CdA #70 – Leve-me ao rio de segredos

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Emerson Teixeira Tiago Messias se reúnem novamente para encontrar os segredos familiares escondidos no rio. Nesse novo episódio do formato [Moscas] analisamos o filme “Take Me to the River” ( 2015 ) dirigido pelo Matt Sobel e que teve a sua estréia em Sundance.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A insatisfação do “aqui” e o vazio do crescimento

Little Birds, 2011

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★★★★

Há anos venho afirmando o meu fascínio por filmes que abordam temas relacionados com o jovem. São inúmeros grandes exemplos, que certamente acrescentam muito nesse nobre e difícil objetivo, afinal, o jovem é movido por incertezas e impulsos aparentemente irresponsáveis, registrar de forma coerente essa instabilidade é para poucos.

“Little Birds” é mais um bom representante de filme indie, do tipo que se utiliza da delicadeza para desenvolver uma história pesada e, nesse caso em específico, trabalha com perfeição a instabilidade do jovem, citada acima. É de se espantar que seja dirigido por um “novato” chamado Elgin James.

A história é sobre duas amigas chamadas Lily e Alison que moram em Salton Sea, Califórnia. As duas têm quinze anos e, no auge da perfeita divisão entre a liberdade, conhecimento e responsabilidade, enfrentam problemas próprios da idade, como namoros, isolamento, relacionamento conturbado com a família etc. Principalmente Lily – vivida pela excelente Juno Temple – que se corta e parece sempre querer provar o quanto não pertence ao lugar que vive e, na primeira oportunidade, decide fugir na sua terra natal, convidando a sua melhor amiga a entrar nessa aventura cheia de riscos e incertezas.

Os filmes de road movies são conhecidos por sempre apresentarem evoluções nítidas nos personagens, talvez seja o maior representante dessa postura de observação, caminho e conclusão, sendo uma metáfora até mesmo para o próprio roteiro; nesse filme de 2011 não é diferente, enquanto filme de estrada não apresenta nada novo, mas quando o relacionamos com a importância em se discutir os sentimentos do jovem, ai ele atinge um nível muito elevado, fugindo do contexto da própria evolução e concentra-se em um “ensaio de erros”, onde a conclusão se transforma em algo pouco previsível.

A personagem Lily tem uma fragilidade absurda, no mesmo tempo que a sua impulsividade pode ser interpretada como ignorância, é nítido que ela é vítima de um sentimento muito grande de falta de propósito. A atriz Juno Temple – que escolhe muito bem os papeis que faz – se conecta perfeitamente com a trama pois fisicamente ela preenche muitas lacunas da personagem, no mesmo tempo consegue dar ainda mais qualidade com pequenos olhares e gestos que reforçam a inocência de Lily.

Como o outro lado da moeda, mesmo que ainda estejamos falando sobre jovem, temos a Alison, vivida pela Kay Panabaker, ela se mostra sempre muito madura, repleta de informações sobre coisas aparentemente banais para a sua idade. Parece que está muito satisfeita com a sua condição e destino.

A fotografia, por vezes pendendo para o amarelo, dá um tom confortante no começo, porém vai ficando mais obscura com o passar do tempo. Principalmente com as mudanças de cenários, como se ambas meninas estivessem passando por um ritual cujo objetivo é ilustrar como o mundo é malvado e podre. Essa transformação na fotografia/cenários é a perfeita demonstração do crescimento e conhecimento.

O fato de ser duas meninas é muito interessante pois remete diretamente ao clássico “Thelma & Louise”, inclusive tem uma referência clara a esse filme. Apesar da mudança drástica dos primeiros trinta minutos para o restante, tudo é feito de forma muito consciente, a densidade é revelada na medida certa e em nenhum momento o filme se torna cansativo.

O drama familiar é pouco desenvolvido, mas por outro lado seria um erro procurar explicações no vazio das sensações da protagonista, mesmo assim é importante os pequenos momentos onde fica claro o seu estado emocional desestruturado, como por exemplo o corte que a menina faz em sua própria perna.

