosso filho se diverte criando um mundo próprio, onde os seus objetivos não são entendidos pelos pais. Somos – nós, espectadores – moscas analisadoras de um roteiro humano. Um exemplo disso seria o senhor que, ao final do filme, ajuda o garoto protagonista a finalmente encontrar a casa do seu amigo.
Aliás, creio que eu me apressei, já nos 10 primeiros minutos de filme, o diretor faz questão de revelar a pressão que os meninos passam em sala de aula, para a realização de suas tarefas, além de terem um mestre altamente impaciente para com atrasos e demais eventos que soam mais como detalhes. Quase como um ritual, todos os dias a primeira coisa que ele faz – depois de dar bom dia para os alunos – é passar nas carteiras, uma por uma, afim de corrigir as tarefas, Ahmad se vê sensibilizado pelo seu amigo, pois ele não fez as atividades, então já temos um close no rosto dele, em uma emoção hiper sensível que me faz pensar “onde raios acharam esse garoto? Que atuação é essa”, lembrando que isso é nos primeiros dez minutos, e lembrando também que, muitos dos atores dos filmes iranianos, não são atores. Enfim, esse carinho para com o amigo continua no intervalo, quando ele cai, machuca o joelho, e vemos nosso protagonista – herói – cuidando com a maior atenção do mundo o ferimento.
Se existe pressão até na sala de aula, nos sentimos, junto com o personagem, o sufocamento que sua casa e as responsabilidades causam, o menino é cercado de tarefas onde não cabe mais tempo para ele pensar em seus próprios problemas, enfim, essa é uma realidade daquele país. Mas existe uma falta de comunicação muito grande entre ele e a sua mãe, pois a mesma também é muito preocupada. Enfim, é de se imaginar quando há uma pausa para o afeto. Não existe uma resposta para isso, além do próprio desenrolar da história, o menino supera os seus medos para ir atrás do amigo, conhecendo pessoas que o ajudam, mesmo com suas limitações, como o adorável velhinho que ele encontra ao longo. Enfim, em meio a dúvidas, até mesmo a descobertas, nosso pequeno herói vai descobrindo o cuidado, causando então a comoção, simplesmente pelo registro visceral dessa passagem de auto-descoberta. Feita sem truques.
– “Porque se for um preguiçoso não será útil para a sociedade… Na sociedade as crianças devem manter incorporado o sentido de disciplina. Devem obedecer os seus pais e respeitar todas as tradições.”
Obs: Texto originalmente publicado em 17 de janeiro de 2015

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Tempo de Embebedar Cavalos (2000)

