O homem e a busca por aceitação do seu presente

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A Tartaruga VermelhaThe Red Turtle, Holanda/Japão, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit

★★★★★

A tartaruga é um animal muito complexo, exala sabedoria e conecta todos os outros seres, de uma forma ou de outra. Se pensarmos, sua carapaça traz a ideia de abrigo ou lar, suas patas sustentam esse universo, demonstrando força e segurança. Portanto, a tartaruga representa o conforto pois, simbolicamente, se trata próprio mundo. É como se fosse a representação do titã Atlas na terra, amaldiçoado/abençoado por Zeus a carregar o mundo nas costas.

Partindo desse pressuposto, é válido mencionar o poder da animação A Tartaruga Vermelha em estabelecer pontes entre o espectador e sentimentos extremamente profundos através de um visual estarrecedor e trilha sonora encantadora. Inclusive a ponte mencionada é exibida em dado momento no filme, em um sonho, onde o personagem principal – nunca é mencionado o seu nome, afinal, o longa não têm diálogos – imagina uma ponte suspensa em cima do mar que conecta a ilha que ele está enclausurado com o horizonte.

A história é básica, porém os seus desdobramentos não são nada comuns: um homem perdido em uma ilha luta para conseguir escapar, criando uma balsa. No entanto, sempre que a coloca no mar e tenta fugir – se enche de esperanças – uma tartaruga vermelha impede a sua partida, destruindo a sua balsa.

A experiência de oitenta minutos possibilita algumas reflexões impactantes no que diz respeito ao homem moderno. Percebendo as nuances do personagem principal, o Homem, cabe ressaltar os seus movimentos cautelosos afim de conhecer a ilha, o pequeno carinho com os caranguejos que o cercavam constantemente e a sua indiferença para com a natureza. Enquanto conhece a ilha, o espectador sente, através do visual espetacularmente poético, que o lugar é um paraíso natural, mas esse entendimento se esvai com o desespero do protagonista.

A fuga é sempre o motivo da existência. O homem moderno vive o hoje pensando em como suas atitudes afetarão o amanhã. Existe um desdém em relação ao que se faz, conhece e sente no presente. O trabalho e estudo são provas disso: trabalha-se para ter dinheiro no final do mês e faz o melhor para ser promovido quando só alguém, que não você, sabe; estuda para ser alguém na vida – não necessariamente alguém que você gostaria – e aprende para tirar notas; mas, afinal, e o hoje? quem somos durante esse processo de pensar o amanhã?

O Homem da animação se perde e a fuga é uma necessidade óbvia, mas a velocidade dos seus movimentos impedem o equilíbrio, a sustentação do seu universo. A pergunta deveria ser, na sua essência, voltar para onde?

A tartaruga, como explicado acima, representa a sabedoria e a natureza, trava as ambições do Homem e o acompanha em direção à catarse emocional e desprendimento, principalmente através da aceitação. Há ainda, no filme, um excelente alerta sobre a péssima postura do homem frente aos animais.

Quando o Homem mata a tartaruga – curiosamente o faz virando-a de cabeça para baixo, ou seja, invertendo o seu mundo – pula em cima dela como um sinal de superioridade, pobre rapaz, subjugando a natureza. O animal se transforma em uma mulher que, evidentemente, remete a cor vermelha e resume-se como o próprio sentimento de amor. Mas há uma segunda mensagem que está extremamente relacionada com a arrogância do homem em maltratar os animais, privando-os de sentimentos, classificando-os como acessórios.

A Tartaruga Vermelha possui uma ousadia estética e direção maravilhosa do Michael Dudok de Wit. A produção, que é feita em parceria com o Studio Ghibli, ganha bastante qualidade com esse intercâmbio, visto que o nome Ghibli está vinculado eternamente com a sensibilidade. A animação referencia as transformações do homem em direção a aceitação do seu presente, mesmo que a força para enfrentar o dia seguinte seja construída através da ilusão, existe um milagre em estar vivo e, principalmente, em sincronia com o meio.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Nada Pessoal, 2009 – O caminho do silêncio e solidão

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★★★★

A diretora polonesa Urszula Antoniak não tem um trabalho fácil. Essa dificuldade diz respeito à maneira brusca que a realizadora desenvolve os seus personagens, sempre de modo a exaltar algum tipo de falha. Essa metáfora pode ser melhor percebida nas conclusões de suas obras, como se os movimentos silenciosos das personagens fossem, na verdade, todos em direção a um mesmo fim trágico, um mártires.