Por fim, “Little Birds” é excelente e, assim como o seu título, transmite uma energia de liberdade muito grande, no mesmo tempo que alerta, tudo isso sem ser didático. É um verdadeiro ensaio de atitudes inexplicáveis, senão, pela própria vontade. Quando Alison questiona a sua amiga sobre o porquê da fuga, ela pergunta: “O que tem tão bom lá?“, enquanto Lily responde, simplesmente: “Não é aqui“. E isso, sem dúvida, responde tudo e nada ao mesmo tempo, assim como o processo de se tornar adulto.

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Capitão Fantástico, 2016

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★★★★★

É raro quando um filme consegue ser poderoso em todos os pequenos detalhes do seu desenvolvimento. Partindo de um núcleo familiar, “Capitão Fantástico” trabalha com a filosofia de modo a criar camadas no que diz respeito à crítica ao consumismo, padrão de vida imposto pela sociedade e relação dos pais para com seus filhos.

O diretor Matt Ross, que assina também o roteiro, parece ter uma ligação profunda com a história, transparecendo carinho com a sua criação e, como consequência, encanta em todos os aspectos. O estilo de vida hippie é visto, por diversas pessoas, como uma forma de protesto ou até mesmo coragem, de fato existe uma ligação direta com o desprendimento.

No filme, acompanhamos a história de uma família. Seis crianças – todas com nomes diferentes, criados por seus pais, de forma a serem únicos nesse mundo – são criados pelo seu pai Ben ( Viggo Mortensen ) em uma floresta. Eles aprendem a caçar, tocam música em volta da fogueira e, se não bastasse, são orientados a ler os mais diversos livros, desde clássicos até teóricos, montando assim uma estrutura organizada e livre, onde a família atinge um patamar elevadíssimo de cumplicidade e vínculo com a terra.

O filme começa com Bodevan ( George MacKay ), o irmão mais velho, caçando um veado. Depois de conseguir tal feito, aparecem os demais personagens que, por sua vez, esperam pelo movimento do pai que destaca que o seu filho acabara de evoluir: menino para homem. Ben mantêm uma relação extremamente dedicada e sensível com os seus filhos, apesar de, no início, soar estranho eles morarem na floresta, aos poucos essa decisão vai sendo desmistificada, até culminar na total identificação com a angústia do pai, que se vê perdido entre as suas próprias crenças e a exposição dos filhos ao perigo.

Ainda sobre a relação de todos, é curioso notar que o pai se preocupa em sempre dizer a verdade para os seus filhos, qualquer pergunta que eles façam. Se mostrando flexível e passional constantemente, sem amarras. É um estilo de vida que, infelizmente, quando associado com a realidade, percebemos que beira o utópico, quando deveria ser o natural. Na família do filme, todos os filhos são preparados para enfrentar a verdade e, por consequência da enorme informação, são proibidos de dar opiniões banais como “interessante“, “legal” etc – em dado momento uma das filhas é pressionada a explicar o porquê do choque ao ler o livro “Lolita”.

É de uma profundidade essa questão, pois é evidente que as pessoas não conseguem atingir um grau de opinião que se desprenda do resumo das coisas, seja um livro ou a sinopse de um filme. A opinião não é basear-se em outrem, mesmo que seja o autor, é utilizar a sua criação como ponto de partida para uma discussão. Contrariar uma escolha não é apenas falar, mas apresentar argumentos. E isso é dito quando, após um dos filhos, comovido pela morte da sua mãe, se revolta com o pai pelo fato de eles não comemorarem o natal como todos.

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Hoje, mais do que nunca, as famílias se isolam. Ninguém se olha, todos no seu canto, fazendo as suas coisas, por isso é emocionante a forma que essa questão é desenvolvida no longa; logo no início, quando ainda estamos acompanhando a rotina da família, percebemos que todos estão olhando para o mesmo ponto, sorrindo pelo mesmo motivo, algo que deveria ser frequente, mas é tão difícil alcançar hoje que é tão irreal quanto um conto de fadas.

A filosofia está presente, ideias de grandes pensadores – há a citação de Platão, por exemplo – mas tudo de forma sutil, os dilemas e consequências desse estilo de vida acontecem de forma equilibrada, sem nunca cair no exagero. Como a relação deles é movido pelo toque, organização e olhar, por diversas vezes existem diálogos que são construídos através de reflexos, principalmente do pai olhando o retrovisor e vendo os seus filhos nos bancos do ônibus – inclusive as crianças sentam no banco conforme as suas responsabilidades, seja intelectual ou sobrevivência.