Já falei quantas vezes que o cinema que mais gosto do mundo é o Iraniano? Enfim, afirmo novamente e você, meu caro, que ainda não assistiu nada desse país, tome vergonha na cara e corre, mas corre, aproveita que está fácil, tem muita coisa no Youtube, inclusive esse que comento hoje, certamente será uma das maiores experiências cinematográficas que você terá na vida.
“Tempo de Embebedar Cavalos”, lançado em 2000, segue a linha de vários iranianos, onde a criança será reflexo das situações horrorosas onde todos, sem exceção, são usados. As crianças são os veículos ideais pois, como é possível imaginar, representa a inocência, o novo, diante a situações de mudanças. Dessa vez, nossos corações segue a história de cinco irmãos órfãos, destaque para Ayoub e  Ameneh que, além de trabalhar para pagar a dívida de uma mula, ainda precisam se preocupar em juntar dinheiro para a operação do irmão mais novo, Madi, que sofre uma grave doença.
Madi é deficiente, evidentemente se torna um problema para uma família sem condições, mesmo assim, o amor que recebe, cuidado e carinho, é de chorar os 80 minutos de filme. Lembrando que o cinema Iraniano tem crianças que não são atores, na sua maioria, então a verdade das expressões provocam questionamentos, não entendo como é possível. Mais da metade dos mirins de Hollywood não chega aos pés do que essas crianças fazem. A irmã Ameneh demonstra tanto carinho, todo momento beija o irmãozinho, protege o irmão mais velho, que assumiu o posto de líder depois da morte do pai, em dado momento ela olha para o alto e pede que Deus ajude o irmão com problemas de saúde. A criança olha para o céu também, junto com ela, um silêncio, uma dor aterrorizante. Tão cruel, um ensaio sobre o real. A dor é tão real, inclusive, que as cenas em que o pequeno toma injeção e chora, quando está congelando no frio ou sendo arrastado por mulas, enquanto fica preso em uma “sacola”, são uma mescla de realidade e, também, tortura. O quão ético é registrar o sofrimento com o sofrimento? Enfim, é um bom exercício esses filmes, pois eles tem como proposta primordial a exibição do que acontece. Ninguém pode julgar acontecimentos. É preciso estar despido para, só então, conseguir embarcar na nova cultura.
Por sinal, esse filme se passa em um lugar diferente do Irã, localizando-se na divisa com o Iraque, o que terá uma importância na trama, visto que Ayoub faz parte dos contrabandistas, que se submetem a vários perigos de vida. A paisagem está congelada, o branco da neve, o frio, apoia a ideia de sofrimento. O trabalho pesado, o pesado sendo carregado nas costas infantis, são reflexões que terminam nas cenas finais, onde as mulas são pisoteadas, é tão doloroso vê-las carregando aqueles pneus enormes, caindo na neve, apanhando, que entramos em estado de choque, aquelas mulas são as crianças e vice-versa. O desespero é um só. Não existe idade para esse tipo de coisa.
Primeiro filme do diretor Bahman Ghobadi, que vem fazendo grande sucesso em festivais de cinema. Além de ser ótimo, parece ser um ótimo e sensível ser humano. É preciso muita passionalidade para realizar obras incríveis como ele.
Obs: Texto originalmente publicado em 13 de março de 2015

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Bé Omid É Didar (2011)