Em “Code Blue”, de 2011, a diretora parece querer brincar, por vezes, de ser Haneke e consegue tão bem quanto. Já em “Nada Pessoal”, um dos seus primeiros trabalhos mais conhecidos, ela opta por ser feminista ao extremo e, ainda assim, provocar o espectador com uma infinidade de silêncios e uma personagem que está completamente livre, até mesmo para se contradizer.

O filme holandês conta a história de uma jovem, Anne – contudo nunca há destaque para o nome da garota, como se a sua identidade fosse uma maldição e inútil – que após uma separação, decide cair na estrada atrás de reflexão e silêncio.

Esse é o típico filme que amantes da cultura hippie amam. Pois apresenta uma mulher, solitária, caminhando por ruas maravilhosas e se confundindo por diversas vezes com a paisagem maravilhosa, como se ela própria fosse a natureza. O filme começa dessa forma, ressaltando o meio e lidando com a protagonista de forma curiosa, as filmagens, por diversas vezes acompanhando a personagem caminhando, dá a sensação de que ela deixa algo de si para trás a cada trecho andado.

No mesmo tempo que há uma clara alusão a mesclagem do indivíduo com o redor que o envolve, nos primeiros minutos ainda temos uma lembrança de que o mundo é hostil – em uma cena onde Anne pega uma carona em um caminhão e se sente pressionada a fazer sexo com o motorista em troca de ajuda, a garota pula do caminhão e continua a andar, como se nada tivesse acontecido.

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A solidão e isolamento sempre nos trás a ideia de fragilidade. Quando Anne está pegando uma comida do lixo, ainda em constante silêncio, uma família comendo sanduíches ao lado pergunta para a moça se ela precisa de ajuda, sem entender ela responde que não e ainda retribui a mesma pergunta. Como se para ela o fato de estar na rua fosse normal e não a inferiorizasse de forma alguma, ela pode ajudar tanto quanto poderia ser ajudada, pois tem a mesma força, apesar de não ter um lar.

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A fotografia dá um tom elegante para a trama, pois se conecta com perfeição com os objetivos da diretora que, por sua vez, consegue extrair o máximo da atriz Lotte Verbeek. É questão de tempo perceber que em diversas cenas a personagem aparece centralizada no quadro, desde quando está olhando um lugar fantástico até sentada em um banco, encostada na parede. O espectador não sabe ao certo os seus motivos, mas entende perfeitamente que o mundo é o seu palco, mesmo que ela própria ainda desconheça as suas reais intenções.

O maior mérito do longa é lidar com uma personagem sem objetivos, senão, se perder. Teremos então uma série de referências, como por exemplo a música. Em dado momento crucial, a personagem ouve Patsy Cline, ao som de “Crazy”. Ficando óbvio esse mergulho no isolamento, mas é evidente que se perder dessa forma, nos dias atuais, é loucura. Até porque somos dependentes das relações humanas e não à toa entra um segundo personagem que lhe dará abrigo: Martin. Interpretado por Stephen Rea, Martin mora em uma casa escondida no meio do nada e se sente atraído, de imediato, por Anne, e oferece a menina uma oportunidade de emprego na sua casa em troca de comida.

No começo, ela tenta resistir as emoções, mas é questão de tempo para se deixar levar, indo de desencontro com o que estava deixando para trás e vivendo com um parceiro – apesar de que qualquer interesse romântico ou sexual é deixado nas entrelinhas, com exceção de um momento que ela se despe e Martin fala que não quer nada e complementa brilhantemente: “O talento é saber quando parar” – fazendo uma referência à própria Anne, que parece aceitar que precisa parar de andar e se estabelecer em um lugar novamente, como uma segunda chance.