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Uma cena que destaco é quando eles vão para a cidade e, as crianças, ao perceberem que a maioria das pessoas são obesas, ficam surpresas, comparando-os com hipopótamos, de novo, uma crítica ao consumismo. Mas o maior contraste parece, mesmo, acontecer quando eles ficam na casa de uma outra família – tento aqui me conter para não dar nenhum spoiler – pois há um choque de realidade, enquanto uma família proíbe que Ben fale a verdade e dê vinhos aos filhos, como se fosse algo monstruoso, eles mesmos deixam seus filhos horas e mais horas no tablet com jogos violentos e vídeo games. Qual é a maneira mais correta de educar os filhos? A mentira e apoio à alienação, ou o desprendimento e toque? Mesmo que seja possível educar da segunda forma, a sociedade só aceita a primeira como normal, rastejando-se bem atrás da ignorância.

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Há críticas à religião, todas elas muito simples, partindo de uma ideia básica de manipulação e é por isso, principalmente, que “Capitão Fantástico” é maravilhoso, pois consegue alinhar uma série de questionamentos com a necessidade de se violar. Os personagens são fortes e diferentes, com traços particulares que fascinam, guiados por uma presença paterna poderosa e humilde, dono de um conhecimento grandioso, mas que sempre está disposto a ouvir os seus filhos, Viggo Mortensen realiza, aqui, o seu melhor trabalho. É o personagem que conecta todos os outros, estabelecendo uma relação direta, chegando a provocar sensações ocultas nos filhos, como raiva e fascínio.

Apresentando uma realidade que poderia, facilmente, ser transcrita como a fiel representação de uma sensação de insatisfação. “Capitão Fantástico” têm como mérito essa manipulação, a critica contra o sistema e a ousadia em destacar, com muita sofisticação, algo que está errado, é uma mensagem direta ao sistema, faz refletir sobre a nossa condição e comodismo perante as diversas facilidades da vida moderna que, aos poucos, vão nos matando.

Existe tantas vírgulas entre o monótono do passar dos minutos, existe tanta vida que desperdiçamos por não olhar para o lado, existe um mundo a ser percorrido e experiências a serem sentidas. No entanto, como prisioneiros de uma condição inerte na avidez, nós tornamo-nos, em doses homeopáticas, sementes de uma árvore tóxica. Direcionados à uma existência medíocre e mesquinha, petrificando o intelecto com uma mídia medíocre, assim os homens de cima nos mandam viver;  “Capitão Fantástico” reduz a evolução do homem em arrogância, perversão à sinceridade e prega que somos, senão apenas tentamos, capitães de um navio infinito de possibilidades, amor e compreensão, transformando-nos em entidades que, constantemente, vão sendo fragmentadas e, em última estância, se transformam em esperança. 

#pazamoreempatia

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Copenhagen, 2014

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★★★★

Se existe um formato de filme que me conquista facilmente é, sem dúvida, os indies, principalmente se abordarem um relacionamento – seja de um casal, amigos ou uma catarse individual -, é a oportunidade ideal para se emocionar, sorrir e, claro, se divertir.

É o caso de “Copenhagen”, filme dirigido pelo Mark Raso de 2014, que consegue sustentar uma profundidade dramática mas, no mesmo tempo, está muito mais interessado nos seus personagens e na relação que se estabelece entre eles.

A história é centrada no William, de 28 anos, que viaja até Copenhagen com uns amigos e, dentre atividades como: baladas, mulheres e bebidas, ele ainda tem um desejo de encontrar o seu avô ou descobrir um pouco mais sobre ele. No meio do caminho ele encontra a adorável Effy, uma menina com personalidade forte e independente que, apesar de demonstrar muita maturidade e consciência sobre as suas atitudes, só tem 14 anos. Então o filme passa a se desenvolver nesse limite entre amizade, paixão e limitação por conta da diferença da idade, tudo isso enquanto ambos personagens andam de bicicleta pelas ruas maravilhosas e alegres de Copenhagen.