O cinema Iraniano vem amadurecendo a cada ano, inclusive essa realidade acabou aumentando ainda mais com o Oscar para “A Separação”, porém, o país ainda enfrenta grandes dificuldades e, me parece, que os filmes sempre terão como pauta principal buscar uma forma de utilizar personagens como metáforas para as diversas situações que ocorrem e que eu – assim como muitos – não entendo completamente pois não vivo no Irã.
No mesmo tempo que a arte produzida nesse país um tanto quando “exótico” cresce a cada dia, o poder permanece autoritário e tenta podar seus melhores artistas como, por exemplo, Jafah Panahi, que foi preso por desagradar as autoridades apoiando um candidato oposicionista em 2009. Esse fato desencadeou, inclusive, o belíssimo documentário “Isso Não é um Filme”, onde o próprio Panahi se filma preso em seu apartamento e reflete sobre a criação artística, enfim, foi um processo bem turbulento sendo, inclusive, alvo de atenções de grandes nomes do cinema como Steven Spielberg e Juliette Binoche. Bem, ao lado de Jafah Panahi, um outro diretor menos conhecido, porém, de suma importância, chamado Mohammad Rasoulof, também foi preso, mas ao contrário do primeiro, que inicialmente foi proibido de filmar por 20 anos, Rasoulof conseguiu permissão para continuar com o seu projeto “Bé Omid É Didar”, que viria a ser lançado em 2011, um ano depois desse episódio catastrófico para o cinema.
Com o contexto citado, posso dizer que “Bé Omid É Didar” ou “Adeus” sustenta sua crítica na figura de um jornalista, cujos textos afetam diretamente o poder e, por esse motivo, se vê preso em uma onda de investigações e opressão. Quem sofre tudo isso é sua mulher, que está grávida, ela anseia poder sair do país mas, enquanto isso, acompanhamos a trajetória de uma mãe desesperada e perdida pois irá trazer a esse mundo sujo uma criança, que não tem culpa de absolutamente nada, ainda mais, essa personagem principal permanece sozinha, o marido se esconde, a mãe que chega para ajudá-la parece que a sufoca, enfim, está solta, presa dentro de uma série de questionamentos.
Essa mulher, interpretada brilhantemente pela linda Leyla Zareh, parece desprendida daquela imagem submissa, afinal, é jovem e advogada, porém tem sua licença cassada, ou seja, a fuga se mostra inteiramente presente em cada quadro, em duas cenas a moça está no terraço do seu apartamento e, subitamente ao fundo passa um avião, como se viesse ao encontro dela. Outra metáfora em meio a um silêncio perturbador seria quando ela, delicadamente, coloca uma tartaruguinha em uma vasilha, joga umas sementes, mas o filhote de tartaruga quer sair daquele lugar, ela sai do quadro e a câmera permanece estática no bichinho, quando a moça retorna, ela cerca a vasilha com jornais, ou seja, palavra, ou seja, censura. O filme tem uma linguagem extremamente complicado, é facilmente confundido com monótono, mas há um senso crítico poderoso, em meio a tanta solidão, representado, também, pela fotografia magnífica, uma dose certa de distância, um azulado remetendo a melancolia, enfim, um vislumbre visual.
O fato dela estar grávida deixa tudo ainda mais interessante, principalmente quando percebemos que esse fato se torna uma maldição ao longo, um fardo, em qualquer outro lugar seria altamente normal, mas não ali, não pressionada, não naquela situação, ter um filho passa a ser uma previsão catastrófica, repetir o erro de estar vivo em um lugar que não se merece a vida, a personagem está no seu limite de tolerância, começa, então, a ser indiferente, seja aos homens que vão investigar sua casa a procura do marido ou a própria mãe, tudo não passa de algo natural, menos o fato de que é mãe, isso nunca motiva um sorriso dela, muito menos um choro, está, simplesmente, acontecendo, e está buscando a melhor forma de lidar com isso, sozinha, fugir não é uma opção pois tenta incansavelmente ir para outro lugar, a fuga não seria um aborto, ou a criança vir ao mundo normal, tudo está anormal, o fato da sua filha ter síndrome de down, descobrimos isso ao longo, é só uma extensão daquela situação, a nossa protagonista só precisa de um lugar para viver em paz.
– O que anda fazendo?
– Não posso mais aguentar. Esse país não é lugar para se ficar.
– Mas a que preço?
– O preço da liberdade. Preço da vida.
– Vou dar a luz a ela e renascerei
– O bebê é inocente… é um pecado mantê-la em tempos como esse
Obs: Texto originalmente publicado em 28 de março de 2015

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A Chave, 1986

A Chave ( Kelid, Irã, 1986 ) Direção: Ebrahim Forouzesh

A sétima arte é uma entrada para a reflexão do comum. As possibilidades são imensas, pois a intenção é a imortalização das imagens, algo que o Homem tenta desesperadamente desde os primórdios da sua existência. É como se o conforto do ser fosse a materialização audiovisual das suas lembranças ou sonhos, transformando o inconsciente em algo palpável; sendo possível ver, ouvir e sentir constantemente os seus maiores sonhos e medos. Essa ideia pode soar como um conto de fadas – tenho minhas dúvidas se não o é – mas, na realidade, podemos denominar essa necessidade como “cinema”.

Quando jovem olhei dentro da minha própria alma com o cinema iraniano. E, assim, fui crescendo ao ponto de me tornar o que sou hoje. Nem sei mais se sou jovem, homem, mulher ou criança, a única certeza que tenho é que o meu fascínio por esse cinema só aumentar com o passar dos anos e, a cada minuto que passa, ganha diversas justificativas. A minha visão cinematográfica passa pela humanidade e intromissão do alheio, portanto, a identificação é imediata quando uma obra audiovisual oferece o simples e compõe sua história com o real. Essa narrativa geralmente, por mais frágil que seja, acompanha o espectador por uma jornada incrível de catarse.

“A Chave”, dirigido por Ebrahim Forouzesh e roteirizado pelo mestre Abbas Kiarostami, é mais uma prova que sensibilidade e simplicidade são grandes amigas, quando falamos sobre cinema iraniano. A história é sobre um garoto de quatro anos chamado Amir Mohammad que acorda em uma manhã e vê sua mãe saindo e trancando a porta, deixando-o junto com o seu irmão, ainda bebê. Diante da demora da sua mãe, o menino se vê preso e precisa da ajuda dos vizinhos e da avó para conseguir abrir a porta.