A conclusão do filme chama a atenção e trás consigo uma cena maravilhosa, que inclusive virou a capa da obra. A fotografia clara remete a ideia de paraíso, quando a protagonista aceita que precisa parar de tentar lutar contra os sentimentos e, no mesmo tempo, se recusa a aceitar que a perda é algo comum.

É uma obra de ritmo diferente mas que é perfeito em desmistificar alguns símbolos sobre a solidão, relação e silêncio.

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Filmes alternativos sobre a relação pai e filho

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Enfim, os dias dos pais. Pessoalmente eu invejo muito aqueles que fazem um belo almoço, dão presentes, abraçam e beijam os seus pais nesse dia ou em qualquer dia do ano. Essa presença tão importante permanece, há bastante tempo, inexistente na minha vida.

Mas essa postagem não é para lamentações, até porque não fico triste, pois, a vida nos recompensa de diversas formas, pai não é aquele que nos colocou no mundo, não é somente homem. Existem mães que batalham dia a dia para dar o melhor aos filhos, existem amigos que protegem em qualquer circunstância, existem pessoas que nem sabemos o nome, mas que estão aqui ou lá, presentes nos nossos corações.

Não existe um dia específico, uma data do ano é muito pouco para tamanha importância. Mas beije, abrace, diga um lindo e feliz “eu te amo” ao seu pai. Se você está lendo isso, dê uma pausa, procure se entregar mais, não hoje, nem amanhã, mas sempre.

Se o seu caso é como o meu, não se lamente, comente o quanto a vida é legal por deixar você enxergar o outro lado. Ame, independente de classificações.

Bem, vamos lá: essa postagem é para recomendar alguns filmes que possuam alguma relação com esse tema ou simplesmente tenham um personagem pai que por algum motivo chamou a minha atenção.

A Música Nunca Parou, 2011 

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Me emociona só de lembrar. Existe uma relação, inicialmente, do filho com a música o que acaba, por consequência, criando um conflito com o pai. É uma metáfora interessante, pois um gosta de Rock, aquele que mesclava – impulsionava – o movimento hippie e o outro aprecia um bom clássico.

Quando o filho começa a lidar com o esquecimento, a única coisa que liga os dois é exatamente a música, o pai faz da arte a sua respiração, o seu recomeço.

A Lula e a Baleia, 2005

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Como a ideia é tentar resgatar da memória vários caminhos do mesmo tema, nesse longa dirigido pelo Noah Baumbach, temos o exemplo claro de um personagem ( pai ) fragilizado diante ao processo de mudança, no caso, da separação com a esposa. Interpretado maravilhosamente pelo Jeff Daniels, há ainda uma relação curiosa com o filho, que o segue e, inclusive, o imita. De forma a estabelecer algumas dicas em relação a psicologia daquele convívio familiar, onde o pai impõe os seus gostos e a sua cultura.

Sempre Estarei Contigo, 2012

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Temos aqui um pai, do tipo herói, já idoso ele pode se orgulhar de ter todos os filhos criados e, ainda mais, ter ajudado os netos a terem suas próprias terras. Um ser humano com a vida completa(?). Resta a esse senhor, perceber que precisa, finalmente, de mais tempo com a sua esposa, mas a sua vontade de sempre estar construindo algo o leva cada vez mais a pensar em outras possibilidades.

Tangerines, 2013

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Representante da Estônia no Oscar de melhor filme estrangeiro, acabou perdendo para “Ida”. Aqui temos a figura paterna da proteção, seja dos personagens que estão em guerra que aparece e o cuidado que existe ali ou a proteção de uma lembrança.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/01/tangerines-2013.html

A Busca, 2013

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Esse filme mexeu tanto comigo que escrevi sobre ele chorando. Uma perfeita simbologia ao ato de buscar aquilo que se perdeu, seja diante as próprias atitudes ou pelo tempo. As pessoas crescem, buscam liberdade, constroem suas próprias famílias, se vão, a busca se torna, consecutivamente, ir em frente.

Cítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/07/a-busca.html

É Tudo Tão Calmo, 2013

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Esse filme da Holanda, silencioso e contemplativo ao nível máximo, é bem particular. Bem como é restrito, é complicado digerir perfeitamente, é preciso calma, assim como a própria tradução sugere. Aqui temos o exemplo do “cuidado”, um filho cuidando do seu pai e lidando com a verdade de que a morte se aproxima, no mesmo tempo que ele é triste por isso, existe ainda o cansaço.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, 2007

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Esse é talvez o filme mais conhecido da lista. Ele mora no meu coração pois me encantou em diversos pontos, desde ser uma comédia romântica perfeita, passando pelas atuações gostosas do querido Steve Carell e a diva Juliette Binoche até chegar a profundidade.

Temos um viúvo, que tem problemas para reconstruir a sua vida, até por ser um pai muito dedicado. E, em uma confraternização em família, ele se apaixona pela namorada do irmão, mas, mais do que isso, aprende a valorizar os seus próprios interesses e percebe com perfeição que, para ser um bom pai, é preciso, também, estar completo e, para isso, precisa ter uma vida.

A Outra Família, 2011

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Esse filme mexicano me agradou bastante. Uma criança foi abandonada por uma usuária de crack e foi adotada temporariamente por um casal gay. Existe uma polêmica presa somente nessa sinopse, mas o filme não é um melodrama, pelo contrário, muito consciente e respeitoso. O que é, de fato, uma família?

Alamar, 2010

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Outro representante do México, esse beira um documentário. Uma criança é dividida entre dois mundo após a separação dos seus pais. A mãe é uma Italiana, vive no mundo da cidade grande, prédios e modernidade, enquanto o seu pai é de origem Maia, leva uma vida que beira a primitividade, cercado pela natureza, vive de pesca, mergulhos, liberdade.

Acompanhamos o filho na natureza, a admiração está o rodeando o tempo todo, mesmo que nenhuma palavra seja dita. O filho admira o seu pai, por esse saber conviver com naturalidade tamanha com a sua própria simplicidade.

A Criança, 2005

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O que mais me agrada na filmografia dos irmãos Dardenne é a capacidade que eles tem em retratar essa relação de pais e filhos de uma forma inexplicavelmente incomunicável. Existe uma parede entre o espectador e a realidade apresentada, uma distância cruel, um desejo de tentar compreender os personagens, por vezes, vazios.

 “A Criança” tem como protagonistas dois jovens delinquentes, que acabaram de ter um bebê. Eles não sabem o que vão fazer da vida e a criança sofre com essa imaturidade ou falta de objetivo. Uma existência sem significado, uma nova vida fadada ao abandono.

Jérémie Renier e Déborah François estão surpreendentes.

Tudo que Quiseres, 2010

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Filme Espanhol, que navega por entre uma relação de pai e filha, onde ambos acabam de perder a mãe/esposa. O pai então, para acalmar o coração da menina, começa a se vestir como a mulher.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/03/todo-lo-que-tu-quieras-2010.html

Caos Calmo, 2008

Está confirmado! Se eu tenho um pai no cinema, ele se chama: Nanni Moretti. Esse ator/diretor, esse filme, foi muito impactante para mim, em um momento que estava muito carente. Aliás, um outro filme do Moretti – que ele atua e dirige – chamado “O Quarto do Filho” de 2001 também poderia estar facilmente nessa lista.

A mãe/mulher também morre e o pai, vendo que sua filha está diferente, resolve sentar em uma praça, de frente a escola, todos os dias. Ou seja, ele leva a sua filha na escola e, depois, ao invés de ir trabalhar/viver, fica lá sentado até a menina sair.

É de um amor, é de uma sensibilidade que só assistindo. Para morrer de chorar e se encantar com tamanha beleza.

emersontlima

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