 A história é pautada em diversos clichês que vão desde a surpresa da paixão – afinal, William é do tipo que sai com várias mulheres mas começa a se encantar por apenas uma -, passando pelo problema da diferença de idade entre os dois até chegar no processo de evolução dos personagens através da caminhada pelas ruas afim de chegar ao objetivo, nesse caso, podemos resumir que é um típico road movie.

Mas o que difere esse filme de outros com a mesma temática é, sem dúvida, a super atenção que o diretor dá aos seus personagens, transformando-os em verdadeiros monumentos que, só de aparecer juntos em tela, cria uma sensação de bem estar no espectador- aquele súbito sorrisinho de canto. O relacionamento é desenvolvido com tanta sinceridade e ternura que, por algum momento, esquecemos que se trata de uma diferença de idade de 14 anos, esquecemos também de uma possível polêmica sobre pedofilia que poderia ser ainda mais trabalhada, mas, no final, é fácil perceber que William não vai fazer nada além de se apaixonar platonicamente, com muito respeito e carinho pela menina de 14 anos que o ajudou a crescer.

A fotografia de “Copenhagen” é muito oportuna, envolve os personagens em paisagens românticas, cheio de cores e alegria. Como o trajeto deles é quase sempre feito com bicicleta, conseguimos, ao assistir o filme, nos sentir imersos naquela cidade, como se fossemos os turistas. Aliás, o fato do protagonista ser um turista já é muito identificável, pois contextualiza-o no encantamento pela novidade, desprendendo-o da rotina e demais amarras da sociedade.

Os pontos mais importantes para a estrutura do filme são as atuações da Frederikke Dahl Hansen e do Gethin Anthony. Ambos possuem uma beleza singular, e o carisma deles se transforma em algo crucial para a aceitação da obra que, mesmo com toda a sua simplicidade, consegue encantar até os mais exigentes.

Obs: O filme se encontra atualmente em catálogo na Netflix

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Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer, 2015

Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer ( Cronologia do Acaso )

★★★★

“Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”, premiado em Sundance, caminha em direção oposta a outros filmes feitos para jovens – muitas vezes baseados em livros: ele traz personagens bem identificáveis e naturais.

Apesar de ter gostado de “A Culpa é das Estrelas”, é impossível não perceber que a comunicação que se estabelece entre o casal é de uma maturidade tamanha, isso nem seria absurdo, o problema é quando existe uma relação quase perfeita, no que diz respeito a atitudes e a própria palavra. É tão bem encaixado, tão bem desenvolvido, existe tanta esperança no outro e o outro, por sua vez, nunca decepciona. São exibidos os melhores momentos, as melhores referências, os melhores questionamentos e as melhores escolhas. Parece ser a vitrine do relacionamento “popular” ou “descolado”.

De forma alguma é ruim, muito pelo contrário, é possível os jovens se identificarem, ou até melhor, podem buscar a melhor versão deles mesmos através dos personagens que adquiriram uma intelectualidade e maturidade por estarem a beira da morte. Mas ainda assim me parece forçado. O mesmo acontece com “Crepúsculo”, “Cidade de Papel” etc.

Quando afirmo que “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer” caminha em direção oposta a essa questão, é possível, dada a explicação, entender como uma real forma de se identificar de forma orgânica com os personagens e não somente tentar desesperadamente ser ou sentir aquilo que os amados bonitinhos são ou sentem. O filme dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, que dirige também American Horror Story e Glee, ou seja, entende as expectativas do jovem, começa com a brincadeira do clichê logo em seu título: Me and Earl and the Dying Girl. 

A tradução para o português, ao que parece, resolveu trocar o nome do amigo do protagonista “Earl” por “você”. É uma diferença pequena, nem se compara com outras catástrofes em termos de traduções, mas ainda assim é motivo para refletir. O relacionamento que se estabelece é pano de fundo, um mero detalhe, para evolução de um ser humano e, coincidentemente, esse ser é um jovem. Portanto, existe três elementos chaves para a composição desse rito de passagem: Greg, um jovem que não sabe o que fazer da vida. Earl, seu amigo e extremamente importante para o não isolamento total do protagonista. E, por fim, Rachel, que é uma menina que tem leucemia, que está morrendo e que vai, diferentemente de outros filmes já citados, contribuir com o crescimento de Greg através da própria situação, pessimismo e distância, tudo isso através de uma amizade.