É engraçado assistir filmes como esse e estudar a sua narrativa, aparentemente fácil, de modo a compreender as camadas. Em “A Chave” não temos um vilão que não seja a própria adversidade. A mãe que não retorna para casa é mais um elemento de dificuldade, mas nunca se faz necessário a discussão sobre os motivos que a levaram a tomar tal atitude, simplesmente porque a história é tão bem escrita que, mesmo sem conhecê-la, sabemos que a figura da mãe é atenciosa e protetora, portanto, algo terrível deve ter acontecido com ela. Mas tudo é sugestão.

É necessário existir um grande grau de confiança no roteiro para ocultar explicações que facilitariam a compreensão sobre os acontecimentos. Nesse longa, portanto, a única coisa que importa é a criança e como qualquer decisão ou movimento, aparentemente simples para um adulto, se torna grandioso e difícil para um ser em formação. O protagonista ainda se vê preso entre as tarefas afim de sair do apartamento e a atenção e carinho ao irmão, por vezes chega a dar mais atenção à criança do que o perigo que corre – tem uma panela a ponto de explodir no fogão, o que gera bastante tensão.

Não à toa, logo nas cenas iniciais, Amir Mohammad alimenta com cuidado o seu passarinho enjaulado, representando a situação que se encontraria posteriormente. É de uma poesia incrível, pois se trata de uma linguagem documental, câmera estática acompanhando as decisões e detalhes de alguém que, na maioria das vezes, é pouco visto.

As filmagens exteriores e, por consequência, os outros personagens que aparecem, sempre remetem aos adultos tentando ajudar os irmãos presos. Por ironia, a ajuda é cercada de dificuldades e, mesmo sendo mais velhos e sábios, pouco fazem diante à situação.

O filme é mais uma prova da qualidade do cinema iraniano, nos faz pensar com tranquilidade nas adversidades e como elas podem mudar conforme as limitações.

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O medo, o abandono e a opressão

Under the Shadow, 2016

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“O Exorcista” ( 1973 ), “O Bebê de Rosemary” ( 1968 ) e “Os Inocentes” ( 1961 ), esses foram os três únicos filme que me deixaram com muito medo, daquele jeito que o indivíduo fica uma semana acordando assustado, olhando para os lados e indo ao banheiro correndo. Detalhe: todos esses eu assisti quando era criança, portanto estava mais suscetível à esse sentimento.

E, em 2016, eu tive medo novamente. “Under the Shadow”, novo filme iraniano do diretor Babak Anvari – que dirigiu um curta maravilhoso chamado “Dois mais Dois”, cujo tema aborda o totalitarismo e controle, de forma direta, simples e inteligente – fala sobre o medo, abandono e opressão social, a história é mostrada de forma brilhante, envolvendo o drama com a angústia do isolamento até, por fim, mesclar com o misticismo, afim de provocar a tensão.

O filme se passa no fim da década de 80, onde acontecia uma guerra entre o Iraque e o Irã. Uma mãe e a sua filha são obrigadas a ficarem em um apartamento, em pleno bombardeamento na cidade. O desespero pelo enclausuramento se mescla com eventos paranormais. Drama e terror se confundem, o medo acaba sendo provocado pela própria situação catastrófica do país, enquanto conceitos sobre família, proteção e opressão à mulher vão sendo desconstruídos.

O longa começa apresentando a protagonista ( Shideh/mãe ) pedindo uma chance para voltar à universidade. No passado, ela fazia medicina mas o seu sonho foi interrompido por participar de revoluções políticas. Então o papel da mulher já começa a ser deveras importante para a compreensão da obra que, em suma, desenvolve o terror sob temas sociais e políticos.

