Amantes Eternos (2013)

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, Inglaterra/França/Grécia/Alemanha, 2013) Direção: Jim Jarmusch

Não consigo mais desassociar os profundos dilemas da imortalidade do livro da Simone de Beauvoir “Todos os Homens são Mortais“, parece que estou fadado a vagar pelas reflexões sobre a eternidade assim como o personagem Fosca. Como todo homem precisa lidar com a sua benção/maldição do conhecimento, sigo interpretando a arte e mensurando as personagens que me são apresentadas e que, direta ou indiretamente, estão relacionados com a praga da infinitude.

Uma obra importante, no que tange a imensidão de possibilidades a serem trabalhados a partir do tema, é Amantes Eternos (2013) dirigido pelo maravilhoso e visionário Jim Jarmusch. Nesse filme em específico, a imortalidade traz consigo dores e cansaço, mas o vampirismo aqui acrescenta ainda mais camadas filosóficas no que diz respeito à natureza perversa do ser humano, bem como a sua busca por conhecimento e cultura.

O tempo que se estende é inconstante e indecifrável, ora o infinito parece uma maravilha da natureza, por vezes essa ideia utópica – mas estreitamente relacionada com diversas crenças – assume a verdade de que se trata, na verdade, de um carma. Afinal, quanto tempo dura a perfeição? O tempo talvez seja o único elemento capaz de transformar o farto em monótono, perfeição em ruína. Com isso, é questão de tempo associar a transformação do indivíduo em vampiro como um acontecimento sublime, contudo esquecemos que existe uma enorme maldição em se distanciar para sempre da pureza, sobretudo aquela que se esconde sob as asas da ignorância.

Os vampiros são seres mitológicos de grande representatividade na cultura popular, por diversas vezes atrelados à elementos sociais e emocionais como poder, desejo, solidão, entre outros, a figura do monstro assumiu e assume diversas máscaras, passando por imagens ameaçadoras ou até mesmo as mais belas aparências. Amantes Eternos (2013) desconstrói da sua maneira isso ao apresentar um protagonista isento de ambição, egocentricidade ou vaidade, sua monstruosidade, há tempos benéfica em relação, principalmente, à intelectualidade, agora o assombra como uma entidade diabólica que teima em lhe mostrar o mundo e sua transformação cultural, a qual definitivamente não aceita gerações de séculos passados.

A história se concentra em dois vampiros hipsters, Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) que permanecem conectados mesmo após séculos juntos, contudo nos tempos atuais a relação de ambos se mantém a distância – com a utilização da internet. Os dois estão visivelmente cansados da sociedade que estão inseridos, o que acaba se agravando quando Adam tem uma crise depressiva. Eve vai até o encontro do amante para confortá-lo, como se sua presença fosse a única coisa capaz de estabelecer o equilíbrio, contudo eles encontram o infortúnio com a chegada da irmã mais nova de Eve chamada Ava (Mia Wasikowska), uma menina agitada e que não consegue controlar a sua sede.

A linguagem é diferente de todos os filmes famosos de vampiro, isso porque a condição não é necessariamente o protagonista do roteiro e sim as consequências dela. Sem dúvida o ponto alto do argumento é ser sincero no questionamento do que aconteceria se pessoas existissem no mundo há tanto tempo e, por ventura, fossem enraizados com as artes através da história. Tanto Adam e Eve presenciaram as transformações artísticas, conheceram grandes nomes durante a Idade Média ou as Grandes Guerras, então qual o sentido e percepção que eles têm a partir do momento em que a existência se tornou fútil e acomodada? A geração que se conforma com o conforto não está pelo mundo, despido, fazendo a diferença, então qual o impacto de algo tão massante para alguém que viu todas as revoltas?

A temática é desenvolvida aos poucos, a técnica está a favor do roteiro e o complementa com perfeição, desde a mise en scène que traz a casa do protagonista desarrumada porém existe uma ordem perfeitamente aceitável e coerente com a sua fragilidade emocional, a sala é repleta de álbuns, há arte em cada cômodo, passando pela trilha sonora que se utiliza de músicas sensacionais, até movimentos de câmeras e ângulos – a apresentação das personagens centrais se dá através de um plongée, evidentemente demonstrando de imediato ao espectador a pequenice delas em relação às suas próprias casas, quiça o mundo. O conflito existencial está presente em todas as cenas, brilhantemente orquestradas e fotografadas, com paletas de cores frias, portanto, melancólicas. A monstruosidade é, de fato, do mundo que se acostumou em não gritar por liberdade, os vampiros se sentem compelidos à participarem da suposta ordem em nome dos bons modos, eles sabem, no fundo, que tudo não passa de meras formalidades ilusórias, por dentro tudo está em plena devastação.

Os diálogos são diretos e a obra nunca se deixa cair no comum, quando começamos a assimilar sua proposta, aparece a personagem da Ava que traz consigo toda a jovialidade e personalidade leviana, ela é medíocre intelectualmente, um verdadeiro contraste profundo com aqueles que consomem e existem por causa do conhecimento. Mia Wasikowska consegue exprimir toda essa desestruturação através de simples movimentos e expressões, inclusive esse trabalho se diferencia dos demais da atriz, que costuma interpretar personagens passivos. Mas o destaque mesmo é da maravilhosa Tilda Swinton e Tom Hiddleston, os dois são singulares na demonstração de perdidão, sentimentos que se mesclam e dialogam com a auto-afirmação de segurança, medo, raiva, culminando em uma postura mórbida e suicida. O único fio que os conecta com a existência é justamente a relação amorosa que, incrivelmente, perdura mesmo através do mútuo sufocamento causado pelo acordar.

Amantes Eternos (2013) é uma obra-prima que nos obriga a refletir sobre a mesmice das nossas caminhadas e silêncio. A existência vã que se alimenta de vidas alheias. Beber sangue é como se drogar, uma forma de se ausentar do real, do possível e abraçar o onírico, o paraíso da finitude e da lembrança. Viver pode se tornar um pesadelo quando estamos destinados a sermos os últimos sobreviventes para contar a história.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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