Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

terror-2016

No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

emersontlima

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Possessão demoníaca no cinema

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O cinema de terror nos anos 60

Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais importantes para a história do cinema de terror, isso porque antes era produzido muitos filmes onde o medo era traduzido em forma de monstros. Filmes da Universal e Hammer eram feitos aos montes, e nomes como Frankenstein, Drácula, O Fantasma da Ópera etc, eram os grandes chamariz.

É então na década de 60 que começamos a ter, efetivamente, diretores trabalhando o sobrenatural mas, claro, sem deixar nossos queridos monstros de lado. O sobrenatural atingia níveis que refletiam a própria situação da sociedade – leia-se espíritos, fantasmas, possessões, terror psicológico e os famosos filmes de exorcismos ou que envolviam, de modo mais literal e cotidiano, o demônio.

O grande clássico Psicose ( 1960 ) dirigido pelo mestre Alfred Hitchcock, trazia consigo uma série de inovações. Como a “introdução do terror psicológico”, inversão do papel da protagonista, tratamento interessante do vilão etc.

Não que anos antes não existisse filmes diferentes ou que os já citados filmes da Universal e Hammer fossem ruins e vazios, muito pelo contrário. Todos sabem – ou deveriam saber – que diversas criaturas partiram do medo real do homem com as bombas nucleares, por exemplo. O que quero dizer é que a sociedade precisava de uma abordagem diferente no gênero terror, esse que é o gênero que mais extrai características da realidade e, por consequência, atinge uma dificuldade inacreditável para se trabalhar, afinal, despertar o medo não é algo fácil de se fazer.

A produção cinematográfica no mundo inteiro estava em plena transformação, pessoalmente, acredito que os anos 60 e 70 foram os melhores para os filmes de terror por conta da diversidade de temas e relevância dos trabalhos para a arte do cinema. Inglaterra, Japão, México, Itália, enfim, todos esses países produziram obras na década de 60 que destacam muito bem toda essa reflexão como Onibaba ( 1964 ), Kwaidan ( 1964 ), Yabu no naka no kuroneko ( 1968 ) e Jigoku ( 1960 ) no Japão, Hasta el Viento Tiene Miedo ( 1968 ) no México etc.

Possessão demoníaca no cinema

Como um fragmento dos diversos temas que seriam trabalhados com maior propriedade nos anos 60, tem um em específico que perdura até a atualidade – de forma trágica na maioria das vezes, é verdade – que é os filmes de possessão demoníaca ou de exorcismos.

Exorcismo é uma prática feita para expulsar entidades malignas de alguém ou algo, na verdade esse ritual é muito antigo e quase todas religiões tem uma ligação com essa palavra, de formas diferentes e necessidades diferentes, o fato é que o exorcismo está muito presente, mesmo que oculto, nas mais diversas crenças.

O primeiro filme que aborda a questão, de forma literal, é um polonês chamado “Madre Joana dos Anjos” de 1961, inclusive tem uma crítica aqui no site sobre ele ( clique aqui ). Dirigido pelo Jerzy Kawalerowicz, esse filme tem uma atmosfera incrivelmente obscura, aborda a possessão de forma psicológica e muito, mas muito filosófica. Deixa qualquer fã de Begman maluco!

Outros filmes que posso citar aqui é “The Devils” ( 1971 ) dirigido pelo Ken Russell e que se baseia no mesmo fato real de “Madre Joana dos Anjos” – uma onda de possessões em diversas freiras em uma cidade pequena – porém é muito mais gráfico, transgressor, subversivo e, para alguns, doentio. Se trata de uma obra imprescindível para quem gosta de cinema.

E, claro, o maior e mais conhecido filme de exorcismos de todos os tempos: “O Exorcista” ( 1973 ). Apesar do clássico dirigido pelo William Friedkin ser extremamente poderoso visualmente, os artifícios mecânicos, bem como a atmosfera traz o cinema de terror à um patamar inédito. O incrível é constatar que mesmo se tratando de um filme que aborda o sobrenatural, ainda há lacunas para a dúvida. Seria esse mundo desconhecido realmente real ou tudo não é somente problemas psicológicos?

Se você, caro leitor, fica incomodado com os diversos filmes de exorcismos atuais e se incomoda com o fato de que muitos copiam descaradamente o clássico de 1973, saiba que o mesmo também copiou muito os já citados “The Devils”, “Madre Joana dos Anjos“, “Il Demonio” e, eu citaria também, um filme chamado “Incubus” 1966.

No caso do filme Italiano “Il Demonio” (1963 ), dirigido pelo Brunello Rondi, dizem que a Warner até chegou a vetar a exibição do filme em terras norte americanas por conta de temer a notícia de que o clássico se “inspirou” para realizar algumas cenas. Por exemplo, você sabia que aquela cena em que Regan desce as escadas invertida, parecendo uma aranha, foi retirada desse filme italiano? Não? Então compare:

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Il.Demonio.(Brunello.Rondi.1963.-.Frank.Wolff.Daliah.Lavi).Dvdrip.Ita.By.Acia.avi_snapshot_00.54.54_[2016.01.24_22.36.18]

“Il Demonio”, mais do que um filme de exorcismo, é uma obra que analisa de forma minuciosa o papel feminino, envolta de muita opressão por parte da igreja, ignorância e o próprio homem. Recomendo a leitura da minha crítica ( clique aqui para ler )

Além da já citada cena que o clássico de 73 copiou, há ainda alguns pontos semelhantes como enquadramentos, um momento específico onde acontece a primeira “manifestação demoníaca”, algumas mensagens sexuais e a ousadia em trabalha-las direta ou indiretamente e, dentre outras coisas, a personagem feminina. Afinal, vocês já repararam que a grande maioria de filmes de possessão é uma mulher que recebe a entidade e não um homem?

Agora, voltando bem rápido ao “O Exorcista”, se você gosta de conferir coisas novas e interessantes, bem como engraçadas, sugiro duas versões que surgiram no ano seguinte que copiaram na cara dura o filme. Uma é italiana: “L’Anticristo” ( 1974 ) e o outro pertence ao movimento blaxploitation, norte americano mesmo, chamado “Abby” ( 1974 ). Claro, esse segundo é para amantes de filmes B e querem dar uma boa risada.

Bem, seguindo os anos, chegando aos atuais, poucos que trabalham o tema da possessão demoníaca me atraem. Muitos ignoram o fato de que é preciso trabalhar a dúvida, criar expectativa, ter respeito pelo tema e simplesmente utilizam os exorcismos como ferramentas para chamar a atenção e criar um medo embalado como “produto para reunião de amigos no cinema”.

Destaco obras como “O Exorcismo de Emily Rose” ( 2005 ) – que se desenvolve como um filme de tribunal, isso é muito interessante, assim como o caso real que foi inspirado. Eu já escrevi sobre ele ( clique aqui para ler ) – “Invocação do Mal” ( 2013 ) esse é um bom exemplo de filme que cria a expectativa e transforma a entidade maligna em uma força onipresente, antes mesmo do momento da possessão.

Enfim, poderia citar outros, mas minha proposta nesse artigo é apresentar os clássicos para quem não conhece. Espero que gostem e que procurem os citados, qualquer coisa é só me chamar. Aliás, deixem nos comentários outros bons filmes de exorcismo, recentes ou não. Abraço e tenham medo!

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