A narrativa é importante e bem realizada, precisa ser a mais dinâmica possível sem soar artificial. A divisão dos atos é muito clara, até pela própria duração, o filme pede por uma montagem linear e isso é feito da forma mais coerente possível. Geralmente, em filmes populares de terror, há uma preocupação em encaixar os sustos da forma mais rápida possível, como se fosse a obrigação da produção para com o público. Essa pretensão infantil não calcula a essência do medo, o que não acontece aqui, Under the Shadow constrói tudo de forma lenta, preenchendo cada lacuna e estabelecendo a ordem para, só assim, entrar com elegância no caos psicológico.

Medicina cura vidas, ou pretende; guerras causam mortes. Um grande contraste. A protagonista vive em um meio que não a satisfaz, a menina rebelde e que lutava por uma causa política, dá lugar a uma dona de casa que se submete a concordar que fora uma “adolescente estúpida que nem sabia o que era direita e esquerda”. A sensação claustrofóbica já está presente na cena inicial, uma desilusão e impaciência, provocados pela ganância política e desdém do poder para com seu povo.

O terror começa quando a mãe e a filha ficam sozinhas. Por ser um filme iraniano, a paranormalidade se sustenta sobre a crença do Islamismo – que, por sinal, possui um dos infernos mais cruéis que existe – e será abordado nomes como Iblis que, na verdade, é o demônio do Islã.

[ Iblis é retratado como sendo uma criação do próprio Alá e que foi rebaixado após recusar-se a submeter aos homens que foram feitos do barro. Para ele, uma criatura que se originou no fogo era mais grandiosa do que todos. Como curiosidade, para alguns pensadores, Iblis possuía uma crença monoteísta. Afinal, ele rejeitou-se se ajoelhar perante qualquer criatura que não fosse Alá. ]

O fogo provocado pela guerra é o mesmo que Iblis se originou. O temor nasce do abandono, percorre a incerteza e cresce na resistência. Há cenas assustadoras, simples e impactante, como um momento que vemos Shideh dormindo, em uma filmagem vertical e a câmera gira quando a personagem fica frente a frente com a filha. É relevante esse momento pois o fato de ser mãe consome muito a protagonista, apesar de amar a sua condição, ela se vê fraca e desamparada, e é nesse ponto que mora a importância da personagem Dorsa – interpretada brilhantemente pela Avin Manshadi: exigir da sua mãe o processo contínuo de reflexão sobre a sua postura.

Como exercício narrativo, é válido perceber que todos elementos e cenas que envolvem o susto ou medo estão estreitamente conectados com os sentimentos mais profundos da personagem principal – isso é confirmado quando ela coloca uma fita na janela para proteção dos vidros em um possível bombardeio, e a sombra forma um “x” em seu rosto, como se ela/população fossem o alvo da guerra.

 Outra cena de suma importância é quando Shideh sai de casa sem a túnica – por conta do tormento causado pelas assombrações – e vai presa. Na volta, quando fecha a porta, ela se assusta com a sua própria imagem no espelho e tira a túnica, como um ato de revolta para com a sua condição, principalmente as ordens e julgamentos que lhe são impostos diariamente. Novamente, ela convive com o demônio dentro de si.

“Uma mulher deve temer a exposição acima de qualquer coisa”

Com uma abordagem inteligente e precisa, Under the Shadow é brilhante na concepção do terror psicológico. Transformando cenas simples em poesias por conta da crítica social e opressão à mulher, provoca o medo como há muito tempo não sentia. A atuação da Narges Rashidi reforça a atmosfera sombria, no mesmo tempo que a utilização dos espaços da casa é muito oportuna para a sensação de aprisionamento. Um dos melhores filmes do ano.

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Garota Sombria Caminha Pela Noite, 2014

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★★★★

Anunciado como “O primeiro Western de vampiros iraniano” esse filme, no mínimo, diferente da diretora Ana Lily Amirpour só ressalta o quanto a figura do vampiro vem sendo transformada ao longo do tempo. A modernização dessa criatura histórica difere bastante do clássico “Drácula”, utilizando-se dos principais conceitos e traduzindo, através de uma metáfora, conflitos da nossa própria época.

Em mais um representante dessa liberdade criativa, a diretora parece transcrever fervorosamente a mediocridade da existência na figura do monstro, no mesmo tempo que, evidentemente, ele é poderoso e faz desse poder sua única fuga. Além disso, ela consegue complementar essa questão utilizando, também, um humano que se destaca em meio a um redor destroçado.