É tão natural ao ponto de nunca tentar deixar a dúvida se existirá um futuro namoro, claro que os mais otimistas pensarão isso, mas o ponto positivo é trabalhar o amor de forma mais abrangente, afinal, a importância de uma pessoa para uma outra nem sempre é traduzida em beijo na boca, abraço e relacionamento em que todos ficam felizes e bem no final. O aprendizado parte justamente do contrário, das experiências, independente da relação que se cria.

Parece, hoje, que temos uma necessidade em achar crucial o relacionamento amoroso. E afirmar em todos os cantos que só assim seremos felizes para sempre. Mas espera! Será mesmo que uma pessoa no final da vida, temendo a morte e pessimista quanto a possibilidade de uma salvação, teria tempo para conhecer um príncipe encantado e se apaixonar? Pode ser, pode acontecer, mas e o outro lado?

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Somos apresentados ao protagonista como um jovem comum. Na escola ele é mais um, o talento do diretor em lidar com o clichê, mais uma vez, é muito eficiente, visto que explora certas técnicas para dizer o “de sempre”, porém, sem precisar de muita explicação. Nas imagens acima, por exemplo, vemos Greg caminhando pelo corredor da sua escola em um plongée e, na primeira vez que encontra Rachel, é apresentado a menina em um contra-plongée, mesmo que a moça represente uma iminente fragilidade, se revela ao espectador como uma figura bem mais segura e confiante que o protagonista e é justamente esse ponto que deverá ser trabalhado ao longo dos 105 minutos de projeção.

Uma das coisas que eu sempre perguntei era como ficariam minhas coisas se eu morresse hoje. Não que eu seja uma pessoa materialista – quem não é um pouco hoje em dia? – mas existem certos objetos que estão atrelados a nossas lembranças mais impactantes, um diário, uma caixinha de cartas, enfim, são diversos elementos materiais que ajudam na composição da nossa história. Sendo assim, me peguei fascinado com a exploração do quarto que existe em “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”. O relacionamento dos personagens/desenvolvimento acontece, basicamente, no quarto da menina, as pelúcias e os seus inúmeros travesseiros representam a sua personalidade, um tanto quanto atenue.

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Greg definitivamente não sabe lidar com a morte, definitivamente não sabe lidar com as pessoas – inclusive chega a teorizar sobre tudo, inclusive as “gostosas”, mostrando mais uma vez a sua vulnerável personalidade – sua amizade com Earl parece ser estruturado a partir da sorte e, principalmente, do cinema. Repleto de citações cinematográficas, afinal, ambos são “cineastas” amadores, esses trabalhos ao longo chegam a acrescentar a trama e, ainda por cima, criar um alívio cômico pois, mesmo que não pareça, estamos falando de um filme profundo.

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No final temos a conclusão da subversão do clichê em relação aos filmes de jovens, com a reflexão: “ela ia dizer aquelas coisas que só aprendemos no final da vida “, no entanto, nessa obra, dentro de suas limitações, ousada, eles simplesmente sentem o silêncio juntos, como verdadeiros amigos onde, em uma simbiose, entendem que nenhuma palavra que seja pronunciada aliviará a dor de estar prestes a morrer. E, para você que pensa que esse último parágrafo contém spoiler, te provoco perguntando: será possível uma pessoa morrer enquanto vive dia após dia?

A única coisa que afirmo, para finalizar, é: na minha morte, eu adoraria estar assistindo um filme.

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Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Mente que brilha eternamente

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A cena inicial de Brilho Eterno não poderia ser melhor. Joel, nosso herói, acorda em seu quarto e se prepara para ir ao trabalho.

“Pensamentos avulsos para o dia dos namorados, 2004. Hoje é um dia inventado pelos fabricantes de cartões para fazerem as pessoas se sentirem como bostas…”

Sem um motivo óbvio, aparentemente, ele segue outro rumo no seu dia, que outrora seria apenas mais um.