Acompanhamos, inicialmente, uma cidade iraniana chamada “Bad City” – mais risível que isso impossível, aliás, a comicidade exagerada está presente constantemente – que é repleta de violência, sexo, drogas, enfim, monstruosidades. Abriga também, como podemos interpretar, a representação de tudo isso: uma vampira.

Interpretada com toda graciosidade – mas entendo que essa afirmação pode soar estranho – pela Sheila Vand, somos apresentados a vampira em um momento particular, pré-caça, onde ela está dançando. Esse ser vaga pelas ruas perseguindo pessoas para, enfim, beber seus sangues e, com isso, sugar para si todos os seus males.

A cidade é iraniana, mas o filme foi filmado na Califórnia. Isso dá uma liberdade sem tamanho, inclusive bem diferente da que existe no Irã. Talvez um retrato das consequências do “ser livre”. Parte daí o melhor elemento técnico de Garota Sombria Caminha Pela Noite: a fotografia.

Todos personagens estão enclausurados, isso é demonstrado esteticamente, uma fotografia que, assim como sua protagonista, “suga” toda a felicidade, no mesmo tempo que enquanto arte é impossível não se impressionar, em absolutamente toda cena há algo que chame atenção.

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Há um romance entre a vampira e Arash – inclusive esse último tem um pai viciado em heroína, ou seja, sua vida é repleta de solidão e desesperança – os dois começam a se entender subitamente, ressaltando que a vampira é a representação de um sentimento. Ironicamente, as duas primeiras cenas de “encontros” dos personagens são sublimes: a primeira eles se olham através de uma grade, caracterizando, de imediato, a distância existente com o natural. E a segunda é um momento em que Arash está vestido de Drácula.

 Ressalto o relacionamento que é criado, para, principalmente, estruturar o pensamento e exprimir o quão surrealista algumas cenas se tornam. O mundo está doente, não há esperanças e os personagens todos, por sua vez, parecem ter saído de um hospital psiquiátrico. No meio de uma paisagem absurda, visto que a fotografia transforma pequenas ações em verdadeiros milagres – e, não, não estou sendo exagerado apesar de o ser boa parte do tempo – e, diante a essa desconexão, existe uma mulher que caminha pelas ruas a noite. A noite pode ser a representação, nesse caso, das barbáries, então temos um ser que funciona como um reflexo. Suas presas são, antes de mais nada, pessoas sem objetivo, sem necessidade e sem futuro. Em alguns momentos ela só os observa, outros aguarda até o último momento para saciar a sua sede… ou chega ao extremo de intimidar um pequeno garoto, obrigando-o a prometer que será um “bom menino”. Algo parecido acontece em “Clube da Luta”, onde Tyler Durden ameaça e, com o medo, pretende transformar uma vida.

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Infelizmente o ponto negativo do filme se encontra justamente no ritmo. Misturado com a superficialidade, intencional, dos personagens, bem como algumas ausências de explicações, se torna um pouco cansativo acompanhar. No mesmo tempo que a alma alternativa transforma A Girl Walks Home Alone at Night em um bom representante para um novo cult.

Usando o humor sempre com inteligência e transformando a vampira em uma figura intimidadora, muito por conta do visual, afinal, não é todo dia que vemos um vampiro de burca o que, para nós, que desconhecemos essa realidade, já causa uma estranheza. O filme é uma experiência interessante que merece ser usado e revisitado, um verdadeiro colírios para os olhos, mas não se engane, “Garota Sombria Caminha Pela Noite” apesar de ser meio hipster é extremamente complicado e não agradará a todos.

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CdA #029 – “Adeus”, 2011

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Dessa vez Emerson Teixeira e Sandro Macena escolheram um filme iraniano para conversar, “Adeus” (Bé Omid É Didar) de 2011, dirigido por Mohammad Rasoulof. Falamos ainda sobre a situação social do Irã, sobre a mulher e, claro, destacamos alguns detalhes do cinema iraniano.

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