“Não sei por que, não sou uma pessoa impulsiva…”

Eu, pessoalmente, não acredito que exista uma pessoa que não seja impulsiva pelo menos uma vez. Às vezes, dependendo do que, claro, precisamos seguir nosso coração e deixar a razão de lado. Só assim estaremos aptos a refletir sobre nossas decisões e aprender a aproveitar o momento. Perceba, por exemplo, que assistindo um filme, mesmo que seja um bem bobo, o momento que você está passando dita a sua identificação com os personagens e seus respectivos objetivos. Ou seja, o cinema tem o poder de trazer sentimentos guardados pelo simples fato de ser sincero e, nesse ponto, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é perfeito.

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Os dois protagonistas, Clementine e Joel representam o oposto. E é fascinante perceber que até mesmo os atores exemplificam isso: Kate Winslet sempre interpretou mulheres ricas e comportadas. Já o querido Jim Carrey, não precisa nem falar não é?

O que temos aqui é, essencialmente, o oposto. E já que o filme se passa pela visão/memória do Joel, pode ser que nem todas as imperfeições de Clementine sejam verdadeiras, talvez ele só esteja distorcendo as suas perfeições. Mais realista e sincero que isso é impossível. Essa ideia central é muito identificável, seja para um idoso e toda sua experiência ou até mesmo jovens e seus primeiros contatos com a paixão.

Buscamos a igualdade quando, o que nos move, é a diferença. A base de uma relação é exatamente a troca. Como trocar o que já se tem? Teimamos em acreditar que a igualdade é fruto de uma boa escolha quando, na verdade, ser igual é respeitar a visão do outro, independente se concorda ou não.

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Qualquer pessoa que passou por esse mundo teve contato com essas questões, e, quando penso nisso, fico emocionado com a coragem dos criadores – Seja o roteirista Charlie Kaufman ou o diretor Michel Gondry – em unir isso a uma linguagem e visual da cultura pop. Por exemplo, o que mais vejo na internet é pessoas falando sobre a cor do cabelo da personagem, que captura os sentimentos vividos em cada momento. Pela quantidade de gente que destaca esse ponto, porque ouviu em outro lugar ou não, é possível perceber como a essa difícil mensagem é facilmente transmitida para essa nova geração.

Somos filhos do audiovisual, internet, da cor, do pop e da tecnologia como um todo. Nosso interesse não é mais no classicismo, queremos viver mais em menos tempo, sentir mais de uma forma mais rápida. Algumas linguagens se tornaram inacessíveis. Autores, antes aclamados, hoje são chamados de vovôs. E você que reclama do “alienamento” dos jovens perante a uma programação que, a seu ver, é de baixa categoria, saiba que você também já esteve alheio em alguma fase da sua vida. A grande questão não é mudar, isso é inevitável. A questão é estar preparado para mudança. A arte surge com uma importância gigantesca – como sempre foi – para transmitir mensagens de outra época, mas, com um visual descolado, personagens em meio a correria do dia a dia, solitários, se questionando e questionando o amor que tem ou falta, cria-se uma mensagem atemporal que dialoga muito bem com essa nova geração.

Fico boquiaberto com a construção por meio de nuances dos personagens. Joel vai para Moultalk – sentindo o vento – e, em certo momento, sentado em uma lanchonete vê uma mulher estranha de cabelo azul. Ele olha timidamente para ela e, quando percebe que ela retribui o olhar, ele abaixa rápido a cabeça e se esconde atrás do seu diário, onde desenha seus momentos e escreve pensamentos aleatórios que, significativamente, representa o seu coração.

“Porque será que me apaixono por qualquer mulher que me dá o mínimo de atenção”?

Agora, pergunto, qual homem tem coragem de dizer que se apaixona facilmente? A verdade é que, muitas vezes, nos apaixonamos platonicamente. Alguém passando na rua, no ponto de ônibus, cinema ou praça, vivemos rodeados de pessoas e, quando estamos sozinhos, nos questionamos sobre a ausência de alguém, mas como pode? Se estamos rodeados de pessoas, porque não conhecemos ninguém?

Simplesmente porque não temos tempo. Estamos preocupados com a conta, estudos, trabalhos, compras etc. Nem ao menos somos capazes de olhar para o lado hoje em dia. Seguimos de cabeça erguida e caminhando apressadamente sem notar que tudo esta acontecendo do nosso lado. Todos estão do nosso lado. Mas, infelizmente, o que realmente queríamos gritar para o mundo, nós escrevemos em nossos corações. Resta-nos olhar, olhares somente…

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Raramente, na história do cinema, foram criados personagens/ideias com tanto carinho. Percebam que cada roupa e objeto tem uma importância enorme para a trama. Por exemplo, quando Clementine está dormindo no carro e pergunta para Joel se ela pode dormir na casa dele, ela vai pegar sua escova de dente,e esse é exatamente o fim do começo e começo do fim. Mas, claro, o processo todo do esquecimento é baseado em uma série de objetos que situam ambos em momentos bem simples, mas extremamente importantes.

“Vou me casar com você. Sei disso.”

O esquecimento, como visto no filme, é simbolicamente a nossa mania de querer superar as pessoas. Poucas coisas doem tanto como a separação. Mas lidamos com ela de uma forma errada, ou melhor, precipitada. Vemos esse momento como a hora de superar, passar por cima ou até mesmo esquecer. Mas se uma pessoa entra em nossa vida, algumas por tanto tempo, não podemos simplesmente esquecê-las. Temos que, mais uma vez, aprender a lidar com a ausência. Momentos, discussões, sexo, carinho, olhares, sorrisos, beijos… Tudo o que se passa junto deve ser imortalizado. O fim é uma questão de tempo, e tempo para cada pessoa é diferente. A vida a dois é construída pela aceitação do tempo do outro, mas, mesmo assim, às vezes, não conseguimos entender o nosso próprio. No fim, separação é não estar bem consigo mesmo.

“Srta. Kruczynski não estava feliz e queria seguir em frente. Nós oferecemos essa possibilidade.”

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A mente que brilha eternamente é aquela que vive. Que se atreve. Que se doa e aproveita. Temos pouco tempo nesse grande palco da vida para apresentar nossos sentimentos de uma forma clara e, principalmente, ajudar alguém a compreender os seus. Enxergamos o próximo como meu, quando nem ele é dele. Precisamos parar de exigir a igualdade, para que assim possamos desfrutar a diferença.

Cuidamos para crescer. Amamos para sermos amados. Vivemos para sorrir. Momentos passam rápido, seja ele ousado (como deitar em um rio congelado), romântico ou aventureiro, mas, o que verdadeiramente importa, será eterno. Assim deve ser.

“Feliz é o destino da inocente vestal, esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, onde toda prece é ouvida, toda graça de alcança.”

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– Joel, eu sou feia?

– Quando criança, eu me achava feia. Às vezes acho que as pessoas não entendem a solidão de ser criança. Como se você não fosse importante. Eu tinha 8 anos e tinha brinquedos. Essas bonecas. A minha preferida era uma boneca feia que eu chamava de Clementine. E eu gritava para ela:

– Não pode ser feia! Seja bonita! … Estranho. Como se, caso eu pudesse transforma-la, eu também mudaria, magicamente.

– Você é linda – Disse Joel olhando nos olhos de Clementine. Em uma mistura de carinho, sinceridade e desespero.

– Joaly, nunca me deixe.

– Você é linda.

– Por favor, deixe-me guardar só está lembrança, só está! – Ele gritou.

“Abençoado os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos”

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CdA #39 – Entrevista com Sandro Macena

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Depois de 38 episódios filosofando sobre a vida, discutindo sobre vários temas da sociedade… hoje, paramos tudo e falamos de quem nós somos. Nós que produzimos esse podcast com tanto carinho, falando sobre cinema alternativo, ser humano e todos os seus demônios.

Começamos nessa semana com uma entrevista feita pelo Emerson Teixeira com o nerd-sorridente-hipster-alternativo-melancólico-estranho e que mora em um lugar perdido chamado Sepetiba: Sandro Macena.

Vocês que nos escuta há dois anos – mesmo que sem tanta periodicidade – irá descobrir mais sobre os criadores desse projeto [Cronologia do Acaso]. Na próxima semana tem uma entrevista com o Emerson Teixeira, fiquem de olho!

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CdA #017 – Ruby Sparks – A Namorada Perfeita

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Emerson Teixeira e Sandro Macena comentam esse filme indie, repleto de simbolismo, paixão
e obsessão.

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